terça-feira, 1 de maio de 2012

Leituras e reflexões: Chico Buarque

Não acredito muito em coincidências. Prefiro crer na razão de ser das coisas. Acaso é uma palavra que não frequenta muito o meu vocabulário teórico-prático. à incerteza do acaso, prefiro a inexorabilidade do destino. Tudo tem de ser porque é assim que deve ser, até mesmo com as coisas ruins, a exemplo das perdas, da repetição, da miséria, da solidão e da espera. Há um motivo de ser para tudo, pois cada pedacinho desse imenso puzzle que é a vida, só se completa com as que compartilhamos mutuamente. Este é o terceiro post que venho a falar do Chico Buarque. Talvez porque ele, pela onipresença de todo (bom) artista entra na nossa vida e faz parte dela como fora um velho camarada.

Quando chegou para sua temporada portuguesa de final de ano, Tony trouxe este livro, parcialmente lido, providencialmente adquirido nos Guararapes para aturar a espera da viagem e das conexões. Acho piada quando ele conta que os amigos perguntam quanto tempo leva de Recife à Lisboa. São exatas sete horas e meia. "E não há paradas?", perguntam os mais distraídos. Graças à Deus, não. Se parar, o Oceano Atlântico nos espera. Por isso que é Tanto mar (1975). Entre Lisboa e o Porto (se citarmos a cidade sem o "o", parece que estamos a falar de Porto de Galinhas, que é outra beleza), leva pouco mais de 40 minutos, mas há sempre esperas e demoras, típicas de voos domésticos em qualquer país. Um livro é uma companhia essencial, desde que não esteja acompanhado de crianças pequenas. Neste caso, é melhor não tirar os olhos delas, pois o aeroporto é competente em ser não-lugar. Os pequenos sempre aprontam quando nos distraímos.  A relação de Tony com Chico Buarque é bem antiga, coisa de criança. Catequizado por Neide e Wellington, ele diz que a primeira música que entendeu criticamente foi "O meu Guri" (1981). Neste 22 anos, aprendi e apreendi o compositor, que está entre os meus preferidos.

Esperei para ler o livro de Wagner Homem. Preferi faze-lo no início do meu período de espera, após o dono do livro retornar para o Brasil. Com esta condição de afastamento, arranjamos um novo modo de contar o tempo: o que antes era fundamentalmente o ano letivo, hoje é quando-ele-vem ou quando-eu-vou. Assim, dias se juntam como um colar de contas formando meses e se transformando em ano. Vamos vivendo. O livro é parte de uma série chamada "Histórias de canções", relatando o contexto em que foram compostas. No caso do Chico Buarque, o conjunto da obra, felizmente em plena Construção (1971), há muita lenda urbana contada de boca em boca, que acabamos por acreditar. Nesse livro, o autor busca fontes mais seguras para as histórias que fundamentam as canções, mas nem sempre são confirmadas plenamente pelo compositor. Em alguns trechos, Chico prefere deixar reticências. Ele bem sabe que o mistério faz parte da paixão. Os capítulos do livro são organizados em ordem cronológica, de 1964 à 2009. Da ingênua fase dos sambinhas até se transformar em símbolo cult da música brasileira, reconhecida internacionalmente através de sua obra, o compositor mais censurado nos anos de chumbo esmerou-se em compor para mulheres: Januária (1967), Carolina (1967), Bárbara (1972), A Rosa (1971), Geni (1978),  Beatriz (1982), Luisa (1979), Iracema (1998) e Cecília (1998) são algumas mulheres de suas canções. Umas existem, outras resultam da fusão de várias pessoas, histórias e situações. Mas, o carioca cujo "pai era Paulista e o avô pernambucano" (Paratodos, 1993), não contentou-se em falar "sobre", dedicou-se em falar "como": parte considerável da sua obra é construída a partir da visão da mulher. O Chico soube falar como mulher, sem artificialismos ou afrescalhamentos. Pura sinceridade. Qual a mulher que nunca se viu na condição da narradora de "O meu amor" (1973), no início da paixão, "Com açúcar e com afeto" (1966), quando a relação resvala à rotina, ou "Olhos nos olhos" (1976) ou "trocando em miúdos" (1978), quando tudo se quebra e vira pó?    

São inúmeros parceiros, amigos de uma vida, que construíram juntos uma obra extensa e imortal. De uma parceria com Antonio Carlos Jobim nasceu uma das canções que das belas, pode ser uma das mais belas: Retrato em Branco e Preto. O compositor iniciante era incentivado por Vinícius de Moraes, discutia a construção das frases, negociando significados. Esse trecho do livro relata a história:

"Em outa ocasião, Tom teria dito a Chico que ninguém fala retrato em branco e preto, e que a expressão correta seria retrato em preto e branco. Ao que Chico teria respondido: então tá. Fica assim: Vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco. Diante de uma tamancada tão convincente, Tom entregou os pontos." (p. 66) 

Penso que tenha sido assim que ele desenvolveu a competência de encaixar palavrinhas como "escafandristas"(em Futuros amantes, 1993) e "paralelepípedo" (em Vai passar, 1984) numa melodia perfeita. Isto vai muito além da manjada rima de amor-com-dor. Somente um mestre consegue contar uma história nos versos de canção em que as últimas palavras de cada frase são proparoxítonas (ou esdrúxulas, na gramática lusitana), como em Construção (1971):

"Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego".

