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domingo, 15 de setembro de 2013

Comidinhas 6

Prato do Don Paolo. Foto de Leonilla Meneses! Thanks, amiga!
Entre o horário do inglês de Luiza e o meu, tenho uma horita vaga nas tardes das segundas e quartas. Geralmente, fico zanzando na rua, pagando contas, comprando "coisas de casa". Alguns objetos da nossa casa já estão completando uma década e precisam urgentemente ser repostos. Outras tecnologias surgiram e precisamos dum upgrade, principalmente na nossa cozinha. Numa dessas andanças, já ao final do mês, quando o salário já deu adeus há tempos e o cartão de crédito descansa em paz nalguma gaveta, longe da minha carteira, entrei nas lojas americanas e fui "olhar" os cds. Tornou-se irresistível não sair da loja com dois cds sem saquinha, pois encontrei perdido no meio do brega, funk e música de baixa qualidade um cd da Alanis Morrisett e o cd acústico dos Titãs, por 15 reais, cada. No caminho, a banda composta por 11 caras (uma equipe de futebol!) cantavam "comida" enquanto nós discutíamos que o cd já completa 16 anos! O tempo passa e nós continuamos cantarolar "você tem sede de quê? você tem fome de quê?"

Como já vos disse, ando a procura de uma rotina que me imponha ordem. Nestes dias, tenho percebido que a cozinha cotidiana é um encargo que não suporto. Primeiro, é preciso decidir o que vai fazer. Depois, é preciso ir comprar os ingredientes, isso consome, além de recursos, tempo, pois não moro mais na esquina do Pingo Doce. Cá, na periferia garanhuense, me perco nos mercadinhos que não dispõe dos produtos que estou habituada a comprar. Em seguida, vem a tarefa quase alquímica de juntar ingredientes e produzir algo comestível. Por fim, estão os pratos e panelas esperando pela lavagem. Além de ser muita ocupação é um trabalho que não termina. Aliado a isso, tenho um marido que só vive pela rua. Facilmente me acostumei às refeições "rueiras", mediando entre o caro, o médio e o barato, a depender do dia do mês. Luiza já aprendeu, e à hora do almoço já não mais pergunta o que vamos comer, mas onde vamos comer. Logicamente, sai mais caro, mas, a relação custo-benefício compensa o dispêndio, uma vez que a árdua tarefa de cozinhar só sobra para mim. Assim, fico mais feliz. 

Pronto. Então, nessa brincadeira, acabamos mapeando os restaurantes da cidade, conhecendo dos PFs (pratos feitos) à gastronomia conceitual. Logicamente, às vezes embarcamos numas experiências pouco recomendáveis.  Quando a aritmética entre a qualidade da comida, do ambiente, a qualidade do serviço e da conta não compensam, Tony decreta uma suspensão, e assim, passamos até meses sem retornar. Na categoria PF, a "escadinha" é imbatível. O Restaurante Expresso, situado na Av. Caruaru, é vizinho de Zé Bolinho, frente para o atual centro administrativo do município. O restaurante é simplíssimo, mas muito limpo e a comida de D. Ana é sempre muito boa.  O suco de manga é o melhor de sempre, e aos sábados serve uma feijoada maravilhosa. Além disso, acompanhamos o crescimento das meninas, que já estão com seus filhos, e assim, nos sentimos meio tios da Maria, filha da Fabiana. Um outro PF muito bom é o Bráz. Não sei o nome do estabelecimento, mas é o restaurantezinho que fica na esquina com a Pé & Cia. De propriedade dos pais de Sinara, uma aluna nossa da FDG, o feijão tropeiro é imperdível. Na gestação de Luiza, iamos lá uma vez por semana, pois eu tinha que consumir fígado, e o que serve lá é maravilhoso. Outro PF muito bom é o do Ivo. Fica na Praça Jardim, por trás de Ferreira Costa. Serve prato único: arroz branco, vinagrete e feijão verde. O que varia é o churrasco, com opcionais de boi, bode e porco. Somos atendidos por uma equipe muito simples, mas muito eficiente. O Ivo serve o churrasco nos espetos armado com uma faca imensa e a fiadíssima! O difícil é arranjar uma mesa, pois o pessoal que vem das cidades vizinhas sempre disputam espaço com os funcionários do comércio. Mas, a comida é boa e vale a pena ir lá. Por fim, conhecemos o PF da Aquiry Aves. Situado na av. Rui Barbosa no sótão do mais tradicional abatedouro de Garanhuns, serve uma comida simples (arroz, feijão tropeiro, macarrão, vegetais cozidos, salada crua e uma carne) num ambiente muito limpinho. Fiz questão de ir conferir o banheiro, pois, já definimos, através da nossa experiência que, se o banheiro é limpo é um bom indício para o nível de higiene da cozinha. São estabelecimentos simples, que servem comida honesta, sem enfeite à preços acessíveis.

