domingo, 20 de agosto de 2017

No caminho a caminhar: Lisboa

Luiza e o Elevador de Santa Justa, Lisboa.

Já era hora de pegar o beco e voltar para casa. 10 dias passam muito rápido, principalmente quando se está em lugares tão especiais. Então, depois do velho cafezinho, demos uma voltinha na Rambla, a tempo de ver os artistas que fazem as estátuas vivas chegarem aos seus pontos. Um espetáculo à parte: de um lado, um allien meio vestido de gente,  do outro, uma dama antiga, maquiada, com suas perucas de cachinhos, de leggin e top. Depois de comprar uma coleção de lápis e uma pulseirinha para Luiza, ainda passamos no Mercado Boqueria, antes de ir buscar as malas, no número 41 de Las Ramblas.  Fomos andando pelo meio do calçadão para chegar a Plaza Cataluña e pegar o aerobus para o aeroporto de Barcelona, terminal 1. Ainda deu tempo de ver o bebedouro do Barcelona, comemorativo a algum título do time de futebol mais conhecido do mundo e pisar no mosaico de Juam Miró, que até então não tínhamos visto porque só passávamos pelo outro lado da calçada. No aeroporto, aquela espera de sempre: primeiro para abrir o check in e finalmente, nos livrarmos da bagagem. Antes disso, ainda comemos sanduíches num café bem arrumadinho, enquanto olhávamos o desembarque. Depois, compramos água e chocolate e fomos despachar nossas malas. Estava somente com o identificador, e como havíamos comprado os tickets pela Ibéria, estava certa que deveria ir no guichê essa empresa. Mas, para o nosso voo, a gigante da aviação espanhola havia tercerizado, daí, tivemos que procurar o check-in da Vueling. Luiza desenrolou tudo num inglês bem arrumadinho. Eu fiquei do lado só mostrando os documentos. Ainda esperamos um pedaço bom, pois o nosso voo só sairia pelas 17h. Enquanto isso, olhávamos a vida alheia dos viajantes. 

O processo de embarque desse aeroporto é quase todo automatizado. Vocês só trocará uma palavra com um ser humano se quiser. Passamos nos guichês, imitando os demais, e seguindo a multidão, passamos no raio x das nossas bolsas de mão. Entramos na área de embarque, seguindo por um imenso corredor para encontrar nossas "puertas".  Quando autorizam o embarque, costumo chamar a minha pequena: "vamos pegar o beco", o que não deixa de ser verdade, porque temos que entrar naqueles corredores imensos que desembocam na aeronave. Na nossa frente iam duas figuras, dois caras muito brancos, com mochilas nas costas e uma peculiaridade: um deles estava descalço!

O sujeito descalço (e fedorento) no embarque para Lisboa

Dei uma tapeada e fiz a foto. É a prova de que o povo na Europa não está nem aí para como o sujeito se veste, se calça ou não. Fiquei rezando que nenhum dos dois sentassem ao nosso lado, pois estávamos com assentos separados. Os sujeitos quando se mexiam subia um cheiro nauseabundo de grude, suor e xixi. Ninguém merece uma companhia dessas. Felizmente, eu fui sorteada para a saída de emergência, entre dois executivos que mal se mexiam. E Luiza ficou entre um norte-americano gordo e uma senhorinha. Menos mal.

Chegamos em Lisboa pelas 20h. Como a cidade é temperamental, o tempo já estava diferente. Passamos os últimos dias em altas temperaturas, mas em Lisboa, o céu estava nublado e ventava um bocado. Pegamos o metro e descemos no Rossio. O bom  de chegar em Lisboa é a sensação de familiaridade. Antes de subirmos para nossos alojamentos lisboetas, paramos num restaurante ao lado da Estação Ferroviária do Rossio e batemos dois belos pratos da boa comida portuguesa. Luiza pediu bifanas com batatas fritas e eu, comi hamburgueres. Fomos muito bem atendidas por um jovem engraçado que, ao identificar-nos como brasileiras, sacou do vocabulário uma série de "valeu", "é top". Depois de bem alimentadas, fomos para o hostel. Instalado num casarão setecentista, o nosso quarto ficava no quarto andar, sem elevador! Quase morro para subir os oito lances dos quatro andares de escada de madeira, de degraus bem estreitinhos. Prometendo visitar o cardiologista quando voltasse, chegamos num quarto com uma cama de casal, uma varandinha com portas duplas, um duche apertado para tomar banho, uma pia, e só. O banheiro era coletivo, lá no final do corredor. Essas hospedagens são mais baratas e, apesar de não ter nenhum luxo, são seguras, limpinhas e cabem no nosso exíguo orçamento. Foi tomar banho e cair na cama. Me acordei no noutro dia, com a vida começando no Rossio. 
Restauradores, vista da varandinha do prédio antigo.

No outro dia de manhã, Lisboa continuava sob uma chuva fininha. Luiza disse que era para nos habituarmos ao nosso inverno tropical de Garanhuns. Pretendíamos ir à Belém, mas, acordamos tarde, acabamos andando pela Augusta, até a N.Sa. do Carmo e pegarmos um bonde errado e acabarmos em frente ao Cemitério de Martin Moniz. Depois de muita conferência, pegamos o bonde de volta, e ao avistar a Igreja de Santa Catarina, chamei Luiza para descermos no Chiado, bem atrás da estátua do Poeta. Fizemos uma parada obrigatória na Brasileira, onde tomamos um cafezinho - Luiza fingiu que tomou. Ela odeia café espresso -, e fomos zanzar na Bertrand, uma livraria obrigatória para nós, quando vamos a Lisboa. Adoro, tem tudo que você imaginar e vários idiomas. O problema é sempre o mesmo: com a grana curta, escolher não é nada fácil. Optei por um livro de Eça de Queiroz, um de José Saramago e outro de Agualuza. Luiza escolheu dois para engordar a lista dela, já quilométrica. Depois, fomos almoçar no Armazém Chiado e zanzar mais um pouco na Fnac. Já à noitinha, tomamos o metro - sobre a estação do Chiado, uma nota: aquela sucessão de escadas rolantes entrando chão a dentro me causam uma péssima impressão. Fui conversando bobagens para não registrar que estava sendo enterrada viva. Meu coração só volta ao normal quando chegamos na plataforma da estação. Seguimos para a Gare do Oriente, pois Luiza queria ir ao (shopping) Vasco da Gama, e eu precisava comprar uma mala para trazer as coisas. Compramos mais umas camisas para Tony e pegamos voltando para o Rossio. Para jantar, passamos no Pìngo Doce e compramos meio frango, batatas fritas e uma garrafa de suco de laranja natural: como nos velhos domingos quando morávamos em Aveiro. 
Acima, eu e Luiza no Chiado. Abaixo o quartinho do 5º andar do Guest House.
  Quando chegamos no Hostel, fomos informados que haviam nos mudado de quarto: agora estávamos no quinto andar! mais dois lances de escada, e ficamos instaladas no sótão. Mas, até que o quarto era bonitinho, apesar do banheiro ser completamente partilhado. Perguntei umas vezes a Luiza se ela queria ir ao banheiro, pois se quisesse, eu iria com ela, com medo de que alguma daquelas portas se abrissem e um meliante puxasse minha menina para o quarto. Duas fica mais difícil de atacar. Eu tenho assistido muito episódios de Law and Order SVU. 

