sexta-feira, 21 de abril de 2017

Leituras e reflexões: Fim

Leitura é um hábito que tenho de antigos carnavais. Talvez porque houve um tempo que lá em casa não tinha televisão, só um rádio azul à pilhas que Ilda ouvia as rádios mais exóticas. Lembro como hoje, que nas noites de inverno, ela ficava na cama, enrolada com um conjunto de forros e cobertores, escrevendo alguma coisa e ouvindo "O cantinho do Chifre". Nem me lembro em que Emissora era, mas tinha uma música que até aprendi, e recordo um trecho, quase ouvindo a voz do cantor brega: 

"Ele guarda com carinhos os chifrinhos,
Os branquinhos não exibe pra ninguém,
Os verdinhos, amarelos, vermelhinhos,
São coisa que exibem muito beeeeeem" 

Pronto. Como antigamente os invernos eram mais frios e muito mais longos, não existia internet. não tínhamos televisão e, principalmente, depois do acidente de Vilma, que acabou me envelhecendo antes do tempo, eu passei a ler tudo que aparecia. Era uma briga eterna com Ilza, pois, quando ela ia ao trabalho, eu pegava o livro que ela estava lendo, e nem sempre me lembrava de devolver certinho, no mesmo lugar. Ler me faz bem. E sempre, por mais atarefada que esteja, tenho que ler alguma coisa que seja "de lazer", como diria a Profa. Izabel Alarcão. Nestes tempos de adaptação li muita coisa, mesmo que fosse uma paginazinha por dia, ou melhor, noite. Forma-se uma fila de leituras, mas, as poucos, vamos dando cabo aos livros e sempre aparecem outros. 

Esta semana acabei de ler  "Fim", da Fernanda Torres. O acesso a essa obra foi uma série de acasos. Conhecemos a Fernanda desde sempre da TV. Às vezes penso que ela tem quase 80 anos, de tanto que já a vi em novelas, seriados, filmes e, até em programas de entrevistas. Mas, depois lembro que a Fernanda que está pelos 80 anos é a mãe dela, a outra Fernanda, a Montenegro. É o mal de começar cedo na TV: perdemos a noção da vida alheia. Outro dia, estava olhando os canais e parei um bocadinho no programa da Bela (Bela Cozinha, no GNT). Acho as comidas da Bela muito estranhas, mas gosto das explicações que ela dá acerca dos nutrientes e das misturas. Neste dia, a convidada era a Fernanda Torres, e no final, enquanto provava uma gororoba qualquer, ela presenteou a natu-cheff com um livro. Pensei: "Ei, que massa. A Fernanda escreveu um livro." Passou. Acho que no final do ano, estava de bobeira novamente, e parei num programa com a Fernanda. Mais uma vez no GNT, ela entrevistava Manuela Carneiro da Cunha, uma antropóloga que eu sempre li, mas nunca tinha visto. Nunca mais vi o "Minha estupidez", mas quando entrei na Saraiva para comprar o material de Lulis no início do ano, fui diretinho a uma atendente e perguntei se tinha o livro. Comprei. Foi para a fila e três meses depois, chegou a hora.

A obra narra a história de cinco amigos que viviam no Rio de Janeiro. A cidade, que dize-la maravilhosa é clichê, é cenário para a narrativa, desenrolada no trecho Ipanema-Leblon, com uma pequena passagem pela Lapa e Catete. De saída, já me ganhou porque foi justamente o trecho que visitamos quando estivemos no Rio, em Agosto de 2016. De início, pensei que o livro era história da morte dos personagens (morrem quase todos, parece coisa de Ariano Suassuna). Na verdade, a narrativa parte da morte dos personagens, mas a escritora aproveita a morte para contar a vida de cada um deles, que mesmo sendo amigos por muitos anos, compartilhando de vários momentos, têm trajetórias absolutamente diferentes. No início de cada capítulo, tem o ano de nascimento e morte de cada personagem. A medida que um morre, e os outros vão (ou não) ao seu velório, um deles é o próximo a ser  abordado, a partir da própria morte. Não sei se expliquei bem - e sem spoiler - mas, a estrutura do livro é genial. No começo me choquei um pouco com a linguagem quase chula, fiquei até pensando: "quem essa menina pensa que é para tentar escrever como o João Ubaldo"? Do meio pro final, não sei se houve um refinamento da estrutura do texto (segundo os entendidos, o texto amadurece a medida em que é redigido), ou se a linguagem de rua se naturalizou na crueza do relato. Sei que a história prende o leitor a ponto de pensarmos no livro mesmo quando não estamos com ele nas mãos. 

