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segunda-feira, 24 de julho de 2017

No caminho a caminhar: Aveiro

Moliceiros na Ria de Aveiro
Chegamos em Lisboa pelas 11 horas, depois de sete horas e um pouquinho de voo sobre o Atlântico. Até que a passagem pela Linha do Equador não foi muito turbulenta. Apesar disso, não consegui dormir nenhum sono, pois ficamos nas cadeiras do meio da classe econômica, e o espaço exíguo nos incomodava. Luiza ainda encostou a cabeça no meu ombro e tirou uma soneca. Eu, fiquei nos cochilos esparsos. Quando desembarcamos, sempre há aquela tensão de passar pela imigração. Não que tenhamos coisas erradas, mas nem sempre é possível prever as exigências para ser aceito no país dos outros. Passamos batom, alisamos os cabelos da melhor maneira possível para tentar passar uma melhor impressão, apesar da noite insone. Pois, foi engraçado. O inspetor da imigração cumprimentou Luiza em inglês, que prontamente respondeu no mesmo idioma, enquanto apresentávamos nossos passaportes abertos na página das fotos. O sujeito olhou, e perguntou-me se éramos irmãs. Agradeci a gentileza, e expliquei que a jovem era minha filha. Em seguida, perguntou-nos para onde iriamos. Expliquei do congresso em Salamanca, mas que antes iriamos passar o restinho do dia e a noite em Aveiro, só partindo para a Espanha no manhã seguinte. O rapaz passou de oficial de imigração e deu uma de guia turístico: "Ah, vocês irão adorar aquilo lá a essa época do ano! É muito bonito. Hoje já passou por aqui um senhor brasileiro, vai a esse mesmo congresso. Ele é psicólogo. Você é psicóloga?" Expliquei-lhe que sou professora de metodologia de pesquisa, enquanto ele escaneava nossos documentos. devolveu-nos os passaportes recomendando que não deixássemos de procurar "la rana" no frontão da reitoria. Sem entender nada, agradeci, nos despedimos e seguimos. Nunca tive uma recepção tão amigável em Portugal.

Seguimos para Aveiro no comboio das 14h07, depois de comermos nossos pães com chouriço numa lanchonete da Gare do Oriente.  Ao contrário das minhas pesquisas, era um Alfa Pendular que só fazia uma parada em Coimbra B, antes de Aveiro. Melhor assim, pois tive um tempinho de dar um cochilo sem me estressar com a nossa parada. Foi um pouquinho mais caro do que constava no meu planejamento, mas, uma viagem num Alfa Pendular vale a pena, é um trem tão chique! Luiza dormiu as duas horas de viagem, o que ajudou a melhorar o humor da pequena. Para ela,  a viagem a Portugal era um  retorno a infância: muita coisa ela ia lembrando ao longo do caminho. Chegamos em Aveiro pelas 16 e pouco. A pensão que havíamos reservado por 45 Euros ficava bem ao pé da Estação dos Comboios. Após ajeitarmos nossas malas no quarto de um prédio de 1924, saímos para reencontrar a cidade. 

Fizemos uma primeira parada numa quitanda onde comprávamos frutas a caminho dos comboios para um passeio qualquer. Sempre gostei muito dessa lojinha pois a senhora que atende é muito atenciosa, os preços são bons e as frutas, sempre frescas e bem limpinhas. Comprei cerejas frescas e fomos comendo pelo caminho, enquanto conferíamos o que havia mudado. Fomos andando até o Forum, um pequeno shopping que domina parte importante da vida social do centro da cidade e demos um alô para a ria.    

Ria de Aveiro
 O plano era ir ao Ramonas almoçar cachorros-quentes. Essa lanchonete foi um lugar importante para nós, pois, quando saíamos da escola na sexta-feira, e tínhamos algum dinheirinho, era lá que fazíamos o jantar do primeiro dia do final de semana. Às vezes, como diz Luiza, eu estava numa "bad profunda", na fase de conclusão da tese de doutoramento, que não conseguia comer nada, tomava dois copos imensos de suco de laranja com cenoura. Do Ramonas, passamos à frente da Escola da Glória, onde Luiza estudou por dois anos, antes do prédio ser fechado para uma reforma.