No outro dia pela manhã, já não chovia, mas, estava friozinho. Luiza não quis descer para tomar café, fui sozinha a uma padaria que fica na esquina com o Theatro D. Maria I. Depois, fui andando até o Tejo, só para dá tchau. Na volta, comprei um pãozinho e um suco Compal e fui lutar com as coisas para acomodar tudo dentro das malas. A descida dos cinco andares com duas malas me fez duvidar que descendo todo santo ajuda. Cheguei ao rés do chão lavada de suor e com o coração na boca, reconhecendo que preciso urgentemente perder peso e melhorar a minha condição física. Pagamos o Aerobus em frente a fonte do Rossio e chegamos ao Aeroporto pelas 14 horas. Mais alguma espera e já estávamos voltando, no nosso voo de 7 horas sobre o Atlântico, aterrisando em Fortaleza. Daí, pegamos um voo da Gol para o Recife, sob uma chuva que me fez duvidar se realmente iria decolar. Chegamos em Recife pelas 2h da manhã, onde Tony já nos esperava após assistir o Jogo Sport X Atlético de Goiás. O Sport ganhou de 4 x 0 e quando chegamos, Boa Viagem estava às escuras, sem energia por causa da queda de árvores. Dormimos na Pousada Casuarinas, que chamamos carinhosamente de "Pousada dos gatos", pois na rua e na pousada há muitos felinos. 

Foi uma boa viagem. Temos absoluta certeza de que iremos fazer esse caminho mais vezes para descobrir novos aspectos, pois, foi uma breve passagem. Até a próxima!

Fiquem com Deus.

domingo, 13 de agosto de 2017

No caminho a caminhar: Barcelona

O Lagarto da entrada do Park Güell
Então, na última etapa da nossa cruzada hispânica, aportamos em Barcelona. Na realidade, a cidade não estava no programa inicial, em que pensávamos em entrar na Europa por Madrid e depois ir a Salamanca. Como já sabem, entramos por Lisboa e teríamos que voltar por lá. Então, no meio dos preparativos, me lembrei de que quando Luiza era pequenina, nós assistíamos à tarde um desenho espanhol na TV Cultura, As Trigêmeas (Les tres Bessones, no original catalão). Numa das aventuras das três meninas com a Bruxonilda, elas contavam a história das obras de Antonio Gaudi. Achei ótimo o desenho, mas, acabei esquecendo. Nos últimos meses, trabalhei com afinco num projeto de um curso de Arquitetura para a AESGA, o que me custou muita pesquisa. Por ter que aprender alguma coisa que não faz parte da minha área, desenterrei Gaudi da minha memória. Como prêmio ao projeto quase aprovado, decidi incluir Barcelona no nosso caminho, conhecida primeiro pela obra inovadora do arquiteto catalão, do que pelo o time de futebol.

Paisagem no caminho para Barcelona.
Saímos de Madrid pelas  11h40 do domingo, da estação de Puerta Atocha. Sobre a estação, uma nota: infelizmente, eu estava tão agoniada em encontrar o balcão onde vendia os tickets e providenciar nossa saída da capital, que não fiz nenhuma foto da estação, que tem um lindo jardim interno com árvores crescidas, muitas plantas, flores e banquinhos. Fomos atendidos por um senhora gorda e enfadada num guichê de fila única. Deixei Luiza com as malas e fui comprar os tickets, e essa foi uma péssima opção, pois eu preferi falar inglês e quando a mulher me respondia, eu mal entendia. Se perguntasse novamente, ela revirava os olhos e bufava, e somente depois repetia devagar. Me deu vontade de mandá-la estudar para arranjar um emprego melhor, mas, acabei finalizando o contato com um "Obrigada, simpatia", cheio de ironia. As estações de trem da capital espanhola têm o mesmo rito dos aeroportos: é preciso colocar as malas e bolsas na esteira para que sejam analisada no raio X. Depois disso, fomos esperar nosso trem numa sala de embarque movimentada. Quando anunciaram a nossa condução, deu um certo burburinho. Não se fazia fila e nas três portas de acesso a plataforma de embarque, formou-se um bolo confuso de gente apressada. Brasileiramente, fomos com a multidão. Embarcamos num trem da Renfe, com relativo conforto. Enquanto Luiza cochilava, eu apreciava a vista através da janela do trem a 259 km/h. 
Eu, na Rambla Del Mar
Chegamos em Barcelona depois das 15 horas. Nos vimos em uma estação movimentada, repleta de gente de todos os lugares do mundo. Antes buscar uma saída, precisava ir ao banheiro. Luiza não quis ir, então, eu saquei da minha Bahia uma moeda de 1 Euro, conforme exigia a máquina na entrada. Contrariada, coloquei a moeda e saquei um pequeno ticket. O banheiro parecia um salão de beleza: muito limpo, construído no vidro leitoso verde e espelhos imensos a partir das bancadas de mármore, onde se alinhavam as pias. Nos gabinetes, uma bacia simples, um dispenser de papepl, um lixeiro. Nada de mais. Após o uso, quando fui tentar dar a descarga, havia três botões sobre a caixa acoplada ao vaso. Indecisa, apertei o primeiro, e a bacia deu várias xinringadas de água, se transformando em um eficiente bidê. Contendo as risadas, apertei o segundo. O acento da bacia rodou 360 graus e saiu um jato de  vapor e depois de ar quente. Esse bendito botão era o que eu deveria ter apertado antes de usar, pois era para higienizar o vaso. Orh! No último botão, deu-se a descarga, finalmente e eu sai dando risada da minha ignorância latino-americana.  
Monumento a Cristóvão Colombo na rotunda no final da Rambla e La Rambla Del Mar


