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domingo, 13 de agosto de 2017

No caminho a caminhar: Barcelona

O Lagarto da entrada do Park Güell
Então, na última etapa da nossa cruzada hispânica, aportamos em Barcelona. Na realidade, a cidade não estava no programa inicial, em que pensávamos em entrar na Europa por Madrid e depois ir a Salamanca. Como já sabem, entramos por Lisboa e teríamos que voltar por lá. Então, no meio dos preparativos, me lembrei de que quando Luiza era pequenina, nós assistíamos à tarde um desenho espanhol na TV Cultura, As Trigêmeas (Les tres Bessones, no original catalão). Numa das aventuras das três meninas com a Bruxonilda, elas contavam a história das obras de Antonio Gaudi. Achei ótimo o desenho, mas, acabei esquecendo. Nos últimos meses, trabalhei com afinco num projeto de um curso de Arquitetura para a AESGA, o que me custou muita pesquisa. Por ter que aprender alguma coisa que não faz parte da minha área, desenterrei Gaudi da minha memória. Como prêmio ao projeto quase aprovado, decidi incluir Barcelona no nosso caminho, conhecida primeiro pela obra inovadora do arquiteto catalão, do que pelo o time de futebol.

Paisagem no caminho para Barcelona.
Saímos de Madrid pelas  11h40 do domingo, da estação de Puerta Atocha. Sobre a estação, uma nota: infelizmente, eu estava tão agoniada em encontrar o balcão onde vendia os tickets e providenciar nossa saída da capital, que não fiz nenhuma foto da estação, que tem um lindo jardim interno com árvores crescidas, muitas plantas, flores e banquinhos. Fomos atendidos por um senhora gorda e enfadada num guichê de fila única. Deixei Luiza com as malas e fui comprar os tickets, e essa foi uma péssima opção, pois eu preferi falar inglês e quando a mulher me respondia, eu mal entendia. Se perguntasse novamente, ela revirava os olhos e bufava, e somente depois repetia devagar. Me deu vontade de mandá-la estudar para arranjar um emprego melhor, mas, acabei finalizando o contato com um "Obrigada, simpatia", cheio de ironia. As estações de trem da capital espanhola têm o mesmo rito dos aeroportos: é preciso colocar as malas e bolsas na esteira para que sejam analisada no raio X. Depois disso, fomos esperar nosso trem numa sala de embarque movimentada. Quando anunciaram a nossa condução, deu um certo burburinho. Não se fazia fila e nas três portas de acesso a plataforma de embarque, formou-se um bolo confuso de gente apressada. Brasileiramente, fomos com a multidão. Embarcamos num trem da Renfe, com relativo conforto. Enquanto Luiza cochilava, eu apreciava a vista através da janela do trem a 259 km/h. 
Eu, na Rambla Del Mar
Chegamos em Barcelona depois das 15 horas. Nos vimos em uma estação movimentada, repleta de gente de todos os lugares do mundo. Antes buscar uma saída, precisava ir ao banheiro. Luiza não quis ir, então, eu saquei da minha Bahia uma moeda de 1 Euro, conforme exigia a máquina na entrada. Contrariada, coloquei a moeda e saquei um pequeno ticket. O banheiro parecia um salão de beleza: muito limpo, construído no vidro leitoso verde e espelhos imensos a partir das bancadas de mármore, onde se alinhavam as pias. Nos gabinetes, uma bacia simples, um dispenser de papepl, um lixeiro. Nada de mais. Após o uso, quando fui tentar dar a descarga, havia três botões sobre a caixa acoplada ao vaso. Indecisa, apertei o primeiro, e a bacia deu várias xinringadas de água, se transformando em um eficiente bidê. Contendo as risadas, apertei o segundo. O acento da bacia rodou 360 graus e saiu um jato de  vapor e depois de ar quente. Esse bendito botão era o que eu deveria ter apertado antes de usar, pois era para higienizar o vaso. Orh! No último botão, deu-se a descarga, finalmente e eu sai dando risada da minha ignorância latino-americana.  
Monumento a Cristóvão Colombo na rotunda no final da Rambla e La Rambla Del Mar


