Tenho lido muita coisa sobre educação. Afinal, esse é o meu atual trabalho: ler e esboçar ideias, que no futuro serão aproveitadas ou não para a tese em que venho trabalhando. Nestas leituras, tenho encontrado muita coisa boa, principalmente de origem francófona. Não sei porque razão me identifico com esses pesquisadores, cuja realidade é tão diversa da nossa educação brasileira. A intenção primordial destes textos primitivos que tenho rabiscado é comunicar estas ideias de um modo mais leve. É preciso reconhecer que às vezes as teorias são cansativas. Alguns teóricos da educação querem dizer uma coisa tão simples, mas complicam tanto, dão tantas voltas, que se lê por pura obrigação. Não consigo evitar o pensamento travesso: Qual o professor que tem dois (ou mais) empregos, com 200 horas de aula em cada um, trabalhando até os três horários, vai suportar ler aqui tudo? Queria construir um texto leve, compreensível ao gladiador de qualquer nível. Até porque, vivemos todos na mesma arena.
Nestes caminhos pela criatividade alheia, tão profícuo em termos repletos de significados, penso que gostaria de criar a categoria "Educação pela convivência". A didática tipifica a educação em Formal, Informal e não Formal, qualquer livro do ciclo básico de pedagogia explora essa classificação. Enquadraria esse termo no âmbito da educação não formal, e defenderia que a aprendizagem pela convivência vai além da educação pelo exemplo, pois a educação pelo exemplo tem uma intenção velada de educar. Já a educação pela convivência é completamente espontanea, é aquela situação que aprendemos ao acompanhar a experiência vivida pelo outro. Algo assim, mais processual, menos eventual.
Essa conversa de educador, na qual estou me especializando, é toda para compartilhar impressões que tenho colhido através da convivência com os portadores de câncer. Doença traiçoeira e silenciosa, enquadro-a no rol das doenças horríveis, e Tony rir-se de mim a me perguntar: "E existe doença boa?" Pois, apesar dos fatores ambientais que contribuem para o surgimento da doença, o câncer é uma luta aberta entre você e você mesmo. Afinal de contas são as suas células que mudaram de lado e agora estão jogando contra o patrimônio. Apesar dos avanços nas tecnologias e nos tratamentos, o diagnóstico é sempre terrível de se receber, ainda soa como uma sentença de morte. Mas, é nessa hora que o infeliz receptor da má notícia surpreende e enfrenta a doença com uma atitude positiva. Impressionante como se agarram a qualquer percentual de chance que tenham, mesmo as mais pequeninas. E vão à luta com qualquer arma disponível, à favor da vida.
O Câncer não faz do seu portador uma pessoa melhor. Mas, a trajetória do doente de câncer na sua busca diária pela sobrevivência pode ser uma excelente oportunidade para aprender pela convivência.
Mônica nunca desistiu. Conheci-a madame em boutique de mulher rica, e depois a reencontrei nos bancos do curso de Direito. Lutava contra a doença e viveu todas as fases - do diagnóstico ao tratamento - junto conosco em sala de aula. Ensinou-nos que o bom humor é o primeiro passo para a cura e para dá a volta aos problemas. E no final do curso, já nas fases finais do tratamento, encarou os apertos da "professora treva" (é assim que ela me chama até hoje), escreveu sua monografia, sem nunca se valer da doença para ter prazos maiores ou condições diferentes dos colegas. Na defesa, chegou elegantíssima com seu novo penteado à la garçon, saltos altíssimos e os cordões de contas à volta do pescoço. Apresentou suas ideias e respondeu as perguntas serenamente. Me vi muito mais apreensiva do que ela. Passou por tudo, venceu a doença e terminou o curso, mantendo sempre a sua risada sonora, dando diploma de ser feliz.
Não há como não aprender a relevar bobagens, a ter paciência, mas não esperar sentado que os problemas se resolvam sozinhos convivendo com pessoas como Clodoaldo. Há dias que ele não está nada bem. Cansado, pois os gladiadores também cansam de lutar. Quando trabalhávamos na mesma sala, ele chegava com a inseparável mochila e o notebook e dizia: "Só queria que hoje Deus me tirasse desse mundo!" Nos primeiros momentos, me chocava aquele pedido. Um dia, tasquei: "Pode tirar o cavalinho da chuva, pois o seu prazo de validade ainda não expirou. Se conforme, e continue ai, que é o seu canto." Ele me olhou surpreso, e gargalhou, respondendo: "É o jeito!" E o dia ficou melhor para nós. Daquele convívio em diante, toda vez que amoleço por alguma dor ou esmoreço por algum problema, Clodoaldo me chama à responsabilidade, pois a luta dele continua e a minha, também. Então, levanto e cuido na vida. Mesmo que a glicose dê KM!
Saúde para vocês!
Até amanhã, fiquem com Deus.
PS: Esse negócio da glicose dá KM é quando a dosagem está tão alta que o aparelho não consegue medir. Havia dias que ele chegava, e eu perguntava: "Estás bom, Clodoaldo? E a glicose?" ele, respondia com uma voz animada: "Tô ótimo. A glicose deu KM! É bom que eu nem sei em quanto ela está!"