Saindo da estação, preferimos tomar um táxi. Um jovem moreno adiantou-se da fila, e, sorridente abriu a bagageira para acomodar nossas malas. Luiza disse o endereço e lá fomos nós para La Rambla. Já havia visto num documentário na TV que esse pedaço de Barcelona é bem movimentado. Como há muitos Hosteis, arranjamos um bem em conta, administrado por imigrantes indianos. O percurso não era tão longo, pagamos 8 Euros pela "carrera". Deixamos nossas malas no Hostel e fomos em busca de comida, pois já chegava às 16 horas e andar com um "Ferreira" (a família de Tony) com fome é meio complicado. Almoçamos num dos muitos restaurantes da Rambla, experimentando dessa vez um restaurante Turco chamado Luna de Istambul. Resolvida a fome, fomos andando a Rambla para ver o que tinha no final.
Ancoradouro de Barceloneta
La Rambla del Mar não existia antes dos Jogos Olímpicos de 1992, realizado nesta cidade. Aliás, Barcelona só entrou para o trade turistico mundial como legado dos Jogos. Diferente do que aconteceu no Rio de Janeiro, a estrutura necessária aos jogos continua sendo bem utilizada. A Vila Olímpica é um dos bairros mais caros da cidade, que foi completamente revitalizada. La Rambla Del Mar é um cais de madeira que atravessa de uma ponta a outra da praia de Barceloneta, tendo um shopping no final. A quantidade de gente que circula nessas pontes é uma coisa impressionante. Do outro lado, vê-se o WTC de Barcelona, um hotel de alto luxo, bem ao lado do cais exclusivo onde aportam os gigantes navios de cruzeiro. Se em Madrid eu me encantei com a beleza das pessoas, em Barcelona a natureza e as construções são um prodígio de Deus e do homem. Aliadas a diversidade humana, com gente de todos os lugares do mundo, entre os voos rasantes nas gaivotas, tivemos um final de tarde memorável, apesar dos nosso relógios já apontarem as 21 horas. 



No outro dia, após um cafezinho na  pans, que pelo jeito há em todas as cidades desse país, fomos comprar nossos tickets para o ônibus de turismo, que nos levaria para conhecer a cidade. Optamos pegar a linha vermelha, depois saltar na outra praça lá no começo da Rambla e trocar para a linha azul, que nos levaria até o Park Güell, um empreendimento criado por Gaudi para ser um loteamento de alto poder aquisitivo. Porém, a ideia fracassou, segundo Luiza porque o negócio ficava no fim do mundo. E pense numa ladeira! O ônibus nos deixou numa parada e para chegarmos à portaria do Park, tivemos que subir uma ladeirinha básica parecida com aquelas de Olinda. Some-se ao sol escaldante das 12h e o fato de eu ter escolhido ir de sandálias. O sapato errado pode colocar a viagem a perder. Chegamos ao topo da ladeira, meio mortas e meio vivas, depois de nos perder e ser selvas por um velhinho que estava sentado à frente de sua casa. Quando íamos passando, o velho disse: "Ei! donde vás?" Voltei, cumprimentei e disse que íamos ao Park Guëll. O Velho, abanou a cabeça e disse: "No, no, no. No vás por cá. Cá só de colche. Vueltas y caminas hasta dos calles y sube. Alla arriba. és el Park." Impressionada com a disponibilidade das pessoas em ajudar, agradecemos muito e fizemos o que o Velho mandou.  Como já tínhamos comprado os tickets na internet, fomos direto à entrada e passamos para o Eixo Monumental do Park, um dos lugares mais lindos que já vi em minha vida. 


 

Na verdade, quase fomos barradas na porta, porque nossos ingressos diziam que deveríamos chegar às 10 horas e já passavam das 12. Explicamos que nos perdemos e que quase morremos para subir a ladeira a uma moça loura que pegou nossos tickets e pediu-nos para esperar. Em catalão e entre risos, ela falou com alguém na administração e fomos autorizadas a entrar. Agradecemos muito e fizemos nosso passeio por um parque lindo, cheio de esculturas e muitas surpresas. Escolhi visitar esse lugar por causa de dois clipes: "Irmã de Neon", do Djavan, que foi gravado justo nesse lugar onde Luiza está fazendo uma foto. O outro é "Amado", da Vanessa da Mata, em que ela aparece passeando nesse lugar onde Luiza está acima. 


Mercado Boqueria
Na sessão da tarde/noite fomos no mercado Boqueria e andamos o circuito vermelho inteiro, passando por La Pedreira e pela Casa Batló. Passamos também pela Igreja Sagrada Família na ida ao Park Guell, mas, não descemos. Fica para a próxima, do mesmo jeito que ficou o Campi Neu, pois visitar a casa do Barcelona sem Tony Neto é um traição imperdoável. 

No outro dia, após comprar as lembrancinhas, ainda demos mais uma volta na Rambla e nos despedimos de Barcelona, certas que iremos voltar tomamos o Aerobus na praça, ao pé do El Corte Inglés, e seguimos para o aeroporto onde pegamos um voo para Lisboa, nossa despedida da Europa.

Ficam os clipes que inspiraram nossa trip no Park Guell. Tenho absoluta certeza de que voltaremos a Barcelona, uma cidade mágica, como bem disse o Prof. Luis Pedro. Voltaremos muitas vezes. 





