domingo, 8 de outubro de 2017

Leituras e reflexões: Estrelas além do tempo

Nestes tempos de tanta patrulha ideológica, ganhei de Mahria um surpreendente livro como presente de aniversário. Entrou na linha fila de livros a ler - e olhe que ela está bem crescida, pois com alguns compromissos que assumi, o tempo fica curto - mas confesso que a curiosidade venceu e a obra de Margot Lee Shetterly pulou por cima de uma série de outros títulos e veio para a ponta da fila. Esse livro foi conosco nas nossas malas para a Europa em Julho, e em muitas paradas e esperas (não leio dentro de veículos, pois fico tonta), foi uma fiel companhia. Coincidentemente, tanto na ida quanto na volta estava passando este filme no avião. Vi uns pedaços, com medo de meter spoiler no livro. Mas, não é bem assim: pode parecer clichê, mas o livro é bem diferente do filme. E por mais incrível que pareça, o filme é melhor. Mas a crítica não invalida a importância do resgate desta história incrível de mulheres maravilhosas. Sem dúvida, a autora contribuiu imensamente para o resgate e o registro da contribuição dessas moças para o progresso da humanidade.

Classifico como progresso para a humanidade, não só porque elas trabalharam no programa espacial norte americano. Oriundas do NACA, as jovens computadoras fundaram a NASA, e o que se tem hoje se deve também ao trabalho dessas profissionais. Agora, imaginem o mundo que tínhamos nas décadas de 1940-1950. Qual seria o lugar social das mulheres nesta época? Como a maioria dos homens estavam na guerra, o mercado de trabalho abriu-se para a mão de obra de saias. Quem até então só tinha a oportunidade de lecionar em escolas básicas, teve oportunidade de mostrar seus valores em outros espaços. Nós, mulheres do Século XXI somente permanecemos na luta do mercado de trabalho por causa da ação dessas desbravadoras. E mesmo me arriscando em mais um clichê das empoderadas, imaginemos o que era ser mulher e negra em 1950, período em que a luta pelos direitos civil entrava em efervescência na próspera sociedade norte americana, divulgada através do cinema como modelo para o mundo. Pois bem, já no período final da segunda guerra mundial, algumas mulheres já prestavam serviços ao governo como computadoras. É isso aí: computadoras. As jovens, matemáticas e engenheiras trabalhavam até 15 horas por dia fazendo os cálculos para viabilizar  projetos aeronáuticos. À unha ou com imensas e rudimentares calculadoras, elas faziam as "contas" e revisavam resultados dos físico e engenheiros cujos projetos eram batizados com seus nomes. Pois, ao final da segunda guerra mundial, mais da metade dessa força de trabalho era constituído por mulheres negras. Além do trabalho puxado, realizado em ambiente segregado, elas tinham suas casas, suas famílias, participavam das ações de suas Igrejas. A fantástica Katherine Globe, que perdeu o marido muito cedo, ainda cuidava sozinha de três filhas, até arranjar um novo parceiro. Eram mulheres fantásticas, que não temiam mudar de cidade, sozinhas, em busca de novas e melhores oportunidades de trabalho. 

Nesses tempos em que o mundo parece-me que está ao contrário, e que já começam a questionar acerca da condição feminina na sociedade, reavivando um discurso machista, fruto de um pensamento limitado, um livro como esse é fundamental para não deixar esquecer que cada pessoa tem o seu valor, independente de gênero ou de etnia. Nós vivemos num país onde, teoricamente, não existe racismo, no entanto, a cada dia temos conhecimento de ações discriminatórias que não se parecem nada com uma sociedade igualitária. É nosso dever educar nossos filhos para que se oponham a qualquer forma de discriminação, contribuindo para quebrar o ciclo de exclusão historicamente construído contra os negros, as mulheres, e mais ainda, contra as mulheres negras. 

É uma leitura agradável e instrutiva, baseada num excelente trabalho de pesquisa. para que tenham ideia, nas páginas 289-342 consta de uma imensa lista de referências a documentos oficiais e obras diversas para fundamentar, tanto a história da contribuição das computadoras, como para desenhar a sociedade norte americana, com bastante fidelidade. Só me perdi um pouco na leitura quando a autora se jogava nas explicações acerca dos tuneis de vento para teste dos aviões. É tanta explicação baseada na física e na matemática, que eu acabava perdendo o fio da meada. Me interessou mais saber como as pessoas viviam do que o que elas calculavam. Para mim, já chega o "dois mais dois". Se sofisticar muito na soma, peço ajuda aos universitários.