No final, fechei o livro pensando: "é uma história sobre a vida". Na vida que levamos, das opções que fazemos, do confronto com nossas fragilidades. Cada leitor pode se identificar com aspectos dos personagens, mas, dificilmente se enxergar na íntegra em algum deles, de tão diversos que são. Fernanda trata da vida a partir do fim e constrói um trecho digno de cena de cinema,  aquele em que o Padre Graça, exausto de tanta exéquias, para à porta do velório e diz, em alto e bom som: "Quem será o próximo?"

Fiquem com Deus. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O tempo não pára

Naturalmente, o tempo transcorre em seu ritmo acelerado. Lembro de que, quando era criança, o ano demorava uma eternidade para passar, e talvez por isso, o natal era sempre um evento muito esperado. Nem era pelos presentes, pois naquela época, não tínhamos acesso à tantas coisas que os pequenos têm hoje. Tínhamos sempre uma roupa nova, um par de sapatos que tinha que durar um ano, e um galeto assado na mesa, todo enfeitado com alface e azeitonas pretas, o que lhe dava um ar de traje à rigor. Na escola, quando estudávamos à tarde, até as cigarras começarem a cantar empoleiradas nos pés de jenipapo da sorveteria vizinha, já tínhamos feito todas as tarefas, corrido todo o recreio, recebido todas as reclamações da professora por causa da conversa. Crianças têm muito assunto. Hoje em dia, o tempo passa numa carreira desenfreada. Talvez porque inventemos muitas coisas para fazer e um dia nunca é suficiente para concluir a tarefa inteira, sempre fica algo para amanhã. Ou talvez porque eu já esteja mesmo na segunda metade da minha vida, e do meio para o fim, as coisas sempre se apressam.

Mas é assim mesmo: Passei uns tempos longe desse dashboard, e por isso, acredito que vocês merecem alguma satisfação. Não foi nada grave, só um tempo de adaptações. Voltei para o design antigo do blog, pois sinto-me mais confortável com ele. Luiza andou tentando me convencer a fazer um vlog (aqueles que a pessoa se filma falando sobre algo), mas, cheguei a conclusão que sou muito tímida para isso. Vejo vantagem na palavra escrita, pois sempre é possível fazer uma releitura e melhorar um bocadinho, embora eu seja a pior pessoa do mundo para correções. A perfeição não existe e me dá nos nervos. Por isso mesmo, continuo escrevendo já no editor de texto. Se errar, me perdoem e me avisem, faço questão de corrigir para o texto ficar melhorzinho. 