Fiquem com Deus.



domingo, 6 de agosto de 2017

No caminho a caminhar: Madrid

Então, depois das 14 horas Francislê e Fábio nos deixou na estação de trens de Salamanca, que a mim, mais parecia um shopping, toda moderninha no vidro verde. Compramos nossos tickets e um lanche, e foi o tempo de encontrar a plataforma e embarcar num trem cm as poltronas mais duras de toda Europa. Apesar do transporte ser muito moderno, me senti nos velhos trens de Garanhuns, se realmente os bancos do Centro cultural forem os assentos que o pessoal viajava.  Pelo caminho, enquanto Luza cochilava com os fones nos ouvidos, eu olhava a paisagem passar à 120 km/h. Na parada de Segóvia-Guiomar, entrou um casal de caras já meio chegados na idade, e sentaram-se nas poltronas ao nosso lado. Essa estação é engraçada porque parte do percurso é feito num túnel. Parece que estamos no metro. Pelas 16 horas, o serviço de informação do trem avisou que chegávamos a Estação de Chamartin, em Madrid.

Pois ai eu fiz uma bobagem, mesmo por falta de informação ou melhor, falta de pesquisa de minha parte (um absurdo! Que espécie de pesquisadora sou eu, se não atentei para um detalhe tão básico?) Descemos em Chamartin, e deveríamos pegar um trem complementar para Puerta Atocha, uma estação que fica bem no meio da cidade. Eu, fui-me embora pegar um táxi. Essa besteirinha me custou 32 Euros. Mas, teve suas vantagens. Chegamos na fila dos táxis, e um senhorzinho acenou-nos. Rapidamente, abriu a mala do carro e acomodou nossas bagagens (os taxistas europeus adoram passageiros com malas porque elas - as malas - pagam tarifa extra). Mostrei o endereço: Gran Via, 42. O sujeito, no apressado espanhol madrilenho, logo perguntou se éramos dominicanas (?), e ficou mais animado quando dissemos que éramos brasileiras. Para o meu total espanto, disse-nos que não se vê muitas brasileiras em Madrid. Fiquei espantada, porque no noticiário, o que mais aparece são as moças brasileiras que vão fazer a vida nas calles madrilenhas. O homem passou o caminho inteiro tentando conversar conosco. Luiza afundou-se no banco de trás ao meu lado e pôs os fones, daí eu que tive que me virar com o tagarela. Perguntou-nos se era a primeira vez em Madrid. Expliquei que sim e, mas que vinhamos de Salamanca, uma cidade muito linda. Aos meus rasgados elogios, o sujeito reagiu:

- Salamanca? Aquilo lá é apenas uma muralha com duas pedras a mais! Cidade para se conhecer é Madrid!   


E derramou-se de elogios pela sua cidade, apresentando-nos os prédios que apareciam no percurso. E eu que achava que os baianos eram bairristas. Isso, até conhecer um típico cidadão de meia idade de Madrid. Pois bem. A conversa continuou, o sujeito me perguntando o que iriamos fazer na cidade. Emendou dizendo que a noite era muito agitada, e que nós gostaríamos de "levar uns copos". hein? cutuquei Luiza com o cotovelo, que a esta altura já havia se interessado na conversa em espanhol-inglês-português. Ela interferiu:
- Levar uns copos deve ser ir para a noite, mainha.
Ah, tá. Expliquei que não, que o nosso objetivo era ver os museus. Ele indicou-nos uma mão de museus. Falei que iríamos ao Prado na manhã seguinte. 
Então, ele informou-nos que o trecho onde iriamos ficar era muito agitado, que funcionava pelas 24 horas. E eu, achando que estava arrasando no espanhol, tasquei:
- Ah, é muito animado.
E, para minha completa surpresa, o homem respondeu sério, olhando-me pelo retrovisor:
- No, animais no hay!
Retruquei, explicando-me, enquanto Luiza segurava o riso: "não, the place is funny!" Ele não entendeu. Então, emendei: "The people are happy!", com isso ele concordou: "Sí. Las personas são mui contentas." God! Contente resolveria todo o meu impasse idiomático. 

Enquanto isso, o taxímetro zunia. Quando paramos na Gran Via, do lado oposto do número 42, quase que eu pedia para o homem dá uma rezinha para diminuir a minha conta. No prédio, após o terceiro andar, há um ou dois hostels a cada piso. Fizemos a reserva pelo Booking.com, depois de ler muitos relatos de viajem, mas por causa da localização. Ao fazer o check-in, fui pagar com o cartão de crédito, e mais uma vez, não funcionou. Paguei com dinheiro mesmo, pois o jovem já estava me olhando como se eu tivesse cara de estelionatária. Deixamos as malas no quarto vizinho ao 6 não tinha número na porta), de um corredor claro com cheiro de pastilha de melancia. O banheiro partilhado, ficava bem em frente a nossa porta e era bem limpinho. Menos mau. Fomos andar pela Gran Via, nos acostumando com a cidade grande. Muita gente, e para nosso espanto, toda a gente era bonita! Os casais idosos, bonitos. Os homens, lindos. As mulheres, maravilhosas. Os cães, fofos. Os gays, divinos. Aliás, é digno de nota que apenas em Madri foi que identificamos os gays espanhóis, pois em Salamanca parece que a galera não dá muita bandeira. Em Madrid, até quem é feio, é bonito. Entramos numa rua, não me lembro o nome, mas que parecia um shopping a céu aberto: todas as lojas chiques estavam marcando presença. Muita gente andando, comendo, passeando. Muitos músicos de rua. Fiquei encantada. Mas, já eram mais de 9 da noite, e tínhamos que arranjar um mercado para comprar água e umas besteiras para passar a noite. 