Das coisas que eu odeio, uma é ir fazer uma refeição num restaurante, e independente do preço que pratiquem, sair com cheiro do cardápio impregnado na roupa e nos cabelos. Infelizmente, na nossa cidade é o que mais acontece. Essa semana, fomos a uma casa de gastronomia chinesa, e ao final do almoço, tive que ir para casa tomar banho por causa do cheiro de fritura. Me tornei uma fritura ambulante, e o cheiro era tão insuportável, que a nossa roupa foi diretinho para a lavanderia. Um horror. O ambiente que os restauranteurs oferecem aos clientes é importantíssimo. Vivemos, nos últimos dias,  algumas experiências gastronômicas interessantes. Há menos de um mês, o senhor doutor meu orientador e sua esposa estiveram em Garanhuns, visitando minha amiga Genésia. Como a Dayse é vegetariana, sempre enfrentamos algumas dificuldades nas refeições, uma vez que somos uma região cuja cultura gastronômica é essencialmente carnívora. Nessa hora quem pode nos salvar foi o Guga, com o seu Kefi Saladas. Até Tony comeu saladas e crepes! A comida é muito gostosa, diversificada, e ainda oferece a possibilidade do cliente escolher os ingredientes da salada. Os sucos são um show à parte. É gastronomia conceitual a um preço muito acessível. O atendimento do Kefi é impecável e o ambiente é bem tranquilo, sem música alta, nem tvs inutilmente ligadas sem som. Muito bom. Essa semana, ganhamos mais uma opção com o Don Paolo. Todos que experimentavam a cozinha do Paulo sempre diziam: "tu devias abrir um restaurante". Uma vez, nos hospedamos na casa deles em Maceió, e o Paulo fez umas iscas de filé ao molho de fundo de panela com espaguete ma-ra-vi-lho-so! Isso já faz uns bons 7 anos, e eu nunca esqueci. Então, em parceria com a Joana D'arc, o Don Paolo funciona para almoço e jantar desde o dia 12, lá na Rui Barbosa, vizinho ao Posto Centenário.  Assim o chef Paulo vai dando os primeiros passos num serviço que certamente será impecável, pois ele é o capricho em pessoa. Aos poucos, vai  ajustando a cozinha e o serviço de atendimento, que ainda apresentam algumas lacunas. Todo começo é difícil e somente a rotina (eu sei bem disso!) irá lapidar o serviço. Ainda assim, a comida é muito boa. Um almoço, na opção prato do dia sai por 15,50, além de um cardápio diversificado.  O ambiente é muito agradável e ninguém sai cheirando a coxinha. Vale muito a pena conferir.

Opções para comer bem em Garanhuns são muitas. Às vezes não damos sorte, mas em alguns casos, a má sorte deve ser acompanhada com uma segunda chance. Voltaremos ao Chicruta, um café-restaurante que fica na R.Dr. José Mariano para tirar a má impressão que ficamos com a picanha servida, que estava mais para carne de  pescoço de Maradona.Voltaremos por dois fatores, além do bom ambiente: i) Os chips de provolone com geleia de abacaxi e pimenta é muito gostoso, ii) A mocinha que nos atendeu é de uma delicadeza irrepreensível. São razões para um voto de confiança.