Voltei hoje, sexta-feira da paixão, não por acaso. Finalmente o tempo deu uma esfriadinha. Vivemos um calor infernal desde outubro do ano passado, e somente esta semana veio chover em Garanhuns. Já são seis anos de seca, e esse verão foi especialmente cruel. Segundo Pablo, parece até que fomos cobaias do projeto Haarp, aquela proposta militar dos Estados Unidos, que visava defender o país do ataque de mísseis soviéticos com um escudo atmosférico. Um negócio bem Marvel. Pois, nos últimos tempos chovia em todo lugar e em Garanhuns, apenas três pingos. O céu ficava cinzento, baixinho sobre nossas cabeças e nada da água cair do céu. Apenas o vento, que carregava as nuvens cheias para outras paragens. Pois bem, desde quarta que chove. E como o tempo não pára, no feriado, estou aqui com a casa num silêncio absoluto. Tony saiu, os cães estão dormindo e os pássaros estão noutro lugar que não no nosso muro. Luiza viajou com a família de uma amiga para passar o feriado na praia. É a primeira vez que ela viaja sem nós. As nossas outras experiências de saídas dela são com a turma da escola ou do inglês. Desta vez, foi-se embora com a família de Andreza. Depois de muito negociar, deixamos. Tony conhece a família da amiguinha há mais de 40 anos, o que nos dá uma margem de tranquilidade. E também, como privar a menina das oportunidades da vida? A semana passada, ela foi a uma imersão de inglês, com a turma do Speak! foi no sábado e voltou no domingo. Aos poucos, minha "nega" vai trilhando o caminho solo. Eu, sinceramente, fico aqui tentando domar a preocupação, e pondo em prática a confiança em Deus. Deixar os filhos seguirem é inevitável. E é também um excelente exercício de autoconhecimento, pois sobra tempo para cuidar na vida, consciente de que cada um tem a sua própria existência. 

Se Deus quiser, ela volta no domingo, cheia de histórias para contar. Enquanto isso, vamos conversando duas vezes por dia pelo whats app. A tecnologia é uma maravilha nessas horas!

Estou muito feliz por voltar, espero ter a companhia de vocês por mais muitos textos.

Fiquem com Deus, 

domingo, 11 de setembro de 2016

O futebol: Brasil x Uruguai

Arena Pernambuco, eliminatórias da Copa do Mundo, 25 de Março de 2016

Já fazia tempo que Tony tentava uma oportunidade de irmos juntos ao futebol. Eu sempre assisti aos jogos com a minha mãe, pela televisão. Foi ela que me ensinou as regras básicas de impedimento, escanteio e lateral. Com minha velha, aprendi que goleiro que fica batendo bola é catimbeiro, que jogador muito famoso é mascarado e que o Sport sempre perde quando jogo pelo empate. Coisas do futebol pernambucano, que como rubro-negra de duas linhagens, tento heroica e bravamente ensinar a minha filha, mas os tempos são outros. A geração sete-a-um tem um desinteresse latente pelo futebol. De qualquer forma, juntamos três peças de roupas e uma camisa do Sport para cada um e nos fomos à Arena Pernambuco ver a desgastada seleção brasileira jogar contra o Uruguai pelas eliminatórias de Copa de 2018. Já se comenta por uma boca só que se o Brasil for eliminado agora é um favor que faz: assim, não custará nossa cota de esperanças, e olhem que nesses tempos bicudos, esperança que não nos falte.

Pronto. Então, tudo começa muito antes do apito inicial. Para comprar os ingressos, ficamos ligados nos programas esportivos da rádio jornal. Logo após o carnaval, anunciaram o início da  bilhetagem eletrônica. Tudo se resolve através do site da FIFA, o torcedor adquire os ingressos e paga através do cartão de crédito. Confirmado o débito, a organizadora encaminha-nos um e-mail com o voucher, que deverá ser impresso e trocado nos pontos autorizados nos dias que antecedem a partida. Parece simples, mas, é uma via crucis, pelo menos a parte de comprar os ingressos no site. A página da FIFA é pouco amigável e quando conseguimos aceder ao sítio onde se marcavam os assentos, só tinha os ingressos mais caros e os mais distantes. Obviamente, optamos pelos ingressos do 3º piso, que são mais baratos. Era apenas a primeira e óbvia lição de que o futebol atual exclui as massas: é preciso ter alguma condição financeira para ter acesso ao campo. Lamentável, pois o povo faz falta no espetáculo.

