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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Festas de Junho

Então, chegou o mês de junho, e com ele, as festas juninas. Cumprindo minhas excepcionalidades, estou hoje em casa porque a escola deu feriado a semana inteira. Como ontem foi feriado em Garanhuns, pois foi dia de Santo Antonio, e na quinta é Corpus Cristhi, ficava difícil para os estudantes comparecerem, daí aprovou-se o recesso acadêmico. E nessa manhã gris, Luiza foi para a escola sob protestos, pois, além de não ser feriado na escola dela (que é evangélica!), tem prova de espanhol. Obrigada, Igreja católica e seus santos, que nos providenciam de quando em quando uma folguinha.

Então, cumprindo nossa agenda festiva, segunda-feira, dia 12, recebemos a família para comemorar o Santo Antonio. Desde criança que Tony sempre fez uma fogueirinha na porta de casa para marcar o dia do santo dele. Segundo Joana D'arc, ele sempre acho que o santo era ele! Pois, dos tempos que passamos fora, voltamos com o propósito de todo ano, pelo dia 12, fazer uma coisinha para marcar o dia do padroeiro do meu companheiro. Pois bem, semanas antes começamos nossas atividades de "promoters". Um check list enorme foi partilhado pelo whats app, e a medida que a data se aproximava, nos dividíamos para providenciar do gelo às bandeirinhas. No dia, as compras de rua ficaram para Tony e a arrumação da casa e da garagem ficou para mim. Luiza correu por fora porque teve aula pela manhã. Mas, à tarde, enquanto eu colocava as bandeirinhas, às voltas com Durvalzinho que queria brincar com os enfeites, mandei-a ir ao centro da cidade comprar umas tolhas de mesa, pois, há objetos que eu só me lembro que existe é quando falta.

Pronto. Pelas 19 horas, começaram a chegar os convivas. Chester nos salvou com um pen drive de forró pé de serra, pois não temos muito do gênero na nossa playlist. E foi bem animado. Esse ano, Nelly nos salvou acendendo a fogueira, porque esse povo da cidade já não sabe mais nem fazer um fogo. Todo ano, acender a fogueira é um drama à parte, pois, há uma crença de que se o fogo não pegar, o (a) dono (a) da casa morre. Pensem numa pressão! E como pretendemos ficar nesse mundo mais um bom tempo, a fogueira PRECISA ser consumida pelas chamas. Foi animado. Este ano, tivemos a participação de alguns amigos que vieram pela primeira vez: Carlinhos, André, Jakeline (ela é a minha dentista) e os filhos. A esposa de Chester e a menininha, muito fofa. David e Nelly.  E Mytsi. E Ariana. Mexendo nos álbuns de fotografias, achei uma foto antiga de Tony e Ariana dançando quadrilha:



 Então, Rita refez a foto:



A festa dos Antonios foi muito animada. Andreza (amiga da escola de Luiza) se saiu uma ótima soltadora de fogos. Os pequenos brincaram, os grandes se divertiram. Ficamos muito felizes porque D. Nilza esteve presente, mesmo convalescendo de um resfriado, que lhe custou uma estadia no Hospital. 





 Hoje pela manhã, contamos quantas pessoas somaram no nossa arraial: 52. Destes, três casais e dois caras não são parentes, os demais resultam de duas famílias numerosas. Faltaram alguns, como Ana Paula, que chegou da Itália no outro dia, e Iasmin e Yeyo, só chegaram da fantástica trip Chile-Garanhuns tarde da noite. Pedro estava na Faculdade, e Vilma, Nido e as crianças não puderam vir por causa do trabalho. Júnior Galego também não veio porque trabalha em outro Estado.  Mas, haverão outras oportunidades. É certo que no outro dia, a casa estava um pandemônio e eu parecia que tinha sido atacada por javalis, pois definitivamente estou sem preparo físico para encarar um  salão de bandeirinhas, mas, não há dinheiro que pague a oportunidade de juntar esse povo todo para comer pamonha, tomar cerveja e jogar conversa fora, mantendo a tradição das festas de santo e a muvuca das famílias latinas. Feliz por tudo isso. Se Deus permitir, ano que vem, tem mais. 

Fiquem com Deus. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Certos casamentos...

Não sei o que deu nestas últimas semanas  para passarem tão rápido. Ainda ontem suspirava pelo feriado, que veio, passou e hoje já é sábado novamente. Outro dia comentávamos que "antigamente, o tempo passava mais devagar". Na verdade, não é o tempo que aligeirou-se. A nossa percepção do tempo que alterou-se, pois sempre estamos inventando mais uma coisa para fazer. Já não tenho mais "passatempos" já que o tempo passa mesmo sem mandarmos. O tempo escorre ladeira a baixo, desbandeirado. Vamos com ele, aproveitando aqui e acolá.

Esta semana, com dois bem-vindos feriados, o final de semana se transformou em um feriadão. Arranjamos um tempinho, e numa das nossas voltas para casa, passamos na mãe de Tony. Não chega a ser caminho, mas, é para as mesma bandas. Passamos na padaria e compramos dois pães de jacaré e dois sacos de bolachas sete capas (aquelas que Zé Lezinho diz que é bolacha 10%; Quando morde, se esfarela e conseguimos comer apenas 10% da bolacha. O resto, invariavelmente cai sobre a roupa, a mesa e demais cercanias. 

Pois bem, mesmo na carreira, passamos lá, e nos apeamos para o café. Dos tempos que morei na casa de D. Nilza, quando seu Oswaldo ainda era vivo, achava engraçado e interessante um ritual que eles, como família, tinham todas as tardes. Neide ia buscar Paulo na fábrica no final do expediente, mas, antes, passava lá na casa da Frei Caneca para um cafezinho com a mãe. Daí a pouco chegava Joana, depois Ana. Com pouco aparecia Carlos, e às vezes, até Cid. Daí, ficavam os filhos todos a bebericar um café de final de tarde na cozinha, invariavelmente superlotada. Isso era infalível, de segunda à sexta. Conversavam, contavam as novas, soltavam piadas, reclamavam das contas. Eu e Rocha, agregados temporariamente abrigados com nossos cônjuges, acompanhávamos as conversas. O cheiro de café, o burburinho e as histórias mil vezes repetidas de Seu Oswaldo ficaram com carinho em minha memória. Depois da mudança, não sei se o cafezinho da tarde permanece. E com as exigências da vida, muita coisa boa acaba se perdendo. 

Voltando: fomos à casa de D. Nilza, e, invariavelmente há uma garrafa de café sobre a mesa. Naquela casa ninguém fica na sala, as visitas correm logo para a cozinha. E durante a conversa, Ana Paula contava o caso de um conhecido em comum - amigo das antigas de Tony -, que finalmente arranjou uma esposa. Mas, parece que a relação não é lá muito harmoniosa. Ana contava que certo dia, o sujeito chegou numa festa com arranhões na cara. Para um amigo (que contou para outro amigo, óbvio!), o agredido contou que a esposa passou-lhe as unhas numa briga por ciúmes. Ficamos embasbacados. Mas, que diria que aquela pessoa, depois de tanto escolher, iria arranjar uma doida para viver apanhado? Como diria minha velha mãe: "cada panela com seu tampa", Tony acrescentou que o camarada em questão é mesmo um grosso, e que tratava muito mal a dita-cuja. Então, empatou, e confirmou minha tese de que desenvolvimento intelectual, mesmo comprovado por um Currículo Lattes considerável não é garantia de bom caráter. Titulação é diferente de educação. 

Às vezes, no meu exercício de observar a vida alheia, fico impressionada com as qualidades de casamento que aparecem. Uma colega de trabalho de Ilma, frequentemente aparecia com lindos anéis de marcassita, que foi febre entre as jovens na década de 1980. E dizia que era o namorado que a presenteava. Qual o que? ela mesmo comprava e dividia em mil e um pagamentos. Ainda teve a infeliz ideia de mandar flores para ela mesma no dia dos namorados, dizendo que "foi Fi que mandou" (ela ainda tratava o namorado por "Fi", corruptela de Filho. É uma astúcia incrível tratar o namorado por filho, mas isso é assunto para um outro post). Um dia, a dita chegou na loja com o olho roxo. Tratava-se de mais um caso de guarda-roupa assassino que desabou sobre ela.  E com todos esses precedentes  - que estava mais para ficha corrida - a jovem casou-se com o sujeito. Sei não, é uma coragem de bicho, pois ninguém se conserta de uma hora para outra. 

Ademais, minha mãe sempre dizia-nos (olhe que ela assumiu as 7 filhas, após a morte prematura do meu pai) que o melhor casamento é um bom concurso. É certo que hoje em dia, ser servidor público não é lá essas coisas, mas, pelo menos, com o emprego, não é necessário se submeter a determinadas humilhações para garantir a própria sobrevivência. É o que as minhas  (lindas) companheiras que trabalham com a defesa dos direitos da mulher chamam de "empoderamento feminino". Quando se tem um meio de vida, se a relação não dá certo, é mais fácil mandar o cara ir passear. A fila pode andar ou não, o importante é que ninguém merece viver sobressaltado com um marido ruim ou uma esposa louca. E, se passar por uma dessas, é possível  duas alternativas: tentar encontrar a "metade da laranja", que não irá acontecer se o suplicante for um limão azedo, ou, na hora que a noiva for jogar o bouquet, faça como a minha querida professora Eliane Vilar: cruze os braços para nem correr o risco de ser a próxima!

Até amanhã, fiquem com Deus.

