quarta-feira, 25 de abril de 2012

Os cravos e a primavera de Garanhuns

Sabia da Revolução dos Cravos através das músicas censuradas do Chico Buarque, pois nos meus tempos de escola, isso não era assunto para os livros de História. Durante algum tempo, falar em Portugal não era recomendável, pois a ditadura brasileira só arrefeceu no final da década de 1970, com a Anistia e o retorno dos exilados, entre eles, Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, que cumpriu anos de exílio na Argélia.  O medo ainda nos cercava nos primeiros anos da década de 1980, e, nas escolas básicas, a história política recente era cuidadosamente varrida para debaixo do tapete. Não se ensinava aos pequenos a valorizar liberdade e a democracia. Eram tempos difíceis.

Décadas depois, o tempo em que o aluno ideal era o aluno caladinho, passou. Cresci e alcancei metro e meio de altura. Há ano e meio atravessei o Atlântico e mudei de hemisfério. E, neste período que vivo numa Europa esfacelada pela crise, Portugal vive o desmantelo económico de um país que dormiu rico e acordou em apuros, quase pobre. Às vezes, parecem-me desnorteados, sem saída.  Recuso-me a aceitar que um povo que enfrentou o mar nas caravelas, tenha diluido  sua boa genética na riqueza ilusória do mercado comum. Um povo que uniu canhões à cravos não pode ser tão facilmente derrotado, há de se encontrar uma saída.

Ontem Luiza chegou da escola e me perguntou: "Mãe, o que tu sabes sobre o 25 de Abril?" Além de ser meu aniversário, pouco sei, respondi. A miúda discorreu bem sobre o assunto, pois os portugueses fazem questão de manter viva a memória de 38 anos passados. Aprendi com a minha pequena que os ideiais da Revolução dos Cravos - Descolonizar, Desenvolver e Democratizar -, ainda estão vivos, apesar da pressão pela austeridade imposta pelos parceiros-quase-patrões. A estes acrescentaria, ao Portugal dos nossos dias mais um D: "Despertar". A juventude portuguesa precisa buscar caminhos para ultrapassar as dificuldades, empreender o futuro, reduzindo a dependência da vizinhança.

Yuri Gagarin, quando fez o primeiro voo na órbita do planeta, exclamou: "A Terra é azul". Até então, ninguém sabia disto. Foi preciso sair do planeta água para melhor visualiza-lo. Penso que é isso que hoje acontece comigo. Compreendo melhor o meu lugar, ao visualizá-lo cá de fora. No último Outubro, primavera no hemisfério sul, ocorreu um movimento em Garanhuns cuja importância só será percebida quando o fato entrar  para a história. A imprensa pernambucana alcunhou o movimento como "Primavera de Garanhuns", uma alusão ao movimento de resistência organizado pelos jovens em Praga em 1968. O movimento primaveril  de resistência em curso no Agreste é contra a imposição movida pela arrogância busca o cumprimento de um dos ideais da Revolução: A democracia. Nada  pode ser mais contrário à democracia do que a falta de respeito pelo povo. No lugar dos cravos portugueses, os bytes das redes sociais, através do grupo de Discussão Viva Mais Garanhuns e Blogueiros do interior pernambucano, bem como da capital, dentre eles - Ronaldo César, Roberto Almeida, Cysneiros e Amanda Oliveira fomentaram um movimento que demonstra a força que temos quando unidos por um bem comum. Conforme Manuel Castells, a informação que circula livremente na internet é a inimiga número 1 da memória encurtada pelas conviniências políticas não pode sobrepor aos interesses da comunidade.Não podemos nos acomodar e aceitar invasões e desmandos. A passividade de hoje é um desrespeito àqueles que lutaram pela liberdade num passado tão recente.

Até amanhã, fiquem com Deus.

  
   

5 comentários:

  1. Anna, querida, encanta-me a sua habilidade com as palavras. Lindo texto que traz à luz um assunto tão importante: democracia. Gostaria de saber como é cotidiano aí em Portugal, muito curioso.

    Bjin!

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  2. Muito bom, Ana, sei que apenas nos cumprimentavamos em nossa cidade até porque uma senhora casada, aqui ainda não se pode dizer que se tem como amiga, até pelo que voce se refere sobre se colocar as expressões livres embaixo de tapetes....Mas, além de sermos amigos, eu e seu marido, a tenho como uma amiga, e sabia que quando alguém vai ao exterior seja ele qual for, ganha..... ganha conhecimento, ganha vida, ganha horizontes e principalmente uma pessoa que vai em busca de + conhecimento, como é o seu caso. Parabéns novamente pelo brilhante texto, pelas palavras fáceis profundas e centradas, diretas. Exatamente, Doutora, aqui em nossa cidade ainda não se acordou, ainda tem pessoas que preferem ignorar esta "IMPOSIÇÃO", aceitando esta idiosincrasia, aceitando este estupro (como seu marido muito bem tipificou) e somente se terá consciência do que é o grupo VMG, depois destas eleições, pois e principalmente, aqui, ninguém ganha dinheiro para escrever, e as vezes é taxado de outras coisas, para deixar sua opinião e mostrar a cara, para dizer o que sente quando alguém em que se acreditou o trai, quando tenta passar por cima do respeito, do respeito às pessoas, do respeito à DEMOCRACIA. Parabéns.

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    1. Obrigada, Roberto. É um prazer tê-lo como leitor, companhia e amigo. Abraços.

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