Fiquem com  Deus.     

domingo, 1 de outubro de 2017

"Estudanta"


Pronto, então parece que finalmente, no início de Outubro, começa a primavera nos lados de cá. depois das chuvas, é sempre bom prestar atenção no caminho, pois os pássaros estão voltando. E no nosso trajeto casa-escola-casa, como ainda há umas áreas com pequenas chácaras lá por trás do IBN, sempre avistamos pássaros bem bonitos: bem-te-vis, anuns, lavandeiras, garrichas e um pássaro azul e preto, que não sei o nome. Infelizmente, na área da nossa casa quem mandam são os pardais. Eles só perderam a majestade quando uma família de gaviões fez um ninho numa árvore do quintal da vizinha da frente. Deram para mundo o mundo e só voltaram quando os gaviões se mudaram. Acho que os bebês cresceram e foram cantar noutra freguesia. O tempo passa para todos.

Nessa brincadeira, andei fazendo umas contas: não é que a minha graduação em Geografia completa 21 anos em 2017? Alcançando a maioridade, imagino o quanto a ciência do espaço mudou em duas décadas. Hoje em dia, as coisas são muito rápidas, embora tenhamos que ter paciência para que algumas inovações tecnológicas cheguem em nosso cotidiano. Outro dia, o Prof. Otto Benar partilhou no Facebook este filme do Amazon Go:
  

Fiquei tão impressionada com esse sistema! tão tecnológico, tão independente, e tão responsável. Depois, Mahria partilhou-me também, e ainda ontem mandou-me um vídeo semelhante, de um empresa oriental. Ontem, Gustavo mandou esse video da Amazon para o grupo Imprensa AESGA, quando discutíamos o trabalho na pós-modernidade. Pelo que vemos, a cada dia que passa, as tecnologias podem mudar o nosso dia-a-dia, facilitando tarefas repetitivas em enfadonhas.  O mercado de trabalho é dinâmico e também reflete essas mudanças. Há inúmeros casos de trabalhadores que perdem seus postos de trabalho por conta da evolução tecnológica. Eu mesma já passei por isso! talvez vocês não saibam, mas o meu primeiro emprego foi numa Rádio. Trabalhei por dois anos na Rádio Marano, em Garanhuns. Na minha carteira de trabalho consta o registro de "auxiliar de escritório" (mais genérico, impossível). Passava minhas oito horas diárias atendendo telefones e anotando as mensagens dos apaixonados do Rádio Toque. Ô coisinha brega! Mas, na época, início dos anos 1990, era um sucesso na cidade e na região. Também era responsável por datilografar as programações. Ronaldo selecionava as músicas em blocos de cinco (geralmente quatro nacionais e uma internacional), em um monte de disco de vinil, e eu datilografava a "playlist" em duas vias: uma ia para o estúdio e a outra ficava na pasta para a inspeção do ECAD (Direitos Autorais).  Pois bem, vejam as rádios hoje: tudo informatizado, programação digital, mensagens via waths app. Certamente não existe mais a telefonista nem a moça que "batia" a programação. O tempo passa e as coisas mudam.

Pois bem, durante sete anos fiz as provas de Geografia do Vestibular da AESGA. Ao todo, foram 14 provas, e obtive até um bom resultado: das 140 questões inéditas, forjadas no meu juízo (assava até uma semana pensando nas questões e uma semana construindo-as, um trabalho minucioso), apenas uma questão foi anulada por erro meu. Contudo, as coisas mudaram e as provas tipo ENEM tornaram-se o modelo a ser seguido, e vamos considerar que é bem complicado ser multidisciplinar quando o sistema insiste em ser disciplinar. Então, chegou um momento que já estava me repetindo e pedi baixa da função: a última prova parecia um dinossauro falando.