Não por acaso, hoje de manhã acordei me lembrando de Alcione, que com sua imensa generosidade diz que quando ler Chico Buarque lembra-se de mim, e, ao abri o "Cara-livro" me deparei com a postagem dessa música na página do Prof. João Marques, a quem só tenho o prazer de conhecer pelas redes sociais. Tudo  me conduz ao (O) Velho Francisco (1987). Mas, se eu fosse fazer uma trilha sonora da minha vida hoje, a música seria "Eu te amo" (1980). Para além do amor, para a beleza da letra e da melodia, tem um verso da música que tem uma história maravilhosa:

"O artista gráfico Elifas Andreato relembrou, durante uma entrevista com Chico, que estavam ambos a caminho de uma partida de futebol, quando o compositor parou o carro, arranjou um telefone e ligou para o seu pai, perguntando quem havia queimado os navio para não poder voltar atrás. Tratava-se do conquistador do peru, Francisco Pizarro, que, para evitar que seu soldados fugissem, ateou fogo às embarcações." (p. 195)

Tenho queimado um navio por dia, pois tenho muitos.

E ainda há gente que diz que em português não resulta boa música. Como diria Lulinha: "esse cara é um anormal". E para quem diz que música não é poesia, ainda tem a obra literária do Chico Buarque, que é para não deixar dúvidas a respeito de sua genialidade. Mas, isso é uma outra história!

Até amanhã, fiquem com Deus.



    

14 comentários:

  1. Lindo comentário, Anninha! Lindo , lindo!

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  2. Adoro Chico! Esse mes passado, vivi um grande dilema. Ver Chico ou ver Paul McCartney, que cantaram em Recife no mesmo fim de semana. Optei pelo segundo, apesar de amar o primeiro. Sei que é bem mais fácil ver Chico por aqui. Amo suas musicas...

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    1. Há gente que não acredita que fiquei feliz por Recife ter sido incluida (com estilo) no rol dos grandes espetáculos porque não tive a oportunidade de participar. Mas, fiquei mesmo feliz, pois as oportunidades surgirão sempre, sem precisarmos peregrinar pelo Brasil atrás de um show. Li "Estorvo", por aquele volume que presenteasse a Nido, há muitos anos atrás. Chico é mesmo fantástico! Beijos!

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  3. Tenho Chico como o maior poeta vivo da música brasileira. O que mais se aproxima da realidade, do amor, do cotidiano. Um gênio. Tímido, sabe o que faz e o que diz. Amei o texto Anna. Inteligente e interessnte (por ser inteligente)!!!
    Beijos

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    1. Tu és fofo, Marquinho! Obrigada, mas, falar em Chico Buarque é fácil e insuficiente. Fácil, porque ele é tudo de bom. Insuficiente, porque nada é suficiente para ele. Beijos!

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  4. Tenho esse livro, ele está na minha lista de espera, antes o tivesse lido quando queria algo de Chico e escolhi o Para seguir minha jornada que se mostrou uma decepção... muito bom o seu texto, parabéns!

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    1. Esse livro que citas não conheço, Sid! Mas, se o seu comentário não é favorável, vou passar ao próximo livro da minha lista, pois, confio no seu gosto! Abraços!

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  5. Bom dia minha querida. Continuo pensando do mesmo jeito, gosto da forma que escreves assim como gosto muito da forma de Chico Buarque, não conheço essa obra, mas, já fiquei querendo ler. Amo canções inteligentes, assim como amo a companhia dos meus livros. Eles me ajudam a seguir em frente.... Bjsss

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    1. Alcione, minha linda, você é muito generosa. Em junho, levo o livro para você. Beijos!

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  6. Sem palavras, falastes tudo o que se podia falar, neste texto sutil, inteligente e harmonioso, tudo deu certo. Parabéns.

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    1. Obrigada, Roberto! Sobretudo pela companhia! Abraços.

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  7. Mais um belo texto, Ana. Chico, o músico, faz parte da minha vida desde sempre. Já o escritor ainda é um mistério. Tentei Estorvo e naufraguei. O mesmo ocorreu com Budapeste. Mas, em se tratando de um mestre igual a ele, certamente darei uma terceira chance.

    Beijos!

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    1. Oi, Ed!
      Também tive um "naufrágio" em Estorvo. Tive que esperar uns anos para ler o livro. A impressão que tive do escritr foi pior do que a que tive do Antonio Lobo Antunes. Já Budapeste, eu amei de cara, e Leite Derramado é uma obra prima. Vale muito tentar novamente. Estou começando pensar que exista o estado emocional adequado para absorver-lhes as ideias. Bjos!

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