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domingo, 28 de setembro de 2014

Esperando aviões

Dos últimos dias, é esta a impressão: estou esperando aviões. Em parte, ao pé da letra. E por isso, pelas duas noites incertas aqui e ali, tentando acertar o caminho, dormindo e acordando, entre a virgília completa e o olho pregado nalgum relógio ou monitor. Quando se vai no caminho, mesmo dormindo, mantenho-me num estágio de semi-vigilância: um olho aberto e um fechado. Talvez seja por isso que estou tão cansada. Ou pelo ar artificial que ressecou e sangrou meu nariz na falsa madrugada lisboeta. Ou seja somente efeitos dos fusos horários. Ou da necessária espera do compromisso próximo. "Sou pista vazia esperando aviões."

Minhas provas foram confirmadas para 29.09, na sexta, 19.09. Em dez dias, minha vida tornou-se um fuzuê de marcar passagens, arranjar dinheiros, arrumar malas e partir. Adiantei umas coisas no serviço, outras deixei para trás, É necessário desapegar e confiar nos colegas, pois se trabalhamos juntos, é porque todos temos competências. Outras tarefas, que somente a mim se destinam, me aguardam quando voltar. Felizmente são papéis e notas, não vão sair a correr, me denunciando o descaso nas ruas. Deixa que isso, eu mesma faço. Tentei ao máximo arranjar as coisas em casa: rotinas da criança que não pode acompanhar-me, por conta da escola, atribuições do par, que não pode vir por conta do trabalho. Atravessei sozinha. Mas, antes, tinha que ter uma saga. Se não fosse assim, não era comigo.

Já na quinta à noite, Tony lutava com o horário apertado da campanha eleitoral para levar-me ao Recife. À muito custo, consegui convencê-lo que não fazia sentido a ginástica na agenda e o cancelamento de compromissos profissionais  somente em nome do meu conforto. Fui mesmo de ônibus. E olhem que fazia anos que não viajava de ônibus na famigerada Jotude. Por sinal, o selinho da bagagem é o identificador da minha mala: enquanto os bacanas enfeitam suas valises caras com toda sorte de fitas coloridas e adereços dos mais diversos, a minha tem um selo da Jotude. Duvido a confundi-la com qualquer outra. Pois bem, o problema foi que cheguei na estação Joana Bezerra por volta das 18 horas e o metrô estava impraticável! como estava com algum dinheiro em espécie, para cambiar para Euro, fiquei com medo e peguei um táxi. Preferi pagar mais para garantir a minha segurança e essa foi a primeira besteira da noite: o trânsito infernal me engoliu e só consegui chegar no Aeroporto quase uma hora depois. Não haveria problema com o tempo, pois o voo estava marcado para as 23h30. ESTAVA. No saguão do aeroporto, passei um rabo de olho no painel e quase caio dura quando percebi que o CANCELLED estava escrita bem ao ladinho do voo 16. Ou seja: Toda a minha previdência de chegar um dia antes, para acomodar-me, discutirmos a apresentação, organizar as coisas e adaptar-me aos fusos horários, já era. Meio dormente, entrei numa fila de furiosos passageiros no balcão da companhia, enquanto um agente tentava explicar aos clientes enlouquecidos pelas mais diversas razões os motivos do cancelamento. E  tempo foi passando. Atrás de mim, a fila crescia. Um italiano desesperado gesticulava, pois o visto de permanência expirava naquela sexta-feira fatídica. O outro, repetia: "Dio mio, e ahora?" Cansei de ouvir aquela pergunta retórica e respondi: "E ahora que nós estamos lascados, meu filho. Esse voo só sai amanhã, no mesmo horário". A fila virou um pandemônio. Uma mulher exaltou-se, exigindo os direitos de consumidora. Estava de saída para Paris, com o marido que segurava-lhe o braço, temeroso que ela não arranhasse a cara do funcionário da companhia, enquanto murmurava: "calma, amor." Um outro funcionário, muito paciente, avisou-nos que a empresa iria nos hospedar em um hotel na região e que no outro dia pela manhã, às 10h, faríamos o check-in. O voo sairia às 12h. Teríamos que esperar no saguão do aeroporto até às 20h, quando os ônibus nos transportariam para o tal hotel. O que não tem remédio, remediado está. Fiquei lá, dando risada com os pitis das madames e as bravatas dos bacanas que chegavam a todo instante. Cabe muita gente num 737. E pelo jeito, o voo 16 ia render muito ainda.