PS: Faço galhofa com esta situação, mas a violência doméstica contra a mulher é um problema social e um problema de saúde pública muito sério, pois, além de machucar a vítima direta, deseduca toda uma geração. Um filho que assiste a mãe ser mal tratada, seja física, psicológica ou patrimonialmente, poderá reproduzir o comportamento do agressor, ou se tornará um adulto com imensas dificuldades para se relacionar. Fiquemos alerta sempre.  


domingo, 25 de janeiro de 2015

Simples assim

Pronto, então, as férias já acabaram. Pelo menos para mim, já. Ando tentando arrumar minha rotina da maneira mais lúcida o possível. Já não tenho mais ambição de fazer trezentas coisas ao mesmo tempo, até porque, quem faz muitas coisas ao mesmo tempo acaba por não fazê-las bem. E quando conseguem obter algum sucesso no que faz, nem tem tempo para refletir a respeito do que foi realizado. Ando assim, meio Lenine: "Enquanto o mundo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa... A vida é tão rara." 

Luiza ainda tem uma semana de férias, e o desafio agora é lidar com a ansiedade da menina que irá mudar de nível de ensino na escola, de prédio e pela agonia dela, parece até que vai mudar de planeta. Quando ela começa a estressar, eu lembro-a que já enfrentou tantos desafios, com mudanças muito mais drásticas. Estas, ela tirará de letra. E acaba-se o drama. Às vezes, acho que minha filha é muito experiente aos onze anos. E isto pode ter seu lado ruim. Mas, como somos da filosofia "metade do copo cheio", vamos vivendo. Demos uma pausa na reforma da casa, por um motivo bastante significativo: o dinheiro acabou-se. Geralmente, numa obra devemos operar com uma margem de erro sempre para mais, pois, nunca o orçado será o custo do executado. Quando comento isso com os meus alunos de Engenharia Civil, eles fazem cara de descrédito: é a distorção do conhecimento científico que constroem na academia. Contudo, já temos experiência e sabemos que construção é um passo para frente e dez mil contas a pagar. No próximo mês, entramos na etapa do acabamento em gesso da área reformada e procederemos a pintura. Ficará bom. Pelo menos já podemos curtir a ampliação do espaço, pois, após morar três anos num T0 (lê-se Tê-Zero) em Aveiro,  por questões circunstanciais, me cansei de aperto. Hoje queremos mais espaço para receber mais gente, para caber mais felicidade. E hoje coube um pouco mais.

Desde sempre, aos domingos, almoçávamos na casa de mamãe. Ela fazia uma galinha ao molho, um arrozinho básico e um feijão verde ótimo. A receita da farofa gordinha, feita com farinha de mandioca, cebola, água e sal,  perdeu-se com ela. Quando mamãe foi embora, nenhuma de nós aprendeu a fazer a tal farofa. E dela, chego até a sentir o gosto. Coisa simples, de matuto. Mas, sem igual. Então, depois que Deus convocou minha velha, tentamos manter a tradição, do encontro semanal. Até que por algum tempo funcionou, mas, foram rareando, por várias situações. Quem mantém a frequência é Ilma, que sempre tem clientes para comer a galinha preta (à cabidela) do domingo. Pronto, depois que começamos a reforma, as coisas ficaram bem complicadas, pois não há quem sobreviva entre concreto e cimento. Então hoje, mesmo com a obra inacabada, decidimos marcar o encontro para o almocinho. Vieram Izabel e Mariana, Ilma e Antonio e Ilza. Faltaram Maninha e Cândido, que já tinham compromissos, e Ilda que anda ocupadíssima, com prazos curtos para seus escritos. 

É sempre muito divertido. Minhas irmãs são meio doidas, alegres, animadas. Sempre tem uma história nova para contar. Mesmo as experiências mais difíceis são relatadas com gosto de comédia. Ilza nos contou que, concluída a última aplicação da série de quatro sessões que compõem o tratamento de radiação (que eu não sei o nome), parecia que uma cáfila inteira havia sapateado em cima dela. Izabel explicou-nos que os efeitos colaterais do tratamento são mesmo complicados, embora só venham manifestar-se na última sessão. Enquanto contava com muita graça as agruras do tratamento, folheava os livros do ano passado de Luiza, pesquisando material para trabalhar com os meninos que serão sua nova turminha neste ano. Mesmo enfrentando um tratamento difícil, não se abate. E, talvez, guardadas as devidas proporções da história de vida de cada uma, nós somos assim: não tem essa de fazer corpo mole, e nem ficar com lamentações. Se o desafio é tal, só nos resta enfrentar, fazer o que é possível. E cada uma, toca a vida a sua maneira. E nos apoiamos mutuamente nas dificuldades.

Talvez seja o tempo que passei fora que me faz atribuir tanta importância a estes encontros. Gosto de acordar cedo aos domingos para cozinhar, embora essa tarefa não seja propriamente a minha especialidade. Mas, com o tempo a gente vai aprendendo. Gosto de ter meu companheiro na cozinha, assumindo uma parte do serviço, recolhendo pratos, passando um café. Gosto da simplicidade que cercam esses momentos, em que até as seriguelas da feira, que  Luiza trouxe quando mandei-a ao mercadinho comprar maçãs para a salada, fazem sucesso. Gosto da galhofa do cafezinho para Ilza e do cafezão para Ilma. É bom ser do time dos "sem frescura", dos descomplicados. Mas isso é uma grande aprendizagem, e me arrisco a dizer, não é para qualquer um. E como diria Erasmo Carlos, "se o simples fosse fácil, já teriam inventado um outro parabéns a você."

Até amanhã, fiquem com Deus.

PS: Foi assim: Mandei a menina comprar maçãs para a salada pedação. Ela voltou com um saco de seriguelas e sem as maçãs. Muito parecido. Não nos estressamos com isso, mandamos ver nas seriguelas e ficou tudo em paz!    

domingo, 8 de junho de 2014

Álbum

Hoje, acordei quase tarde. Nada como antigamente, quando dormia até uma hora da tarde e só levantava com mamãe trovejando apocalipticamente sobre a preguiça. Coisas da juventude. A manhã nos apanhou na cama e o nosso amigo passarinho já encerrava seu expediente, empuleirado na falsa cerca elétrica do vizinho de trás. Domingo é sinônimo de pegar leve e desacelerar. Um café, um noticiário com menos notícias ruins, um cão arranhando a porta. Uma criança assistindo desenhos. Nem por muito dinheiro tenho aceitado rifar meus domingos. Bastam-me os compromissos assumidos que comprometem os sábados. Certos extras é ração para o leão do imposto de renda. Chega uma hora na nossa vida profissional que precisamos começar a selecionar as atividades. A esta altura da vida, já sei que não vou enriquecer às custas do meu trabalho. Então, quando alguém me propõe um extra, raciocino matematicamente e emocionalmente para aceitar ou não a proposta. No primeiro caso, faço a conta para analisar se não vou trabalhar de graça, pois, frequentemente o IR tem me comido o serviço por fora, daí o que se ganha vai para o fisco. Uma pela outra, tento me consolar e me convencer que trabalhei por caridade. Talvez fique anotado lá na página 33 do livro do céu. Em segunda instância, penso emocionalmente para perceber se vale a pena deixar as pessoas e as coisas que gosto para ganhar mais algum dinheiro. Quinta-feira, uma amiga de Tony convidou-me para uma palestra, relativamente bem remunerada, numa cidade próxima a Garanhuns. Declinei do convite pois era o mesmo horário do VI Fórum Infantil do Meio Ambiente, do Colégio XV de Novembro, e Luiza ia cantar uma versão brasileira de "Heal the world". Como mãe, o compromisso com minha pequena era mais importante, de modo que fica para a próxima oportunidade. Não se perde o que não se tem, e, se perde a oportunidade de participar ativamente da história dos nossos filhos, mais importante que algum extra.

Então, hoje pela manhã, tivemos um compromisso com nossas coisas. Ontem, encerramos mais uma turma de Especialização. Desta vez, trabalhei Metodologia do Ensino Superior, disciplina que adoro, com duas turmas: Gestão Pública e Gestão da Comunicação e Eventos. Tive oportunidade de reencontrar grandes companheiros de jornada, como Vando Pontes, bem como trabalhar com pessoas que sempre via na IES, mas que, durante a graduação, não tive oportunidade de conviver, como Sônia, Fernanda e Fábio. Recebemos também estudantes egressos da FAVIP (Caruaru), jornalistas e publicitários, cheios de muitas boas ideias. Foi muito divertido e construtivo, e sempre fico com a impressão de que trapaciei, aprendendo mais que ensinando. Pois, quando terminou a sessão, no final da tarde, desci caminhando para esperar o ônibus da Cohab II. Aproveitei em entrei nas Lojas Americanas, para comprar um álbum de fotografias, que há muito tempo se fazia necessário. Outro dia, fui arrumar uma prateleira que temos no móvel da sala e os pequenos álbuns de fotografias estavam se transformando em pó. Ao longo de 10 anos juntamos muitas fotografias, e, como tudo na vida, é preciso cuidar para conservar.

Sou favorável a tecnologia, disso penso que ninguém duvida. Mas, da mesma forma que na educação, o velho e bom Paulo Freire ensinava que não se deve  "repelir o velho por ser velho, nem aceitar o novo por ser novo; mas aceitá-los na medida em que velho e novo são válidos." Meu gosto amador por fotografias vem do tempo do filme de 36 poses. Numa viagem, o fotógrafo previdente possuía, pelo menos, dois filmes de 36 poses. Com a tecnologia, o mundo digital aposentou os rolos de filme, e qualquer um - qualquer um mesmo - possui uma máquina fotográfica, um tablet  ou um telemóvel que assuma a função de registrar em imagens fragmentos das nossas vidas. Temos até o luxo de excluir (ou deletar!) as fotografias que não foram muito generosas com a nossa melhor forma. Até porque, somente Patrícia Almeida, Valber van der Linden e Fernando Henrique - dentre os de sua qualificação - fazem fotos tão boas, que acredito que pouquíssimas vão para as "perdas". Mas, isso é coisa de profissional, e nossas fotos são mesmo documentos de família.