Há pessoas que vivem para comer, outras que comem para viver. Eu não me enquadro em nenhuma das duas categorias. Para mim, ou melhor, para nós, comer faz parte da vida, e, fazer do hábito uma boa experiência é um investimento em vida, para além do sábado, domingo e feriado!

Até amanhã, fiquem com Deus.   

sábado, 3 de agosto de 2013

Cozinha

Ainda estou a organizar a rotina. Quem é levemente (?!) caótica como eu, precisa de um tempo maior para colocar as coisas no lugar, estabelecer uma rotina e vivenciar um cotidiano menos tumultuado. Se alguns colegas tem a sensação de que após o FIG, as atividades ficam acumuladas e desorganizadas, ocorrendo até a desmobilização para a concretização de ações, me sinto assim elevado à décima potência, se é que ela existe. Mas, aos poucos, temos a esperança que as coisas irão se arranjar, embora eu perca muito tempo tateando nas brumas deste afastamento de quase três anos.  
 
Uma das situações que mais sentia saudades enquanto estive fora eram os almoços de domingo. Quando mamãe ainda habitava fisicamente entre nós, quase todos os domingos almoçávamos na casa dela. A típica exploração dos filhos não escolhe idade. Às vezes íamos a casa de Ilza ou a de Mahria. Depois que ela cumpriu a missão neste plano, tentamos construir uma rotina de almoços itinerantes. Mas, com o tempo, a repetição tornou o programa em obrigação. E não há nada divertido em obrigações. Assim, esporadicamente, vamos à casa de Ilma, Ilza e Mahria. A feijoada de Ilda é imperdível. O strogonoff de Izabel, o prato mais concorrido das ceias de Natal. Domingo almoçamos com Vilma, o tempero mais parecido com o de mamãe. E também esporadicamente, elas vêm com suas famílias almoçar conosco. Em razão disso, estava lutando até agora com um imenso frango orgânico, criado no quintal de Romerito, que Tony comprou há meses. Enquanto não regressávamos, os bichos engordavam soltos no quintal. 
 
Logo de manhã, fomos à feira, após apanharmos os frangos no mercadinho do Romerito. Como eu não mato os bichos, levamos a um abatedouro que fica na CEAGA. Impressionante a prática das pessoas que trabalham neste estabelecimento. Em minutos, a mulherzinha lá mandou duas galinhas para o além (dos bichos, claro!) e nos devolveu a carcaça já depenada. O meu serviço era dissecar o animal a bem da cadeia alimentar. Triste de um bicho que o outro engole. Protelei, e, como sempre, já ao final da tarde, abandonei o sofá, onde exercitava o meu vício de assistir partes de programas televisivos pela metade. Um reclame do programa da Nigela me lembrou a obrigação de tratar do cadáver galináceo que me esperava na cozinha. Escolhi um cd aleatoriamente, aproveitando a folga que Luiza e Mariana estavam dando, a brincarem quietinhas no quarto. Por acaso, Simon e Garfunkel me acompanharam aos temperos.
 
As canções no cd me trouxeram algumas recordações, pois são as músicas que ouvia enquanto brincava no "quarto de bagunça" lá na casa do Magano. Na nossa casa da periferia, o último dos três quartos não era utilizado para dormida, evitando sérios conflitos decorrentes de brinquedos improvisados, bonecas, livros e lápis espalhados por toda parte. Lá, ficava tudo concentrado no nosso caos infantil, e era lá que recebíamos nossos amigos para brincar durante tardes inteiras. E se alguém esquecesse, íamos também noite à dentro. A brincadeira só acabava quando um adulto chamava: "Dinhooooo! olha a  hora!" ou: "Márcia, pai já chegou!", ou até mesmo: "Madrinha Neide, vovó chama." Era assim que os irmãos mais velhos iam chamar os menores lá em casa. Mamãe não queria que "andássemos pelas casas", e acabava com a casa cheia de meninos. Desde que fosse no quarto de bagunça ou no quintal, não havia problemas. Sempre havia espaço para mais um.
 