Escola da Glória, Aveiro.
Tenho uma imensa gratidão a esta escola, que recebeu tão bem a minha pequena. Aqui ela aprendeu muito, teve a oportunidade de fazer a base de sua educação em uma excelente escola, com professores maravilhosos. 

Da escola, passamos no nosso antigo endereço e fomos ao Parque D. Pedro. Nesse espaço brincamos muito nas intermináveis tardes de verão, compramos kitkat na barraquinha da esquina, demos comida aos peixes do lago e aos pombos.
Eu, na pontezinha da Casa de Chá, Parque D. Pedro, Aveiro
Ponte Pedonal. Liga o Parque D. Pedro a Baixa de Santo Antonio, Aveiro.


 Quando saímos daqui, em 2013. parte do parque estava fechado para reforma. Construíram uma Ponte Pedonal que liga um lado ao outro da Avenida que termina na rotunda do Hospital e da Universidade. Não achei a obra grande coisa, acrescentando pouco a paisagem, mesmo tendo custado uma fortuna. Subimos a rua, passamos pelo Hospital e demos a volta pela passarela que liga a calçada lateral da Escola João Afonso, onde Luiza estudou seu último ano, em razão da reforma da Escola da Glória. No espaço, não há mais nada, somente a base onde foram assentados os prédios provisórios. 

Reitoria da Universidade de Aveiro
Entramos no campus da Universidade de Aveiro. A esta altura nossos pés já doíam imenso, e a esta época, quase não há estudantes no Campus, somente alguns poucos bolsistas e servidores. Sentamos à frente do prédio para descansar um pouco. Percebi que agora há o número e o nome do prédio nas fachadas de vidro. Na época em que eu era aluna novata sofri para identificar os prédios, pois tudo era muito discreto. Nas minhas primeiras semanas, dei muita cabeçada para achar o prédio de Comunicação e Arte. Descemos a rua, passamos pelo prédio que acompanhamos a construção à frente do nosso pequeno apartamento. Atualmente, é um grande edifício, cujo piso térreo é um centro médico, com clínicas diversas. Passamos pelo Largo do Tribunal e descemos pela Rua Belém do Pará, que nós chamamos de Rua do Vento. Há muitas lojas novas, reconheci apenas a ótica que frequentávamos para consertar os óculos de Luiza e algumas pastelarias tradicionais. Entramos por um bequinho que dá no Fórum. A casa abandonada ao lado foi demolida e estão construindo um prédio. Deixei Luiza esperando na frente da Zara (na nossa época era um supermercado Pingo Doce) e fui saber onde tomar o autocarro para Albergaria-à-Velha, próxima etapa da nossa viagem. Na revistaria, a jovem me explicou que agora o ponto era ao pé da Ria, na paragem dos autocarros que vão para  Costa Nova. Beleza. Quase nos arrastando de tanto cansaço, ainda passamos numa loja de doces que há no Fórum para Luiza comprar umas gomas de amoras. Ela comprou isso e mais outras coisas, e, já com calos nos pés, pegamos um táxi na outra avenida, ao pé do Banco Santander. 

Quando chegamos à pensão, já passava das nove da noite, embora a visão da janela do nosso quanto nos mostrasse essa imagem:
Estação dos Comboios, vista da janela do quarto do Alojamento Tricana de Aveiro
No verão, os dias são longos e entram pela noite. Quando fica escuro já passam das 22 horas. Fechamos nossas cortinas e após um banho relaxante, como nos velhos tempos, dividimos a cama de casal do pequeno quarto. 

O ventinho frio da cidade litorânea nos avisava que o dia posterior seria ensolarado, mas, que, como sempre, começaria nublado e friorento. Fomos dormir, agradecendo a Deus a oportunidade de ter vivido nesta cidade pequena, mas cosmopolita, que sabe respeitar as diferenças culturais e recebe carinhosamente a todos que chegam em busca de conhecimento. É muito bom poder voltar a uma cidade querida e perceber seus progressos e suas permanências, lembrando histórias engraçadas a cada troca de calçada.