Em razão da deteorização dos álbuns de fotografias que comprei nas lojas de 1,00, chegou a oportunidade de trocá-los. Organizamos o primeiro, desde a gravidez até Luiza já bebê, com uns cinco meses. Compõe nosso documento afetivo fotos impressas no papel (há jovens que não sabe o que é isso), com, pelo menos, 10 anos de idade. É divertido reencontrar Mariana, Larissa, Matheus e Victor ainda crianças. Antonio bem novinho. Minhas irmãs e cunhadas com vários tipos de cabelo. Numa foto, Lu perguntou-me quem a segurava no colo. Não reconheceu Rita com um cabelo imenso e liso, quase uma rapunzel. Fotos de Luiza em inúmeras ocasiões no colo do papai (eu tirava as fotos!) aprendendo a andar, brincando, bagunçando, no banho, no sono. Fotos de Lulu com mamãe, que não se lembra da vovó materna, e me pede para contar histórias, olhando as fotos com carinho. E as lembranças de viagens, de aniversários, de festas na escola e dos nossos bichos? Não tem preço constatar que há 10 anos éramos magros, e se hoje estamos gordos, ficamos felizes por estarmos vivos. O tempo passa, tudo muda, mas sempre tempos os álbuns para folhear, dar risadas com as poses caricatas e situações inusitadas, matar as saudades dos que já encerraram seu expediente neste plano.

Tenho um milhão de fotos digitais para imprimir. Da nossa vida europeia, nos nossos retornos temporários e da volta definitiva. Temos fotos de praia, de cidade, de inúmeros shoppings com ornamentação de natal. Após imprimir, vou separar por tema e fazer grandes livros de estampas. E quem sabe, daqui a 100 anos, todo esse acervo faça parte de um museu, como aquela coleção de iconográfica pernambucana do século XIX que visitei na FUNDAJ. Na oportunidade, olhava a cara e as poses dos retratados e ia inventando histórias, remendando as fotografias e costurando vidas fictícias para gente desconhecida que deixou pistas do nosso passado. 

Mesmo num mundo digital, a foto analógica, de papel trás um prazer insuperável, similar ao cheiro de livro novo, ou a sensação táctil de abrir uma encomenda recém chegada pelos Correios de livros usados, adquiridos por uma pechincha em um site virtual. O novo e o velho se encontrando em sensações indescritíveis.

Até amanhã, fiquem com Deus.

PS: segue a foto da minha cantorinha com sua professora de linda voz.


domingo, 23 de março de 2014

A Copa do Mundo e as tags para a vida

Pois, já começo com desculpas. Semana passada, fiquei doente na sexta-feira. Não sei o que danado comi, mas, tive uma reação alérgica, fiquei me coçando. Então, tomei uma dose de nada de anti-histamínico. Isso me pôs de molho o sábado inteiro, prostrada com um cansaço terrível. Com isso, o domingo foi uma tentativa de colocar as coisas da casa no lugar e os compromissos das quatro turmas que leciono. Resultado: não deu tempo para nada.

Pronto. Então, nesses dias tenho pensado acerca do futebol. É que Tony gosta muito de futebol, tanto que em pleno domingo, antes das nove horas, saiu para encontrar os amigos para discutir os jogos de ontem. Nem para a missa se é tão pontual. E a conversa correrá solta até às 11 horas, quando ele lembrará que tem que providenciar (leia-se "comprar pronto e trazer para casa") alguma coisa para o almoço. Outro dia, Luiza me perguntava porquê é que os homens vivem na rua. Respondi-lhe simplesmente, que quando saem de casa, os homens passeiam e as mulheres fazem coisas. Na minha visão e a partir da minha prática, só saio de casa se houver algo para fazer. Nunca para jogar conversa fora. Sim, mas, o futebol. Esse ano é copa do mundo no Brasil, e muito já tem se falado a respeito. Principalmente, mal do Brasil. Isso já era esperado, pois em termos de organização, somos o povo mais estabanado do mundo. Talvez seja um aspecto negativo do multiculturalismo. Onde há jeitinho, tudo de última hora e outros traços culturais marcantes, organização, responsabilidade e foco é coisa de outros mundo. Mas, como sempre digo, cultura não é karma, e podemos aprender a ser melhores, corrigindo uma coisinha a cada dia. Mudas tudo do dia pra noite é mesmo impossível. 

Me apressei em Portugal e voltei antes do prazo que eu teria direito no afastamento ao trabalho por vários motivos pessoais, mas, um deles era que eu queria ver de perto essa tal Copa do Mundo que acompanho pela TV desde os nove anos. A minha primeira Copa do Mundo foi a Espanha' 82. Impressiona-me ainda hoje a magia que tem esse esporte coletivo para mobilizar as pessoas. Lembro-me bem que um dia, Ilda chegou do serviço com uma camisetinha com o mascote da copa. Trocávamos cupons fiscais de supermercado por álbuns e figurinhas, e fazíamos um grude nalguma cozinha de uma mãe compreensiva (geralmente, era a minha), para ser utilizado coletivamente na colagem das figuras. Assim, eu vivia às voltas com uma figura do Valdir Peres para trocar, pois o que mais se repetia era o cromo do goleiro da seleção brasileira de futebol. Quem conseguia montar o meio-campo e o ataque da seleção de Telê Santana era o rei. Figurinhas muito difíceis de encontrar. Mas, era muito animado. Um tempo de vasculhar as revistas Placar dos meninos para conhecer mais sobre os times. Felizmente, na minha casa o acesso ao futebol era mais democrático, que nas casas das vizinhas. Mamãe sempre gostou de acompanhar um joguinho de bola, e não encrencava com a gente, por sermos meninas futiboleiras. Conhecer e apreciar, vá lá. Mas, jogar bola na rua, nem pensar. Menos mau. Eu sempre dava um jeitinho e ia jogar lá na outra rua, às margens dos Galegos. Pior era uma família, que a mãe inventava tudo que era coisa para a única menina da família fazer na hora do jogo, só para não deixá-la assistir. Hoje em dia há menos preconceito, e Luiza já jogava futebol na Escola da Glória e voltou com essa cultura para o XV de Novembro. Como a escola é de cultura norteamericana, e futebol nos Estados Unidos é coisa de menina, quem sabe daqui há uns dias teremos uma equipe? 

O que a Copa do Mundo de Futebol faz é colocar uns marcadores na vida da gente. Mesmo que você não saiba a escalação da Seleção de 1982, com certeza, vai se lembrar daquele time fantástico que nunca ganhou nada.  Sem dúvida, o evento mobiliza a sociedade, independente de onde ele ocorra. As famílias se reúnem em casa à frente da TV para acompanhar os jogos. Alegram-se na vitória, apoiam-se nas derrotas. Todo brasileiro é um técnico, e tem sempre uma opinião ou uma solução mágica para resolver a falta de dedicação, de vontade, de talento. Toda copa tem um mascarado ou um herói. E a história da nossa vida é costurada à futebol. Em 1994, a final da copa dos Estados Unidos caiu no dia 16 de Julho, aniversário de Mariana. Ela estava completando dois ou três aninhos. A mãe da criança inventou de fazer o aniversário da menina no dia do jogo! Pensou-se assim: o jogo termina e cantamos os parabéns. O pré-jogo foi para arrumar a decoração, a mesa, os doces. E vamos assistir o jogo. No intervalo, Izabel arrumou a menina. E jogo foi para a prorrogação. E a pirralha toda arrumada, para lá e para cá. E ninguém lhe dava atenção. Depois, vieram os penaltis, a situação extrema do futebol. Enquanto decidiam a escalação para as penalidades máximas, alguém disse: "se o Brasil perder, não há mais festa." E foi uma briga, uma confusão, a mãe da menina, com a menina no colo a reclamar do futebol. Quando recomeçou, esquecemos a questão, os olhos grudados na TV, e a mãe da menina, lacrimosa, parou de reclamar a ingratidão familiar para ver  Roberto Baggio chutar a bola sobre a trave. Brasil Tetra campeão. E a festa da menina foi um sucesso.

Anos se passaram e num dia de trabalho, Ilma atuava como meirinho num julgamento na Comarca do Paulista. O crime havia sido cometido no dia 16 de julho de 1994. O suspeito alegava que estava "batendo uma laje" com  os amigos. Minha irmã, fez as contas e alertou ao Promotor: "Esse álibi é meio estranho. Neste dia, era a final da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Ninguém perderia a final para bater uma laje". O nobre tribuno arregalou os olhões de pasmo, e perguntou-lhe: "Como a senhora sabe?" Ela contou-lhe o caso aniversário de Mariana, enquanto os colegas vasculhavam na internet para conferir a informação. Na tréplica, o promotor desfez o discurso do acusado, que foi condenado. 

Mesmo que o jogo seja no Japão, colocamos os relógios para despertarem no horário, nem que seja às três da manhã e que passemos o jogo dormitando e o resto do dia ressacados com o plantão futebolístico. Em 2002, cujo horário não fazia o menor sentido, comentávamos o jogo pelo telefone. Nas primeiras rodadas, eu estava sozinha, pois Tony havia viajado para ajudar o Wellington, que era candidato a Deputado Estadual no Amapá. Um certo jogo, Mahria me ligou para comentar e Tony, que havia chegado no dia anterior, atende. Ela desligou o telefone ligeiro e comentou com Cândido: "Tem um homem na casa de Anninha!" O cunhado ligou novamente e Tony atendeu. Conversaram, deram risadas e comentaram o jogo. Por não saber que Tony havia retornado, minha irmã julgou que o homem que atendeu era "o urso". 