Voltei inquieta do 6º Congresso Íbero Americano de Análise Qualitativa. Ouvi muito sobre educação e decidi experimentar uma coisa nova. Quem tal enfrentar um curso em EaD para, como cliente conhecer melhor antes de criticar? Decidi por um curso de Licenciatura em Pedagogia, ofertado no modelo semi-presencial pela UNOPAR, cujo polo de Garanhuns é administrado por professores amigos. No dia 27 de agosto, num domingo de manhã, Tony me deixou no prédio da antiga Bhrama, onde atualmente funciona a Universidade. Esperamos um bocado na guarita da frente, até que nos liberaram para entrar no prédio, éramos uns 70 candidatos para os mais diversos cursos. Fizemos uma redação e aguardamos o resultado através do portal da instituição. No dia 30.08 avisaram aos aprovados e daí, ao processo de matrícula. Tive que contar com a eficiência de Ivania, da Secretaria de Educação para encontrar a minha ficha 19, pois fiz o nível médio (no tempo eram "Estudos Gerais") no Colégio Municipal Padre Agobar Valença, que já é extinto. 

As aulas começaram no dia 14 de setembro no 1º período Flex, pois o grupo em que entrei já está no segundo semestre. Vou lá toda quinta-feira, onde temos um primeiro momento com o professor (gravado) e o segundo momento com a tutora local, uma garota bem novinha, de voz aguda. A sala tem mais de 50 alunas e, se não me engano, apenas três caras. A maioria do pessoal vem das cidades vizinhas em ônibus escolares financiados pelo FNDE. O material na plataforma é muito bom: vemos os vídeos, lemos os textos, fazemos as atividades online e vemos essas aulas.   Na última quinta-feira foi a prova de Políticas Públicas da Educação, e as minhas colegas (que me desculpem os caras, mas as meninas são maioria) estavam mais barulhentas do que sempre. Fico quieta no meu canto, observando as figuras, aprendendo e apreendendo a situação. Até agora, me sinto meio como Perry, o Ornitorrinco, meio agente secreto, disfarçada de "estudanta", torcendo para que minha formação avançada não seja um obstáculo à convivência.

Então, voltei aos bancos escolares.   Na Faculdade, disse a Profa. Rosa Antunes da minha nova condição. Ela, pedagoga da velha guarda, aposentada da UPE, com 50 anos de educação, ficou tão satisfeita que, no outro dia, forçou o filho a abrir os baús e trazer de casa esses livros para me ajudar, que já estão devidamente acomodados na minha estante: 



Fiquei muito feliz, pois é a minha parte na herança da velha. Ela, que tem me ensinado tanto, confiou-me parte dos livros, e sempre vem conversar sobre temas da pedagogia, às vezes até esquecendo que eu não sou propriamente uma debutante na educação. Vou vivendo um módulo de cada vez e aprendendo coisas novas.Neste último módulo, estudamos as políticas e o financiamento da educação brasileira, e foi muito interessante saber que muito foi idealizado, mas, que ainda há um abismo entre a teoria e a prática. Nesse aspecto, nada mudou. Resta a esperança, pois no grupo, apesar de heterogêneo, há algumas jovens com carinhas de menina, e, não sou eu que irei promover o choque de realidade. Que o cotidiano se encarregue disso, da forma mais suave possível.

Fiquem com Deus. 




domingo, 24 de setembro de 2017

Mundo gay


E em Garanhuns, o inverno prossegue. A primavera este ano parece que vai ter que esperar mais um bocadinho para se instalar. Eu mesma já estou perdendo as esperanças de que amanhã teremos um belo dia de sol. E o pior é ter que bater na boca quando se clama por um pouco de calor, pois nesta região do país sofremos imenso com as secas. Nosso maior problema com chuvas tão prolongadas é o bolor que toma conta das construções. Acredito que não há uma só unidade residencial em Garanhuns que não tenha ao menos uma parede mofada. O jeito é investir no anti-alérgico e ir conduzindo da melhor forma. Ainda não arranjamos uma maneira de controlar o tempo, e, creio que viveremos nossa existência sem criar tecnologia para isso.

Nesta semana, fomos surpreendidos com uma decisão judicial que permite aos colegas psicólogos realizar terapias para "reverter" a homossexualidade. O tema ganhou a rede social, e muita gente se posicionou acerca da temática, repercutindo o assunto como "cura gay". Penso que há, neste cenário, uma série de distorções, mas que em todo caso somente dificulta a vida daqueles que decidem assumir e viver sua vida e ser feliz a seu modo. A ala da Igreja pulou na jugular do cordão multicor e daí, a discussão degringolou para a galhofa, seguindo a tradição a melhor brasileira de ser o país da piada pronta. 