Fomos hospedados no Sheareton Reserva do Paiva, que fica bem depois de Candeias, numa reserva florestal. O prédio, ultramoderno, fica numa área em que se paga pedágio para entrar. Biscoito fino. Na frente do hotel, portas envidraçadas imensas e uma fonte luminosa contrastavam fortemente com os meus tênis de viagem, muito gastos. Não mandei ninguém me chamar e a mala com o selinho da Jotude compôs o mar de malas do voo internacional que não decolou por falta de aeronave. Aliás, segundo disseram, a aeronave nem saiu de Lisboa. Uns disseram que foi por problemas técnicos, outros disseram que foi porque não tinha avião mesmo. Não sei. O que sei é que como a empresa é de economia mista, ainda tem uma parte de dinheiro pública, quem pagou para eu me cobrir com o edredon de penas de ganso foi o povo português. Logicamente que não foi tarifa cheia, que a empresa tem convênios e com estas prestadoras de serviços, contudo, pense no luxo, uma maravilha de jantar. Apesar do excelente quarto, cama espaçosa, muitos travesseiros, não preguei o olho. Revisei a apresentação às 2 da manhã, li alguma coisa. Vi tv, internet. Vi o sol nascer e com ela uma dor de cabeça chata.  No outro dia, descemos cedo para o café da manhã, e recebemos a notícia que deveríamos ficar até as 13h. O voo foi novamente cancelado e só sairia às 17h, o que não foi de todo ruim para mim, pois, o que eu iria fazer em Lisboa às 0h, 1 da manhã? Teria que arranjar um lugar para dormir e etc. Voltei para o quarto, assisti, dormi, li, revisei apresentação. Desci para almoçar com um casal paraibano que estavam de mudança para Coimbra. Às 17h decolamos do Recife embaixo de um temporal daqueles. Serviram vinho à bordo para acalmar os ânimos do pessoal. Ao meu lado viajavam um grupo de senhoras que fariam um peregrinação à Praga. Essas danadas conversaram durante todo o percursos. Do meu lado, um senhor jogava paciência num tablet. Nalgum lugar da aeronave, uma criança chorava. Ainda assisti dois filmes. Não teve muita turbulência, mas as fileiras do meio são muito apertadas.  

O pouso foi bom, tudo na paz, chegamos às 4h da manhã. Na imigração, dois inspetores sonolentos carimbavam os passaportes da fila imensa fora de hora. O senhor que me atendeu, conferiu os carimbos antigos e renovou a permissão sem perguntar absolutamente nada. Na alfândega, mandaram-me passar reto. Só faltava as mala. Passamos uma hora à beira de uma esteira inerte. Felizmente, quando começou a rodar, uma das primeiras foi a representante da Jotude.  Sai para o ar fresco da madrugada, pois às 5h30 ainda é noite fechada. Como metro só começa a funcionar às 6h30, tomei um táxi até a Gare do Oriente. Lá, arranjei um Alfa, com destino à Braga, que me deixou em Aveiro às 9h10 de manhã. Pronto. Finalmente, cheguei. Não com o tempo que planejava, mas, a tempo de cumprir a penúltima batalha do doutoramento: a defesa.

Como me consolou uma jovem e simpática médica dermatologista no Hotel, enquanto esperávamos o avião: "o que tinha que dá errado, já deu." Assim espero. 

Até amanhã, fiquem com Deus.   

PS: Esperando Aviões é uma música linda do Vander Lee. Quando vinha subindo as escadas da Gare quase deserta, cantarolava essa música para espantar o medo de lugares ermos, que trazemos no subconsciente, dos trópicos. Penso que vale a pena curtir.


domingo, 13 de abril de 2014

Speak slowly, please!

Então, já é domingo novamente. E hoje tem mesmo cara de manhã de domingo. Um silêncio de monastério predomina na casa. Um solzinho morno aquece as janelas, os pássaros pequenos cantam  empoleirados nos fios da cerca elétrica do vizinho, encarapitada sobre o muro à guisa de segurança.  Tony saiu de madrugadinha para o Recife para uma prova e depois, um jogo do rubro-negro. Embalada no silêncio, Luiza dormiu até o fim e agora assiste episódios eternamente repetidos do Chaves na TV. É mesmo domingo, dia falsamente preguiçoso e absolutamente necessário.

Em meio a protestos e especulações, daqui a mais uns dias começa a Copa do Mundo. O Brasil sedia aos trancos e barrancos o mundial de futebol e, apesar das estruturais transformações não terem acontecido, a exemplo de outros países que aproveitaram o evento para melhorar as suas condições infraestruturais, os empresários se preparam para faturar com o cliente externo e interno. Esperam que as hordas de turistas estrangeiros abram seus bolsos repletos de moeda valorizada e impulsionem os negócios. Faturar é a palavra de ordem.  Apesar do apelo ao aquecimento dos negócios, da massificação da imprensa, ainda falta muito para o brasileiro deixar de ser "dono de loja" e tornar-se empresário. Já me deparei com algumas situações complicadas, geradas pela falta de profissionalismo dos empreendedores. Acreditem, já tem mais de uma semana que fiz uma reserva num hotel para o mês de junho, estou querendo modificar a permanência para mais dias, e simplesmente não consigo, porque o hotel não responde meus e-mails! Para ter reduzido o risco de clonagem do cartão, fiz a reserva pelo booking.com, como já o fiz inúmeras vezes quando estava fora do Brasil. Contudo, parece que aqui não funciona lá muito bem. Vou ter que ligar, pois por meio eletrônico não vou conseguir resolver, e ainda corro o risco de ficar no meio do mundo, com a família e sem hospedagem. É um amadorismo mesmo lamentável.