Saindo da estação, preferimos tomar um táxi. Um jovem moreno adiantou-se da fila, e, sorridente abriu a bagageira para acomodar nossas malas. Luiza disse o endereço e lá fomos nós para La Rambla. Já havia visto num documentário na TV que esse pedaço de Barcelona é bem movimentado. Como há muitos Hosteis, arranjamos um bem em conta, administrado por imigrantes indianos. O percurso não era tão longo, pagamos 8 Euros pela "carrera". Deixamos nossas malas no Hostel e fomos em busca de comida, pois já chegava às 16 horas e andar com um "Ferreira" (a família de Tony) com fome é meio complicado. Almoçamos num dos muitos restaurantes da Rambla, experimentando dessa vez um restaurante Turco chamado Luna de Istambul. Resolvida a fome, fomos andando a Rambla para ver o que tinha no final.
Ancoradouro de Barceloneta
La Rambla del Mar não existia antes dos Jogos Olímpicos de 1992, realizado nesta cidade. Aliás, Barcelona só entrou para o trade turistico mundial como legado dos Jogos. Diferente do que aconteceu no Rio de Janeiro, a estrutura necessária aos jogos continua sendo bem utilizada. A Vila Olímpica é um dos bairros mais caros da cidade, que foi completamente revitalizada. La Rambla Del Mar é um cais de madeira que atravessa de uma ponta a outra da praia de Barceloneta, tendo um shopping no final. A quantidade de gente que circula nessas pontes é uma coisa impressionante. Do outro lado, vê-se o WTC de Barcelona, um hotel de alto luxo, bem ao lado do cais exclusivo onde aportam os gigantes navios de cruzeiro. Se em Madrid eu me encantei com a beleza das pessoas, em Barcelona a natureza e as construções são um prodígio de Deus e do homem. Aliadas a diversidade humana, com gente de todos os lugares do mundo, entre os voos rasantes nas gaivotas, tivemos um final de tarde memorável, apesar dos nosso relógios já apontarem as 21 horas. 



No outro dia, após um cafezinho na  pans, que pelo jeito há em todas as cidades desse país, fomos comprar nossos tickets para o ônibus de turismo, que nos levaria para conhecer a cidade. Optamos pegar a linha vermelha, depois saltar na outra praça lá no começo da Rambla e trocar para a linha azul, que nos levaria até o Park Güell, um empreendimento criado por Gaudi para ser um loteamento de alto poder aquisitivo. Porém, a ideia fracassou, segundo Luiza porque o negócio ficava no fim do mundo. E pense numa ladeira! O ônibus nos deixou numa parada e para chegarmos à portaria do Park, tivemos que subir uma ladeirinha básica parecida com aquelas de Olinda. Some-se ao sol escaldante das 12h e o fato de eu ter escolhido ir de sandálias. O sapato errado pode colocar a viagem a perder. Chegamos ao topo da ladeira, meio mortas e meio vivas, depois de nos perder e ser selvas por um velhinho que estava sentado à frente de sua casa. Quando íamos passando, o velho disse: "Ei! donde vás?" Voltei, cumprimentei e disse que íamos ao Park Guëll. O Velho, abanou a cabeça e disse: "No, no, no. No vás por cá. Cá só de colche. Vueltas y caminas hasta dos calles y sube. Alla arriba. és el Park." Impressionada com a disponibilidade das pessoas em ajudar, agradecemos muito e fizemos o que o Velho mandou.  Como já tínhamos comprado os tickets na internet, fomos direto à entrada e passamos para o Eixo Monumental do Park, um dos lugares mais lindos que já vi em minha vida. 


 

Na verdade, quase fomos barradas na porta, porque nossos ingressos diziam que deveríamos chegar às 10 horas e já passavam das 12. Explicamos que nos perdemos e que quase morremos para subir a ladeira a uma moça loura que pegou nossos tickets e pediu-nos para esperar. Em catalão e entre risos, ela falou com alguém na administração e fomos autorizadas a entrar. Agradecemos muito e fizemos nosso passeio por um parque lindo, cheio de esculturas e muitas surpresas. Escolhi visitar esse lugar por causa de dois clipes: "Irmã de Neon", do Djavan, que foi gravado justo nesse lugar onde Luiza está fazendo uma foto. O outro é "Amado", da Vanessa da Mata, em que ela aparece passeando nesse lugar onde Luiza está acima. 


