quinta-feira, 12 de abril de 2012

A vida alheia (Ou: A função social da fofoqueira)


Finalmente, as férias de páscoa acabaram. Assim, ando ocupadíssima, tentando colocar as minhas atividades em dia. O que é mais dificil de acertar é o ritmo: a preguiça pós feriado é uma síndrome que já deveria ser reconhecida no CID (Código Internacional de Doenças). Passamos duas longas semanas a jogar, assistir filmes, visitar exposições, parque de diversão, cinema... E a brincar de bonecas. Confesso que nos últimos dias, fraquejei. A minha vontade era de atirar todas pela janela, principalmente quando me lembrava dos compromissos e prazos apertados para ler e escrever tanta coisa com que me comprometi. Até porque não tenho a vida toda, apesar de viver no luxo da dedicação exclusiva aos estudos, tenho também a exclusividade das obrigações de mãe e gestora da casa, com o diferencial de acumular os níveis estratégico, o tático e o operacional (todo administrador entende!). Ou seja, como só sou eu, vamos lá. Há quem diga que eu estou aqui sem fazer nada... Vai pensando!

Há muita coisa para fazer. A cada olhada no cronograma, que já vai da décima quinta versão, fico mais agoniada pois, o tempo custa a passar para algumas coisas, mas voa para outras. Em terras portuguesas o tempo não passa, voa. Para se ter uma ideia, clareia o dia às 7 da manhã. Leva-se a criança à escola às 9hs e num instante é meio dia. Rapidinho dá 16hs. Portanto, preciso colocar em prática o que aprendi no tempo em que vivi entre os administradores: a utilização racional do tempo, a a otimização dos minutos. Como diria meu querido Teko Guimarães: "Foco! é preciso ter foco!" E eu sou uma criatura dispersa e confusa. Quando não tenho com que me distrair, eu invento. Reconheço que olhar a vida dos outros tem tomado meu tempo. Reconheço que olho e escrevo aqui minhas "fofocas".

Todo mundo olha a vida dos outros. Nem me venha com esse ar puritano afirmar: "Eu, não!" Olhamos sim a vida alheia, pois aprendemos muito com as experiências dos outros. E não confundam com Voyeurismo, isto já é outro departamento! A olhadinha é aquela prática milenar, comum aos seres humanos desde que estes tiveram a feliz ideia de viver em sociedade. A aprendizagem informal ocorre através da observação, e assim aprendemos a nos comportar à medida da conveniência, a cuidar de uma lavoura ou a educar nossos filhos. A olhadinha vira fofoca quando ela é verbalizada. Ou seja, entra em campo a oralidade e a transmissão de impressões a respeito do que se observou. E convenhamos, via de regra, não se conta o que se viu, leu ou ouviu. Respeitando o ditado popular: "Quem conta um conto, aumenta um ponto", o grande prazer da fofoca é recriar e acrescentar alguma coisa para tornar o caso, digamos, mais emocionante.

Elas estão retratadas em todas as artes, dão bons enredos no cinema, na TV e na literatura. São mote para repentes e temas para literatura de cordel. Todos temos na nossa história pessoal uma fofoqueira (ou mais) dando pitaco na vida privada, mesmo quando se é a própria fofoqueira, pois ninguém está imune ao seu próprio veneno. Sempre há na rua aquela vizinha que entreabre de mansinho a cortina da janela para ver quem chega após as 3 da madrugada. E com quem e como, que é tão importante quanto. Lá na periferia onde me criei tinha uma senhora que era requesitadíssima, sabia de tudo e dava notícia da vida de todo mundo. Chamávamos secretamente de D. Sacolão. Nem me lembro mais do nome da senhora, acho que na verdade,  nunca soube. Para fofoca, D. Sacolão tinha habilidades de vidente! Sabia quem estava grávida antes mesmo de apressar o casamento, quem apanhava do marido, quem traia a esposa, com quem e há quanto tempo. O pior é que as conversas de D. Sacolão sempre resultavam, dificilmente ela errava. Quando chegava visita à porta, antes mesmo de se anunciar, a D. Sacolão surgia à porta da sua casa e gritava para o visitante: "Tá procurando D. Cecília? Ela não está não. Foi à Igreja. Hoje é sábado e ela é crente. Volte depois do meio-dia, pois se ela não for à tarde para a Igreja de novo (enfatizava no "de novo"), encontrará ela." Pois, nem precisava de cachorro, batesse na porta, D. Sacolão avisava logo. Engraçado, que a clarividência de D. Sacolão só não funcionou quando o assunto foi a filha dela. Neste dia, a velha quase morre.  É, ninguém é imune ao próprio veneno.   