Outro aspecto problemático é a linguagem. O Brasil é extremamente despreparado para receber o turista externo. Se em Aveiro havia domingos em que mal ouvíamos o povo falar português, e até as atendentes de caixas dos supermercados conversavam animadamente em inglês e espanhol, aqui a  dificuldade do segundo idioma será uma barreira, que apesar de não ser intransponível, dificultará o entendimento entre gringos e brazucas. São célebres os micos que os viajantes brasileiros pagam quando aventuram-se pelo mundo. Tony gosta de contar o caso de Bibiu das Louças, empresário caruaruense, que em épocas de prosperidade, visitou Nova Iorque com distinta esposa. Nos primeiros dias, ficava ouvindo os  nativos e fluentes solicitarem nos bares "two beers". E o matuto ficava a pensar: "quem será esse Tobias que o povo chama tanto?". E no fast food mais famoso do mundo, o matuto apontava as ilustrações nos cartazes do atendimento e gritava: "dois, desse, grande!" Como se ao aumentar o tom de voz e falar caricatamente pausado promovesse a redução das diferenças entre os idiomas. Na última sexta feira, recebi a visita do Clodoaldo Ferreira, lá na Faculdade. Como sempre, o primo trás otimismo e boas risadas, com suas histórias espirituosas. O primo contou-me que fez uma viagem de navio. Os cruzeiros turísticos na costa brasileira estão cada vez mais sendo explorados, e é uma excelente opção para conhecer o Brasil, com todo luxo. Segundo Kátia, quando entramos no navio, esquecemos que fomos pobres um dia, apesar de ter pago o pacote da viagem durante o ano inteiro. São dias de glamour e opulência. Pois, o primo, que ainda tinha o fígado estragado, lamentava a doença como nunca, pois segundo ele próprio "era comida e bebida à vontade". Ana, a esposa, aprendeu logo a sua única frase em inglês: "Red label on the rocks, please." E se derramava o melhor wisky, que a prima a entornava com sua competência sertaneja. Enquanto Clodoaldo se esforçava para explicar ao garçom coreano que queria um copo de leite. Segundo ele mesmo, até o verso "I like coffe, you like tea" que tinha no livro didático do Colégio XV, mas o milk não saiu nem a pau. Depois de muito explicar o confuso garçom entendeu, e toda vez que o primo chegava no bar, recebia com toda agilidade o seu copo de leite. Contudo, mesmo com preparação, às vezes, o turista se embaralha. Como o casal amigo do primo, que sairam de São Bento do Una para a Argentina. A esposa, passou meses a ler um pequeno dicionário de espanhol, e chegou em terras portenhas certa de que iria arrasar no espanhol. No primeiro café da manhã, o esposo provocou: "pede agora um ovo estrelado". E quem foi que disse que a mulher lembrou-se? Quando o garçom chegou, o sujeito cacarejou, dançou galinha (batendo asas fictícias com os braços dobrados) e nada. O garçom só dizia sério: "No entiendo."  Um sujeito que estava à mesa ao lado, perguntou-lhe de que parte de Pernambuco ele era, apresentando-se como um famoso advogado deste estado, e ofereceu-se para ajudar no pedido. O marido disse: "eu quero um ovo estrelado. Com se diz ovo?" O advogado respondeu, pacientemente e com ar de riso: "é huevo, meu camarada!"

As tentativas inglórias de verter o português capenga para o inglês resultam em anedotas grotescas. Um sujeito inventou de traduzir os cardápios dos restaurantes e os demais, compraram a ideia via Google Tradutor. Daí para a avacalhação completa foi um pulinho. Mytsi partilhou a  ótima matéria que apresenta as pérolas dos menus brasileiros vertidos para o inglês rupestre. Eu, jamais pediria o "shit juice". O imbecil, cuja competência em português é sofrível, acentuou a palavra incorretamente, e de "coco" para "cocô", a diferença vai além do paladar. É certo que gosto não se discute, mas ai, também já é demais. Vamos brincar de estudar um bocadinho, e lembrar que os chineses já diziam
que o momento da crise pode ser uma boa oportunidade. De modo geral, as nossas dificuldades com o segundo idioma são notórias, e até mesmo com o idioma materno. Mas, não custa aprender uma coisinha a cada dia. Mesmo que não se chegue a ser um expoente da língua inglesa, como minha querida amiga e professora Adriana Correia, mas que tenha conhecimentos básicos para não passar vergonha ou morrer de fome.

A propósito, sobre Adriana, uma definição: É uma danada. Tem encarado uma parada dura para obter uma certificação internacional para o ensino da língua inglesa, junto a Cambridge University. O exame CELTA não é para qualquer um. Além disso, é uma empreendedora de sucesso. Hoje, após 10 anos o Speak! é uma marca, que em breve será reconhecida para além de Pernambuco. E mesmo assim, Adriana continua com a mesma simplicidade e simpatia que conheci há 15 ou 20 anos atrás. Em minhas palavras: não mudou uma grama (do mato, mesmo, que é mais leve que um grama, do quilograma!). E, por isso, tem minha admiração.