Às vezes, aproveitava a distração dela e ganhava o mundo. Ocupada com os afazeres de casa e com as tarefas da Igreja, não dava conta da minha ausência. Geralmente, entrava nas casas dos vizinhos pelas portas dos quintais e ficava varejeando as cozinhas com meus companheiros. Sempre ganhávamos um toucinho ainda quentinho, uma raspa de bolo de noiva, um naco de beju feito na hora. A minha maior transgressão era subir meia ladeira, atravessar para a rua paralela, andar pelos matos e ir para o terreiro de Tonha. Durante muito tempo os culto afro-brasileiro foram proibidos no Brasil e até reprimidos pela polícia. Em razão disso, localizavam-se sempre em bairros mais  afastados. Após superada a ilegalidade, restou o preconceito. O termo "xangozeiro",  uma alusão a Xangô, entidade do candomblé, era uma ofensa grave. Não era recomendável ser visto nas cercanias de tais lugares. Nunca vi mal nisso. Atraída pela dança e pela comida, frequentei terreiros entre os 7 ou 8 anos. Gostava quando as madames da sociedade garanhuense iam encomendar trabalhos para espantar as "periguetes" de seus casamentos, pois, se a graça solicitada era alta, o despacho tinha que ser bem servido. Nas segundas-feiras, ao final da tarde, os cavalos de santo incorporavam suas giras e dançavam ao som dos atabaques. Depois, servia-se a oferenda. Como em todo culto afro-brasileiro, as visitas são muito bem tratadas, e, apesar de eu ser habitué da mesa de santo, sempre me presenteavam com bons pedaços de bode guisado numa pequena tigela feita com material orgânico (parecia casca de coco, muito bem polida), uma saborosa farofa amarelinha. Às vezes, serviam galinha assada. Tudo muito gostoso. Depois, eles sempre me davam doces e pipocas. Achava estranho que as mulheres adultas falassem com uma vozinha fina de criança miúda, mas, tudo bem. Havia também um velho, que pegava nos lados da minha cabeça e alisava meus cabelos murmurando: "coisa linda, coisa linda". Em criança, eu era bem branquinha, e isso, de alguma forma, me dava alguma notoriedade naquela periferia. Só me incomodou no dia que o velho bateu-me com muita força nos ouvidos, e eu fiquei meio surda. Mas, regularmente voltava, e quando o velho se aproximava, eu dava um jeito de me safar. Depois de muitos anos entendi que a comida variava conforme a entidade evocada e que casa "santo" tem seus gostos e suas interdições. Concordo plenamente com aquele que não aprecia repolho. Uma vez comi, e não me lembro de ter comido algo pior. Quando comecei a ler Jorge Amado, Pierre Verger e Roger Bastide nos meus tempos da Antropologia, comecei a entender o que via enquanto criança. Nem tive surpresa quando fui assistir uma defesa no mestrado de Antropologia, cuja ideia da antropóloga com formação básica em nutrição era análisar das contribuições nutricionais dos terreiros de Xangô para a população que vive no entorno dos terreiros. Naquela defesa, me vi pequena entrando nas cozinhas e comendo tudo que me davam sem perguntar o que era, só confiando no meu olfato. Só errei no dia em que levei Vilma comigo. Na incorporação, ela ficou com medo e saiu a correr. Fiquei com vergonha e rarearam-se as visitas, até que um dia não sentiram mais a minha falta.   
 