Mercado Boqueria
Na sessão da tarde/noite fomos no mercado Boqueria e andamos o circuito vermelho inteiro, passando por La Pedreira e pela Casa Batló. Passamos também pela Igreja Sagrada Família na ida ao Park Guell, mas, não descemos. Fica para a próxima, do mesmo jeito que ficou o Campi Neu, pois visitar a casa do Barcelona sem Tony Neto é um traição imperdoável. 

No outro dia, após comprar as lembrancinhas, ainda demos mais uma volta na Rambla e nos despedimos de Barcelona, certas que iremos voltar tomamos o Aerobus na praça, ao pé do El Corte Inglés, e seguimos para o aeroporto onde pegamos um voo para Lisboa, nossa despedida da Europa.

Ficam os clipes que inspiraram nossa trip no Park Guell. Tenho absoluta certeza de que voltaremos a Barcelona, uma cidade mágica, como bem disse o Prof. Luis Pedro. Voltaremos muitas vezes. 





Fiquem com Deus.



domingo, 6 de agosto de 2017

No caminho a caminhar: Madrid

Então, depois das 14 horas Francislê e Fábio nos deixou na estação de trens de Salamanca, que a mim, mais parecia um shopping, toda moderninha no vidro verde. Compramos nossos tickets e um lanche, e foi o tempo de encontrar a plataforma e embarcar num trem cm as poltronas mais duras de toda Europa. Apesar do transporte ser muito moderno, me senti nos velhos trens de Garanhuns, se realmente os bancos do Centro cultural forem os assentos que o pessoal viajava.  Pelo caminho, enquanto Luza cochilava com os fones nos ouvidos, eu olhava a paisagem passar à 120 km/h. Na parada de Segóvia-Guiomar, entrou um casal de caras já meio chegados na idade, e sentaram-se nas poltronas ao nosso lado. Essa estação é engraçada porque parte do percurso é feito num túnel. Parece que estamos no metro. Pelas 16 horas, o serviço de informação do trem avisou que chegávamos a Estação de Chamartin, em Madrid.

Pois ai eu fiz uma bobagem, mesmo por falta de informação ou melhor, falta de pesquisa de minha parte (um absurdo! Que espécie de pesquisadora sou eu, se não atentei para um detalhe tão básico?) Descemos em Chamartin, e deveríamos pegar um trem complementar para Puerta Atocha, uma estação que fica bem no meio da cidade. Eu, fui-me embora pegar um táxi. Essa besteirinha me custou 32 Euros. Mas, teve suas vantagens. Chegamos na fila dos táxis, e um senhorzinho acenou-nos. Rapidamente, abriu a mala do carro e acomodou nossas bagagens (os taxistas europeus adoram passageiros com malas porque elas - as malas - pagam tarifa extra). Mostrei o endereço: Gran Via, 42. O sujeito, no apressado espanhol madrilenho, logo perguntou se éramos dominicanas (?), e ficou mais animado quando dissemos que éramos brasileiras. Para o meu total espanto, disse-nos que não se vê muitas brasileiras em Madrid. Fiquei espantada, porque no noticiário, o que mais aparece são as moças brasileiras que vão fazer a vida nas calles madrilenhas. O homem passou o caminho inteiro tentando conversar conosco. Luiza afundou-se no banco de trás ao meu lado e pôs os fones, daí eu que tive que me virar com o tagarela. Perguntou-nos se era a primeira vez em Madrid. Expliquei que sim e, mas que vinhamos de Salamanca, uma cidade muito linda. Aos meus rasgados elogios, o sujeito reagiu:

- Salamanca? Aquilo lá é apenas uma muralha com duas pedras a mais! Cidade para se conhecer é Madrid!   


E derramou-se de elogios pela sua cidade, apresentando-nos os prédios que apareciam no percurso. E eu que achava que os baianos eram bairristas. Isso, até conhecer um típico cidadão de meia idade de Madrid. Pois bem. A conversa continuou, o sujeito me perguntando o que iriamos fazer na cidade. Emendou dizendo que a noite era muito agitada, e que nós gostaríamos de "levar uns copos". hein? cutuquei Luiza com o cotovelo, que a esta altura já havia se interessado na conversa em espanhol-inglês-português. Ela interferiu:
- Levar uns copos deve ser ir para a noite, mainha.
Ah, tá. Expliquei que não, que o nosso objetivo era ver os museus. Ele indicou-nos uma mão de museus. Falei que iríamos ao Prado na manhã seguinte. 
Então, ele informou-nos que o trecho onde iriamos ficar era muito agitado, que funcionava pelas 24 horas. E eu, achando que estava arrasando no espanhol, tasquei:
- Ah, é muito animado.
E, para minha completa surpresa, o homem respondeu sério, olhando-me pelo retrovisor:
- No, animais no hay!
Retruquei, explicando-me, enquanto Luiza segurava o riso: "não, the place is funny!" Ele não entendeu. Então, emendei: "The people are happy!", com isso ele concordou: "Sí. Las personas são mui contentas." God! Contente resolveria todo o meu impasse idiomático. 