No outro dia, logo cedo, após um cafezinho com meias-de-leite, torradas e pasteis de nata, envoltas no vento frio cheirando a sal, tomamos um táxi na frente da estação até a Ria para pegar o autocarro para continuar a nossa viagem, que fica para o próximo post.

Fique com Deus. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

O tempo e o vento

Praia da Barra, Aveiro, 19 de Janeiro de 2013
"O tempo e o vento" é um clássico da literatura brasileira, do Érico Veríssimo, pai do Luís Fernando Veríssimo, autor que eu adoro. Composto por 3 volumes, a obra narra a colonização da região Sul do Brasil. Confesso que não lia a obra, por falta de oportunidade. Mas, vi pedaços da minissérie que a Globo apresentou na década de 1980, trazendo-nos inesquecíveis personagens, como o Capitão Rodrigo. Tarcísio Meira perfeito na pele do capitão boa vida, combatente da Guerra do Paraguai. A obra está na minha interminável lista de coisas para fazer quando voltar ao Brasil.
Mas, a citação do título da obra é nada mais que uma lembrança da intempérie que vivemos o final de semana passada. Como já vos disse, este é o terceiro inverno que passamos em Aveiro. E posso afirmar que cada ano é um experiência diferente. No primeiro ano, 2010-2011, morávamos lá na rua Direita, era preciso andar 40 minutos para chegar à escola de Luiza. Aguentei até finais de março, quando uma chuva daquelas nos deixou ensopadas e com a certeza de que era preciso arranjar um endereço mais adequado. Em 2011-2012, Portugal foi atingido por uma seca de inverno, o que piorou ainda mais a condição econômica do país. Os produtores de gado tiveram dispêndio de comprar ração na Espanha. Além de queda, coice. Neste período, vivemos 40 dias sem chuva, um céu azul sem uma nuvem... e o frio de lascar. As temperaturas médias eram 8 a 10 graus. Houve dias de levar Luiza à escola sob 0 graus. Para mim, isso é temperatura de freezer para cerveja. Esse ano, a coisa está diferente: as temperaturas são mais elevadas, entre 10-13 graus, mas a chuva é nossa companheira diária. Ontem, comentava com a Tatiana Barros, Pernambucana de Paranatama (acho), radicada na Mealhada (próximo a Coimbra) que completávamos três semanas com dois dias de sol. Incrivelmente, São Pedro ouviu minhas preces, e hoje, excepcionalmente é um sábado de sol, bem diferente do tempo que tivemos no final de semana passada.
Na sexta-feira, deixei Luiza na escola e fui para o meu "expediente" de biblioteca. Preferi ficar na Mediateca do Centro de Educação, pois não tive coragem de atravessar o pátio da Reitoria em direção à Biblioteca Central com aquele vento todo me empurrando para onde eu não queria ir. Comentamos, eu e o Gerson, um professor mineiro da UnB que está fazendo Pós Doc na UA, e divide o gabinete com Francislê, que a chuva estava muito estranha. Era uma chuva fininha varrida pelo vento, vinda de todos os lados. Até mesmo sob as marquises, estava tudo molhado. Prenúncio do que iria acontecer mais tarde. Quando fui buscar Luiza no final da tarde, nos divertimos com o vento a empurrar nossos guarda chuvas pelo passeio na curva do Hospital. Corríamos sem querer! E o vento virou um bicho solto no meio da rua na madrugada. Os estores (persianas externas) das nossas janelas batiam nos caixilhos, rugia no exaustor da cozinha e da casa de banho. Assobiava no início, e depois parecia o som de camiões bau vazios em alta velocidade pela rua. Em 2010, quando cheguei à Portugal, já na primeira semana, houve um vendaval, que destruiu muita coisa em Tomar. Dessa vez, foi um pouco pior em Aveiro. Era vento e chuva contínua.
Na nossa rotina transplantada, sempre almoçamos fora aos sábados. Depois que eu deixei de comprar feijões enlatados, sábado é o dia de comer feijão no Brasa Rio, um restaurante que serve comida brasileira. Nesse sábado, não fomos. Quando abri a janela para examinar o tempo, vi um senhor sendo empurrado rua abaixo pelo vento. Pouco depois, passou uma coisa branca em voo livre, parecia uma folha de papel cartão branca, mas bem maior. Pensei que era uma publicidade arrancada pelo vento. Qual? eram os grandes folhas de alumínio dos tapumes da reforma do Parque D. Pedro que estava voando pelo  meio da rua como pranchas de surf. Ficamos em casa, curtindo nossa chuva de vento no quente e no seguro. A ventania prosseguiu no domingo, acalmando somente por volta das 16hs. No outro dia, pela manhã no caminho da escola, conferimos os estragos causados pela grande ventania.
Por toda cidade, a segunda feira foi dia de limpeza. Inúmeras árvores desabaram, as proteções de vidro das paragens dos autocarros estilhaçaram-se, placas de sinalização foram arrancadas. Essa foto acima é no Parque, vizinho de onde moramos. Várias árvores centenárias foram arrancadas como se fosse playmobil. A trilha sonora das ruas é o som das motoserras cortando troncos tombados ao chão. Através dos noticiários, soubemos que o temporal assolou todo o país, enquanto mais para dentro da Europa, as nevascas não deram trégua, deixou Paris com cara de Sibéria.
Nunca havia visto nada igual. Só faltou a vaca voando, como no filme Twister! É inverno a não esquecer. Enquanto isso, lá no meu sertão...
As fotografias não são minhas. Estão disponíveis na página do Facebook Aveiro Lovers, de onde tirei as fotos que aqui estão.  
Até amanhã, fiquem com Deus.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