Nossa cozinha pernambucana é um misto das influencias étnicas e culturais que recebemos. Minha mãe cozinhava bem, mas alguns pratos ela deixou de fazer após a morte do meu pai. Igualmente, ocorre o mesmo com D. Nilza, minha sogra. Há coisas que ela só fazia quando Oswaldo era vivo. Interdições justificadas pela afetividade, pois na cozinha doméstica, aquela onde se produz a comida cotidiana da família, é um espaço onde se produz mais do que o alimento para o corpo. É na cozinha e na mesa que se reproduzem em sabores as emoções, onde se estreitam os laços de pertença a um grupo social primário. A cozinha de Rita suporta, como coração de mãe, 45 pessoas para almoçar. E tão importante quanto a comida é a companhia ruidosa de uma família imensa. Nestas ocasiões, conforme Mia Couto, em a avó, a cidade e o semáforo: "Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros." É em busca disso que enfrento o talho e a faca, superando minhas limitações culinárias, a oferecer um pouco de mim e de nós para cada um que vem.
 
Vou-me a enfrentar o alho e a cebola, pois os temperos me esperam.
 
Até amanhã, fiquem com Deus.
 
PS: Alguns leitores construíram a rotina de ler essas "mal traçadas linhas" no sábado pela manhã. Agora, como estamos no fuso brasileiro, vou tentar estabelecer a rotina da escrita ao final das tardes do sábado. Espero que as nossas rotinas continuem se entrecruzando através destes textos.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Comidinhas 3

http://www.jogosdabarbi.org/habilidade/shirimp-mango-salad/
Esta semana recebi a feliz notícia que o companheiro Gustavo Pessoas, o Guga, está empreendendo no ramo da alimentação, oferecendo a Garanhuns uma nova opção em alimentação saudável. Pelo que pude acompanhar até agora Kefi Saladas é a realização de um prazer desse meu amigo professor. Nos últimos anos, Gustavo engordou um bocadinho, principalmente durante a gravidez de Marcella. Depois que Daniel, o primeiro filho do casal nasceu, ele decidiu mudar de hábitos alimentares para reduzir um bocadinho o peso, optando por uma alimentação saudável a base de saladas. Tudo isso venho acompanhando pelo Facebook, e o que seria de mim aqui do outro lado, sem as redes sociais? É pela telinha do "Vermelho" ou do "João" (nossos dois computadores) que participo do cotidiano de meus queridos companheiros. E engraçado, esta nossa temporada portuguesa serviu para me aproximar de algumas pessoas, que convivia "assim, assim" e mediados pela tecnologia. Guga foi uma dessas pessoas lindas que as TIC me proporcionou uma convivência mais estreita, assim como Ricardo Oliveira, amigos potenciais separados pela correria das salas de aula. E o que dizer sobre  Teko Guimarães,  que estudou comigo apenas um semestre e neste último verão se tornou minha alma gêmea virtual? Tem gente que não encontrava há um milênio, como Iara Helena, e há um milênio e meio, como Delanie, que estudou comigo na 4ª série. Tem até que nem conheço pessoalmente, mas que fazem do meu quotidiano. Se me faltam Ed Cavalcante e Lígia Beltrão, alguma coisa está torta nesse dia.

Mas, a intenção é falar em comida. Confesso que este ano e alguns meses me engoraram um bocado. Pela balancinha do banheiro (casa de banho), são exatos 6 quilos. Mas, acho que as balanças daqui são bem generosas, pois parece-me que pesamos menos no hemisfério norte. Tenho plena consciência que o que me falta é o exercício físico, pois quando sai do Agreste, praticava caminhada e hidroginástica. E aqui, nada. Só leitura e escrita. Mas, Portugal engorda e quem quiser fazer dieta aqui tem que ter muita fé. Os queijos, enchidos, as porções extra G de batatas fritas são verdadeiros terrores à linha da cintura. E os doces? verdadeiros atentados aos quadriz e à área interna das coxas. Pães, há de todo tipo e qualidade, se não gostar de um, há 10 na fila para serem provados. Uma coisa horrível, a gastronomia portuguesa. Como não dá para comer sempre na rua por conta do câmbio flutuante, na virada do ano recebemos um presente (de grego!) do governo aumentando o  IVA na restauração (um imposto que se paga nos serviços de alimentação) de 6% para 23%. Assim, tive que me virar para melhorar meu rendimento na cozinha, setor que definitivamente não tinha muita competência.