Enquanto isso, o taxímetro zunia. Quando paramos na Gran Via, do lado oposto do número 42, quase que eu pedia para o homem dá uma rezinha para diminuir a minha conta. No prédio, após o terceiro andar, há um ou dois hostels a cada piso. Fizemos a reserva pelo Booking.com, depois de ler muitos relatos de viajem, mas por causa da localização. Ao fazer o check-in, fui pagar com o cartão de crédito, e mais uma vez, não funcionou. Paguei com dinheiro mesmo, pois o jovem já estava me olhando como se eu tivesse cara de estelionatária. Deixamos as malas no quarto vizinho ao 6 não tinha número na porta), de um corredor claro com cheiro de pastilha de melancia. O banheiro partilhado, ficava bem em frente a nossa porta e era bem limpinho. Menos mau. Fomos andar pela Gran Via, nos acostumando com a cidade grande. Muita gente, e para nosso espanto, toda a gente era bonita! Os casais idosos, bonitos. Os homens, lindos. As mulheres, maravilhosas. Os cães, fofos. Os gays, divinos. Aliás, é digno de nota que apenas em Madri foi que identificamos os gays espanhóis, pois em Salamanca parece que a galera não dá muita bandeira. Em Madrid, até quem é feio, é bonito. Entramos numa rua, não me lembro o nome, mas que parecia um shopping a céu aberto: todas as lojas chiques estavam marcando presença. Muita gente andando, comendo, passeando. Muitos músicos de rua. Fiquei encantada. Mas, já eram mais de 9 da noite, e tínhamos que arranjar um mercado para comprar água e umas besteiras para passar a noite. 

No outro dia, pela manhã, após resolver a embrulhada do cartão por um telefone público que faz ligações internacionais à moedas, que Tony descobriu que eu não havia informado a administradora de crédito que iria para o exterior, e por isso o bendito não funcionava, tomamos uma cafezinho na Pans e compramos nossos tickets no Red Tourism Bus. Uma senhorinha nos atendeu muito bem, oferecendo opções de idioma: "Spanish, English or French?" Luiza tomou a frente, e negociaram os tickets. Ela pagou 16 e eu 24 euros. O desconto dela é porque ela tem menos que 16 anos. Ótimo! Esse ônibus é ótimo para quem tem pouco tempo na cidade, faz três roteiros, começando a rodar pelas 10 da manhã até as 10 da noite, e você pode descer em quantas paradas quiser. Pegamos o Ônibus na Gran Via e nossa primeira parada foi no Museu do Prado. 
Cãozinho cantor na parada do Museu do Prado

Eu, na estátua de Cervantes, na frente do Museu do Prado
Havia planejado essa visita milimetricamente. Queria que Luiza visse as obras dos espanhóis Velasquez, Goya e El Greco, e do italiano Rafael. Comprei os tickets pela internet, pois além de ser mais barato, é mais prático e não corre o risco de ser barrado na porta, como fomos no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, porque não tínhamos tomado essa providência. Logo na parada do ônibus, nos deparamos com duas maravilhas: O imenso prédio de mármore rosa e um músico de rua acompanhado por um cãozinho, que em um determinado trecho da música, executada no saxofone, ele uivava, cantando! Coisa mais linda do mundo. Todos aplaudiram o animal, demos algumas moedas e um carinho nas orelhas do cão e fomos ao museu. 