1 ano depois...

Baixa de Sto. Antonio, Aveiro

Tony sempre diz que "o tempo passa rápido, depois que passa". Hoje completa 365 dias que sai do Brasil, e nesses dias a minha noção de tempo anda meio distorcida. Às vezes, parece-me que estamos aqui há uma eternidade. E no momento seguinte, ressalta-se a minha estrangeirice e emergem os cacoetes tropicais. Um oceano não me deixa lembrar que a distância é considerável. Luiza outro dia, me propunha uma reconstrução geológica do mundo, mostrando-me que dava jeito tirar do meio o oceano. Assim, seriamos vizinhos numa neo-pangéia. Como isso é mais fácil nas fantásticas hipóteses infantis, dá mais jeito aprender e gostar de aprender com as oportunidades que esse mundo do lado de cá me  oferece.


Gaivota em Aveiro

Como em todo lugar (aqui diz-se sítio), Portugal tem coisas muito boas e coisas não tão boas. Fiz uma opção de vida pelo belo, bom e bem, as coisas e gentes ruins estão dispensadas. Não me disponho a carregar peso de amargura pois sou uma preguiçosa emocional: amar, para mim é mais fácil e rapidamente me dôo a afeição a lugares e pessoas. Se elas me decepcionarem, paciência, é da vida. Faço o exercício de depurar as coisas ruins e, mesmo se assim o permaneça, transformo-as em aprendizagem.
Espinho
Neste pequenino post de 1 ano, agradeço à Deus pela Sua infinita generosidade de me conceder mais um dia, por entrelaçar o meu caminho aos caminhos de pessoas únicas. De cotidiano em quotidiano vivido, estas pessoas distante em dois continentes, vão unindo as duas metades do Atlântico nesse coração transnacional que arranjei.   





Árvores no inverno - Aveiro

Jacarandás em Braga
Flores na feira semanal de Espinho
Árvore de outono, Parque Infante D. Pedro, Aveiro
Muito obrigada pela companhia, meus 49 amigos declarados e os anônimos que dedicam alguns minutinhos de seu dia para saber "as novas". Somos mil corações sintonizados mensalmente. Vocês fazem parte deste caminhar.

Té manhã, fiquem com Deus.

PS: As fotos são meu olhos, através da travessa torradeira. Tão fiel, que sinto em deixá-la!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Domingo

Apesar de hoje ser terça, vamos falar em domingo.