Esse ano, situações cotidianas decorrerão e serão evidenciadas pelo ano da Copa. Apesar da importância do evento, não sinto mais o mesmo ânimo de 1982 ou 1994. Talvez porque estamos vendo de perto como os processos vêm sendo mal conduzidos. Se o evento foi uma boa oportunidade para modernizar e melhorar as condições das cidades sede, não vemos o mesmo ocorrer aqui. Para se ter uma ideia, o Governador de Pernambuco decretou feriado nos dias de jogos no Recife, para não ter problema com o trânsito. Assim, as vias serão liberadas, e mascara-se o problema do caos cotidiano de quem tem que atravessar a cidade. E que não chova, porque se chover, alaga tudo e o caos se multiplica. Só vai de barco. Pelo jeitinho, estamos perdendo uma excelente oportunidade de termos um espaço melhor para viver. Vamos ver no que tudo isso irá resultar.

Até amanhã,
fiquem com Deus. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dia mundial da promessa

E a primeira manhã de 2014 já segue alta. Todos os anos, costumo fazer uma listinha de uns 15 a 20 itens do que desejo realizar no período de 365 dias. Criei o hábito depois de uma conversa com Rita, que contava-me que uma prima dela levava a vida desta maneira, planejando e executando as ações como firme propósito de alcançar o que desejava. Eu bem que tento, mas geralmente a minha listinha, estatisticamente, fica pelos 60%, e sempre com um grau de flexibilidade. Quando, no meio do caminho me acontecem coisas imprevistas - a exemplo da aprovação da candidatura no doutoramento na Universidade de Aveiro, que eu jamais imaginei que aquela IES iria me aceitar - os planos vão se adequando, seguindo a filosofia do Zeca Pagodinho: "Deixa a vida me levar". Em 2014, irei fazer a listinha, sem colar pelas demais, pois, com o retorno para o Brasil e a recente mudança de Luiza do quarto pequeno para o quarto grande, não sei onde guardei os papéis. De memória mesmo, aproveito o day after do dia mundial da promessa, para rever meus planejamentos para este período, que, com a graça de Deus, viveremos na íntegra. Assim sendo, vamos a lista:

1. Resolver uma pendência na UPE. Acreditem: eu tenho uma pendência na escolaridade da UPE há mais de 10 anos. Em razão disso, não tenho o histórico da especialização em História, que conclui em 2001! Esse documento não me serve mais de nada, mas é muito feio deixar as coisas inacabadas. Não posso nem ser candidata, pois a oposição pode usar esse argumento contra mim. De quebra, passo lá para rever a minha antiga escola onde cursei a graduação. Rosa Antunes diz-me sempre que tudo estar muito mudado. São outros ares. 

2. Construir a cozinha nova. Na época que desenhamos a nossa casa, eu achava que cozinha de apartamento era o must. Hoje, 10 anos depois, percebo que a cozinha apertada não me serve mais. Preciso de mais espaço e de luz natural. E mais armários. E mais copos, pratos e panelas. Quero colocar uma mesa grande na cozinha e receber a família e amigos, como na casa de D. Nilza. Numa conversa com Dayse, ela nos contava que a avó dela tinha uma mesa grande lá na cozinha da casa de Tejipió, e sempre tinha uma garrafa com café recém passado, pães e bolos. Chegou qualquer pessoa, leva para um lanche na cozinha. Quero uma cozinha como a de D. Jura, que tinha movimento de manhã à noite, sempre disponível a mais um prato de feijão com farinha e guisado, na companhia de filhos e netos, vizinhos, histórias e muitas gargalhadas.

3. Cuidar do jardim. Foi outra opção errada que fizemos. Quando nos mudamos para cá, tínhamos o Teco, um dálmata muito querido, e igualmente terrível, que escavava tudo. Para resolver o problema, passamos o cimento na área externa. E o terreno ficou estéril. Mas, como aprendi com os engenheiros: "onde há dinheiro e vontade política, tudo se resolve". O dinheiro é pouco, mas, dá-se um jeito. A vontade é muita e a recompensa serão as flores, o relvado inspirado no quintal da queridíssima Zé Loureiro e do quintal-jardim da amiga virtual Glória Medeiros. Não quero passar a vida no meio do cimento. Quero ter trabalho com as plantas e os bichos.

4. Cuidar melhor da saúde. Tenho sido imensamente negligente comigo mesma. Dei imensos conselhos a Thayze, contudo, tenho os pés de barro. Preciso fazer uma romaria aos médicos, pois todos os meus exames estão atrasados. Tenho que voltar ao ortodontista, pois interrompi o tratamento em 2010, quando mudamos para Aveiro. Preciso, urgentemente melhorar a qualidade da nossa alimentação. Temos tomado muito refrigerante, muitos doces, pouca fibra. Não é uma questão de estética, até porque, como diria Gláucio Costa: "eu não sou modelo". Nunca tive ambição à perfeição, mas, é preciso cuidar para não deteriorar o patrimônio antes do tempo. É uma mudança de hábito difícil, mas, deve ser baseada na consciência, e não no sofrimento da restrição. Afinal, conhecimento do que é certo e adequado não nos falta. Resta construir a prática.

5. Ler mais. Este item sempre aparece nas minhas listas. Há gente que pensa que eu leio muito. Para mim  tenho lido menos que o suficiente. Perde-se muito tempo zapeando pelos 156 canais da TV, onde 100 não passam o que preste. 

6. Organizar o livro do blog. Incentivada por Audálio Ramos e Eliane Vilar, eu e Tony Neto iremos fazer uma seleção de textos deste blog para publicar como livro. Já temos alguma ideia sobre os critérios de seleção, e, precisamos de um revisor na equipe. Alguém que corrija meus erros sem dilapidar meus textos. 

7. Concluir o doc. Esta meta não depende só de mim, mas de toda a burocracia universitária. Fiz o depósito no último 21 de Outubro (lembro-me bem porque foi uma via crucis arranjar um lugar para encadernar, pois era feriado no comércio), e, segundo o gestor dos serviços acadêmicos, aguardamos a homologação. Enquanto isso, espero as correções dos orientadores. Vai correr tudo bem, e espero ser finalizada esse ano. A hora que me chamarem, irei. Esse ano é regido por Xangô e Iansã, respectivamente, orixás da justiça e da luta. teremos boas batalhas com justos vencedores.

8. Ser mais atenciosa com as pessoas. Seja na família, no trabalho ou nas reações pessoais, as pessoas estão na nossa vida por algum motivo, além da simples passagem.  No trabalho, por alguns instantes, percebi que não olhava para a pessoa quando esta vinha falar comigo. Estava absorvida com algum serviço e a tela do  computador era mais atrativa que a história que vinham me contar. É certo que as pessoas às vezes não perguntam se estamos disponíveis e vão logo despejando o seu mundo sobre nós. Mas, é preciso ter mais paciência e compreender que o tempo do outro é diferente do nosso tempo. Aline Lopes desculpou-se com os amigos via Facebook pela pouca atenção. Penso que preciso fazer o mesmo e ir além do pedido de perdão. O mesmo decorre com a família. Às vezes estamos tão ocupados com nossas responsabilidades que não ligamos ao irmão que mora em outra cidade, não visitamos os sobrinhos, não jogamos conversa fora com as cunhadas. As festas de final de ano me ensinaram que as pessoas não são eternas. Passei três anos fora e era nas festas que eu percebia o quanto estas pessoas são importantes para mim. E Deus foi tão bom comigo que não convocou ninguém enquanto eu estava no outro lado do oceano.  É por isso que ao terminar aqui, vou ligar para umas tantas pessoas, pois o melhor abraço é aquele que damos corpo à corpo.

Em síntese, é isso. Preciso me organizar para atingir estes objetivos em 2014. Não pretendo ganhar na loteria, pois não tenho o hábito de jogar. Prometo não sobrepor atividades, pois, já perdi a ambição de ser polivalente. Hoje, busco mais o prazer e a simplicidade duma coisa por  vez.

Feliz 2014. Espero que continuem cá, comigo.
Fiquem com Deus.

sábado, 3 de agosto de 2013

Cozinha

Ainda estou a organizar a rotina. Quem é levemente (?!) caótica como eu, precisa de um tempo maior para colocar as coisas no lugar, estabelecer uma rotina e vivenciar um cotidiano menos tumultuado. Se alguns colegas tem a sensação de que após o FIG, as atividades ficam acumuladas e desorganizadas, ocorrendo até a desmobilização para a concretização de ações, me sinto assim elevado à décima potência, se é que ela existe. Mas, aos poucos, temos a esperança que as coisas irão se arranjar, embora eu perca muito tempo tateando nas brumas deste afastamento de quase três anos.  
 
Uma das situações que mais sentia saudades enquanto estive fora eram os almoços de domingo. Quando mamãe ainda habitava fisicamente entre nós, quase todos os domingos almoçávamos na casa dela. A típica exploração dos filhos não escolhe idade. Às vezes íamos a casa de Ilza ou a de Mahria. Depois que ela cumpriu a missão neste plano, tentamos construir uma rotina de almoços itinerantes. Mas, com o tempo, a repetição tornou o programa em obrigação. E não há nada divertido em obrigações. Assim, esporadicamente, vamos à casa de Ilma, Ilza e Mahria. A feijoada de Ilda é imperdível. O strogonoff de Izabel, o prato mais concorrido das ceias de Natal. Domingo almoçamos com Vilma, o tempero mais parecido com o de mamãe. E também esporadicamente, elas vêm com suas famílias almoçar conosco. Em razão disso, estava lutando até agora com um imenso frango orgânico, criado no quintal de Romerito, que Tony comprou há meses. Enquanto não regressávamos, os bichos engordavam soltos no quintal. 
 