No museu não é possível fazer fotografias. Fizemos a visita livre, nos perdendo e nos encontrando entre as salas do acervo gigantesco. Dos autores, só não vimos o El Greco. Demos muitas risadas enquanto olhavamos "la maja nua", de Velasquez. Não é por nada não, a dona é até bonita, mas, ao lado colocaram a mesma pintura, com a mulherzinha vestida. Então, na primeira tela, Luiza leu na plaquinha miúda: "la maja nua." Em seguida, sem ler, eu já decretei: "Essa deve ser la maja vestida, né?" E não é que era? E os asiáticos ficaram nos olhando, sem entender porque nós dávamos tantas risadas. A parte que mais gostamos foram as esculturas gregas e italianas em mármore, cada uma mais linda que as outras. Enquanto apreciávamos, Luiza ia me explicando sobre os deuses gregos, que ela tanto gosta, graças as leituras do Percy Jackson. 
Jardim Botânico de Madrid

Saímos do Museu pelas 14h30, sob um sol de derreter. Como já havíamos comido uns sanduíches na lanchonete do Museu (chique e caro: 26 Euros por dois bocadillos de jamon ibérico e dois zumos de naranja. Mas utilizei a máxima de Mano do Caetano: "quando é que vou voltar aqui?" Felizmente, o cartão funcionou), passamos para o Jardim Botânico de Madrid, que fica bem ao ladinho do Museu do Prado. Não estava no programa, mas Luiza insistiu em visitar. Neste há muitas espécies de árvores e plantas diversas, Só não tinha muitas flores, porque as estações do ano não brincam em serviço na Europa: Quer ver flores? venha na primavera. Lá no final, no pavilhão, havia uma exposição sobre duas visitas de Elliot Erwit a Cuba. Como não pagava, entramos. Gostei muito. Esperei o monitor se distrair lá dentro e fiz uma foto da foto que mais gostei:
O Mulherio Cubano e Fidel, foto de Erwit.
Ao sairmos ainda acompanhamos uma sessão de fotos de um casal de noivos e fomos procurar água. Entramos em um bar, mas era na hora do almoço, e ninguém quis nos atender. Andamos mais um pouquinho, entramos noutra rua, desviamos de um grupo de moradores de rua, e achamos um Carrefour Express. Ótimo. Compramos água e fomos pegar nosso ônibus, pois o calorzinho de 41 graus exigia uma parada. Voltamos ao hotel e, depois de um banho e uma olhada na internet, pegamos o transporte para a Plaza Mayor e o Palácio das Cibeles. Infelizmente, as fotos ficaram horrendas, não sei o que deu. Depois de zanzar por lá, pegamos de volta o transporte para a Gran Via, pois Luiza precisava de umas camisetas e a Primark estava na sua "segunda rebaja". Primark é um varejo irlandês que tomou conta da Europa nestes últimos anos. São lojas imensas, que vendem tudo de confecção. Na loja de Madrid, são cinco andares circulares de roupas e acessórios: três de coisas para mulheres, um para homem e um para crianças. Compramos algumas camisetas e fomos atrás de comida. Jantamos bobagens na Hamburgueza Five Guys, depois de enfrentar fila na porta. Mas, como era na mesma calçada do nosso Hostel, não havia problemas. 
Fotos: Ana Freitas (é o nome artístico da guria!)

No outro dia, depois de um cafezinho, fomos comprar pequenas lembrancinhas nos quiosques que pontilham a Gran Via. Ainda passamos rapidamente na estação do metro, mas, decidimos que era melhor tomar um táxi até a Estação Atocha. De lá, daríamos um jeito de chegar a Barcelona, nossa próxima e última parada em Espanha.  

Até o próximo capítulo, fiquem com Deus.
    


segunda-feira, 24 de julho de 2017

No caminho a caminhar: Aveiro

Moliceiros na Ria de Aveiro
Chegamos em Lisboa pelas 11 horas, depois de sete horas e um pouquinho de voo sobre o Atlântico. Até que a passagem pela Linha do Equador não foi muito turbulenta. Apesar disso, não consegui dormir nenhum sono, pois ficamos nas cadeiras do meio da classe econômica, e o espaço exíguo nos incomodava. Luiza ainda encostou a cabeça no meu ombro e tirou uma soneca. Eu, fiquei nos cochilos esparsos. Quando desembarcamos, sempre há aquela tensão de passar pela imigração. Não que tenhamos coisas erradas, mas nem sempre é possível prever as exigências para ser aceito no país dos outros. Passamos batom, alisamos os cabelos da melhor maneira possível para tentar passar uma melhor impressão, apesar da noite insone. Pois, foi engraçado. O inspetor da imigração cumprimentou Luiza em inglês, que prontamente respondeu no mesmo idioma, enquanto apresentávamos nossos passaportes abertos na página das fotos. O sujeito olhou, e perguntou-me se éramos irmãs. Agradeci a gentileza, e expliquei que a jovem era minha filha. Em seguida, perguntou-nos para onde iriamos. Expliquei do congresso em Salamanca, mas que antes iriamos passar o restinho do dia e a noite em Aveiro, só partindo para a Espanha no manhã seguinte. O rapaz passou de oficial de imigração e deu uma de guia turístico: "Ah, vocês irão adorar aquilo lá a essa época do ano! É muito bonito. Hoje já passou por aqui um senhor brasileiro, vai a esse mesmo congresso. Ele é psicólogo. Você é psicóloga?" Expliquei-lhe que sou professora de metodologia de pesquisa, enquanto ele escaneava nossos documentos. devolveu-nos os passaportes recomendando que não deixássemos de procurar "la rana" no frontão da reitoria. Sem entender nada, agradeci, nos despedimos e seguimos. Nunca tive uma recepção tão amigável em Portugal.