Moliceiros, em 20.12.2010
Domingo é naturalmente um dia meio cansado. Talvez pela memória das antigas ressacas de sono e mais alguma coisa que restava do sábado à noite, isso antes dos serões nos barzinhos ou alguma festa de ver e ser visto se chamar "balada". Faz muito tempo que andei nessas paradas. Primeiro, por ter envelhecido antes do tempo e aos vinte e uns já estava saturada desses ambientes, preferindo ficar num sítio calmo com bons amigos, boa música e boas conversas do que ter que espichar cabelo e me equilibrar sobre vertiginosos saltos altos e ficar fazendo pose para ninguém. Nunca tive grande talento para isso. Depois de Luiza, os serões reduziram-se a um ou dois shows e um cinema de vez em quando. Como não tenho a opção de deixar a cria na casa da vovó, conto com a cooperação de uma ou duas tias quando os programas não se chocam. Isso seja bem dito, quando estava em Garanhuns. Em terras portuguesas, só vivo de dia. À noite, passeios estritamente virtuais. Longe de me lamentar, trato de aproveitar a fase, pois sei que daqui a uns anos, sair com papai e mamãe será "pagar mico" (ainda não encontrei um equivalente lusitano para essa expressão) e nós estaremos disponíveis para retomar os serões. Às vezes percebo em alguns olhares o pesar de quem acredita que somos um sofredor casal com mobilidade reduzida por uma criança pequena. Olhos cegos que não percebem a  parte boa, a diversão, o aprendizado que supera essas pequenas renúncias.

Domingo é dia de acordar tarde, almoçar na casa da família ou recebê-los em casa. Nestes últimos meses este ritual tem nos feito muita falta. Cá, nesta rotina transplantada, o domingo de manhã, quase meio-dia após a ronda nas páginas obrigatórias, saímos para ouvir o som das ruas. Depois que os estudantes se foram (e já estão quase de volta), as ruas antigas da Glória se transforma em um pequeno território espanhol. Há dias que não ouvimos uma só palavra em português. Sempre em trios ou em grandes grupos, fazem igual algazarra que reverberam nas paredes dos casarões azulejados. Animados e divertidos, é engraçado tentar acompanhar as conversas atropeladas, lembrando daquele desenho antigo do Ratinho Ligeirinho. Outro domingo, atravessava a praça da Câmara arrastando o meu fiel carrinho de compras rosa pink e um casal de meia idade fotografava a Igreja. Ao me avistar, a mulher que posava na foto, exclamou "mira!" O senhorzinho disparou o obturador em minha direção. Continuei pelo beco às gargalhadas, pensando: "estou quase uma salineira!" Nem sabem quão gato por lebre é aquela fotografia da nativa que irão exibir orgulhosos à família em um domingo qualquer. Se bem que caladinha, até que não sou tão diferente das portuguesas. Ao pronunciar a primeira palavra, me denuncio. Numa outra ocasião, três senhoras me pediram uma informação: "Donde está lá catedral?" E para responder? pensei por 10 segundos e arrisquei, gesticulando para auxiliar na compreensão: "A delante, nesta calle,  on the left, you will see the Catedral." Alegres, elas atropelaram-se no agradecimento, ao que respondi em bom português brasileiro: "por nada!". Depois de uma msiturada dessas, espero que elas não tenham se perdido.

É digno de nota que nestes grupos predominam pessoas da terceira idade e mulheres com crianças confortavelmente sentadas em carrinhos, mesmo as já grandinhas. É o sonho de consumo de Luiza, mas, ela já está grandinha demais para ser empurrada num carrinho de bebê. Os espanhois que enchem as ruas e os moliceiros que cruzam a ria são maioria entre os visitantes, mas também identificamos muitos italianos e alemães. Vem também um povo alto e louro que fala um idioma cheio de "rrrr", não consegui identificar de onde são, mas, quando passam nas barcas, acenam satisfeitos para os transeuntes que cruzam as pontes.

Aveiro nos domingos de verão é uma aula de turismo à céu aberto. 
Té amanhã, fiquem com Deus.  



  

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mudancinhas...