Adriana Correia, professora da AESGA e Gestora do Speak!
Até amanhã, fiquem com Deus.
PS: para quem quiser conferir a matéria mencionada o link é http://www.buzzfeed.com/clarissapassos/traducoes-fabulosas-de-cardapios
Muito legal!

domingo, 29 de setembro de 2013

Digam-lhe que fui ali: Maragogi (AL)

Vista de Ponta de Mangue (AL)

Então, depois de quase dois anos de inverno, surgiu a oportunidade de reencontrar uma prainha tropical. Eu já vivia com saudades, ainda mais quando a Maria Manuel partilhava as suas lembranças da lua de mel em Maragogi. Então, ao final do inverno, ainda em Portugal, fiz uma reserva para voltar ao paraíso alagoano. A principal motivação era levar Luiza para conhecer as piscinas naturais, localmente chamadas de "galés", para nadar com os peixes. 5km da costa, um imenso banco de corais formam piscinas onde os peixinhos já acostumados aos turista encantados transformam o ambiente num imenso aquário à céu aberto. Já conhecíamos o atrativo, mas isso foi antes de Luiza nascer. Voltamos, e para mim, uma volta significativa, pois em 2000 morei quatro meses entre São José da Coroa Grande, ultima praia do litoral pernambucano, e Magarogi. Pude constatar que em 13 anos muita coisa mudou, umas para melhor, outras para pior. Mas, é sempre muito bom voltar. 

Reservamos o hotel, o mesmo que ficava durante a semana inteira quando dava aulas num curso de pedagogia promovido pela UPE, e na sexta após o almoço pegamos a estrada. Luiza, quando menor, costumava dormir logo nos primeiros quilômetros. Desta vez seguiu apreciando o caminho até Vila Nova de Quipapá. Durante o trajeto ia pontuando os aspectos gerais da região. Quando passávamos por Canhotinho, mostrei-lhe os bananeirais que ladeiam a estrada. Ela sentenciou: "Aqui deve ter muitos macacos." Nos divertimos parte do caminho com a lógica infantil. Com cuidado, seguimos pela estrada sinuosa entre chuva e sol. Apesar de apresentar uma condição melhor do que em 2000, a via é perigosa, cheia de curvas muito fechadas. Em São Benedito do Sul, caiu parte da estrada. É preciso se apertar entre o paredão e o abismo numa via de mão única. Em Palmares, a BR 101 foi duplicada e o caminho estar completamente diferente! Contudo, a excelente sinalização não deixa que nos percamos. Chegamos por volta das 16h30 em Maragogi.
 
Luiza e as "negas" na Pizzaria Regina
A cidadezinha continua desorganizada, com um comércio de pequenos negócios bastante movimentado. Os carros de passageiros, as famosas "sopas" continuam fazendo ponto nas sombras largas das castanholas da pracinha em frente a Igreja de Santo Antonio. Encontramos rapidamente a Pousada Mariluz, que agora oferece uma área de lazer e uma excelente piscina. Logicamente, a primeira parada de Ana Luiza. Depois de uma longa sessão de piscina, encerrada à luz das primeiras estrelas e depois de muitos apelos, fomos jantar na Pizzaria Regina. Um ambiente rústico e muito bem decorado, misturando o artesanato local e regional com características italianas. Uma atendente nos informou que o proprietário é italiano e a esposa é brasileira. Ele, veio em férias, e nunca mais voltou.Depois de uma excelente pizza, descanso. Na manhã seguinte, passeio para as galés.

Pois, fomos. Na espera para a formação do grupo, ficamos num barzinho à beira mar. Então pude observar o agravamento da falta da infra estrutura para exploração dos atrativos naturais da região. A coleta de lixo deficiente aliada a falta de educação de moradores e visitantes, promovem uma imagem emporcalhada na orla. 13 anos depois da época que morei por aqui, a água servida das residências são canalizadas para a praia sem qualquer tratamento. Por isso, e pelo movimento de pescados e mariscos, atraem pombos e urubus.Esses pássaros escuros não são substitutos à altura das gaivotas, que costumam esvoaçar em lugares limpos. Como era dia 7 de setembro, inúmeras caravanas de banhistas de baixa renda chegavam ao balneário. Não é preconceito, mas essas populações são muito desorganizadas e barulhentas. Andam em grupos ruidosos e não tem muito cuidado com o ambiente. Os famosos "farofeiros" não são a melhor companhia para um feriado. Seguimos numa pequena lancha 5 km mar à dentro para longe da sujeira e bagunça. As piscinas naturais são um encanto. Contudo, somente após a atracagem foi que esqueci o medo do mar. Luiza fazia gracinhas enquanto a pequena lancha cortava as ondas e aquilo me encheu de terror. A "ida" foi péssima. Felizmente, rápida. Ao descer do transporte para a água morninha e transparente, tudo aqui acabou-se. Peixes amarelos, listradinhos, coloridos nos rodeavam. 
As galés, piscinas naturais de Maragogi (AL)
 