Esta minha falta de habilidade culinária foi forjada às custas de muita escora nas minhas irmãs. Como eu tenho 6 irmãs e sou a sétima, sempre ficava por ali, na tapiação, enquanto elas cozinhavam. Cada uma tem uma especialidade, e a minha era comer o que elas faziam. Somente depois que sai de casa é que tive que me virar para não morrer de fome. E sozinha, diga-se de passagem. Eu poderia ter me casado com um cara como Paulo Tenório. Mas, "Paulos" não se faz em série, e quem casou com ele foi Neide. Eu me casei com Tony, que frita um ovo e  com bacon e faz um café solúvel que é uma beleza. O jeito foi "desenrolar no cacete, que nem cobra", e lá fui eu enfrentar as facas e panelas. E não é que por forças das circunstâncias, até que tenho melhorado? Como diria minha velha mãe, o melhor mestre é a necessidade. Já tenho até uma receita de camarão! Pois, gente "coisa" é outra "fina"! É assim:

Vá lá ao mercado de sua preferência e compre um saquinho de camarões. Nós compramos sempre o miolo de camarões, pois o trabalho de tirar cabeça e carapaça, lavar e separar o tal miolo não vale a pena, suja tudo e espeta os dedos. Se não estiver congelado, coloque-os numa cumbuca (aqui diz-se taça) e tempere com sal e um bocadinho de limão, se tiver. E se quiser, coloque pimenta preta. Eu prefiro não arriscar, para não desgraçar tudo.

Corte pequenino a cebola, pimentão (pimento) verde e vermelho (só para ficar bonitinho) e tomate. Numa assadeira (tacho) esquente o azeite e deite a cebola. Quando a cebola estiver translúcida, coloque uns pedacinhos de bacon picados. Cuidado para não queimar. Depois, coloque o resto das verduras cortadinhas. Se tiver coentro ou salsa, coloque uns raminhos. Aqui eu não uso pois não vou dar 1 euro em um pé de coentro. Coloque os camarões e deixe-os em paz, em fogo médio.

Enquanto isso, cozinhe de leve uma porção de ervilhas e cenouras baby (se não tiver, cenoura normal serve.  As cenouras baby são mais bonitinhas e mais práticas, pois vêm prontas para cozer) . Sobre ervilhas, um aparte: aqui vendem-se umas sacas de ervilhas congeladas, que são ótimas e bem baratinhas.  Aquelas ervilhas em  conserva, esqueça-as. São horríveis. Não deixe as cenouras e as ervilhas cozinhar muito, não ficam boas. Quando estiverem tenras, resistentes a uma espetadela de garfo, escorra-as e junte aos camarões no tacho ao lume (na assadeira no fogo!).

Coloque os cogumelos (compro-os laminados em latas pequenas, já vem cortados é mais prático e mais barato. As latas grandes são para grandes famílias, felizmente a indústria européia produz embalagens que atendem à famílias pequenas, assim evita-se o desperdício), o milho verde e a azeitonas (compramos umas sem caroço, recheadas com pimentos vermelhos, gostosas). Coloque mais um bocadinho de azeite e deixa lá um pouquinho para que os ingredientes tomem gosto. Por fim, misture com tudo umas duas colheres de sopa (sem miserê) de cream chease. Requeijão dá no mesmo. Se estiver de dieta, elimine o queijo, fica gostoso também. Sirva com arroz branco e um purê de batatas básico. Dá um bom almoço. 

Fica bom, e olhe que o meu controle de qualidade é rigoroso. Tony contribuiu com o nome do prato: "Camaronês aveirense".  Com um pouquinho de boa vontade, uma boa dose de necessidade  já começo a acreditar que é possível dar  jeito até num desmantelo culinário como eu! Tá certo que o importante "é o que sai da boca do homem", mas o que entra não custa ser gostoso e, se possível, menos calórico. Assim, todos ficam todos ficam felizes de corpo e alma.

