domingo, 25 de setembro de 2011

Leituras e reflexões: O caderno


Acabaram-se as férias e o primeiro final de semana pós-férias entra no seu domingo de manhã. Para muitas mulheres, o domingo é dia de madame, dia de não fazer nada. Para mim é um dia puxado, pois restam para esse dia algumas inevitáveis tarefas domésticas e as tarefas da escola de Lulis. Aqui não temos empregada doméstica nem diarista ou coisa do gênero, pois isso sai muito caro, não cabe no bolso de quem vive na corda bamba do câmbio flutuante. Assim, mão à obra, que o serviço tem que ser feito e minha porção doméstica revela-se quase competente.

Nesta primeira semana de trabalho sinto-me fora de forma. É difícil retomar a rotina de 9-12 horas de mesa para estudar, queno jargão do concurseiro da área jurídica denomina "HBC", ou seja "Horas Bunda-Cadeira". A leitura e escrita exigem um preparo físico que perdi nos quase três meses de férias escolares: em poucas horas, dói o pescoço, as costas e as pernas. Sempre aparece alguma coisa para desviar a atenção. Mas, sei que insistindo, voltarei ao programa necessário para cumprir esses compromissos assumidos e corresponder minimamente às exigências da Universidade.

Uma dessas coisinhas que gostam de desviar a nossa atenção é o danado do Facebook. Dei um tempo longe, pois estava viciada e as informações lá disponíveis estavam me fazendo mal. Foi necessário afastar um pouco para reorganizar as minhas estruturas e retornar mais leve. Mas,  a "fofoqueira eletrônica" toma um tempo danado, apesar de trazer momentos muito interessantes. Outro dia, não me lembro bem porque, a conversa coletiva abordou a comparação dos hábitos de leitura de brasileiros e argentinos. Geraldinho, ex-aluno da FDG, que estuda medicina em terras portenhas, junto com sua linda esposa Paula e o filhote Bernardinho, nos informou que há mais livrarias em Buenos Aires do que no Brasil. Basta comparar o tamanho do território e a população atendida para constatar a desvantagem do Brasil.  Além disso, dentre os hábitos dos hermanos há o dia do "cambio literário". Neste dia, deixa-se o livro em um lugar público e apanha-se um outro igualmente "esquecido". Assim, a rede de leitores aumenta através de uma leitura solidária. Ideia muito boa, mas que tenho dúvidas se resultaria no Brasil. Era capaz de algum esperto catar os livros e na semana seguinte abrir um sebo de obras "achadas". Lamentável.

Cumprindo o meu pacto de leituras portuguesas, caiu-me na mão o último livro de José Saramago, O caderno. Na realidade, é uma coletânia dos posts que ele fez no seu blog entre setembro de 2008 e março de 2009. É uma excelente seleta de textos que retratam a visão de mundo deste rapaz octogenário, que vale muito à pena ser lida. As reflexões do autor são diálogos com um mundo em movimento. Venho namorando-lhe a obra há alguns meses, pois no meio do nosso caminho tem uma livraria Bertrand. Regularmente vamos inspecionar as estantes em busca de coisinhas baratinhas. Nesse dia à porta da livraria, fiz Luiza beijar os dedos em cruz, prometendo que só iriamos olhar. Pois bem, quando virei o O Caderno a etiqueta gritou na minha cara: 8 Euros. Na última ronda à livraria, o livro custava 17! O juramento caiu por terra quando ela me veio com um bloco de atividades da Docinho de Morango (Moranguinho, no Brasil) também em promoção por 3 euros. Luiza já vinha com todos os argumentos prontos e nem precisou usá-los. Comprimi ainda mais o nosso orçamento já tão apertado e fomos para casa com os nosso livros, felizes e contentes.

Li esse livro com pena de terminar. Os posts revelam, como já disse acima, a visão de mundo de um jovem octogenário já falecido, ganhador do prêmio nobel de literatura que escreveu toda a sua obra em português. Os posts transformados em livro abordam a política econômica internacional, as contendas entre árabes e palestinos, as intempéries da natureza, as relações familiares, tudo isso com o jeito Saramago de ser e de transcrever. É tudo maravilhoso, mas aqueles do período de 7 a 11 de maio de 2008, são excecionais. Até digitalizei e mandei um para Tony, para não perder o costume da pirataria brasileira.      

No post do dia 30 de novembro de 2008, Saramago louva a Livraria Cultura de São Paulo, que visitou quando esteve no Brasil para o lançamento da A Viagem do Elefante. Compara a indústria editorial brasileira com a portuguesa, enfatisando a fraqueza da segunda. Dado ao tamanho da sua população, o Brasil tem uma indústria editorial gingantesca e com grande potencial de expansão. Porém, há alguns problemas que nem Saramago conseguiu perceber: O Caderno, que comprei por E$8 na promoção, no Brasil custa R$49,50, ou seja, E$19,03  (valores de 22 de setembro), o que significa que pelo mesmo livro pagamos mais que o dobro no Brasil. Além disso, em linhas gerais, somos uma nação de analfabetos funcionais para a leitura sem compromisso, só lemos quando obrigados por uma necessidade de avaliação formal. Isso é muito mau, situação a que os hermanos já deram a volta há muito tempo. Talvez esse cancro brasileiro seja minimizado nas próximas gerações. A esperança é a última que morre.

Té manhã, fiquem com Deus.


7 comentários:

  1. ai!sou analfabeta funcional para leitura sem compromisso...

    ResponderExcluir
  2. PS: ops, não sou analfabeta funcional, pois analfabeto funcional é aquele que ler e não entende, quem não ler é analfabeto, analfa mesmo!
    mas vou tentar melhorar...

    ResponderExcluir
  3. A leitura de lazer é importante para limpar o HD mental de tanta informação técnica. Quando lemos algo por puro prazer parece que as ideias se organizam melhor, e os textos fluem mais seguros. Quando coloquei analfabeto funcional da literatura foi no sentido de focalizar aquele fulano que sabe ler, mas não ler porque não quer; ou seja, não usa a sua habilidade de leitura só pelo gosto de saber.
    Tente, vai ser bom para você!
    Mil beijos!

    ResponderExcluir
  4. não estou lhe criticando, to concordando...

    ResponderExcluir
  5. eu entendi, e não tô reclamando! hehehehe!

    ResponderExcluir
  6. Ontem ganhei de Ilza o livro "Não há silêncio que nunca acabe", de Ingrid Betancourt, adorei! Vou lendo devagarinho, quando dá uma folguinha. É um relato muito forte do cativeiro que ela passou, e por isso eu leio aos poucos, pois é muito sofrimento. Gosto de ler, só que os livros são tão caros! Beijos e saudades.

    ResponderExcluir
  7. Esse livro parece-me muito bom, Ilma. Coloco-me na fila desde já! Bjoooooo!

    ResponderExcluir