Sobre essa discussão, eu tenho um pensamento já bastante solidificado e acredito que a contenda acerca da sexualidade é uma questão ultrapassada. Percebo que tem gente que nasce gay - quem nunca viu um menininho desmunhecado desde cedo? - e tem gente que se torna gay. Qualquer que seja a condição, trata-se de um percusso pessoal, ao qual não cabe interferências. Até porque, minha gente, que diferença faz na nossa vida o que o outro (esteja ele longe ou perto) faz de sua vida emocional/amorosa/sexual? Há um tempo atrás, quando substituía Eliane na Faculdade de Administração, na disciplina de Sociologia, numa turma sui generis (tinha um padre e um homossexual assumido no mesmo grupo!), discutíamos acerca da diversidade e tolerância, daí, inevitavelmente, a discussão rumou para a questão da homossexualidade. O debate pegou fogo quando o padre e umas moças expuseram a sua repulsa gay. A cada crítica, a cada estocada, percebia que o coleguinha gay se afundava um pouco na cadeira, absolutamente constrangido pelo grupo. A certa altura, interferi e pedi a palavra, perguntando: "Minha gente, eu sou gay. Isso faz alguma diferença para vocês?" A turma ficou muda. O padre foi o primeiro a aliviar: "Não professora, que é isso? Todos são filhos de Deus". Pois então, peguei o sacerdote na palavra: "Se todos os seres humanos são filhos de Deus, então, vamos nos respeitar pela humanidade da qual fazemos parte." E acabou-se a conversa. 

Não, eu não sou gay. Mas respeito a opção de quem é, sobretudo admiro a coragem de assumir ser o que é. No início do século, dei aula no PROGRAPE, um curso especial de pedagogia ofertado aos professores da rede pública que não tinham a formação em nível superior. A maioria esmagadora das turmas eram de mulheres. Em Lajedo, tive uma turma que eram 50 mulheres e um gay. Ele mesmo se apresentava assim, e, para mim, aquele aluno era a resistência na sua essência: numa cidade pequena, um professor da zona rural, assumir-se gay e ser aceito pela comunidade é uma grande vitória. E ninguém pense que é fácil marcar posição, principalmente neste tempos bicudos de tanta regressão nas liberdades individuais.

É certo que atualmente é um pouco mais fácil o sujeito tomar o rumo de sua vida, pois o apelo das mídias é grande. Fico observando lá na escola: a quantidade de meninos novos gays é uma coisa impressionante, e para as meninas heterossexuais é uma concorrência acirrada. Digo meninos, pois, por conta dos trejeitos é mais fácil identificar a eles do que a elas. Já não tenho visto mulher gay brucutu. A maioria das moças continuam moças comuns. É tão comum ser gay, que como diria meu cunhado Carlos "Daqui a uns dias, vão apontar-nos na rua e dizer: 'olha, lá vai um homem. Um besta heterossexual'". 

E vamos vivendo. Quando externo a minha opinião sobre o tema, sempre me questionam acerca da minha filha. E eu devolvo a reflexão inicial: como o tempo, não há tecnologia para controlar a sexualidade. O que desejo é que minha filha cresça e se encontre como pessoa, que respeite a humanidade da qual ela  e nós todos fazemos parte, e trabalhe honestamente, contribuindo para que tenhamos um mundo melhor. Que seja uma pessoa feliz, o que é realmente importante, pois gente feliz não cuida na vida alheia.

Fiquem com Deus. 

domingo, 17 de setembro de 2017

Taxi X Uber


Finalmente, parece que em Garanhuns começou a confusão entre táxis e ubers. Cada um que queria defender a sua parcela do mercado. Para mim, nada pode ser mais saudável que a concorrência, embora os taxistas reclamem que com o Uber a concorrência é desleal. E eles devem ter lá os seus motivos. Cada um tenta defender o seu, e, tenho certeza, apesar de não ser nenhuma especialista, que o mercado de transportes é grande o suficiente para que todos ganhem o seu sustento honestamente.