Ingressos comprados, fomos em busca de hospedagem. Como o jogo estava marcado para as 17 horas, pensamos que seria possível participar e voltar. Mas, um conluio entre a CBF e a Rede Globo impede que os jogos das eliminatórias se realizem em um horário humanamente possível. Os direitos de transmissão da vênus platinada estabelecem que o jogo deve começar as 21h45. Agora, me digam: já foram a Arena Pernambuco para saber mais ou menos a que horas um torcedor comum que saiu do estádio à 0h00 chegará à sua humilde residência? A sorte é que marcaram o jogo para a sexta-feira santa, de modo que no sábado, aleluia, dava para dormir mais um bocadinho. Então, com o arrocho financeiro comum a todo início de ano,  hospedagem tinha que ser mais acessível. Encontramos na Pousada Casuarinas, com uma excelente localização, limpa, segura e com um excelente atendimento. Além de ter uma decoração efusiva, tem um jardim interno lindíssimo e muitos gatos andando por toda parte.

Asinhas criminosas do Yoki Galetos
Tudo certo, na quinta-feira, já dia santo, fomos embora para o Recife. Invariavelmente, Luiza vai dormindo o caminho inteiro. Desta vez, só paramos na Ilha do Retiro para trocar os ingressos e depois almoçamos no Yoki Galetos, que serve uma asinha de frango empanada impossível. Seja com uma coca-cola geladíssima ou uma cerveja, as asinhas são o que há de melhor no mercado. Tony já tinha ido lá, e desde então, só vivia falando nas tais asinhas. Não perdemos a oportunidade: o ambiente é simples, amplo, bem frequentado e tem vista para o trânsito maluco da Abdias de Carvalho. 

Na sexta-feira, era o dia do jogo. Planejamos uma breve caminhada na praia de Boa Viagem (que só serve mesmo para caminhar e ver pessoas, por causa dos tubarões), um almocinho, um descanso. Depois, poderíamos ver a exposição O Corpo Humano, no Shopping Riomar, onde também pegaríamos o transporte para a Arena. Deu quase tudo certo. Luiza levantou-se cedo, e tomou café conosco. Ultimamente nas viagens, o café da manhã em família tem sido um problema. Coisas da adolescência, para as quais é preciso ter uma paciência de Jó. Fizemos a caminhada na praia, que por sinal, estava tudo muito bonito, bem cuidado e limpo. Pena que o esmero que se tem com Boa Viagem não é replicado por toda a cidade.


Mais tarde, o tempo atropelou-se e quando chegamos ao shopping Riomar já passavam das 17 horas. Não foi possível ver a exposição, pois precisamos entrar na fila do transfer. O Shopping ofertava o transporte de ida e volta para Arena, que fica no município vizinho, São Lourenço da Mata. Tony, conhecedor dos problemas de saída dos estádios considerou que seria melhor aderirmos a este programa, pagando 30 reais por pessoa. Como era ida e volta, e não ia ter que ficar naquela agonia de estacionar e nem de se perder da região metropolitana do recife após a uma da manhã, valia a pena. O problema é que as empresas brasileiras sentem muita dificuldade em se organizar para ofertar o serviço que vendem. E entre a teoria e a prática, lá se vai um imenso abismo. Quando chegamos ao shopping, somente um guichê vendia as entradas do transfer. Orientados pela primeira atendente, pagamos o estacionamento, e fomos em busca das tais passagens. Na fila, Tony foi informado que o pagamento do estacionamento só valia até a 1h30 da manhã. Saquei o papelinho da carteira, e conferi: o horário dizia que era até as 18h30 do dia 26. Seguiu-se uma discussão porque a segunda atendente tornou-se irredutível: se não tirasse o veículo até as 1h30, entraria no rotativo do estacionamento. Tony sacudiu o recibo na cara dela e tudo foi resolvido quando ele disse a jovem, calmamente, que se não fosse cumprido o que estava impresso no recibo, era uma excelente questão judicial. Nada como ter um advogado na família. Depois, a confusão foi na compra dos tais transfers. Os ônibus já estavam saindo para a Arena, e a fila só crescia. Um dado momento, disseram que não tinha mais passagem. Depois, disseram que dispunham, mas só de ida. A volta, que se virassem. Então, começou o burburinho e os consumidores aborrecidos brigavam pelos seus direitos. A esta altura, já haviam chegado Tony Lucas, Marcos Cardoso e os dois filhos. Estávamos esperando Vando, pois Tony é que estava com os ingressos dele. Pelas 18h30, o companheiro chegou com a filha. Passou pela fila das passagens, alegando ser deficiente físico (que realmente é), e comprou os bilhetes do ônibus, sem qualquer dificuldade.