Logo de manhã, fomos à feira, após apanharmos os frangos no mercadinho do Romerito. Como eu não mato os bichos, levamos a um abatedouro que fica na CEAGA. Impressionante a prática das pessoas que trabalham neste estabelecimento. Em minutos, a mulherzinha lá mandou duas galinhas para o além (dos bichos, claro!) e nos devolveu a carcaça já depenada. O meu serviço era dissecar o animal a bem da cadeia alimentar. Triste de um bicho que o outro engole. Protelei, e, como sempre, já ao final da tarde, abandonei o sofá, onde exercitava o meu vício de assistir partes de programas televisivos pela metade. Um reclame do programa da Nigela me lembrou a obrigação de tratar do cadáver galináceo que me esperava na cozinha. Escolhi um cd aleatoriamente, aproveitando a folga que Luiza e Mariana estavam dando, a brincarem quietinhas no quarto. Por acaso, Simon e Garfunkel me acompanharam aos temperos.
 
As canções no cd me trouxeram algumas recordações, pois são as músicas que ouvia enquanto brincava no "quarto de bagunça" lá na casa do Magano. Na nossa casa da periferia, o último dos três quartos não era utilizado para dormida, evitando sérios conflitos decorrentes de brinquedos improvisados, bonecas, livros e lápis espalhados por toda parte. Lá, ficava tudo concentrado no nosso caos infantil, e era lá que recebíamos nossos amigos para brincar durante tardes inteiras. E se alguém esquecesse, íamos também noite à dentro. A brincadeira só acabava quando um adulto chamava: "Dinhooooo! olha a  hora!" ou: "Márcia, pai já chegou!", ou até mesmo: "Madrinha Neide, vovó chama." Era assim que os irmãos mais velhos iam chamar os menores lá em casa. Mamãe não queria que "andássemos pelas casas", e acabava com a casa cheia de meninos. Desde que fosse no quarto de bagunça ou no quintal, não havia problemas. Sempre havia espaço para mais um.
 
Às vezes, aproveitava a distração dela e ganhava o mundo. Ocupada com os afazeres de casa e com as tarefas da Igreja, não dava conta da minha ausência. Geralmente, entrava nas casas dos vizinhos pelas portas dos quintais e ficava varejeando as cozinhas com meus companheiros. Sempre ganhávamos um toucinho ainda quentinho, uma raspa de bolo de noiva, um naco de beju feito na hora. A minha maior transgressão era subir meia ladeira, atravessar para a rua paralela, andar pelos matos e ir para o terreiro de Tonha. Durante muito tempo os culto afro-brasileiro foram proibidos no Brasil e até reprimidos pela polícia. Em razão disso, localizavam-se sempre em bairros mais  afastados. Após superada a ilegalidade, restou o preconceito. O termo "xangozeiro",  uma alusão a Xangô, entidade do candomblé, era uma ofensa grave. Não era recomendável ser visto nas cercanias de tais lugares. Nunca vi mal nisso. Atraída pela dança e pela comida, frequentei terreiros entre os 7 ou 8 anos. Gostava quando as madames da sociedade garanhuense iam encomendar trabalhos para espantar as "periguetes" de seus casamentos, pois, se a graça solicitada era alta, o despacho tinha que ser bem servido. Nas segundas-feiras, ao final da tarde, os cavalos de santo incorporavam suas giras e dançavam ao som dos atabaques. Depois, servia-se a oferenda. Como em todo culto afro-brasileiro, as visitas são muito bem tratadas, e, apesar de eu ser habitué da mesa de santo, sempre me presenteavam com bons pedaços de bode guisado numa pequena tigela feita com material orgânico (parecia casca de coco, muito bem polida), uma saborosa farofa amarelinha. Às vezes, serviam galinha assada. Tudo muito gostoso. Depois, eles sempre me davam doces e pipocas. Achava estranho que as mulheres adultas falassem com uma vozinha fina de criança miúda, mas, tudo bem. Havia também um velho, que pegava nos lados da minha cabeça e alisava meus cabelos murmurando: "coisa linda, coisa linda". Em criança, eu era bem branquinha, e isso, de alguma forma, me dava alguma notoriedade naquela periferia. Só me incomodou no dia que o velho bateu-me com muita força nos ouvidos, e eu fiquei meio surda. Mas, regularmente voltava, e quando o velho se aproximava, eu dava um jeito de me safar. Depois de muitos anos entendi que a comida variava conforme a entidade evocada e que casa "santo" tem seus gostos e suas interdições. Concordo plenamente com aquele que não aprecia repolho. Uma vez comi, e não me lembro de ter comido algo pior. Quando comecei a ler Jorge Amado, Pierre Verger e Roger Bastide nos meus tempos da Antropologia, comecei a entender o que via enquanto criança. Nem tive surpresa quando fui assistir uma defesa no mestrado de Antropologia, cuja ideia da antropóloga com formação básica em nutrição era análisar das contribuições nutricionais dos terreiros de Xangô para a população que vive no entorno dos terreiros. Naquela defesa, me vi pequena entrando nas cozinhas e comendo tudo que me davam sem perguntar o que era, só confiando no meu olfato. Só errei no dia em que levei Vilma comigo. Na incorporação, ela ficou com medo e saiu a correr. Fiquei com vergonha e rarearam-se as visitas, até que um dia não sentiram mais a minha falta.   
 
Nossa cozinha pernambucana é um misto das influencias étnicas e culturais que recebemos. Minha mãe cozinhava bem, mas alguns pratos ela deixou de fazer após a morte do meu pai. Igualmente, ocorre o mesmo com D. Nilza, minha sogra. Há coisas que ela só fazia quando Oswaldo era vivo. Interdições justificadas pela afetividade, pois na cozinha doméstica, aquela onde se produz a comida cotidiana da família, é um espaço onde se produz mais do que o alimento para o corpo. É na cozinha e na mesa que se reproduzem em sabores as emoções, onde se estreitam os laços de pertença a um grupo social primário. A cozinha de Rita suporta, como coração de mãe, 45 pessoas para almoçar. E tão importante quanto a comida é a companhia ruidosa de uma família imensa. Nestas ocasiões, conforme Mia Couto, em a avó, a cidade e o semáforo: "Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros." É em busca disso que enfrento o talho e a faca, superando minhas limitações culinárias, a oferecer um pouco de mim e de nós para cada um que vem.
 
Vou-me a enfrentar o alho e a cebola, pois os temperos me esperam.
 
Até amanhã, fiquem com Deus.
 
PS: Alguns leitores construíram a rotina de ler essas "mal traçadas linhas" no sábado pela manhã. Agora, como estamos no fuso brasileiro, vou tentar estabelecer a rotina da escrita ao final das tardes do sábado. Espero que as nossas rotinas continuem se entrecruzando através destes textos.

sábado, 20 de julho de 2013

Lições do FIG - Parte 1

Excepcionalmente, estou a escrever à lápis. E confesso que isso não é nada  fácil. Penso que a última vez que escrevi à sério de próprio punho foi na prova do concurso da AESGA, em 2008. De lá para cá, somente rabiscos de ideias, trechos de livros, estrofes de músicas, referências de livros. E lista de compras em folhas esparsas e lista de tarefas inadiáveis na sebenta. Considero que escrever em papel é muito estranho, ainda mais quando as mal traçadas linhas serão publicadas em meio eletrônico. As linhas vacilam, a esferográfica pesa. Com vistas a aproveitar os minutos de espera para o início do concerto, em meio ao cheiro de flores recém arranjadas em vasos grandes, escrevo, risco, corto, corrijo sob o olhar piedoso dos santos, da vigilância do Cristo crucificado e do olhar curiosamente disfarçado do holding vestido com a camisa do Santa Cruz. Me abrigo nos bancos austeros da Catedral, desenhando palavras num pequeno bloco de notas. Às vezes, os textos esbarram na curiosidade sobre quem passa ou nos desenhos de Luiza. Interrompo o  curso e retomo mais à diante, enquanto espero pela música. Estamos em Julho e é preciso aproveitar os pequenos momentos para transformá-los em grandes memórias.

Acompanhei lá do outro lado a polêmica acerca da marca do evento, essa imagem que é a abertura do nosso post de hoje. Eu não entendo nada de publicidade, de propaganda ou de marketing. Contudo, considero que a marca do 23º FIG é de extremo bom gosto. A éfige da moça é uma homenagem a Simoa Gomes, a fazendeira que doou à paróquia o território que hoje é a cidade. Além disso, a proposta deste ano é render uma homenagem a Janete Costa, uma proeminente arquiteta garanhuense. Essa marca causou uma discussão intensa nas redes sociais, muita gente a reclamar da ideia. De tudo isso, eu conclui que as pessoas de Garanhuns que estão zanzando nas redes não se identificam com as populações indígenas, apesar de sermos notadamente herdeiros da cultura indígena, nem tampouco com a tradição quilombola, uma riqueza da nossa região. É lamentável, pois nada é mais ridículo que defender preconceito contra a sua própria origem.
 
A cidade fervilha de gente, de arte e de conhecimento. No final da ladeira do Sesc, topei com um caboclo de lança. Não é todo dia que o trânsito atravancado da cidade ganha as cores e o som do maracatu rural. O Caboclo de lança sempre me impressiona, seja pelo jabor bordado em lantejoulas miúdas, pela vasta cabeleira colorida ou pelos guizos roucos abrindo passagens. Me deixo parar e ficar olhando para o cabra da zona canavieira, sem medo de confusão com qualquer flerte ou paquera. É só lindo o som que ele faz a cada passo ladeira a cima. Durante o FIG o tempo deve ser muito bem gerido pois há muito o que ver, aprender, aproveitar. As pessoas são um espetáculo à parte. Parei mais uma vez para espreitar o samba que comia solto no forró de Zé Freire. Em dias normais, não é um ambiente muito recomendável. Neste período tornou-se ponto cult dos jovens descolados, numa das mais surpreendentes metamorfoses do FIG. Fica a lição que o ambiente é culturalmente construído e e a horda de moderninhos acaba por resgatar recantos discriminados da nossa cidade. Que sejam sempre bem vindos para soprar o bolor do preconceito dos nossos cantos. 