No outro dia, pela manhã, após resolver a embrulhada do cartão por um telefone público que faz ligações internacionais à moedas, que Tony descobriu que eu não havia informado a administradora de crédito que iria para o exterior, e por isso o bendito não funcionava, tomamos uma cafezinho na Pans e compramos nossos tickets no Red Tourism Bus. Uma senhorinha nos atendeu muito bem, oferecendo opções de idioma: "Spanish, English or French?" Luiza tomou a frente, e negociaram os tickets. Ela pagou 16 e eu 24 euros. O desconto dela é porque ela tem menos que 16 anos. Ótimo! Esse ônibus é ótimo para quem tem pouco tempo na cidade, faz três roteiros, começando a rodar pelas 10 da manhã até as 10 da noite, e você pode descer em quantas paradas quiser. Pegamos o Ônibus na Gran Via e nossa primeira parada foi no Museu do Prado. 
Cãozinho cantor na parada do Museu do Prado

Eu, na estátua de Cervantes, na frente do Museu do Prado
Havia planejado essa visita milimetricamente. Queria que Luiza visse as obras dos espanhóis Velasquez, Goya e El Greco, e do italiano Rafael. Comprei os tickets pela internet, pois além de ser mais barato, é mais prático e não corre o risco de ser barrado na porta, como fomos no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, porque não tínhamos tomado essa providência. Logo na parada do ônibus, nos deparamos com duas maravilhas: O imenso prédio de mármore rosa e um músico de rua acompanhado por um cãozinho, que em um determinado trecho da música, executada no saxofone, ele uivava, cantando! Coisa mais linda do mundo. Todos aplaudiram o animal, demos algumas moedas e um carinho nas orelhas do cão e fomos ao museu. 

No museu não é possível fazer fotografias. Fizemos a visita livre, nos perdendo e nos encontrando entre as salas do acervo gigantesco. Dos autores, só não vimos o El Greco. Demos muitas risadas enquanto olhavamos "la maja nua", de Velasquez. Não é por nada não, a dona é até bonita, mas, ao lado colocaram a mesma pintura, com a mulherzinha vestida. Então, na primeira tela, Luiza leu na plaquinha miúda: "la maja nua." Em seguida, sem ler, eu já decretei: "Essa deve ser la maja vestida, né?" E não é que era? E os asiáticos ficaram nos olhando, sem entender porque nós dávamos tantas risadas. A parte que mais gostamos foram as esculturas gregas e italianas em mármore, cada uma mais linda que as outras. Enquanto apreciávamos, Luiza ia me explicando sobre os deuses gregos, que ela tanto gosta, graças as leituras do Percy Jackson. 
Jardim Botânico de Madrid

Saímos do Museu pelas 14h30, sob um sol de derreter. Como já havíamos comido uns sanduíches na lanchonete do Museu (chique e caro: 26 Euros por dois bocadillos de jamon ibérico e dois zumos de naranja. Mas utilizei a máxima de Mano do Caetano: "quando é que vou voltar aqui?" Felizmente, o cartão funcionou), passamos para o Jardim Botânico de Madrid, que fica bem ao ladinho do Museu do Prado. Não estava no programa, mas Luiza insistiu em visitar. Neste há muitas espécies de árvores e plantas diversas, Só não tinha muitas flores, porque as estações do ano não brincam em serviço na Europa: Quer ver flores? venha na primavera. Lá no final, no pavilhão, havia uma exposição sobre duas visitas de Elliot Erwit a Cuba. Como não pagava, entramos. Gostei muito. Esperei o monitor se distrair lá dentro e fiz uma foto da foto que mais gostei:
O Mulherio Cubano e Fidel, foto de Erwit.
Ao sairmos ainda acompanhamos uma sessão de fotos de um casal de noivos e fomos procurar água. Entramos em um bar, mas era na hora do almoço, e ninguém quis nos atender. Andamos mais um pouquinho, entramos noutra rua, desviamos de um grupo de moradores de rua, e achamos um Carrefour Express. Ótimo. Compramos água e fomos pegar nosso ônibus, pois o calorzinho de 41 graus exigia uma parada. Voltamos ao hotel e, depois de um banho e uma olhada na internet, pegamos o transporte para a Plaza Mayor e o Palácio das Cibeles. Infelizmente, as fotos ficaram horrendas, não sei o que deu. Depois de zanzar por lá, pegamos de volta o transporte para a Gran Via, pois Luiza precisava de umas camisetas e a Primark estava na sua "segunda rebaja". Primark é um varejo irlandês que tomou conta da Europa nestes últimos anos. São lojas imensas, que vendem tudo de confecção. Na loja de Madrid, são cinco andares circulares de roupas e acessórios: três de coisas para mulheres, um para homem e um para crianças. Compramos algumas camisetas e fomos atrás de comida. Jantamos bobagens na Hamburgueza Five Guys, depois de enfrentar fila na porta. Mas, como era na mesma calçada do nosso Hostel, não havia problemas. 
Fotos: Ana Freitas (é o nome artístico da guria!)

No outro dia, depois de um cafezinho, fomos comprar pequenas lembrancinhas nos quiosques que pontilham a Gran Via. Ainda passamos rapidamente na estação do metro, mas, decidimos que era melhor tomar um táxi até a Estação Atocha. De lá, daríamos um jeito de chegar a Barcelona, nossa próxima e última parada em Espanha.  

Até o próximo capítulo, fiquem com Deus.
    


domingo, 30 de julho de 2017

No caminho a caminhar: Salamanca


Catedral de Salamanca, vista da janela do quarto 307 do Hotel San Polo
Então, quando saímos de Aveiro, já na manhã do dia 12 de Julho, o mundo estava envolto numa neblina que acentuava a sensação de frio. Apesar de ser verão, Aveiro tem dessas coisas: a neblina matinal com cheiro de sal anuncia que teríamos um dia de calor. Pegamos o ônibus na Ria para Albergaria-à-Velha, uma cidadezinha a 30 quilômetros de Aveiro, que tem uma rodoviária bem movimentada. Chegando neste lugar, você pode ir a muitos lugares de Europa. Lembro de ter visto no painel com impressões debotadas à jato de tinta linhas para Nice, Frankfurt, Luxemburgo. Havíamos passado por aqui uma vez em 2012, quando fomos à Viseu. 

Quando chegamos eram umas nove e meia da manhã. Já havia pesquisado que passaria um expresso às 11h07, numa linha Porto-Madrid-Porto, que entrava em Salamanca, o nosso destino. Localizei o guichê e pedi dois tickets. A mulher olhou para mim, meio incrédula, e respondeu: "deixe-me ver se ainda há." Meu coração foi para os pés. Alguns cliques depois ela disse: "Quase que ficas à pé. Ainda há dois lugares." Voltando a respirar, dei graças a Deus, pois precisava chegar em Salamanca no dia 12, quando começava oficialmente o encontro. Depois de mostrar nossos documentos para mais um scanner e pagarmos 100 Euros pelas duas passagens, esperamos na sala de embarque, onde havia uma TV e ventava menos. Enquanto três guris paqueravam Luiza, eu providenciava os lanches, pois já sabia que a viagem seria longa.  