Seguimos para Aveiro no comboio das 14h07, depois de comermos nossos pães com chouriço numa lanchonete da Gare do Oriente.  Ao contrário das minhas pesquisas, era um Alfa Pendular que só fazia uma parada em Coimbra B, antes de Aveiro. Melhor assim, pois tive um tempinho de dar um cochilo sem me estressar com a nossa parada. Foi um pouquinho mais caro do que constava no meu planejamento, mas, uma viagem num Alfa Pendular vale a pena, é um trem tão chique! Luiza dormiu as duas horas de viagem, o que ajudou a melhorar o humor da pequena. Para ela,  a viagem a Portugal era um  retorno a infância: muita coisa ela ia lembrando ao longo do caminho. Chegamos em Aveiro pelas 16 e pouco. A pensão que havíamos reservado por 45 Euros ficava bem ao pé da Estação dos Comboios. Após ajeitarmos nossas malas no quarto de um prédio de 1924, saímos para reencontrar a cidade. 

Fizemos uma primeira parada numa quitanda onde comprávamos frutas a caminho dos comboios para um passeio qualquer. Sempre gostei muito dessa lojinha pois a senhora que atende é muito atenciosa, os preços são bons e as frutas, sempre frescas e bem limpinhas. Comprei cerejas frescas e fomos comendo pelo caminho, enquanto conferíamos o que havia mudado. Fomos andando até o Forum, um pequeno shopping que domina parte importante da vida social do centro da cidade e demos um alô para a ria.    

Ria de Aveiro
 O plano era ir ao Ramonas almoçar cachorros-quentes. Essa lanchonete foi um lugar importante para nós, pois, quando saíamos da escola na sexta-feira, e tínhamos algum dinheirinho, era lá que fazíamos o jantar do primeiro dia do final de semana. Às vezes, como diz Luiza, eu estava numa "bad profunda", na fase de conclusão da tese de doutoramento, que não conseguia comer nada, tomava dois copos imensos de suco de laranja com cenoura. Do Ramonas, passamos à frente da Escola da Glória, onde Luiza estudou por dois anos, antes do prédio ser fechado para uma reforma.

Escola da Glória, Aveiro.
Tenho uma imensa gratidão a esta escola, que recebeu tão bem a minha pequena. Aqui ela aprendeu muito, teve a oportunidade de fazer a base de sua educação em uma excelente escola, com professores maravilhosos. 

Da escola, passamos no nosso antigo endereço e fomos ao Parque D. Pedro. Nesse espaço brincamos muito nas intermináveis tardes de verão, compramos kitkat na barraquinha da esquina, demos comida aos peixes do lago e aos pombos.
Eu, na pontezinha da Casa de Chá, Parque D. Pedro, Aveiro
Ponte Pedonal. Liga o Parque D. Pedro a Baixa de Santo Antonio, Aveiro.


 Quando saímos daqui, em 2013. parte do parque estava fechado para reforma. Construíram uma Ponte Pedonal que liga um lado ao outro da Avenida que termina na rotunda do Hospital e da Universidade. Não achei a obra grande coisa, acrescentando pouco a paisagem, mesmo tendo custado uma fortuna. Subimos a rua, passamos pelo Hospital e demos a volta pela passarela que liga a calçada lateral da Escola João Afonso, onde Luiza estudou seu último ano, em razão da reforma da Escola da Glória. No espaço, não há mais nada, somente a base onde foram assentados os prédios provisórios. 