Máscaras e respiradores alugados  por 10 reais nos permitiu aproveitar a visão dos corais e perseguir os peixes. Uma experiência maravilhosa. O guia nos convenceu a fazer uma sessão de fotos de recordação. Eu não sei com a cabeça quando aceitei! Tenho a plena consciência que fotografias de praia são ruins e aquelas ficaram horríveis! Depois, já em casa, quando olhamos as fotos gravadas em um CD, pelas quais pagamos 50 reais, constatei o registro do mico que paguei. Em todas as fotos, fiquei parecendo uma tartaruga marinha albina. O que valeu foram as risadas, principalmente quando o fotógrafo (nem um pouco generoso, diga-se de passagem) clicava-nos enquanto o peixe ia passando bem na nossa cara. Daí, ficávamos com corpo de gente e cara de peixe.

Corais
Voltamos quase ao meio dia. Depois de pagarmos os custos do passeio, fomos a um restaurante recomendado pelo Josafá Farofa, o condutor da lancha. O almoço foi uma experiência gastronômica: uma deliciosa moqueca de camarão, com um pirão fluido e leve, acompanhado com um arroz branco soltinho. No som ambiente à medida certa, tocava Djavan. Mais adequadamente alagoano, impossível. Depois de um breve descanso no hotel, Luiza já me consumia para mais uma sessão de piscina. Liberei a atividade para ela, mas fiquei à sombra, escrevendo o texto do 7 de setembro, enquanto Tony assistia o jogo do Brasil e Austrália. O efeitos do sol já se faziam notar: estava com a perna esquerda e o joelho direito vermelhos e ardidos. Após o período de hemisfério norte, não houve protetor solar que me salvasse do vermelho-camarão. Até "Luiza tubarão-lixa" ficou ardida!
 
Na manhã de domingo, acertamos um passeio de buggy pelo litoral norte. Foi um reencontro com Ponta de Mangue, Peroba, Barra Grande. Nesta última, costumávamos passar os verões e carnavais. Hoje, a pequena vila de pescadores estar mais desenvolvida e populosa. E os problemas urbanos aumentam na mesma proporção.O mar avançou muito e há pontos que não conseguimos passar com o carrinho,pois não há mais linha de areia, as ondas já quebram nos paredões das residências que invadiram o domínio marinho. 
Praia da Bruna



Muita coisa mudou nestas paragens. Mas, a beleza continua intacta. Concordamos que a praia mais linda que visitamos foi a Praia da Bruna.Nesta área dominada por um grande resort foi rodada a cena do filme "Deus é Brasileiro", quando Antonio Fagundes, no papel de Deus, caminha sobre as águas. Realmente, a água transparente sobre um imenso banco de areia causa uma impressão de caminhar sobre as águas. Um lugar lindíssimo. Voltamos ao som de  chiclete com banana, enquanto refletíamos que é preciso investir para conhecer o que há de mais belo neste lugar. Para ficar somente na linha da areia, o passeio não vale a pena.
 
 Ao retornarmos para a pousada, mais uma sessão de piscina e um almoço no restaurante Frutos do Mar. Tony queria provar uma peixada. O restaurante do Portuga fica bem em frente a pousada, de forma que foi-nos muito adequado. O bom atendimento e a comida deliciosa compensou o custo meio salgado. Luiza não quis peixe. Cansada de tanta atividade, queria "comer algo que andasse na terra". Depois de muita conversa, entendemos que ela não queria comer peixes por simpatia aos peixinhos das galés, de quem se tornara amiga.

Até a próxima viagem!

Até amanhã, fiquem com Deus!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Segundo tempo


E então, chegou a hora de voltar para o hemisfério norte para o segundo tempo desta jornada de formação. Nos últimos dias, muitos compromissos apressados, conclusão de planejamentos, embora alguns itens da imensa e interminável lista de tarefas tenham ficado por fazer. Alguns destes compromissos, tentarei dar a volta à distância. Outros, não há jeito, fica para a próxima. Espero que o tempo me espere para cumprir essas pendências, pois nem sempre temos todo o tempo que pensamos ter.