Em primeira análise, o consumidor sai ganhando porque, com a concorrência, temos mais opções para a prestação de serviços. Nada pode ser mais acachapante ao consumidor do que o monopólio. Temos experiência disso no próprio sistema de transportes públicos de nossa cidade, que há mais tempo do que eu me lembre é dominado por uma única empresa, a do santo. É preciso reconhecer que a do Padre continua operando na linha do Mundaú/João da Mata, mas é uma luta desigual, pois a citada linha é muito reduzida. E quer pagar seus pecados, sem desconto e ainda ficar com direito a uns pecadinhos secundários? pois precise do transporte público no domingo ou feriado. Criamos raízes esperando ônibus para o Mundaú, para o Parque Fênix ou Cohab III. É uma penitência digna de um dos círculos do inferno de Dante. Hoje só uso ônibus eventualmente, mas todas as vezes que preciso, fico pensando naqueles que pagam cinco reais para ir e voltar apenas uma vez por dia, do trabalho para casa. A dependência é cruel. 

Então, com a possibilidade do Uber, a concorrência se acirra e nos dá opções, porque o trânsito já contribui significativamente com sua parcela ao suplício urbano. Trata-se de uma empresa multinacional norte-americana, que opera nas ruas das grandes e médias cidades do mundo inteiro. Criada em 2009, enquadra-se no novo modelo empresarial de empresas "onipresente". Ou seja, é hoje a maior empresa de transporte urbano do mundo, mas que não possui um único carro. O que faz a empresa "rodar" é um aplicativo desenvolvido na Califórnia, que inscreve carros particulares para "caronas remuneradas". Ou seja, o sujeito que tem um carrinho mais arrumadinho se inscreve no app. O consumidor acessa ao app e pede um transporte, com origem e destino bem definidos. O app direciona a solicitação aos motoristas inscritos, e quem está mais próximo, atende a chamada. Um percentual do serviço fica para a empresa e o restante para o motorista. 

O que irrita os taxistas é a ausência de impostos e inscrições a que estes estão sujeitos, além de redução no número de clientes potenciais. É bem verdade que os amigos taxistas (a maior parte deles) precisavam de um choque de realidade para perceberem o quanto precisam melhorar na prestação do serviço. Quem nunca se estressou no trânsito com um taxista apressadinho que atire a primeira pedra. Pode perceber: os danados desconhecem a seta e buzinam desesperadamente quando o sinal mudou para o verde há apenas 3 segundos. Têm direito a estacionamento privilegiado e ainda se dão o direito de não aceitar a corrida, justificando que o destino é perto e não vale a pena sair da "fila" por tão pouco. Isso aconteceu comigo outro dia no Recife: queria ir do Aeroporto ao Shopping Center Recife e nenhum taxista quis me transportar. Tive que ir para a avenida Barão de Sousa Leão e ficar arriscando um táxi que viesse passando pela via. Isso me custou uns bons 15 minutos sob um sol escaldante das 13 horas e sendo alvo móvel para os ladrões. 

Apesar de muitos cometerem falhas na prestação do serviço, há taxistas de que são verdadeiros companheiros de trabalho, embaixadores culturais de seus países, amigos, e até mesmo, anjos. Quando estivemos em Barcelona, ao chegar na estação de trens, tínhamos a opção de ir de metro. Mas, as linhas são tão confusas, e tinha que trocar tanto de estação, que preferi ser rica por um dia e apanhar um táxi. O rapaz que nos atendeu era um jovem de uns 25 anos, magro, alto, de tênis e bermuda. No caminho, ao entrar na Plaza Catalunha, ele já começou a resmungar com o trânsito num espanhol arrastado. Ao entrar na Rambla, um ciclista ia zig-zagueando na nossa frente. Quando emparelhamos, o motorista baixou o vidro, e esculhambou o sujeito em catalão e eu, acompanhei, exclamando: "Estás doido? Quer morrer, peste?!" no mais nordestino português brasileiro, enquanto Luiza dava risada. No destino final, estendi-lhe uma nota de 20 euros para pagar a corrida de 8,50. Com cara súplice, o jovem me perguntou se não tinha "mais pequeno". Fui mexer na minha bolsinha de moedas que Thayze me deu de lembrança de viagem, o moço reconheceu as fitinhas do Senhor do Bonfim, e perguntou, alegre: 

Ele: Is this Bahia?
Eu: Yes, this is Senhor do Bonfim, Bahia.
Ele: I Stayed there  last year! I love Bahia! Do you from Bahia?
Eu: No. We are from Pernambuco, next to Bahia. 