Reitoria da Universidade de Aveiro
Entramos no campus da Universidade de Aveiro. A esta altura nossos pés já doíam imenso, e a esta época, quase não há estudantes no Campus, somente alguns poucos bolsistas e servidores. Sentamos à frente do prédio para descansar um pouco. Percebi que agora há o número e o nome do prédio nas fachadas de vidro. Na época em que eu era aluna novata sofri para identificar os prédios, pois tudo era muito discreto. Nas minhas primeiras semanas, dei muita cabeçada para achar o prédio de Comunicação e Arte. Descemos a rua, passamos pelo prédio que acompanhamos a construção à frente do nosso pequeno apartamento. Atualmente, é um grande edifício, cujo piso térreo é um centro médico, com clínicas diversas. Passamos pelo Largo do Tribunal e descemos pela Rua Belém do Pará, que nós chamamos de Rua do Vento. Há muitas lojas novas, reconheci apenas a ótica que frequentávamos para consertar os óculos de Luiza e algumas pastelarias tradicionais. Entramos por um bequinho que dá no Fórum. A casa abandonada ao lado foi demolida e estão construindo um prédio. Deixei Luiza esperando na frente da Zara (na nossa época era um supermercado Pingo Doce) e fui saber onde tomar o autocarro para Albergaria-à-Velha, próxima etapa da nossa viagem. Na revistaria, a jovem me explicou que agora o ponto era ao pé da Ria, na paragem dos autocarros que vão para  Costa Nova. Beleza. Quase nos arrastando de tanto cansaço, ainda passamos numa loja de doces que há no Fórum para Luiza comprar umas gomas de amoras. Ela comprou isso e mais outras coisas, e, já com calos nos pés, pegamos um táxi na outra avenida, ao pé do Banco Santander. 

Quando chegamos à pensão, já passava das nove da noite, embora a visão da janela do nosso quanto nos mostrasse essa imagem:
Estação dos Comboios, vista da janela do quarto do Alojamento Tricana de Aveiro
No verão, os dias são longos e entram pela noite. Quando fica escuro já passam das 22 horas. Fechamos nossas cortinas e após um banho relaxante, como nos velhos tempos, dividimos a cama de casal do pequeno quarto. 

O ventinho frio da cidade litorânea nos avisava que o dia posterior seria ensolarado, mas, que, como sempre, começaria nublado e friorento. Fomos dormir, agradecendo a Deus a oportunidade de ter vivido nesta cidade pequena, mas cosmopolita, que sabe respeitar as diferenças culturais e recebe carinhosamente a todos que chegam em busca de conhecimento. É muito bom poder voltar a uma cidade querida e perceber seus progressos e suas permanências, lembrando histórias engraçadas a cada troca de calçada.

No outro dia, logo cedo, após um cafezinho com meias-de-leite, torradas e pasteis de nata, envoltas no vento frio cheirando a sal, tomamos um táxi na frente da estação até a Ria para pegar o autocarro para continuar a nossa viagem, que fica para o próximo post.

Fique com Deus. 

domingo, 9 de julho de 2017

Cruzada hispânica

Agora, o inverno vai a todo vapor. Chove tanto em Garanhuns, que acreditamos que o sol irá voltar somente em setembro. Segundo Virgínia, Deus está atendendo cada uma das orações que foram feitas, pedindo chuva. Portanto, como foram muitas súplicas, e o altíssimo tem um controle de qualidade acirrado de suas bençãos, seguremos-nos, pois haverá ainda mais chuva. Pelo menos, este ano, se permanecer como estamos, não reclamaremos que o inverno não veio para o Festival.  