Eu e Zézinha na AESGA. Foto de Clodoaldo Ferreira.
Na quinta-feira sai apressada após o almoço para ir buscar a Profa. Maria José Loureiro nos Guararapes. Zezinha é professora da UA e tem trabalhado com Francislê no projeto do software ArguQuest. Juntei-me a eles propondo-me a fazer o teste do protótipo da plataforma interativa que visa promover a aprendizagem através do Questionamento e da Argumentação, uma parte importante da minha tese do doutoramento. Contudo, mais importante do que o software foi a oportunidade de conhecer uma pessoa tão maravilhosa quanto a Zé. Absolutamente cosmopolita, somente este ano promoveu formações em Cingapura, foi à Índia visitar o maridinho que trabalha lá, gerenciando uma fábrica de cerâmicas. Esteve em Moçambique a trabalho. Veio ao Brasil através da  Universidade Tiradentes, de Sergipe, conduzida por Ronaldo Linhares, professor dessa IES que fez parte do pós doutoramento com a Zé no departamento. Como havia uma folguinha de dois dias entre uma visita a Salvador e o evento em Aracaju, cuidamos em articular a participação da Zé, orientando uma formação para os professores da AESGA. Assim, com a ajuda da Presidência da nossa IES, trouxemos a Zé, que trabalhou conosco “Argumentação para a construção do Conhecimento”. Na minha avaliação pessoal, a formação foi muito boa, apesar de ter sido apenas das 9h às 12h. Para além da sua competência, Zé encantou a todos com a sua simpatia e simplicidade. Uma aula de como ser sem se achar, se é que vocês me entendem. Depois, a professora segue para Chipre, Paris e Bruxela. Não é sempre que temos a oportunidade de conviver com uma pessoa assim, do mundo!

No outro dia, pegamos a estrada para Recife. Acreditava que Luiza iria cair em prantos quando deixasse a Juju em casa. Mas, surpreendendo-me como sempre, pôs a cachorra no colo, beijou-a, acarinhou as longas orelhas  prometeu encontrar-se com ela pelo Skype. Menos mau. Matheus foi conosco, pois deveria tomar um voo para São Paulo no domingo pela manhã, onde participa de um Congresso Nacional de Psicologia. Promissor, o garoto. Vai seguir a carreira acadêmica, certamente. Chegamos ao Recife depois da 18hs, bem na hora do rush, e no Guararapes às 19hs. Check in feito, ninguém merece ficar de lá para cá com bagagens, fomos em busca de comida, pois Luiza estava “morrendo de fome”. Me impressiona a força do brega no Recife. Num ambiente tão bonito, classificado pela FIFA como o melhor aeroporto do Brasil, no terceiro piso do Guararapes um sujeitinho se esgoelava tentando cantar um brega mais desclassificado. Nem combina. Arremedo de música como aquela e uma tentativa frustrada de ser cantor como aquele é mais adequado para uma feira de bairro ou um espetinho de periferia. Vi a hora da estátua de Gilberto Freyre tapar os ouvidos. Falta de gosto e vergonha alheia.

Não tivemos nenhum problema de embarque, a documentação estava toda certa e a permissão de residência emitida pelo SIF de Portugal dispensa maiores perguntas. Luiza chorou a saudade do pai durante toda a fila, mas, quando chegou a hora dela passar no detector de metais, colocou a mochila na esteira, tirou o computador da bolsa, enxugou as lágrimas e passou, altiva. Entrou aos saltos no avião, comeu quase nada da ceia, dormiu todo o percurso. Eu, engoli as lágrimas, comi quase tudo e não dormi quase nada. O resultado é uma cara de panda no outro dia.

Esperando o voo para o Porto, eu com cara de Panda.
Chegamos em Lisboa quase às 10h do domingo. Não sei o que houve mas pararam o avião lá do outro lado, tivemos que atravessar todo o terminal para que verificassem nossos documentos na Imigração. Uma fila quilométrica e um calor desgraçado foi a senha para Luiza fechar a cara e começar a encher minha paciência. Nesta fila encontrei a Kelly, ex-aluna da AESGA e a mãe de Tatiane Barros, que vinham visita-la na Mealhada. O mundo é realmente pequeno. Aguardamos na fila da maneira que deu, quase na nossa vez, lembrei a Luiza que melhorasse a cara quando fosse falar com o agente da imigração. Com o abuso que ela estava era capaz deles mandarem-nos de volta. Ela pôs um sorriso artificial na carinha e respondeu as perguntas do agente acerca da escola que ela frequentava.

Daí, fomos aguardar o avião para o Porto. O céu de Lisboa estava azul profundo, sem nuvens. Parecia a Garanhuns que deixamos no dia anterior. Depois de um lanche, fomos olhar as lojinhas de conveniência, evitando habilmente as lojinhas de brinquedos. O voo atrasou quase uma hora. Esperamos assistindo a um noticiário em inglês e sem som. Liberado o embarque, Luiza pulou na frente da fila, pois já sabe que adultos com criança tem prioridade. Lá embaixo, tomamos um autocarro que nos levou a pequena aeronave que poderia muito bem ser pilotada pelo comandante  Jaderson Gundes. Chegamos por volta das 14h40, para a via crucis das malas. Apesar da queda de energia que travou as esteiras, até que as bagagens vieram rápidas. Lá fora, Francislê e Dayse nos esperava. Além da gentileza de vir esperar, nos auxiliam a economizar mais um metrô, um comboio e um táxi para chegar em casa. A viagem é longa. Por volta das 18hs chegamos a Aveiro, pois ainda almoçamos no Porto e fomos a IKEA, Dayse queria comprar uns forros e tapetes que estavam numa promoção.  Quando sai do carro senti o cheiro de sal que Aveiro tem. Gosto daqui, é uma cidade linda e essa é sem dúvida a melhor época para conhece-la. As árvores estão vestidas, o calor não é tão intenso quanto em Julho e Agosto, o sol brilha até as 20h30.