Quando chegou o ônibus, acomodamos nossas coisas no compartimento de cargas e nos sentamos no fundão, as duas últimas cadeiras disponíveis, pensando com os meus botões que iríamos levar muitos "catabius" nas últimas cadeiras. Engano meu. É preciso desligar a mente das estradas ruins e quebra-molas que estamos acostumados a enfrentar no Brasil. As rodovias europeias são verdadeiros tapetes quadruplicados, bem sinalizados e livre de obstáculos. Apesar disso o limite de velocidade é de 90 km/h, o que equivale dizer que o ônibus anda igual uma anta e a viagem demora imensamente. Para vencer os 288 km,  gastamos quase quatro horas e meia. Além da leseira, o ônibus é um euro pinga-pinga: entrou em Viseu, Guarda, Almeida e Ciudad Rodrigo. Entre estas duas últimas tem o posto de fronteira entre Portugal e Espanha. Lá, o ônibus parou e entraram dois policiais espanhois vestidos de preto para verificar os documentos dos viajeros. O policial (com imensos olhos verdes), veio direto para nós.  Olhou-nos, com meu documento nas mãos, e perguntou: "Brasileiras?" Com sorrisinhos, confirmamos. Entreguei o documento de Luiza e acrescentei: "Is my hija." Ele pôs um ar de riso pelo mix idiomático, devolveu-me o documento e ainda disse em claro português: "obrigada". Essa foi a nossa passagem pela famosa imigração espanhola. Depois que os documentos de todos foram analisados, seguimos viagem. A próxima parada foi num posto da Ciudad Rodrigo. Comemos bocadillos de jamon ibérico (sanduíche de presunto ibérico) com zumo de naranja (a palavra mais difícil de pronunciar no mundo!). Luiza comprou uma barra de chocolate Milka (do lilás, ela adora) do tamanho do meu antebraço e uma garrafa de 1,5 de água. Aqui cabe um parênteses sobre a água:  Desde que voltei em 2012, repleta de vermes por causa do tal hábito europeu de tomar água de torneira, que me nego a fazer esse tipo de economia. Até porque uma garrafinha de 500 ml que cabe discretamente na bolsa, custa 0,45. Prefiro pagar 0,65 numa de dois litros, apesar de ter que andar com o trobolho na mão, mas que me incentiva a beber a água para aliviar a carga.

 Uma coisa curiosa é que, já no caminho, a temperatura estava bem acentuada, por volta dos 39 graus. Chegamos pelas 16h10 na rodoviária, seguindo de táxi para o hotel. Pegamos um taxista meio idoso que não falava inglês e não entendia uma palavra do que eu balbuciava em espanhol. A solução, inspirada em Vando da Travessia, foi mostrar o papel com a reserva, onde estava escrito o nome e endereço do hotel. O velho ainda tentou conversar conosco acerca del tiempo caliente, mas o diálogo resumiu-se a duas ou três frases. No hotel, misturando espanhol e inglês, conseguimos fazer o check in com uma atendente chatíssima (uma exceção) e depois, partimos para o Colégio Maestro Avila, onde estava acontecendo o evento. Anotei tudo num papel, e, fomos achando que, como é uma cidade pequena, encontraríamos facilmente o endereço. Só que o pedaço onde estávamos é o centro histórico, e Salamanca é uma cidade medieval. Você já andou numa cidade medieval? As ruas não têm a mínima lógica! A cidade é muito linda, mas a urbanização não entra da minha cabeça! Então, eu me perco de palmo em palmo. Quando conseguimos chegar, após tomar um táxi, já era a hora do coffee break. Havia muitos congressistas brasileiros e portugueses, alguns norte-americanos, ingleses e espanhois. No meio da muvuca acadêmica, encontramos Francislê e Dayse, que nos obrigaram a tomar parte no lanche, mesmo sem fazer credenciamento. Ficamos as duas lá, de penetra, tirando fotos com pessoas muito amáveis, que nunca vimos na vida. 

Luiza fazendo pose na Plaza Mayor
Concluída a social, deixamos o credenciamento para o outro dia e fomos andar na cidade. O plano era ir à Plaza Mayor, ver um ponto turístico importante, mas, que eu estava interessada em ver a locação utilizada no filme "Ponto de Vista" (Vantage Point, 2008), que já assisti mil vezes na Sky. No filme, o Presidente dos Estados Unidos foi fazer um pronunciamento na Plaza Mayor, durante um encontro do G7, e sofre um atentado. A história é contada sob o ponto de vista de vários participantes, e numa cena, a menina pequena toma um hellado na Plaza. Fomos procurar a tal Hellateria, onde  enfrentamos uma fila repleta de asiáticos para comprar os nosso hellados de Ferrero Rocher por 2,50. Uma delícia! Ficamos por ali, olhando o povo todo, até quando Luiza disse: Vamos embora? Fomos andando... e nos perdemos. Quando as construções estavam ficando muito modernas e já estávamos andando como os zumbis de walking dead, pegamos um táxi, que por 4 euros nos deixou na porta do hotel. À noite, depois de um belo banho de banheira (que Luiza "timbungou" e a água deu no quarto!), saímos para comer pizza na praça da Catedral.  
Numa ruazinha ao lado da Catedral de Salamanca

Casa das Conchas
No outro dia, estava esperando o telefone despertar às 7h20, pois o horário do encontro era às 9h. 7h02 liguei a TV, e fiquei olhando o noticiário, me esforçando para entender alguma coisa. Foi quando percebi que o relógio ao pé da tela estava com uma hora a mais! 8h03! Só Jesus na causa! Nem imaginava que entre Portugal e Espanha há uma hora de diferença horária. Me arrumei rapidinho, deixei Luiza no hotel, prometendo voltar pelas 12h30 para o almoço. Me armei com um mapa que arranjei na recepção do hotel, e fui enfrentar as vielas do centro histórico. Me perdi algumas vezes, passei um tempo na frente do pórtico da Reitoria procurando la rana junto com uns turistas austríacos e depois, segui caminho para Calle Fonseca. Perguntei duas vezes para saber se estava no caminho certo, e às 9h03, cheguei no meu destino.