Sempre evoco a desculpa de levar as crianças ao circo. Mas, na verdade, eu que adoro um espetáculo no picadeiro. Ontem, juntei os miúdos: Luiza e seus amigos, os irmãos Mari e Matheus e fomos ao circo. Na pista de apresentação estava o Circo Aéreo, com vários números especializados em equilibrismo. O que mais me encanta no circo é a dedicação de famílias inteiras a esta arte. A abertura do espetáculo foi feita por um cover do Michael Jackson. Por sinal, bem acima do peso. Mas, valeu a música e a boa intenção. Depois, vários números de equilibrismo sem rede de proteção. De olhos para o ar e boca aberta acompanhamos o risco calculado que corriam os artistas em suas peripécias. Não haviam desafios às leis da física. Tenho certeza que uma pessoa com maior competência na área do que eu, poderia perceber, pontuar e até explicar cientificamente as acrobacias. O equlibrismo na escada, executado pelos Irmãos Dantas foi muito bom. E me despertou analogias com o mundo organziacional. O circo dá uma aula sobre trabalho em equipe. Para o sucesso da apresentação, é fundamental a cooperação de todos: do sujeito que segurava as cordas, do holding que lançava as maças para os malabares, do sujeito que fazia o contrapeso para equilibrar a escada. O protagonista da ação só consegue executar os movimentos com precisão e arrancar aplausos da plateia boquiaberta, se todos contribuírem. No final, o sucesso é coletivo. Lá para diante, Mari identificou o artista principal do primeiro número a ajudar na execução da apresentação da colega, e sussurrou: "É o artista do começo que está segurando as cordas!" Até uma criança de 7 anos consegue perceber que cada um tem o seu momento de aparecer e seu momento de contribuir. Quem bom que os nossos gestores e colegas de trabalho percebessem isso.  Assim, produziríamos mais e perderiamos menos tempo com vaidades. Talvez eles precisem ir mais vezes ao circo.

Eu, o primo, Wellington, Neto e Tony

No nosso inverno tropical e nordestino, hoje foi um belíssimo dia de sol. E foi também o dia de encontrar pessoas amadas. Assim que Tony ligou o telemóvel, o primo Clodoaldo ligou nos convidando para o almoço. Lá estariam também Wellington e Nell, ele irmão de Tony, que mora há mais de 20 anos no Amapá, região da Amazônia, no norte do Brasil. Além de reencontrar meu querido primo já quase recuperado de um transplante hepático, fomos recebidos por Ana, uma mulher admirável. Sempre de bom humor e bem disposta, é garantia de boa conversa, sonoras gargalhadas e excelente cozinha. Ana é a competência em forma de dona de casa. Depois, chegaram os familiares da Ana, entre eles o Antonio, que estudou comigo na Especialização de Gestão de Pessoas. Mais tarde, chegou o Bola, irmão do primo, com um grupo de amigos do Belém (Pará). 

Fiquei muito feliz em ver tanta gente boa junta. Fomos muito bem recebidos com tanta hospitalidade por Carol e Neto. O FIG também trás oportunidades imperdíveis de abraçar velhos e novos amigos, além do calor e carinho dessa família que me recebeu também, e da qual me considero parte. Família é a parte mais importante da nossa vida. É para onde corremos quando temos problemas, é com quem importa dividir alegrias e vitórias. Considerando que cada um tem seu jeito, e que problemas existem e acontecem nas melhores famílias, eu, como sempre, fico com a parte boa: o carinho, a afeição, as histórias divertidas. É com eles que aprendemos, dividimos e nos multiplicamos.
 
O pianista Eduardo Monteiro explicando os prelúdios de Debussy
Depois do almoço, mas já nos meados da tarde, cheguei afogueada na Catedral de Santo Antonio sem nem saber o que era da programação. Um recital de piano, era a única informação que tinha sobre o programa. Um impresso de muito bom gosto nos foi entregue por um jovem muito educado. O concerto seria com Eduardo Monteiro, livre docente da USP, um dos expoentes do piano no Brasil. No repertório, o professor, que foi solista das filarmônicas de São Petersburgo, Moscou, Munique, Bremen, Sinfônica Nacional da Irlanda, Orquestra de Câmara de Viena, executaria Mozart, Villa-Lobos, Debussy e Liszt. Pacientemente, explicou cada peça, contribuindo com a formação de plateia, ação que o Conservatório Pernambucano de Musica (CPM) tem desempenhado desde 2008 com afinco e competência.  O concerto foi excelente, a plateia calorosa, o concertista muito simpático e agradecido com a atenção do seu público. Quem diz que música erudita não tem público, não conhece Garanhuns.     

Ainda tem mais oito dias de evento. Aos poucos, vamos marcando os horários, esbatendo agendas e viabilizando encontros com pessoas queridas, em casa, nos pólos de atividade do evento, nos cafés. Para além de divertir, o FIG ensina. É preciso estar atento, como Ney Matogrosso, aos sinais. Nem tudo é didaticamente explicado, mas, com tudo é preciso aprender um pouco mais. 

Até amanhã,
fiquem com Deus.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Comidinhas 5




Já disse aqui uma pá de vezes que um dos aspectos mais difíceis de enfrentar quando nos afastamos da nossa terrinha é a comidinha de casa. Quando o objetivo do afastamento é o turismo, tudo é festa: dá para provar com gosto de caracóis grelhados à sopa de tartaruga. Quando se reúnem dois brasileiros no exterior, sempre calha da conversa de comida. Eu e Luiza andávamos nas ruas aveirenses planeando o que comeríamos quando voltássemos. Uma verdadeira maratona culinária.

Iniciamos o come-come ainda em Recife, na casa do Tony Lucas. Junto com a linda Moniquinha, fizeram uma mesa de milho com pamonha, canjica, milho cozido, queijo de manteiga, queijo de coalho, tudo tão gostoso, tão caprichado como o lindo apartamento em que ele mora. Acolhimento 10 estrelas, cinco é céu nublado perto do Tony Preto.  Antes de chegar ao ponto mais elevado do Planalto da Borborema, fizemos um pistop no Rei das Coxinhas, parada obrigatória para quem passa ao pé da Serra das Russas. Além da maravilhosa coxinha de galinha, está disponível uma série de variações, com opções de camarão, bacalhau, carne do sol. A minha preferida é a de charque, com ou sem catupiry (um tipo de queijo fundido muito popular na culinária brasileira). Tony pediu uma cartola (doce típico pernambucano, que leva bananas fritas, queijo de manteiga na chapa, canela e chocolate em pó), uma bomba calórica maravilhosa. Além de um excelente serviço, o Rei das Coxinhas é um patrimônio do Agreste. O proprietário iniciou na década der 1980 vendendo coxinhas e refrigerantes nos autocarros da Jotude, a pior empresa de transporte intermunicipal que já tive o desprazer de ser utente. Hoje, o Rei das Coxinhas são dois restaurantes, funcionando 24 horas, sete dias por semana na BR 232.

Chegamos na quinta feira, já na sexta havia um convite para o almoço. Os caras nos levaram para o Euclides. Deixem-me explicar: Os caras é um grupo de amigos que almoçam juntos há vinte anos. Tony é um dos caras, eu e Luiza sempre fomos de penetra. Carlos, Gundes, Marcos Missa, Vandinho, Alexandre Canzinza, Mano do Caetano, Alfredo. Eventualmente vão outros, mas esses são os caras. Vou tantas vezes que já sou quase um cara também. É um grupo de companheiros, animados que almoçam a discutir futebol e partidas de dominó. Contam histórias da juventude enquanto toca um CD de flashback internacionais dos anos 1980 no carro, discutem política, partilham projetos. Tenho um carinho imenso pelos caras porque desse grupo eu nunca ouvi uma crítica aos meus caminhos pouco convencionais, além de acolherem Tony nos seus banzos de cachorro de fazenda. Pois bem, Alexandre encomendou umas galinhas, pois quando comíamos os frangos minúsculos e raquíticos da Europa sonhávamos com a nossa galinha de capoeira (“caipira”, como dizem no sudeste brasileiro, ou “do campo”, como se diz em Portugal).  O Euclides fica em um pesque e pague que há no caminho para Correntes e serve a melhor galinha da região. Mas, tem que ser por encomenda, pois a cozinha é exclusiva. Serve também um excelente peixe grelhado com uma salada de alface, tomates e pepinos, que eu não acerto nunca fazer igual.

Mas, se a ideia é peixe, quem ganha disparado é a Estação da Tilápia. Somos clientes desde que abriu lá na Santa Terezinha. Hoje há uma filial em frente ao Pau Pombo, no centro da cidade. O Peixe “desossado” é maravilhoso. Não sei que bruxaria eles fazem que o peixe é servido sem nenhuma espinha. O pirão de peixe é um caso a parte: não há igual. Outro dia, quis comer perua. Fomos ao Bar da Perua, na rodovia 423. Somos clientes há 20 anos, desde que o bar era uma birosquinha para caminhoneiros, comandada por “seu” Antonio. Quando começamos a frequentar, Seu Antonio gritava : “Ô Mosés, ó o salão, Mosés!” Moisés era um menininho de 8 anos, hoje é o administrador do restaurante, que está bem arrumadinho. Estive lá com Genésia, na segunda semana de Brasil. Comi tanto que fiquei com vergonha. É preciso deixar um lugarzinho para o doce de mamão de sobremesa, diferente da Chila portuguesa por levar açúcar mascavo. Sem igual. Ainda deu tempo de ir conferir o filé à Parmegiana do Napolitana, o melhor que já provei. Estivemos batendo o cartão neste tradicional restaurante de Garanhuns, na companhia de  Gundes e Ivania, eles são tão evoluídos espiritualmente que nos traz paz estar perto deles. Casal que eu adoro conviver.