Embarcados e contentes, já era noite fechada quando saímos do Recife.          

A Arena (dos Problemas) Pernambuco vista de longe, à noite é um encanto. O problema é que o nosso motorista parece que era novato, e não conhecia o caminho. Passamos bem na portinha do estádio e o veículo não parou. Não entendemos muito bem, mas queríamos saber onde o transporte iria ficar estacionado, portanto, não pedimos para descer. O problema é que o doido do motorista enganou-se e foi lá para o final do mundo, procurando um retorno. Depois de muitas voltas e muita “zoação” dos passageiros, principalmente quando passamos de volta novamente na frente da Arena. Marcos Cardoso profetizava que seria a única coisa que veríamos da Arena: o gramadinho que tem na frente. Finalmente, paramos lá em Deus-me-livre e descemos em busca do portão de acesso à nossa área.

Vejam bem: quem tem medo de altura ou problemas cardíacos, nem se aventure. Nossos ingressos eram numa seção que ficava no cocuruto da Arena. A primeira batalha foi arranjar alguma coisa para comer: o ambiente chega a ser monumental, com papel no banheiro e tudo mais. Contudo, as lanchonetes são uma humilhação com alto custo. Atendidos por balconistas suados e mal-humorados, comemos o pior pãozinho com presunto do mundo e um copo descartável de sukita meio quente (pensem na temperatura ambiente do Recife). Eu, Luiza e Tony, pagamos 45,00 por esse lanchinho desgraçado.  Compensa encontrar tanta gente conhecida comendo a mesma porcaria, vários amigos (e colegas) de Tony vieram nos cumprimentar no nosso batizado futebolístico.

A subida da rampa (lembrem-se que nossas cadeiras ficavam na parte mais alta do estádio) foi compensada pela linda visão do campo: sabem aquela carinha que a menininha que vai carregada pelo pai faz ao ver o campo, na propaganda do Sport TV? É verdade. Contudo, eu tinha um universo de degraus pela frente para chegar ao meu canto, e quando o alcancei, pensei que ia morrer, suando por todos os poros, morta de cansada. Ninguém precisa dizer que estou gorda, eu sei muito bem, sem precisar de espelho, basta galgar degrau por degrau na Arena. Além de tudo, tem a altura, eu fiquei pregada no assento, sem coragem de me mexer. Só me levantei para o hino, e, me sacudi um pouco nos gols. Mas, foi só. A impressão é que vamos capotar para frente a qualquer momento.


O jogo? Foi empate. Parecia até que seria fácil no início, mas aquele Soares (o que morde) é muito bom. Uma partida de futebol no campo é uma experiência intensa. Apesar de ser quase uma torcida só – havia poucos uruguaios e um punhado de argentinos – o som e o movimento é uma maré de gente. O uníssono da torcida é uma experiência não só auditiva, mas sim, visual. Já estou inscrita para uma porção assistir uma porção de jogos, basta que chegue a oportunidade e o departamento financeiro libere os recursos.

domingo, 7 de agosto de 2016

Lições da orquestra (ou: O trombone e a organização)