A Universidade de Salamanca, fundada em 1218, tem muitas histórias. Seu símbolo é uma rã esverdeada em cima de um crânio, simbolizando que os saberes são efêmeros e que o ser humano é finito.  Bruna Jacques, que morou por oito anos em Salamanca me exortou a procurar o bendito anuro. Pois, no pórtico da reitoria tem um entalhe na pedra da miserável de uma rã, que todas as vezes que eu passei lá procurei a danada e nunca encontrei. Quando cansei de procurar, googleei la rana, para não ser vencida. À tarde, sob um calorzinho básico de 43 graus, fui buscar Luiza e almoçamos num restaurantezinho próximo da Rua Mayor. Pelas 16h, haveria uma conferência, e ela foi comigo. Depois fomos nos perder mais umas cem vezes, mas dessa vez, conseguimos chegar ao hotel sem precisar de táxi. Mais uns dias, aprenderíamos os itinerários. Só aconteceram duas coisas estranhas, que iria repercutir no andamento da nossa aventura espanhola. Primeiro, entramos numa lojinha de souvenirs na Rua Mayor. Luiza escolheu um moletom da Universidade e eu peguei alguns enfeites de geladeira para oferecer como recordação. Ao passar o cartão de crédito, não funcionou. Acabei pagando em dinheiro, mas fiquei com a pulga atrás a orelha, sem entender o que estava acontecendo. Depois, à noite, enquanto Luiza dormia o sono dos justos, me lembrei da história do "quase ficam a pé", e fui tentar comprar a passagem de trem de Madrid para Lisboa. Por mais que eu tentasse, sempre dava indisponível. Me aperreie e entrei no site da ibéria (www.iberia.com) e fui pesquisar o preço de passagem aérea. Como a diferença era tão pouca, acabei comprando um trecho Barcelona-Lisboa. Como o cartão de crédito funcionou e a companhia mandou o identificador da passagem, fui dormir mais ou menos tranquila, pois no dia seguinte seria a apresentação do nosso artigo.

Apresentação do nosso artigo
Saímos do hotel com nossas malas, fazendo o check-out do hotel pelas 9 da manhã, após tomarmos o café da manhã num pequeno café vizinho do Mosteiro das Carmelitas. No congresso, 70% dos participantes eram da área de saúde: médicos, enfermeiras, farmacêuticos. Assisti trabalhos muito bons, todas as sessões de comunicação tinha sala cheia, o que é um diferencial do CIAIQ. Aprendi algumas coisas novas, solidifiquei alguns conhecimentos já aprendidos. Foi interessante. Na apresentação,  Luiza ficou como passadora de slides e o pessoal fez algumas perguntas sobre as comunidades de prática. O artigo está disponível no volume 1 das atas do congresso, e quem tiver interesse de conhecer, pode acessar no link http://proceedings.ciaiq.org/index.php/ciaiq2017/issue/archive

Duas grandes impressões nos marcou a estadia em Salamanca: primeiro, a paciência divertida dos espanhóis em tentar nos entender. Misturando inglês, espanhol e alguma mímica, eu já desenrolava alguma coisa. Contudo, precisava me calar para que Luiza desenvolvesse suas habilidades com o inglês. Outra imagem que permanecerá sempre em minha mente são as andorinhas em vôo pelo centro histórico. Na Calle Fonseca, entre os prédios históricos de pedra dourada, as aves brincavam em voos rasantes sobre nossas cabeças, numa alegria de passaredo. Lindo.

Concluída nossa participação, já pelas 14h, Francislê e Fábio insistiram em nos levar à estação dos trens, onde pegaríamos a nossa condução para Madrid, próxima etapa da nossa cruzada espanhola, assunto do nosso próximo capítulo.

Fiquem com Deus. 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

No caminho a caminhar: Aveiro

Moliceiros na Ria de Aveiro
Chegamos em Lisboa pelas 11 horas, depois de sete horas e um pouquinho de voo sobre o Atlântico. Até que a passagem pela Linha do Equador não foi muito turbulenta. Apesar disso, não consegui dormir nenhum sono, pois ficamos nas cadeiras do meio da classe econômica, e o espaço exíguo nos incomodava. Luiza ainda encostou a cabeça no meu ombro e tirou uma soneca. Eu, fiquei nos cochilos esparsos. Quando desembarcamos, sempre há aquela tensão de passar pela imigração. Não que tenhamos coisas erradas, mas nem sempre é possível prever as exigências para ser aceito no país dos outros. Passamos batom, alisamos os cabelos da melhor maneira possível para tentar passar uma melhor impressão, apesar da noite insone. Pois, foi engraçado. O inspetor da imigração cumprimentou Luiza em inglês, que prontamente respondeu no mesmo idioma, enquanto apresentávamos nossos passaportes abertos na página das fotos. O sujeito olhou, e perguntou-me se éramos irmãs. Agradeci a gentileza, e expliquei que a jovem era minha filha. Em seguida, perguntou-nos para onde iriamos. Expliquei do congresso em Salamanca, mas que antes iriamos passar o restinho do dia e a noite em Aveiro, só partindo para a Espanha no manhã seguinte. O rapaz passou de oficial de imigração e deu uma de guia turístico: "Ah, vocês irão adorar aquilo lá a essa época do ano! É muito bonito. Hoje já passou por aqui um senhor brasileiro, vai a esse mesmo congresso. Ele é psicólogo. Você é psicóloga?" Expliquei-lhe que sou professora de metodologia de pesquisa, enquanto ele escaneava nossos documentos. devolveu-nos os passaportes recomendando que não deixássemos de procurar "la rana" no frontão da reitoria. Sem entender nada, agradeci, nos despedimos e seguimos. Nunca tive uma recepção tão amigável em Portugal.