Saudade de hoje: de Vilma. Ela olha assim para as panelas e faz cada comida para comer rezando. Eu chego lá!

Até amanhã, fiquem com Deus.          

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Família

Quando estamos fora de área ou temporáriamente desligados é que percebemos com maior intensidade a importância da família na nossa vida. Desde a semana passada, Tony está em terras portuguesas, e, segundo Luiza, a nossa família está completa outra vez. Temos feito alguns sacrifícios nesta odisséia de formação. A concessão mais dolorosa é esse afastamento físico, pois já se vão 21 anos de parceria. 

O dia que mais reclama a saudade da família é o domingo, pois era nesse dia que ia à casa de Ilma para o almoço, encontrar minhas irmãs e seus filhotes. As conversas animadísimas se entrecruzam na mesa, as últimas histórias de amigos e conhecidos, sempre com uma pitada de bom humor, mesmo que a situação seja a mais lúgubre. Nestas horas, quem tem problemas pode desabafar e solicitar apoio, sempre incondicional. Geralmente,  Ao menos uma vez ao mês, elas iam à minha casa, geralmente comer feijão verde com galinha. Eventualmente, minha sogra D. Nilza está presente, mas o tom de picardia não é abandonado, o que torna esses almoços muito divertidos. Izabel trás histórias do último plantão. Ilza, as coisas da escola. Ilma, conta as histórias do tribunal e Ilda faz seus comentários críticos e quase sempre certos. Quando Mahria e Cândido vem, ampliam-se as histórias e forma a trinca de Antonios: Cândido, Neto e Carlos. Vilma, Petronildo e os meninos só vêm uma vez por ano, e será preciso acertar o calendário para tê-los à mesa. Na páscoa de 2010, Mytsi veio e tiramos fotos com as orelhas de coelho que Luiza ganhou na escola. Coisas simples, de família mesmo.

Um domingo tive uma crise e fui a supermercado. Aqui, feijão verde é vagem. Prefiro consumir feijão em lata, pois não precisa cozinhar e não temos panela de pressão. O feijão mais parecido é o feijão frade.
O feijão é bom, vale a publicidade grátis. E me lembra com saudades de Sérgio Souza, que me apresentou essa variedade como base da culinária baiana. Pois bem, fiz a salada de feijão, que ficou até boa.


É assim:

Cozinhe o feijão normal, como costuma fazer. Escorra e reserve. Refogue cebola, pimentão e coentro bem picadinho. Tomate também. Use azeite, por favor. Depois, pique os ovos cozidos. Se tiver um pedacinho de queijo coalho (não precisa ser novo, pode ser aquela beirinha que sobrou do café da manhã), corte pequenino e coloque tudo dentro. Mexe, salpica um pouco de queijo parmesão, e está feito. Sirva quente. 

Fica uma beleza com galinha guisada. Se for galinha de capoeira (orgânica), melhor ainda.
Nesse dia, encontrei farinha no supermercado: festa na casa luso-nordestina.

Outra vez, fizemos sapos. Antes que vocês nos imaginem comendo os batráqueos, sapo é um bolinho típico da nossa família, todo aniversário tem que ter.

Esse aí não posso dar a receita, é segredo de família.  Quem sabe, quando voltarmos, empreendamos no ramo do fastfood e o sapo não se transforma no Habibs do sertão?

Eu e Luiza comemos tanto... Mas, faltava o principal: aquele bando de malucas falando sem parar, mais Pablo, Iasmin, Mariana... No almoço nesse dia, eu entendi que não é o prato (nem a comida) que faz o almoço, mas o encontro.

Tem gente que  renega a família que tem.  Mas, isso é coisa de quem é novo ainda, e não teve muito tempo de perceber que no final das contas é a família que acolhe, ajuda, e mesmo com dificuldades e divergências, aceita. Ou de quem, mesmo muito velho, ainda não aprendeu a viver.