E ficou nosso amigo de infância.      

Outros, se tornam colegas de trabalho. Andamos muito com "Seu" Edvaldo, nos serviços oficiais da Autarquia. Outro dia, fiz parte da banca de qualificação do projeto de mestrado de Virgínia, e lá vai Edvaldo nos levar e me trazer de volta à Garanhuns. São muitas conversas no meio do caminho, mas uma, particularmente me divertiu imenso. O motorista vinha me contando que a filha pequena estava com alguns problemas, e ele, pai atencioso, levou ao Dr. Jurandi, um ícone da pediatria garanhuense. O médico aconselhou-o a arranjar um bichinho de estimação para a garota. Morando em um apartamento, um cão estava fora de cogitação. Como a esposa tem alergia a gatos, a opção foi um coelho, arranjado por um colega de praça. Então, foi uma saga acostumar com o novo morador da casa: o bicho, era pequeno, mas cresceu. Só queria comer couves do Supermercado Bonanza, se o cuidador comprasse a mesma erva na feira, que era mais barato, o coelho fazia greve de fome. Acostumou-se desde cedo a fazer cocô num jornal, e se não tivesse jornal, o peludo ficava entupido por dias. Então, Edvaldo saiu com essa: "Professora, a senhora acredita que eu estou comprando jornal caro para servir de banheiro para o coelho?! Olhe, ninguém merece." Felizmente, a terapia funcionou e a menina ficou boa. Mas, o coelho parece que continua cheio de vontades, pois encontrei Edvaldo na fila do caixa do supermercado com um maço de couves que não tinha tamanho. 

Há taxistas que são anjos, e que quase fazem parte da família. Como agradecer a Seu Cabral, a atenção que ele tinha a Antonio? Um taxista idoso tratando com uma criança autista, e eram melhores amigos. Muitas vezes, Ilma se valeu de Seu Cabral para lidar com o menino. Era um grande ser humano, hoje faz parte da frota de Jesus. E também, morro de orgulho de Márcia, que é a primeira mulher taxista de nossa cidade. Vencendo preconceitos e quebrando barreiras, minha amiga de infância vai mostrando que é possível viver honestamente no volante, on the road para criar as filhas. É uma figura ímpar. 

Entre Táxi e Uber, prefiro os dois. O sol nasce para todos e todo mundo precisa trabalhar para ganhar a vida. E nós, consumidores, estejamos atentos para ter um serviço de transporte cada vez melhor.  

Fiquem com Deus.

domingo, 10 de setembro de 2017

Força na peruca!

Então, estou no ar desde cedo porque Tony foi cumprir a promessa feita ao amigo Sr. Bigode, de leva-lo para conhecer o canal da transposição do São Francisco, na altura de Custódia. Homem de animada conversa e de muitas história "seu" Bigode é uma figura conhecida dos cafés Garanhuenses. Muito bem alinhado, sempre tem um "causo" para contar e, por isso mesmo, não é de se admirar que tenha pegado essa amizade com o meu marido. Coincidências, os dois aniversariam no mesmo dia, e este ano teve até festinha de aniversário, com bolo, salgadinho e refrigerante pelas 16 horas em plena avenida Santo Antonio, na altura da antiga Padaria Suissa, no carrinho de confeito de "seu" Naldinho. Aliás, esse é o point da discussão de futebol na segunda-feira de manhã. Eles têm um grupo de sabichões da bola, a que chamam "bem, amigos". Então, todas as manhã, logo cedo, depois de deixar a menina na escola e a "patroa" (?!) no serviço, Tony batia ponto lá. É, no passado, porque agora, o horário é, prioritariamente para suar na academia.