O nosso apartamento estava fechado há quase 3 meses. Na minha imaginação estaria coberto de grossas teias de aranha como nos filmes de terror. Exceto o cheiro de guardado que dissipamos abrindo as janelas e deixando entrar o ar carregado de maresia, até que não estava tão ruim. Energia e água funcionando. Ligamos o telefone para avisar que já estávamos em casa. Tudo certo. O aborrecimento veio na hora de tomar o banho reparador após uma viagem intercontinental. Cortaram o gás. Tivemos que tomar banho frio. Mas, vocês não sabem o que é a água fria em Aveiro. Mesmo no final do verão, a água daqui é ligação direta com o Iceberg que afundou o Titanic. É como tomar banho em Garanhuns com água da caixa às 3 da manhã em ponto. A primeira tacada da água parece que há milhões de pequenas formigas picando-lhe a pele. Fui primeiro para dar o exemplo, depois banhei Luiza. Comemos comida fria e fomos dormir às 20hs, mais mortas do que vivas, enquanto o sol ainda persistia no horizonte.

Na sexta-feira no intervalo da formação, Paulo Falcão me perguntou com um sorriso como é que eu vivia aqui. A mesma pergunta já me foi feita pelo companheiro blogueiro Ed Cavalcante. Ontem e hoje tenho tentado estabelecer uma rotina, embora as coisas ainda estejam meio na urgência. Ontem, após levar Luiza à escola (que mudou-se por conta da reforma, depois eu conto), fui resolver a história do gás. Com pouco mais de um mês de atraso, a empresa não tem dó: passa a régua. Para tanto, tive que ir a Loja do Cidadão (equivalente ao expresso cidadão que temos agora em Garanhuns), pagar uma conta de 35 euros. As multas, taxas e roubalheiras virão na próxima fatura. Que jeito? Depois, fui encomendar os livros de Luiza. Já era hora de busca-la na escola. Fomos almoçar e depois fiquei de castigo até às 16hs, quando o moço veio ligar o gás. Eu estava com uma cara tão acabada, que o sujeito perguntou se eu estava “bem disposta”. Depois, supermercado e buscar a criança na escola. Detalhe: tudo a pé. Eu devia ser magra! Hoje de manhã, levei Lu na escola e só vou busca-la às 17h45, aproveitei e comprei o interruptor da luz da casa de banho que estava quebrado desde junho. O senhorzinho da Casa Martelo me ensinou tão direitinho, que preferi ganhar de mim mesmo estes 15 euros que iriam me cobrar pelo serviço. Desliguei a chave geral e fui usar as minhas ferramentas: uma faca com ponta, uma faca sem ponta, uma tesourinha com ponta. Por fim, acertei na tesourinha sem ponta para retirar os parafusos. Não esperava que o troço que tem dentro da luz fosse diferente do que eu comprei. Acima, 6 buraquinhos para 3 fios. Abaixo, 3 buraquinhos para 1 fio. E agora? Montei e desmontei a luz duas vezes, somente na terceira, acendeu uma das três luzes do banheiro. Está ótimo! Para quê um ambiente tão pequeno com tanta luz? Confesso que senti saudades do Jailson Pergentino, o vizinho que faz esses serviços para nós lá na Cohab 2. Mas, quem não tem cão, caça com gato e acabei consertando a luz. E assim, as coisas vão entrando nos eixos. O plano é  amanhã retomar a vida acadêmica, encontrar um rumo para essa universo de dados que coletei junto aos meus queridos companheiros de trabalho.

 

Fiquem bem.

Até amanhã, fiquem com Deus.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Regresso


Então, na última quarta-feira, regressamos. Fizemos alguns acertos para deixar tudo organizado para quando voltarmos em setembro. Graças à santa tecnologia não precisamos alugar ninguém para fazer nossos pagamentos, deixando tudo pendurado no débito eletrônico da CGD. Assim, quando retornarmos as contas estarão sob controle. Assim, na quarta pela manhã, Francislê e Dayse passaram lá na casota para nos ajudar com as malas e deixar-nos no Porto. Fomos cedo, pois não queria atrapalhar o dia de trabalho dos meus queridos amigos, e esperar por esperar, poderíamos fazê-lo no Aeroporto. Luiza sofreu um pouco, pois, por ansiedade teve insônia na noite anterior. Contudo, criança dá um jeito a tudo e acabou dormindo no meu colo no saguão do Aeroporto. Um lanchinho e uma revistinha da turma da Mônica ajudaram a passar o tempo mais rápido. Na hora do embarque fomos ao ritual do monitoramento eletrônico. Felizmente, as portas não cantaram, acusando-nos de portadoras de objetos perigosos. Andamos desconfiadas dessas portas, pois no sábado anterior, ainda em Aveiro, comprei um cinto na Lefies, e a funcionária não teve o cuidado de desmagnetizar o alarme e quando íamos saindo da Zara, a miserável da porta apitou. Pagamos o maior mico, tive que abrir a bolsa para descobrirmos que o alarme magnetizou um código de barras que havia na minha carteira! Felizmente, a funcionária da Zara foi muito delicada, apesar do grande constrangimento. Depois disso, Luiza atravessa as portas eletrônicas toda dura e sem olhar para os lados, como se a coisa fosse acontecer novamente. Bom, no aeroporto como é de praxe, deixamos nossos pertences nas caixinhas e no outro lado, a monitora nos apressava, impaciente.  Como era muita coisa e Luiza nessas horas nunca ajuda, fiquei catando os objetos, atirando tudo aleatoriamente na mochila de Luiza. Já na área embarque percebi que estava sem meu relógio. A probabilidade de haver esquecido nas badejas de monitoramento eram enormes. Fiquei triste, pois o reloginho foi minha primeira prenda de dia das mães. Velho e arranhado, só tem valor para mim. Mas, já era hora de embarcar, não dava mais tempo de ir procurar.