À pouco cheguei e já mudei de casa. Até que gostava da água furtada lá na rua Direita, mas de uns dias para cá, começaram a surgir alguns (d)efeitos especiais que me empurraram a uma decisão aparentemente intempestiva. Quem me conhece um pouco sabe que eu sou dada a esses rompantes, e dou logo o resolve em problemas que eu posso resolver, embora, quase sempre acabe arrastando mais alguém nas minhas maluquicees. E assim foi a mudança.
Obviamente já haviam alguns incômodos sucessivos. Luiza, de uma hora para outra começou a ter dor nas pernas, na cabeça, nas costas... Ou é doença grave ou é preguiça braba. No caso, felizmente, foi a segunda opção. Levando em conta que a menina tem apenas 7 anos e não teve férias, pois concluiu o ano letivo no Brasil em Dezembro e engatou no ano letivo português em curso em janeiro, e , conhecendo o "meu gado" como conheço, entendi que todas aquelas dores era cansaço da caminhada de 30 minutos para chegar a escola. Ainda pensei em aguentar até julho e mudá-la de escola, mas, ficava mais fácil mudar de casa. Segunda-feira, dia 28, na saída da escola levamos uma chuva daquelas de ensopar até a alma. Ainda paguei 3,70 de táxi para chegar em casa. Me revoltei. À noite em nossas orações, pedimos uma iluminação para arranjar outro lugar. No outro dia de manhã, falei: "Lulu, acho que vamos mudar de casa." Subitamente interessada, ela me pergunta: "Quando, mãe?" Respondi que lá para setembro, se tudo desse certo. E esquecemos o assunto. Após o almoço, deixei-a na escola e já pegava meu caminho habitual para Universidade. Algo me chamou atenção a uma ruazinha estreitinha que fica atrás  da polícia civil. Pensei: "ainda são 13h20m, eu nunca entrei naquela rua... Vou por ali, não custa nada". Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com um prédio pequeno e simpático e um cartaz mas simpático ainda dizendo: "ARRENDA-SE T0" e o telefone para contato. T0 é um apartemento tipo quitinete do Brasil, com o quarto integrado na sala, cozinha pequena e banheiro.  Liguei na hora! O proprietário se dispôs a mostrar o apartamento em 15 minutos. Pontual, como todos os portugueses, o sujeito chegou ainda cheirando a almoço. Olhei rapidamente a casa e no outro dia marcamos para assinar o contrato e pagar os dois alguéis adiantados, como de  costume.   
Após a saga de ligar a energia, gás e a água, contratamos uma  "carrinha à hora" de um sujeito que localizei  pelo Google, depois de passar um pitu em Francislê, que queria fazer a mudança, mesmo tendo uma casa de 3 pavimentos para arrumar com Dayse. No sábado à tarde embarcamos com nossos poucos teréns no pequeno caminhão e cá estamos. 
Parece fácil, mas tem seus entraves. Aqui, quando o inquilino sai da casa, a energia, o gás e a água são cortados. O novo inquilino vai na agência para fazer um novo contrato, anda-se um bocadinho. Se houver débitos, a carta vai para o endereço, mas no nome do proprietário, e ele que se vire para pagar. Quando a EDP (companhia de energia) veio ligar a luz, eles disseram que eu não estava e eu lá plantada, esperando. Como era na sexta-feira, somente uma equipa viria na segunda. Resultado: ficamos sem energia durante o sábado e o domingo. Não adiantou apelar no callcenter, dizendo que era uma pobrezinha com uma filhinha no escuro. Aqui, não tem jeitinho. Além do final de semana à luz de velas, perdi um saco de brócolis e um de ervilha e cenoura. Prejuízo pouco é lucro! A  inspeção de gás foi feita hoje, mas esse felizmente, estava em funcionamento.Como o serviço é terceirizado paga-se na hora em cheque ou numerário. 45 euros por 7 minutos de vistoria. 
Assim, estamos quase instaladas pois ainda falta a internet. Agora estou na Biblioteca da UA "morcegando" a rede. Já percebemos grandes melhorias: Ganhamos mais uma hora de sono pela manhã, chegamos na escola em 3 minutos. Luiza vai sozinha, atravesso-a no semáforo e o resto do caminho (uns 100 metros) ela vai só, se achando a criatura mais independente do mundo! No primeiro dia,  ela voltou se gabando que os coleguinhas ficaram impressionados porque ela "veio só à escola". Essa foto, fiz da nossa janela da cozinha às 20h 10min. Uma coisa que adoro nesse "apertamento": as janelas! Já postei no Facebook, mas vai aqui novamente. Ela me mostra onde o sol se põe, agora sei de que lado está o meu povo!