Apesar da minha aversão à fofoca, percebo a função social da fofoqueira. A fofoqueira tem um lugar na estrutura social, fundamental para a humanização das relações humanas. Em 2006 foi sancionada no Brasil a Lei Maria da Penha (Lei 11.340), aplicável a casos de violência contra a mulher. E, Fevereiro de 2012, houve uma mudança essencial para a eficácia da lei. Antes era somente a vítima que poderia fazer a denúncia e podia retirar a acusação, em caso de arrependimento. Agora, um vizinho pode fazer a denúncia contra o agressor. E quem é esse vizinho? A fofoqueira! Em caso de doença, de emergência, de receber uma encomenda quando não está em casa, a vizinha rotulada como fofoqueira pode ajudar, pois ela é a criatura mais prestativa do mundo. E ainda pode servir de testemunha se houver extravio de sua encomenda, se cortarem sua luz indevidamente. É claro que levarás umas tesouradas, mas, o benefício é maior que o custo. É cada vez mais raro uma vizinha fofoqueira como a D. Genu de "Éramos Seis". Se as fofoqueiras que nos incomodam tanto desempenhassem sua função com maior competência, tantos idosos não morreriam na mais completa solidão, como ocorre tão frequentemente em Portugal e em toda Europa. São frequentes as notícias de pessoas que morrem e passam dois, três anos sem que ninguém dê pela falta. Outro dia, morreram duas idosas em Lisboa: a irmã mais nova, de 70 e lá vai, cuidava da mais velha, de quase 90, acamada. A mais nova morreu primeiro de um mal súbito. A mais velha morreu na cama, porque não foi auxiliada nas necessidades básicas. E ninguém viu ou lembrou-se das velhas. Faltou uma fofoqueira que cuidasse de olhar a vida delas para auxiliá-las na hora da morte.  É a cegueira urbana que nos impede de ver o outro, de saber se está bem, se precisa de alguma ajuda. É uma obsessão pela individualidade que se transforma em fobia ao contato social com quem mora ao lado.  

Antes de cometer uma imensa injustiça pelo uso do termo no gênero feminino, há também homens fofoqueiros. E são tão implacáveis quanto a Candinha do Roberto Carlos. A diferença é que eles atuam predominantemente no âmbito público, enquanto a fofoqueira típica tem seu espaço no espaço privado. Contudo, neste caso a dicotomia inspirada em Roberto Da Matta é falível, pois a fofoca teve o seu locus amplificado pelas Redes Sociais. Nestas, a olhadinha é o objetivo principal e cada um deve ter seus critérios para expor a sua vida ao público. E pode observar: nas redes sociais quem mais reclama privacidade é quem mais interfere na vida dos outros. O mesmo meio utilizado para postar "pague minhas contas para ter o direito de falar da minha vida" é onde se expõe situações que não diz respeito a ninguém. É só munição para maledicência alheia.

O ideal é não se incomodar. Como disse o célebre Ulisses Guimarães: "Falem de mim... mal, mas falem."

E aqui, fiquem a vontade para falar... sempre!

Té amanhã, fiquem com Deus.

8 comentários:

  1. Sempre fui muito sincera! Hoje sei que tem coisas que não devemos dizer, mas quando eu era criança se me perguntassem algo e eu soubesse eu respondia (dizia). Eu era a criança mais fofoqueira da minha época. Por isso, me meti em muita confusão! Teve até um caso que acho engraçado: Minha irmã Maninha morava em Recife, quando fazia universidade de nutrição na UUFPE e o seu noivo Candido, servia o exército em Fortaleza. Certa vez, Candido foi a Recife e juntos foram para Garanhuns visitar a família. Quando chegaram em nossa casa lá no magano, foram descansar no quarto e juntos adormeceram na mesma cama. Até aí não tem nada de mais! Na epoca, eu tinha uns oito anos e frequentava muito a casa dos vizinhos. Então nesse dia me perguntaram: Vilma, Socorro chegou! e eu na minha inocência disse que sim. E continuei: Ela está lá no quarto dormindo com Candido. Isso causou uma comoção. Quem já se viu! Uma moça dormindo com o homem sem serem casados! Naquela época isso era um absurdo. E eu fiquei como fofoqueira, só porque falei a verdade!
    Beijos!

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    1. hihihihihihi, quando se é criança, Vilma, duas ou três confusões resolvem o caso, e a criatura passa a ser mais cuidadosa. Mas, tem gente que cresce e morre com esse problema, que é diferente daqueles que sabem do fato, tecem a história só para desestruturar a vida das pessoas. Isso é muito mau.
      Um beijinho, visse?!

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  2. Quando estou fazendo minhas diligências, a melhor coisa que pode acontecer é encontrar uma pessoa bem disposta a dar todas as informações possíveis, ajuda muito o nosso trabalho. Lembro de Dona Sacolão, principalmente do dia em que ela passou em todas as casas da nossa rua, gritando e chorando, avisando a todos que João Paulo II tinha sofrido o atentado. Ela era assim, não sabia ficar calada. Beijos e saudades.

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    1. Pois, Ilma, se enquadra na função social da fofoqueira, quando a pessoa fala o que viu, só para ajudar. Essa história de D. Sacolão é ótima, me lembro como hoje: estávamos brincando na garagem e ouvimos o alarido na rua. Era a mulher passando de casa em casa, avisando que o mundo ia se acabar porque mataram o Papa! kkkkk, só no Magano, mesmo!
      Bjinhooo!

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  3. Imagina que eu nunca soube disso Val , tô sabendo agora quando n tem mais nem graça!!! kkkkkkkkkkkk
    Sim, Val se metia em encrencas homéricas, e o pior que por pura inocência, mas o certo era que as pessoas n viam por este lado...

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    1. Hihihihihi, ela tinha um pára-raio para confusão que era uma beleza!

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  4. Goste muito de seu blog!!! Ajuda me muito para aprender novas palavras!!!!
    Beijos agora eu tb sou seguidor!!!

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    1. Oi, lindo! Seja bem-vindo!
      Obrigada pela companhia.
      Beijos!

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