Seguimos para Aveiro no comboio das 14h07, depois de comermos nossos pães com chouriço numa lanchonete da Gare do Oriente.  Ao contrário das minhas pesquisas, era um Alfa Pendular que só fazia uma parada em Coimbra B, antes de Aveiro. Melhor assim, pois tive um tempinho de dar um cochilo sem me estressar com a nossa parada. Foi um pouquinho mais caro do que constava no meu planejamento, mas, uma viagem num Alfa Pendular vale a pena, é um trem tão chique! Luiza dormiu as duas horas de viagem, o que ajudou a melhorar o humor da pequena. Para ela,  a viagem a Portugal era um  retorno a infância: muita coisa ela ia lembrando ao longo do caminho. Chegamos em Aveiro pelas 16 e pouco. A pensão que havíamos reservado por 45 Euros ficava bem ao pé da Estação dos Comboios. Após ajeitarmos nossas malas no quarto de um prédio de 1924, saímos para reencontrar a cidade. 

Fizemos uma primeira parada numa quitanda onde comprávamos frutas a caminho dos comboios para um passeio qualquer. Sempre gostei muito dessa lojinha pois a senhora que atende é muito atenciosa, os preços são bons e as frutas, sempre frescas e bem limpinhas. Comprei cerejas frescas e fomos comendo pelo caminho, enquanto conferíamos o que havia mudado. Fomos andando até o Forum, um pequeno shopping que domina parte importante da vida social do centro da cidade e demos um alô para a ria.    

Ria de Aveiro
 O plano era ir ao Ramonas almoçar cachorros-quentes. Essa lanchonete foi um lugar importante para nós, pois, quando saíamos da escola na sexta-feira, e tínhamos algum dinheirinho, era lá que fazíamos o jantar do primeiro dia do final de semana. Às vezes, como diz Luiza, eu estava numa "bad profunda", na fase de conclusão da tese de doutoramento, que não conseguia comer nada, tomava dois copos imensos de suco de laranja com cenoura. Do Ramonas, passamos à frente da Escola da Glória, onde Luiza estudou por dois anos, antes do prédio ser fechado para uma reforma.

Escola da Glória, Aveiro.
Tenho uma imensa gratidão a esta escola, que recebeu tão bem a minha pequena. Aqui ela aprendeu muito, teve a oportunidade de fazer a base de sua educação em uma excelente escola, com professores maravilhosos. 

Da escola, passamos no nosso antigo endereço e fomos ao Parque D. Pedro. Nesse espaço brincamos muito nas intermináveis tardes de verão, compramos kitkat na barraquinha da esquina, demos comida aos peixes do lago e aos pombos.
Eu, na pontezinha da Casa de Chá, Parque D. Pedro, Aveiro
Ponte Pedonal. Liga o Parque D. Pedro a Baixa de Santo Antonio, Aveiro.


 Quando saímos daqui, em 2013. parte do parque estava fechado para reforma. Construíram uma Ponte Pedonal que liga um lado ao outro da Avenida que termina na rotunda do Hospital e da Universidade. Não achei a obra grande coisa, acrescentando pouco a paisagem, mesmo tendo custado uma fortuna. Subimos a rua, passamos pelo Hospital e demos a volta pela passarela que liga a calçada lateral da Escola João Afonso, onde Luiza estudou seu último ano, em razão da reforma da Escola da Glória. No espaço, não há mais nada, somente a base onde foram assentados os prédios provisórios. 

Reitoria da Universidade de Aveiro
Entramos no campus da Universidade de Aveiro. A esta altura nossos pés já doíam imenso, e a esta época, quase não há estudantes no Campus, somente alguns poucos bolsistas e servidores. Sentamos à frente do prédio para descansar um pouco. Percebi que agora há o número e o nome do prédio nas fachadas de vidro. Na época em que eu era aluna novata sofri para identificar os prédios, pois tudo era muito discreto. Nas minhas primeiras semanas, dei muita cabeçada para achar o prédio de Comunicação e Arte. Descemos a rua, passamos pelo prédio que acompanhamos a construção à frente do nosso pequeno apartamento. Atualmente, é um grande edifício, cujo piso térreo é um centro médico, com clínicas diversas. Passamos pelo Largo do Tribunal e descemos pela Rua Belém do Pará, que nós chamamos de Rua do Vento. Há muitas lojas novas, reconheci apenas a ótica que frequentávamos para consertar os óculos de Luiza e algumas pastelarias tradicionais. Entramos por um bequinho que dá no Fórum. A casa abandonada ao lado foi demolida e estão construindo um prédio. Deixei Luiza esperando na frente da Zara (na nossa época era um supermercado Pingo Doce) e fui saber onde tomar o autocarro para Albergaria-à-Velha, próxima etapa da nossa viagem. Na revistaria, a jovem me explicou que agora o ponto era ao pé da Ria, na paragem dos autocarros que vão para  Costa Nova. Beleza. Quase nos arrastando de tanto cansaço, ainda passamos numa loja de doces que há no Fórum para Luiza comprar umas gomas de amoras. Ela comprou isso e mais outras coisas, e, já com calos nos pés, pegamos um táxi na outra avenida, ao pé do Banco Santander. 

Quando chegamos à pensão, já passava das nove da noite, embora a visão da janela do nosso quanto nos mostrasse essa imagem:
Estação dos Comboios, vista da janela do quarto do Alojamento Tricana de Aveiro
No verão, os dias são longos e entram pela noite. Quando fica escuro já passam das 22 horas. Fechamos nossas cortinas e após um banho relaxante, como nos velhos tempos, dividimos a cama de casal do pequeno quarto. 

O ventinho frio da cidade litorânea nos avisava que o dia posterior seria ensolarado, mas, que, como sempre, começaria nublado e friorento. Fomos dormir, agradecendo a Deus a oportunidade de ter vivido nesta cidade pequena, mas cosmopolita, que sabe respeitar as diferenças culturais e recebe carinhosamente a todos que chegam em busca de conhecimento. É muito bom poder voltar a uma cidade querida e perceber seus progressos e suas permanências, lembrando histórias engraçadas a cada troca de calçada.

No outro dia, logo cedo, após um cafezinho com meias-de-leite, torradas e pasteis de nata, envoltas no vento frio cheirando a sal, tomamos um táxi na frente da estação até a Ria para pegar o autocarro para continuar a nossa viagem, que fica para o próximo post.

Fique com Deus.