Então, o FIG 2016, veio e passou. Vivenciamos, até sábado passado a programação deste que é o maior (e melhor) festival multicultural do Brasil. Em tempos de crise, percebemos que houveram cortes na programação, mas, de qualquer forma, os pólos principais continuaram mantendo o seu brilho. Penso que o Festival de Inverno de Garanhuns já é um evento consolidado. Falta-nos apenas melhorar a organização no sentido de divulgar a programação mais cedo, para que mais pessoas, em outros estados, e talvez em outros países possam se organizar para participar. Como todos os anos, foi aquela mesma ladainha nas rádios e nas redes: muita gente a reclamar da programação. Contudo, as reclamações abordavam apenas a programação da Praça Mestre Dominguinhos (ainda não me acostumei com o novo nome da Praça Guadalajara. É um inequívoco sinal da velhice referir-se aos locais pelo nome antigo. Mas, vá lá: melhor ficar velho do que deixar de viver). Essa renitência em relação ao Palco principal é devido a falta de visão das criaturas, que mesmo depois de vinte anos de programação descentralizada, insiste em analisar o Festival por apenas 10% de sua programação. Eu consegui me libertar dessas amarras e aproveitamos o que nos interessa na grade cultural, sem ter a obrigação de bater ponto na Esplanada cultural todas as noites. Eu e Luiza gostamos muito de ver as exposições de arte, embora nem sempre entendamos muito bem o que os artistas quiseram exprimir com a obra ou instalação. Luiza faz oficina pelo terceiro ano consecutivo.Vimos um pouco de arte popular, música instrumental e música erudita. E foi na aula espetáculo com a Orquestra de Câmara do Conservatório Pernambucano de Música que tirei minhas lições anuais do Festival.

Tive acesso à programação sediada na Catedral Matriz de Santo Antonio já no meio da semana. Dias antes, havia acompanhado os concertos do Virtuosi. E no encarte anunciava a aula-espetáculo. Já fui a algumas, mas essa, queria ver com Luiza, pois é uma excelente oportunidade de aprender um pouco sobre a conhecida e pouco executada "música clássica". Chegamos cedo e ocupamos dois lugares no segundo banco, enquanto um jovem orientava a afinação dos instrumentos. Daí a pouco, entrou um jovem senhor, com cara e jeitinho de militar. Era o maestro. Antes de começar mesmo, cuidou em retocar alguns trechos do Sanctus, terceira parte da Missa da Coroação, de Mozart. A certa altura, a jovem do oboé fazia uma nota a mais, e o maestro parava tudo, enquanto eu cochichava para Luiza "Ah, por que parou... estava tão bonito!" O ensaio é o momento de corrigir. Retomando mais uma vez, a jovem tropeça no mesmo trecho. O maestro pára e explica. Voltam a tocar. Pára pela terceira vez,  maestro explica novamente e pede que ela faça sozinha. Novo equívoco. Então, um jovem do lado de cá pergunta ao regente: "Posso ir lá?" Com a devida permissão, o cara explica, e a menina acerta. A partir dessa situação comecei a refletir, e fazer analogias entre a orquestra e a gestão institucional. 

Ao longo da aula-espetáculo, o maestro explicou particularidades da regência e da organização da orquestra, além de demonstrar trechos da obra que iria executar completa no concerto de encerramento, logo mais à noite. As pessoas presente poderiam fazer perguntas, e algumas foram bem interessantes. Um senhor perguntou para quê o maestro fica sacudindo uma "varinha", se o pessoal toca pela partitura. Com muito bom humor e com uma linguagem bastante acessível, explicou que o maestro é responsável pelo andamento, a intensidade, e o ritmo da música. Exemplificou fazendo  um experimento com o coro. Como o pessoal não recebeu a "ordem" de cantar permaneceram em silêncio. Outra senhora da plateia sugeriu uma experiência: pediu que o maestro desse a "partida" na música e depois saísse. Assim foi feito. Luiza, divertindo-se com a situação, deu risadas porque o maestro sentou-se no meio da assistência e ficou assistindo a orquestra se virando sozinha. É certo que eles tocaram, a música ficou meio embolada, mas todos cravaram os olhos naquele carinha que pediu permissão para ajudar a menina do oboé. Quando o maestro se ausenta, a função de organizar as coisas é do Spalla (ombro, em italiano). Dessa forma, mesmo que meio atabalhoada, a orquestra não deixa de fazer o seu serviço, tendo um ponto de referência para executar a música.