Em casa, teve a feijoada de D. Nilza e a feijoada de Ilda, as duas empatadas no primeiro lugar. Além do prato delicioso, a companhia ruidosa da família Ferreira é sempre garantia de boas risadas. Reencontrei Rosário e Rey, que moram nos Estados Unidos. Conheci Miguel e Arthur, o primeiro filho de Mana e Julinho, e o segundo, filho de Danielly e Brunno, Luiza foi dama destes dois casais que já estão com seus filhotinhos no colo. Lulu dá boa sorte aos matrimônios! Encontrei também Márcia, a adorável esposa do Henrique, nosso sobrinho, convalescendo de um acidente automobilístico, um infortúnio que não se explica. Felizmente, ela está bem. Na outra feijoada, aniversário de Pablo, conheci o apartamento novo de Ilza, que está muito bem instalada, graças a Deus. Passamos a tarde a conversar sobre tudo e rir muito. Teve também o xerém com ossobuco na pressão na casa de Mahria. Comemos na cozinha, sem cerimônia, tudo de casa mesmo: Cândido, Mahria, Nyelsen, os gatos e nós. Do mesmo jeito, na casa de Clodoaldo. Ana Fez tapiocas de coco e queijo, quentinhas na hora, que tomamos com café enquanto dávamos risadas com as histórias do primo. Uma delícia a comida e a conversa. Concluímos o itinerário na quinta do Tio Joãozinho. Estavam lá as 4 das 7 primas, numa conversa muito animada na cozinha. No almoço, Tia Linda nos serviu um bode guisado sem condições. O que comentar do doce de leite da Cooperativa de Miracica? Nada a declarar!  

Em Aveiro, Luiza “inventou” uma cocada cremosa. Na verdade, é massa de beijinho: leite condensado, manteiga, coco ralado. Toda vez que ela queria fazer isso eu ficava louvando as delícias dum coco seco. Quando surgiu a oportunidade comprei um coco no mercadinho da vila. Preferi atirar o coco inteiro ao chão para abri-lo, não ia arriscar decepar metade da minha mão com uma faca de cozinha mais cega do que eu. Perdi a água do coco. Mas antes a água que a minha mão. Passei uma semana comendo a polpa branca e suculenta, enquanto Tony me olhava atravessado, certo que era desejo de grávida. Qual o quê?  Adoro frutas, acho que fui passarinho na outra vida.

Agora, Dr. Alcindo me manda ir ao endocrinologista. Dr. Jerônimo vai arrancar uma tira de couro das minhas costas porque eu engordei um bocado. Mas, com um itinerário culinário destes, até que vai valer a pena uns bons puxões de orelha.

Até amanhã, fiquem com Deus.  

terça-feira, 10 de julho de 2012

Gente

Um olho em cada ecrã: vou procurando as palavras que andam meio soltas dentro da minha cabeça. Não só a mudança de hemisfério e de estação provoca a baixa concentração dos últimos dias. Do lado de cá, há muito o quê fazer e tudo desloca a minha atenção. Também, a minha casa parece casa de sítio (de quinta): é um entra e sai de criança, das 10h às 17h, com duas horas de intervalo para o almoço. Frequentemente sou convocada para arbitrar pendengas infantis, mediar conflitos. Com igual frequência, levanto da cadeira para ver onde estão os meninos, quando reina um silêncio suspeito.

O movimento na casa intensificou-se com as frequentes e inesperadas visitas dos membros do partido e correligionários, pois nós retornamos em pleno xadrez político das coligações para as eleições municipais. Seguindo a tradição da família Ferreira, Tony é, pela segunda vez, candidato a Vereador. E nestes dias de negociações e acertos, é preciso desligar todos os telemóveis para conseguir almoçar. Além disso, temos as pendências domésticas de ano e meio: o roupeiro (guarda-fatos) que desmoronou, a pia da cozinha que está vazando, a empresa de telefonia que me rouba a cada acesso à internet. Soma-se a isso o fato de termos um novo membro na família. Tony prometeu a Luiza um cãozinho, e quem quiser ter problemas, prometa alguma coisa a minha filha. Quando desembarcamos no Guararapes, Luiza já perguntou: “O Juca já chegou?” Uma semana depois, promessa cumprida, chegou o Juca numa pequena maleta de transportar pequenos animais. Um basset salsicha minúsculo, bem pretinho, com o peitinho castanho, a tremer de medo, procurou logo o abrigo nos braços da dona. Estivemos dias às voltas com o cãozinho, assediado pelas crianças da vizinhança, adaptando-se a nossa quase caótica vida doméstica. Não há nada mais difícil do que ensinar a um cão a fazer suas “obras” no sítio que julgamos indicado. Geralmente, eles escolhem o lugar mais improvável da morada e fazem dali a sua “casa de banho”. Hoje tivemos uma surpresa: a nossa vizinha, D. Socorro, examinou o bicho e atestou: “isso é uma cadela”. O Juca passou a ser Jujuba, pois ele é mesmo uma cachorra. Mytsi, com muita graça,  já havia me avisado que “os dessa raça são os pés da besta”, Ivania me alertou para o risco que correm as sandálias e os pegadores de roupa. A Juju gosta de agarrar com os pequenos dentes nas pernas das nossas calças, enquanto sacudimos o corpo do cão rosnante a cada passo. Meu quotidiano é um cômico filme italiano.

O retorno a AESGA, meu trabalho,  vem sendo suave. Estou disponível para uma pequena ajuda, uma troca de ideia, uma sugestão ao enfrentamento de algum problema. Participei de uma palestra e uma banca examinadora. Todos têm sido extremamente carinhosos e calorosos comigo, valorizando tudo faço ou que digo. Os meus colegas de trabalho são muito especiais, disponíveis e dispostos a ajudar, mesmo quando as suas condições não são favoráveis. O cansaço do final de semestre, os tumultos de ano eleitoral, os problemas comuns da vida não são barreiras para uma contribuição, uma partilha.
Nestes dias, tive o prazer de reencontrar especialmente quatro pessoas muito caras para mim: 1) Eliane. Minha querida amiga e professora, cada dia mais elegante, magrinha como eu nunca havia visto. Tive até cuidado para não quebrar ao abraça-la. Há quem pense que é falsidade ou conveniência quando falo bem de Eliane. Estas pessoas desconhecem a importância dela nas decisões de todos esses caminhos que tenho percorrido. No futuro, quem sabe quando escrever a minha biografia haverá certamente um capítulo reservado para esta mulher fantástica. Linda para além de toda a beleza. 2) Genésia. Minha mãe honoris causa. Longe de coincidência, ela é a mãe do meu orientador. Nem precisa dizer que de 2001 até hoje tem sido a pessoa que mais respeito em cima deste mundo. É uma das poucas pessoas que me faz “dobrar a orelha”, me aconselhando carinhosamente. 3) Thayze. Uma menina de quem me sinto tia, uma profissional competente, uma professora dedicada. Ela nem imagina o quanto tem me ajudado no percurso desta formação. Assumiu corajosamente as bombas que eu desarmava, e com competência, formou equipe, imprimiu o seu ritmo. Agora, vive um momento especial de sua vida, em que terá que fazer escolhas. Vai perceber por si só que não é possível fazer tudo já que a prioridade, ela carrega em si. 4) Clodoaldo, o primo. Pessoa admirável que se diz de alta periculosidade. Este rapaz me liga quando tem novidades, nem sempre são boas. Algumas são devastadoras para os pobres mortais. Não para ele, que enfrenta as armadilhas da vida com serenidade e muita graça. Depois que falo com ele, envergonha-me abrir a boca para reclamar da minha própria desorganização, da minha baixa motivação. Eu que deveria encoraja-lo, mas o danado não permite: é uma usina de força; uma força que só pode ser de Deus.
As pessoas são a minha fonte de inspiração. É nelas que encontro motivo e assunto. Seja família, agregado, vizinho, amigo ou colega de trabalho, presente ou virtual, é através delas que leio o mundo. Cada um a sua maneira, contribuem para a construção do mundo tal como o percebo.
Gente que eu amo, sinceramente.
Até amanhã, fiquem com Deus.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Nossa linda juventude

Não entendo nada de arte, já disse. Gosto do que os meus olhos gostam. E gosto dos desenhos de Escher. Das coisas que aprendi com Ilma, este artista é uma das minhas heranças prediletas de aprendizagem por aproximação. Ela cursou não sei quantos períodos de Artes Plásticas na UFPE, e naquele meio tempo, aprendi muito sobre arte, pois esta minha irmã é das pessoas mais generosas que eu conheço: sempre compartilha um pouquinho do que sabe, principalmente do que sabe fazer. Lembro de um livro que ela tinha (acho que ainda tem) deste autor holandês que produziu desenhos maravilhosos. Como a minha habilidade no desenho estacionou junto com o meu raciocínio lógico nos 8, 10 anos de idade, apreciar esta arte é o que me cabe. Todos temos nossas limitações, e das minhas mãos infantis só saem traços igualmente infantis.