Pronto. Então, estamos fechando as malas para uma cruzada hispânica. Outro dia, contei-lhes que havia me enrolado com o câmbio e o preço das tarifas aéreas. Pois, mesmo em tempos tão bicudos, arranjamo-nos e estamos seguindo para uns dias na Espanha. Tudo começou de uma raivinha que me fizeram lá no serviço. Às vezes, o pessoal exagera nas "picuinhas acadêmicas" e machucam. Para não dar uma mordida em cada um dos envolvidos, canalizei a minha energia na produção científica, e submeti um artigo num encontro de Análise Qualitativa, que este ano ocorrerá em Salamanca. Nem tinha nem esperança que fosse aprovado, pois, como participo como avaliadora, tive a pachorra de contar quantos artigos foram submetidos através do EasyChair: 698. Pois bem, qual não foi a minha surpresa quando me mandaram o e-mail de aceite do tal artigo. A partir de então, já desisti mil vezes, e sempre voltei atrás. Então, quando recebi o voto de aplausos da Câmara de Vereadores de Garanhuns, solicitado pelo Vereador Alcindo, não dava mais para desistir. Depois de deliberações, decidimos que iríamos eu e Luiza. Tony está enrolado com os processos da Câmara de Vereadores e preferiu economizar para a um "projeto pessoal em 2018", como ele mesmo diz. Arranjei um dinheiro na CEF (coisa de servidor público pobre!) e comprei as passagens. Ajeitamos, puxamos daqui e colocamos lá, e, amanhã embarcaremos para a cruzada hispânica. 

Preferi pegar o caminho conhecido da imigração portuguesa, pois, eles têm meu "DAE", e sabem que não tenho a intenção de ficar. Vamos de comboio para Aveiro, aproveitamos para matar as saudades daquela cidade tão linda, a qual tenho tamanha gratidão. Olhando o mapa, pode-se perceber que de Aveiro para Salamanca é quase uma linha reta de mais ou menos 300 quilômetros para o Oeste. Assim fica melhor do que ir para Madri e ter que pegar descendo. No outro dia, pegamos um ônibus para Albergaria-à-Velha, e de lá, outro ônibus para Salamanca.  Ficamos até a sexta, 14, quando será a nossa apresentação. Digo nossa, porque o artigo é em parceria com Francislê, e Luiza já se candidatou para ser minha assistente. De Salamanca, vamos à Madri e depois Barcelona. Tudo de comboio, que é mais barato. Voltamos à Lisboa e pegamos o bonde descendo para o Brasil, que ancora em Fortaleza e depois uma conexão para o Recife. Chegaremos, com a graça de Deus, no dia 21, pela madrugada.     

O itinerário está pronto. Salvo possíveis imprevistos, está tudo milimetricamente planejado. Apesar dos preços serem bem mais salgados nesta época do ano (o verão europeu custa os olhos da cara!), a grande vantagem é que as malas são bem menores, e como Luiza já está maior do que eu (embora eu não seja propriamente um referencial em altura), cada uma leva a sua bagagem, pois já eduquei a minha pequena as vantagens de ser compacta. Viajar com Luiza é bem legal porque ela já tem o nosso senso prático e gosta de participar de tudo. Quando estava naquela fase do "vou! não-vou-porque-não-tenho-dinheiro", ela veio pedir uma conversa de filha e mãe. Foi mais ou menos assim:

Ela - Mãe, eu quero ir a um psicólogo.
Eu -  E é? E por que tu queres ir a um psicólogo?
Ela - Porque estou com uns problemas e quero falar com alguém sobre as minhas coisas.
Eu - Fale comigo, então.
Ela - Não vale, tu és minha mãe.

Passou-se. Realmente, os dias subsequentes, percebi que ela estava muito tristinha, sem querer comer direito (isso é um sintoma grave na nossa família), ficando muito tempo no quarto. Pedi ajuda a Izabel, que me indicou uma colega dela, e tal. No final da semana, fiz minhas contas e fui conversar com a jovem, agora de mãe para filha:

Eu - Luiza, arranjei uma psicóloga para tu ires.
Ela - Boa. Eu vou quando?
Eu - Assim... Você sabe que essas coisas custam um bom dinheiro, e eu estou apertada porque tenho aquela história do congresso...
Ela - O da Espanha?
Eu - Esse mesmo. Então, eu só posso pagar uma coisa: você que ir ao psicólogo ou quer ir a Madri comigo?
Ela - (sem nem pestanejar) Vou para Madri!!!! 

E ficou boa na hora dos pantinhos de adolescente.

Pois bem, estou apostando que seja mesmo um bom remédio. Um pouco caro, mas completamente eficaz. Vou passar um tempo relativamente enforcada, mas, quem sabe estou realizando uma profecia daquelas que vem nas músicas infantis: "Fui a Espanha, buscar meu chapéu, azul e branco da cor daquele céu!" Além disso, o que seria da vida, se não fosse as minhas pequenas doidices?

Fiquem com Deus, que nós vamos com ele e Nossa Senhora!