Té manhã, fiquem com Deus!     

quarta-feira, 16 de março de 2011

E o carnaval?

O carnaval passou e, como boas brasileiras, já esperamos o próximo feriado. Aqui será um feriadão, pois coincidirá com o feriado da Revolução dos Cravos, na segunda, dia 25.
Na semana seguinte ao carnaval, encontrei um colega da UFPE que está fazendo Pos Doc aqui em Aveiro. Demos risadas sobre as diferenças, mas, nada ofensivo. É só o estranhamento de quem está aqui pela primeira vez. O carnaval aveirense é um desfile de fantasias (aqui se diz disfarce) a céu aberto. Você está andando na rua e dá de cara com uma bruxa, um monstro ou uma coelhinha, andando na rua. Adultos e crianças se fantasiam e ficam zanzando para lá e para cá, vão fazer compras no supermercado, passeiam no shopping fantasiados. Nenhuma música, nenhuma festa de rua, embora tenha visto anúncios de bailes de carnaval e concurso de disfarces e de "farnel mais original", que eu ainda não consegui descobrir o que é. Para completar a falta de vontade de sair, o carnaval foi de chuva e frio, e ficamos esses dias de folga em casa assistindo televisão. Ainda nos prometemos ir a Ovar, uma cidade aqui pertinho que tem um carnaval com desfiles, mas, naquele frio, foi sem chance.
Pela Tv acompanhamos as reportagens e confirmamos o fascínio pelo carnaval do Rio de Janeiro. As escolas de samba e o carnaval de rua foram manchetes em todos os jornais. Muitas entrevistas com portugueses curtindo  a folia, e muita "nega" de bunda de fora, reforçando ainda mais as dificuldades que temos, enquanto mulheres, sermos levadas à sério nesse lado do mundo. O carnaval de Salvador foi citado duas vezes, nas entrevistas, e o de Pernambuco, ninguém sabe nem que existe. Para os operadores do turismo, há muito o que fazer em termos de divulgação e promoção, pois, o Nordeste tem tudo o que os europeus adoram: sol, praias maravilhosas e muita festa. São contidos aqui, mas, quando chegam nos trópicos soltam a franga, às vezes até demais.
O que nos chamou atenção aqui foi a existência da escolas de samba, do que conclui-se que há brasileiros demais em terras lusitanas. Em Coimbra, sob os 5 graus, tinha mulherzinha dançando de biquíni e com aquelas(terríveis) pinturas corporais! é uma coragem! Em uma outra cidade, quem fez sucesso foi aquele ator da Globo, André Gonçalves, pois aqui está passando "escrito nas estrelas", pela SIC. Fico triste com essas "cópias", pois ficam parecendo micos de circo, definitivamente, não combina!
Mas, há carnavais muito interessantes por cá. Lembrem-se que o  entrudo foi trazido ao Brasil pelos portugueses no período colonial. O Entrudo de Lazarim (região Douro Sul) é um carnaval tradicional que resiste à mídia e sobrevive com sua originalidade.
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Essas máscaras são de madeira. A multidão se acotovela nas vielas apertadas da cidade histórica. As comadres e os compadres se marcaram e duelam com tiradas picantes numa divertida guerra entre os sexos.
  


Já em Podence (região de Trás Montes) acontece o Entrudo do Chocalheiro. Os caretos chocalham as mulheres, em um divertido assédio. Aquelas chocalhadas terão sorte para arranjar um bom casamento. Os chocalhos lembra os caboclos de lança do maracatu pernambucano. Mas a semelhança termina aí!



Na Guarda, acontece o julgamento e o Enterro do Galo. Qualquer semelhança não é mera coincidência, pois a história mais famosa daqui é a do Galo de Barcelos. Sob 4°C a cidade lota de estudantes e turistas para participar do Enterro do galo, cuja fundamentação é a sátira política. O galináceo é julgado na Praça Velha e,  como culpado de todos os males que afligem a sociedade (intrigas e insucessos) é condenado e queimado. É um bonito e concorrido espetáculo teatral. 