Saudades imensas de minhas irmãs.

Té manhã, fiquem com Deus
      

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Semana santa e páscoa

Sei que você já andam cheios de me ouvir falar das famigeradas férias de páscoa. Mas, como já passou e hoje voltamos ao batente, percebo que não foi ruim. Foi até bom, pois aproveitamos alguns dias ensolarados, passeamos, comemos e acordamos tarde. Em alguns aspectos Aveiro é tal qual Garanhuns: em um feriado prolongado o povo daqui desaparece literalmente. Como retornei hoje ao LCD após uma semana de reengenharia e duas de retiro forçado, fiquei ouvindo as conversas de viagens de feriado dos colegas. Alguns foram à praia, outros falavam com pouco carinho do trânsito do retorno. As mulheres reclamavam que engordaram meio quilinho com a comilança de páscoa. Longilíneas, elas podem e o meio quilinho nem aparece. Já quem é baixote como eu, precisa tomar cuidado, pois qualquer meio quilinho equivale a uma tonelada. E as comidas desta época são tão boas... Aqui, mais que peixe come-se borregos (ovelhas) e coelhos. Luiza quase chora quando viu no supermercado um pack com os restos mortais de um coelho, pronto para ir à panela. Sannya, colega maranhense do LCD disse-me que há uma praga de coelhos selvagens. Há tantos que a caça foi autorizada pois eles acabam com as lavouras. essa época émesmo adequada, pois os dias são longos e quentes e os danados procriam muito rapidamente, aproveitando bem a primavera.  
Páscoa em Portugual é época de amêndoas. De todosos tipos, formatos, sabores e preços, é impossívelnão comprar nem que seja um pacotezinho. Essa foto aí é da seção de páscoa do Jumbo

É muito doce! No sábado,antes da páscoa, estava vendendo um e  ganhando um da marca igual. As amêndoas mais gostosas e crocantes são as cobertas com chocolate branco. As amêndoas de confeito duro (aqui se chama rebuçado) não sao boas, pois parece um quebra-queixo, duras demais! Mas, são lindas seções,com muito colorido e um perfume maravilhoso de chocolate. Supreendentemente,Luiza trocou o ovo a que tinha direito por um livro sobre cachorros. Esse ano o Coelho da páscoa se aposentou lá em casa. Ele só trabalha até a criança fazer 7 anos,depois disso é papai e mamae que compram o ovo,dentro do orçamento familiar. Assim, fica mais fácil negociar e não precisamos fazer dívidas no cartão de crédito para manter a fama de quem não existe. Pois bem, ela renunciou ao ovo, optou pelo livro sobre cachorros. Eu achhei bom, pois, além de mais barato e menos calórico, o livro é bem bonitinho. 

Como Portugal é um país predominantemente católico, acompanhamos alguns eventos da Semana Santa. O melhor deles foi a procissão do N.S. dos Passos.

 Um lindo cortejo, diferente das procissões do Brasil, que as pessoas vão com qualquer roupa e de qualquer jeito e até paqueram em pleno ritual. Luiza achou que era um desfile, aquelas pessoas de preto e roxo, as cores do luto. E como são sérias e compenetradas! Nenhuma conversinha, a assistência muda, parecia uma combinação para ninguém falar nada! Os passos ordeiros eram marcados cadencialmente com essas varas brancas. Entre o andor de N.S.dos Passos e o de N. S. das Dores, vinham duas bandas maravilhosas, tocando temas fúnebres, a primeira de ternos cinzas, e a segunda de ternos pretos. O passo marcado pela música assemelhava-se a uma marcha em linha reta. No ar, uma  sentimento solene de respeito a trasitoriedade da vida, mas sem pesar, emoldurados pelas ruas históricas de Aveiro. Um ritual belíssimo. A missa de Ramos também causou efeito. Muitos jovens, principamente homens, agitando galhos de árvores, participando ativamente do serviço religioso. Coisas antigas, perpetuadas.

Té manhã, fiquem com Deus!