Eu sei que comparar a orquestra à gestão de instituições é bem batido, chega a ser um clichê de autoajuda. Contudo, o exemplo era muito evidente para mim, sentada à segunda fila dos bancos da Igreja. O maestro é o responsável, assim como o gestor. Ambos dependem dos companheiros para executar seu trabalho e só há harmonia quando há o reconhecimento da autoridade do maestro. O que teria acontecido se naquele momento do ensaio, em que a jovem não acertava as notas para meus ouvidos leigos imperceptíveis, todos os demais músicos fossem opinar ou interferir? Para que a organização funcione é preciso que cada um saiba qual é o seu lugar e sua função. Se o maestro ficar de costas para a orquestra, os músicos ficarão confusos, e mesmo que estejam carecas de saber qual a sua parte na música, não irão conseguir executar o seu melhor. Nenhum gestor trabalha sozinho, e como o maestro precisa do Spalla, aquele sujeito que irá afinar os instrumentos e mobilizar os músicos para executar sua parte na peça, em que cada instrumento tem a sua importância e até a disposição espacial influencia no resultado final. Ao final da aula, fiz uma pequena analogia: se a minha escola fosse uma orquestra, qual seria a minha posição, que instrumento eu seria? saí dando risada com Luiza ao chegar à conclusão de que, nos dias de hoje, eu seria um trombone, que segundo o nosso professor-maestro, acompanha a percussão e dá base ao coro. Pela potência do som, e numa orquestra de câmara, um trombone equivale a cerca de 20 violinos. Se tivesse 20 trombones, os demais instrumentos não seriam ouvidos e a música ficaria completamente atravessada. Tem sido assim: quando chamam o trombone, e quando é necessário, eu grito alto, no esforço de contribuir para que todos brilhem.

Não posso deixar de concluir com o sincero agradecimento à Igreja Católica que abre suas portas e sede seu espaço para a execução desse tipo de música que tão pouco espaço consegue em eventos abertos. Em todos os espetáculos, vi a casa cheia. Tenho dúvidas se a oferta fosse num teatro chique e fechado, se as pessoas teriam acesso como na Igreja Matriz. Sempre encontrei aquele médico famoso acompanhado com sua linda esposa, que já foi misse! Lá pela segunda fila, sempre estão as professoras do Estado, os servidores do município, jovens de cabelo desgrenhados, rosas e azuis, senhorinhas com exames de imagem na mão, e, senhores carregando sacos com pães. Como disse o Bispo na abertura do evento: a música é uma expressão divina. É a mão de Deus.

Fiquem com Ele.    

terça-feira, 26 de julho de 2016

Peito

Excepcionalmente, estou à mesa numa manhã de terça-feira. Felizmente, a voz da razão falou mais alto e a escola concedeu-nos uma semanita de recesso. Concordo com a companheira Virgínia, quando explica que para tudo é preciso uma pausa. Uma árvore não frutifica seguidamente. As estações do ano se revesam e até o dia precisa de um descanso à noite. Cada coisa tem seu tempo, e esses cinco dias são fundamentais para que o professor consiga perceber que irá reiniciar uma nova etapa, o que nos presenteia a oportunidade de melhorar continuamente. Quem trabalha com gente e com conhecimento não pode simplesmente ligar no automático. Então, nesses preciosos cinco dias, estamos exercitando o "diletantismo", como diz a profa. Rosa Antunes. Por diletantismo (amor à arte, à poesia e beleza) estou à mesa, enquanto lá fora, os cachorros perseguem os passarinhos.

Para muita coisa na vida, é preciso ter peito. Enfrentar as adversidades nos faz erguer os peitorais, e nos preparar para o combate. Não é à toa que o Império Romano estendeu-se na força dos pretorianos e suas lindas armaduras. Obviamente, tenho escolhido bem as minhas batalhas. Há situações nas quais o melhor é recolher o exército, e permitir que outros vençam. Há também guerras alheias que não valem um tostão o envolvimento. É por isso que estou dispensando perseguições inglórias. É também preciso ter peito para baixar a cabeça e aceitar, e depois, no momento certo, erguer os olhos e seguir em frente. 