O tempo passou e hoje olho para aquela que fui. Somos a geração que tomou consciência de sua existência nos anos de 1980. Outro dia, olhando os livros de História de Mariana, me deparei com a definição: "A década de 1980 no Brasil é conhecida como a década perdida", referindo-se a profunda crise econômica que vivemos nesta época, corroídos pela hiperinflação. Deixa relembrar para quem viveu e explicar para quem não conhece: a hiperinflação era assim: você recebia o salário hoje e tinha que correr para o supermercado para comprar comida. Enquanto colocava os itens da lista básica no carrinho, o menino do supermercado ia remarcando os produtos. Muitas vezes, um quilo de feijão custava o dobro do preço quando chegávamos ao caixa: havia sido remarcado enquanto compeltavamos a lista de compra. Crescemos no país de uma inflação de 184% ao mês, em 1989 foi 1764% ao ano. Fomos a geração do nunca teve, temos na nossa formação as cicatrizes do sucateamento da escola pública assolada por greves intermináveis, pela desacreditação da profissão de professor. Ouvimos muitas vezes de alguns de nossos professores calejados pelo duro cotidiano das salas de aula com 60 alunos a lúgubre profecia: "vocês nunca irão passar em um concurso público" ou "estudem para ver se arranjam um emprego no comércio". Mas, o que não nos mata, nos fortalece, e  isto é sabedoria da Bíblia. O tempo arranjou um jeito de, ao seu modo, ir consertando as coisas. E a geração da década perdida hoje está na faixa dos 40, cuidado de suas vidas, uns concursados, outros nomeados. Alguns são patrões, outros funcionários. Aos trancos e barrancos, sobrevivemos. E produzimos.

Hoje, acompanho a mesma geração em espaços sociais distintos: a geração à rasca e a geração carcomida por tempos melhores. Engraçado como estas gerações tem um aspecto em comum. 

A geração à rasca é a linda juventude portuguesa. São meninos na faixa dos 20-30 anos que se viram ameaçados pela pobreza, pelo desemprego, pela perda de direitos sociais. Estes jovens cresceram num mundo de faz de conta da União Européia, e sempre tiveram de tudo. Mas, como nós brasileiros e nordestinos bem sabemos, ser pobre não é fácil. E mais dificil é ser (ou acreditar que é) rico e ficar pobre. Sem esperança de conseguir espaço no mercado de trabalho, estes meninos com uma formação intelectual impecável se veem pressionados a fazer o mesmo caminho que os seus antecessores fizeram: emigrar. Só que a época das grandes navegações já passou há tempos, e agora, não há mais ninguém economicamente inocente. Estão atravessados por uma tristeza, um desalento que nem criatividade, nem esperança sobrevivem. É um sentimento de derrota que somente os muito calejados deveriam ter. Estão fazendo da vida um fado à flor da idade.

A geração carcomida pelos tempos melhores é a nossa linda juventude brasileira. Em linhas gerais, abrange uma faixa etária um pouco menor, vai dos 16 (que já votam, mas não conduzem nem casam!) aos 25.  Estes meninos são filhos dos aperreados da década de 1970-80, que fizeram das tripas coração para que os filhos não passassem pelo mesmo que os pais tiveram que vivenciar. É a geração de mais direito que deveres. Hábeis negociadores, os meninos conseguem o que querem de pais que não tem nenhuma autoridade sobre os filhos, nem mesmo o poder de barganha. Profético, Roger Moreira, da banda Ultraje à Rigor cantava a evidência em 1984: "Não vai dar, assim não vai dar não vai dar, assim não vai dar pra eu amadurecer sem ter com quem me revoltar."  Os pais que dão tudo acabam (de)formando uma geração carcomida pelos tempos melhores, não precisam ir em busca de nada pois tudo está em suas mãos. Não precisam dedicar-se e estudar com afinco, pois sempre haverá uma recuperação da recuperação, pois quem paga colégio caro tem o direito de consumidor de ter o filho aprovado, ainda que ele não tenha aprendido quase nada.  Sempre haverá mais um vestibular, sempre haverá mais um engov para curar a ressaca. Para quê esforçar-se se tudo vem na hora que o reizinho ou a princesinha quer? Só que papá e mamã não são eternos. Então, que tipo de filho àqueles que tanto se esforçaram para dar infinitamente mais do que tiveram estarão deixando ao mundo? Terão preparo emocional para enfrentar as adversidades e os tempos bicudos?

De um lado e de outro, vejo uma só linda juventude (mal) criada com as melhores das intenções.  O tempo irá pô-los à prova. Talvez seja melhor repensar hoje que o NÃO é amargo, mas tem o valor do SIM para minimizar os sofrimentos de amanhã.

Até amanhã,
Fiquem com Deus. 

PS: "Linda juventude" é título de uma música linda do 14 Bis, de autoria de Flávio Venturinni e Márcio Borges (Com a correção do Ed Cavalcante. obrigada Ed!).
   

sábado, 31 de dezembro de 2011

Tudo novo de novo

Pronto, então hoje é 31 de dezembro de 2011. E pedindo título e verso emprestado a Paulinho Moska, "vamos começar colocando um ponto final." Quem já viveu quase 40 vezes essa data, começa a olhar com perplexidade como as coisas podem se repetir. A mesma festa, o mesmo frango na farofa, a mesma maquiagem carregada que não se usa no dia-a-dia, a mesma roupa branca que depois da festa vira farda no hospital. Antes que vocês digam que eu sou adepta do Lunguismo (isso dá uma tese, pena que já comecei a minha!), confesso: esse é o meu segundo ano longe da família, e a saudade é imensa. ONatal, passamoscom a família de Francislê e Dayse, que nos juntaram aos seus agradáveis amigos da Igreja. Esse ano, tivemos um natal luso-franco-brasileiro. Na passagem do ano, Eu-Tony-Luiza de pijamas e pantufas, apesar da queima de fogos ser aqui do lado, o frio de 3 graus não nos anima a sair à meia-noite. Por outro lado, descontada a falta que nosso povo nos faz,   tem me dado um distanciamento metodológico para analisar as coisas de uma maneira menos emocional e mais divertida. 

Antigamente, tínhamos roupa nova para a festa de Natal e de "dia de anos". Crianças, tinha que ter, obrigatoriamente duas roupas. Me lembro dum vestido de marinheira que tive aos 6 anos. O meu era branco e azul escuro, o de Vilma, era vermelho e branco. Inesquecível esse vestido, pois foi com ele que passei mal na roda gigante e vomitei lá do alto, e foi tudo no cabelo da bilheteira... Tragédias de final de ano, que Ilma teve que contornar com toda a sua diplomacia, dizendo que eu também havia sido atingida, quando na realidade quem lançou a bomba de suco gástrico, sopa e seriguela parcialmente digeridas fui eu! O parque de diversões montado na Av. Santo Antonio tem suas histórias terríveis, mas era tradição, e ecomizávamos durante meses para ir "a festa".

Com o passar dos anos, fui percebendo que não adianta discutir e querer inovar, a tradição sempre ganha na mesa do Natal e do ano novo. Tem sempre o lombo nevado de Mahria, a salada de bacalhau de Vilma, o strogonoff de Izabel (o único prato que ela sabe fazer e é sempre o primeiro que se acaba), o jacaré (um bolo de carne) de Ilza, e o peru, que Ilma compra. Ilda faz a base (arroz, salada, massa). Eu, como fraude culinária, levo  caixas de sorvete (gelado) e Ilza apresenta uma torta de limão, que ela garante que ela mesma fez, mas que a embalagem tem a etiqueta do Estação Doçura.  

Frequentemente acontece a briga de casal. Sempre alguém mantém a tradição e se engalfinha com o marido/esposa em plena festa, e fica aquele mal estar generalizado. Para dissipar a onda de tristeza, um sobrinho e/ou um cunhado sempre conta anetodas ridículas, e tudo termina em sonoras risadas, auxiliados pelo teor alcoólico já elevado. No final da festa, quando os pais juntam as suas crianças adormecidas sujas e descabeladas e os jovens zarpam para outras baladas, fica sempre a pia repleta de pratos à lavar. A casa, que foi tão cuidadosamente arrumada e limpa parece uma praça de guerra, com sapatos de mulher e meias de criança por todo lado. Arrumar tudo de novo será a primeira atividade do ano novo, antes do famoso almoço R.O. (Resto de Ontem), quando voltarão as sobrinhas com restos de maquiagem escura nos olhos e os sobrinhos mortos de ressaca, contando ruidosamente "quem ficou com quem" na primeira festa do ano.

Nos dias subsequentes, haja paciência para aguentar aqueles cumprimentos absurdos: "como fosse de ano novo?!" Como FUI, se o ano apenas está a começar? Certo é Cid, irmão de Tony,  que dá um cumprimento generalizado porque não sobra paciência para os discursos repetidos de "muita paz, muito amor, muita saúde, que Nossa Senhora..." Reconheço que são boas vibrações, mas a repetição é chatíssima. Reinaldo me lembrou de outra perguntinha descabida dessas: "Onde vais passar o ano novo?!" Então, o inquirido responde: "Na casa da sogra!". O ano inteiro? Coitada dela. Pior do que isso só aquele ano que me vesti toda de preto, porque a tradição brasileira é vestir-se de branco, e inventei de beber uisque com Tevano. No outro dia, fiquei em casa e no escuro, assistindo um VHS de South Park. E foi a última vez que tomei alguma bebida alcoólica.

Pronto, vou terminar. Vou contato histórias que não acabam mais. E ainda tenho que fazer as minhas resoluções de ano novo, e me preparar para aquela inadiável dieta que prometo fazer todo 1º de Janeiro.

Fiquem com Paulinho Moska, que em 2012 aconteça tudo de bom que nos esforçarmos para fazer acontecer.



Até o ano que vem, fiquem com Deus!