Pois, acreditem se quiser. Logo no começo, Rita havia pedido uma ajuda através do grupo da Família Ferreira no whats app para buscar D. Nilza e levar ao médico, e eu, disse que naquele horário, Tony estava na academia. Ana Paula já profetizou o fim do mundo, pois ninguém poderia ser mais avesso às marombas e máquinas do que Tony Neto. E eu, não ficava muito atrás. Mas acontece que o tempo passa, e cobra seus tributos. No meu caso, especificamente, já quase infartei subindo a ladeira do SESC, depois de almoçar pirão de peixe (eu só como o pirão e o arroz. O peixe, está dispensado) na Tilápia, na frente do Pau Pombo. Depois, parei duas ou três vezes na "ladeirinha" que dá acesso ao Park Güell, em Barcelona. Por fim, fui à GRE-AM fazer uma consulta acerca de uma documentação. Parei na antiga Rádio Jornal e subi aquele pedacinho do Relógio de Flores e uma pequena rampa que dá acesso ao prédio. Quando cheguei à sala de Márcia Fernanda, ela perguntou se eu queria "uma  aguinha", de tão ofegante que eu estava. Daí, não deu para fazer de conta que não era comigo. Reconheci que preciso descartar o excesso de peso e melhorar a minha resistência física. Meio assustada por conta da idade, marquei uma consulta com o cardiologista, cuja última visita tinha sido realizada há 13 anos atrás. Dr. Célio Cabral, muito sério como sempre, me mediu e me pesou, olhou-me bem e perguntou: você sempre teve esse peso? Diante da resposta negativa, declarou: "seu problema é sedentarismo. Saia daqui e vá se inscrever numa academia. O que você precisa é de uma boa dieta (enquanto preenchia uma guia da UNIMED encaminhando a um nutricionista) e de atividade física. Arranje tempo, pois só quem pode fazer isso por você é você mesma".

Ai, lascou. Eu, que estava com aquela conversa de mulher moderna, "vou fazer isso para mim, já que só vivo fazendo as coisas pelos outros", cai na real de bunda no chão. Como Tony já havia falado algumas vezes que precisava fazer uma atividade física contínua já que o futebol de final de semana é mais perigoso do que a total ausência de exercícios, peguei o bicho na palavra e fomos a academia que fica atrás da Faculdade. Fizemos um contrato de três meses, devidamente pagos no cartão de crédito para não dá chance de desistir durante o contrato de experiência. Incluímos Luiza, que também não foge a regra da preguiça crônica para as esteiras e bicicletas. Então, há um mês, estamos frequentando um novo grupo social.

Os primeiros dias são difíceis, mas com o passar das semanas, vai acostumando. A nossa professora nos prescreveu duas rotinas de exercícios, alternando pernas/costas e braços/abdomem. Na avaliação física, pasmem: de nós três, a melhor dos piores fui eu, porque tenho um pouco mais de flexibilidade e consegui fazer 10 abdominais. Talvez isso seja memória física dos tempos em que eu era sparring no judô, aliado aos afazeres domésticos que, de qualquer forma, mexe com a musculatura. Então, de segunda a quinta-feira pela manhã, deixamos Luiza na escola e vamos à luta, monitorados pelos professores Thayse e Lucas, dois meninos ótimos, muito atenciosos. Eventualmente, Tony vai à tarde, principalmente quando tem audiências cedo, porque fica ruim transportar a roupa de advogado. Às sextas, vamos à tarde, quando somos atendidos pelo Bruno, que ajuda Luiza durante toda a semana a derrotar a preguiça secular que habita nela. 

E, igualmente, a todas as situações, aprende-se muito com as experiências vividas. No ginásio, cada um faz o exercício no seu ritmo, e com sua carga. Há umas magrinhas que levantam tanto peso que elas bem que poderiam arranjar uma colocação no cais do porto. E não deixa de ser engraçado, pois, em máquinas perfiladas, um bombadinho coloca 120 quilos na máquina, enquanto eu, vou toda feliz e contente, empurrar 5 quilinhos de cada lado. Cada um na sua.  Outro dia, estava no aquecimento no "elíptico", e achava que ia mesmo morrer de tão cansada. Bem na hora, o cliente do vizinho da academia buscou seu rumo. Bom esclarecer que a academia fica entre o Hospital Regional D. Moura e um Velório. Qualquer coisa, pode jogar para a direita ou para a esquerda. Então, quando eu estava com o coração na boca, já largando o exercício, saiu o féretro. Acompanhei o movimento pela vidraça, desistindo da ideia inicial e  consegui terminar os meus 15 minutos com louvor, afinal, para aquele lá é que não há mais oportunidades nesta encarnação. 

Como diriam os entendidos, força na peruca! Espero me acostumar tanto, ao ponto de frequentar o ginásio aos domingos e feriados. Por enquanto, cada semana concluída caracteriza uma pequena vitória.

Saúde para nós, mesmo sendo clichê, que é o nosso bem mais precioso.

Fiquem com Deus.