O voo de Porto-Lisboa leva apenas 40 minutos e é feito numa aviãozinho pequenino, 2x1 (dois assentos de um lado e um do outro). Quando procurávamos os nossos lugares, Luiza começou a puxar pela minha manga, com sua insistência característica: “Mãe, mãe! Olha, Pedro Abrunhosa está ali.” Disse-lhe que me deixasse encontrar o lugar e que sentasse de uma vez, enquanto a menina se torcia toda no assento para olhar para trás. Quando entramos no autocarro que nos levaria para o terminal de desembarque, Luiza se vira para trás, coloca o dedo quase no nariz do homem e tasca: “Mãe, ó! É o Pedro Abrunhosa!” Fiquei morta de vergonha e sai toda errada. Era mesmo o artista, famoso cantor português e jurado do programa Ídolos. Aeroporto tem dessas coisas e minha filha poderia ser mais discreta.

Daí foi uma corrida para chegar ao Portão 42 e comprovar a documentação na Imigração. O aeroporto de Lisboa é imenso e a paragem do autocarro poderia ser mais perto. Eram 15h31 quando desembarcamos no terminal e começamos a maratona de documentação numa fila interminável e multiétnica. Felizmente, o agente da imigração fez-nos poucas perguntas, conferiu os documentos e interessou-se mais pelo fato de Luiza estar estudando em Portugal. Perguntou-lhe qual o ano que concluíra, se gostava da escola, qual a disciplina que mais gostava, se tinha amigos. Carimbou nossos passaportes e nos mandou embora. Sair de Portugal é inifinitamente mais fácil do que entrar! Começamos a esperar num mar de brazucas vindos de todas as partes da Europa, predominando mulheres arrastando dois ou três filhos de várias idades. O embarque atrasou uma hora, um nadinha em relação ao mesmo voo do dia anterior que atrasou nada mais, nada menos que 10 horas, chegando ao Recife às 6 da manhã do outro dia.

Apesar de ser uma aberração administrativa, pois trata-se de uma empresa pública, a TAP oferece um serviço  bastante decente. Uma particularidade deste voo de tripulação masculina era a minoria absoluta de estrangeiros. Havia um ou outro perdido em meio a uma maioria de brasileiros em visita ou em retorno definitivo, em fuga da crise europeia. A travessia ocorreu sem maiores problemas, poucas turbulências na altura da Linha do Equador. Luiza brincou, escreveu, assistiu, desenhou. Apenas após Cabo Verde é que a menina decidiu dormir, mas não antes de eu fechar a cara para ela e mandar-lhe dormir de uma vez. Todos dormiam ou tentavam dormir, e a menina conversando? Tenha santa paciência.

Chegamos ao Recife às 21h05. E saibam: o Brasil está mudando, não é mais uma terra de ninguém. Há bem pouco tempo gato e cachorro entravam aqui com todos os direitos, tapete vermelho e banda de música. A Receita Federal está apertando, principalmente na comprovação das compras. Na noite anterior uma operação padrão da PF revistou TODAS as malas dos passageiros que vinham de Nova Iorque, com direito a cães farejadores e tudo. Foi um circo daqueles. Eu, já aprendi a passar nessas situações: passaporte meu e da criança, autorização de viagem da criança, cartões de residência em Portugal, declaração de vínculo da Universidade de Aveiro. Se me perguntam se tenho algum objeto de valor ou compras, digo logo: “Somos estudantes.” Os agentes da imigração mandam-nos logo ir passando, pois não vão perder tempo em revistar bagagem de estudante pobre aventurando na Europa, reservam sua criticidade para bagagem de turistas, é bem mais divertido provocar-lhes a confusão.

Nos Guararapes recebemos a canícula recifense, mesmo tendo passado das 22hs. Tony nos esperava, acompanhado com Tony Lucas e Moniquinha, casal amigo que nos acolheu por esta noite.  Estávamos com saudades desse burburinho quente e colorido que é o Recife, felizes por voltar.

Até amanhã, fiquem com Deus.