O peito é um dos sustentáculos da humanidade. A criação divina providenciou que as crias fossem alimentadas pelo corpo da mãe, assim, enfrentariam as adversidades, vencendo as resistências do meio. De experiência própria, posso afirmar que amamentar uma cria é um dos serviços mais pesados que já enfrentei. E olhe que eu não sou de molezas. As imagens poéticas não retratam o trabalho árduo. Tudo começa do começo. Já na gravidez, os peitos não são mais seus, pois, enquanto se estrutura a fábrica do leite, alguns cuidados são necessários, seja para evitar a contração fora de hora ou as terríveis estrias, que acabam com a pele que será posta à prova em situações que invejariam os testes de resistência do INMETRO. Depois, chega a hora da verdade: a primeira mamada é um suplício. O bebê, morto de fome depende da mãe, atropelada por uma jamanta. E a mãe sabe que ela não é a primeira, nem a última criatura do mundo a ter que lutar contra o cansaço, as dores e as dificuldades da função de provedora. Na minha primeira vez, o peito não queria funcionar, enquanto a menina berrava em plenos pulmões. Izabel, a melhor enfermeira do mundo, olhou-me cheia de pena e disse que poderia resolver. Pegou-me a mama com as duas mãos, e deu o apertão inicial. Na pele branca, ficou por dias a marca roxa dos dedos da minha irmã. E funcionou. A partir de então, a mãe é refém do bebê a cada duas horas. Nesse começo, o serviço do pai é ir buscar o bebê e devolve-lo ao berço quando ele enche o buchinho. Talvez, ainda espere a cria arrotar, assistindo um telejornal na madrugada. E pelas imagens idílicas, ninguém imagina o sacrifício que é fortalecer a pele do mamilo para que o bebê sugue o conteúdo. Fere, sangra, dói. Eu, pensei em desistir, mas Joana insistiu. Dizia que se sangrasse um pouquinho, não fazia mal. E Luiza mamou muito leite com quick, sabor Bepantol. Até que um dia, Tony comentou com Jacinto, e ele sugeriu o peito de silicone, uma capinha que coloca sobre o mamilo para evita o contato da boquinha do bebê com a  pele. Assim, sobrevivi ao serviço árduo da amamentação por três meses. Depois disso, tive que ir trabalhar e as coisas se complicaram. Mas, de qualquer forma, estou aqui para contar a história, consciente de que, da melhor maneira, fiz a minha parte e cumpri essa, dentre as minhas obrigações como mãe. E reafirmo: amamentar é hard work, para macho. Só as forte sobrevivem.

Não precisa insistir na importância da amamentação, dos benefícios para a criança. Outro dia, falávamos sobre temas de monografias, e Izabel explicava-nos que a discutir a amamentação é o mesmo que abordar a Maria da Penha no Direito. Temas elementares, que mesmo tão batidos, discutidos e defendidos, não perdem a sua importância. O desafio é inovar na discussão. Contudo, na contramão da disseminação do conhecimento, e em plena sociedade da informação, algumas pessoas condenam as mães por amamentarem seus filhos em público. Fiquei estarrecida com o caso de uma jovem mãe em Santa Catarina, estado da região sul do Brasil (supostamente a mais desenvolvida, europeia e educada deste país), ter sido convidada a sair de uma praça de alimentação de um shopping porque estava amamentando a criança. Lembro-me que as pessoas mais antigas aconselhavam que cobrisse o peito ao alimentar a criança, que era para não "pegar olhado". Sempre tinha uma fulana que o peito endureceu como pedra porque amamentou em público. Na verdade, não passa de (mais uma) pobreza de espírito de quem julga. A maldade vem da alma putrefada de alguns, que não conseguem compreender os contextos. Não há registros históricos, mas, provavelmente a mãe de Nosso Senhor não alugou uma casa para dar o peito ao menino. E a função primordial do peito é essa, enfeitar ou dar prazer é acessório e secundário. 

É impressionante que em plena sociedade da informação, tenhamos que nos posicionar em defesa do direito da criança de ser amamentada, e da mãe, de alimentar o seu filho, independente de tempo ou lugar.

Fique com Deus.