Aqui,as bandinhas tradicionais animam a multidão até a hora do julgamento. Abaixo,o galo em chamas. É uma coisa bem tradicional, quase pagã. 
É um bom carnaval, cheio de tradições. Neste ano, no dia 8, em comemoração ao dia itnernacional da mulher, as homenageadas foram as rebuçadeiras, doceiras que vendem balas típicas feitas de água, açúcar e limão, tradicionais da região da Régua. Muito interessante.
Para nós, que atravessamos o oceano, o carnaval tradicional é infinitamente mais interessante do que as cópias (mal feitas) das festas alheias. Antropofagia não é para todo mundo, e os portugueses ficam melhor na foto quando são quem são e se orgulham disso. 
Ano que vem, se estivermos por aqui, iremos conhecer essas riquezas in loco.
Saudade de hoje: do Galo da Madrugada, que nunca fui, mas, quando voltar irei, com certeza!
Fiquem com Deus!

quarta-feira, 9 de março de 2011

A ria

Se tem uma coisa linda aqui em Aveiro é a Ria, uma formação de lagunas pelo recuo do mar. Se fosse nos trópicos, acho que seria uma Manguetown!
Ao contrário do mangue, a ria não fede a ovo, tem muitas gaivotas e peixes. Tem também algumas áreas de salinas, mas ainda não cheguei a visitar. 
Esses dois links tem fotos e informações. 

Ria de aveiro


Ria de aveiro 2


A cidade é linda. Quando vier por essas bandas,vale a pena visitar.

Fiquem com Deus!

PS: Estou juntando coisas sobre o que aprendi do carnaval de cá!

sábado, 5 de março de 2011

Olho nas nuvens, olho no chão!

Continuamos caminhando. Desde ontem o tempo fechou a cara e não tem acordo: o carnaval será de chuva. Nas áreas mais altas, como na Serra da Estrela, já tem o "nevão", cá no litoral não corremos esse risco, mas, gradativamente percebemos os nossos pés gelados. Já estava me acostumando como sol de manhã, e já me aventurava a sair com cabelo solto. A força da ventania não permite essa liberdade, e lá vai o cabelo para as liguinhas, a não ser que queria gastar um bom tempo a desfazer nós e talvez até cortando os mais invencíveis.
Hoje saímos à tarde para ver uma contadora de histórias, mas, infelizmente,não teve, pois o povo estava no carnaval. Sobre o carnaval português, não quero falar ainda. Vou pesquisar mais um pouco. Nas nossas andanças, já percebi uma coisa engraçada: as pessoas  - adultos e crianças - transitando pelas ruas do centro em fantasias (aqui se chama disfarce) curiosas. Nenhuma música e nenhum "bebinho" à vista. Muitos
leões, bruxas, duendes, monstros, princesas e super-heróis, de todos os tamanhos, somente andando, para lá e para cá. Estranho, nenhum batido de lata...
As gaivotas voavam bem baixinho, agitadas. Não resisto em olhar o voo rasante delas na ria, em busca de alimento. Pombos acostumados com os transeuntes, catavam migalhas de pães jogados ou caídos. Aqueles passarinhos pretos, do bico amarelo  e gordinhos, que ainda não sei o nome, piando nos galhos. Vivo de "cara pra cima", literalmente. Um perigo para os sapatos pois o cidadão aveirense adora um cachorro... Já sabe o que pode acontecer,não é?
Ano passado, fomos  à Natal (RN), e, em todo passeio que se preze, tem sempre uma livraria no roteiro. Enquanto Tony fuçava  nas estantes dos livros jurídicos e Luiza deleitava-se com suas princesas, achei um livro, cujo título me chamou atenção: MERDE. Narra as aventuras do inglês Stephen Clark, residindo durante um ano em Paris, sempre às voltas com a merda de cachorro nas ruas da cidade luz. Em uma proporção bem menor, é necessário ter cuidado ao caminhar nas calçadas de Aveiro. Como diria Mamãe, "não existe bom se defeito", e os donos dos au-aus, em sua maioria, não tem o mínimo pudor de deixar o "brinquedo" no passeio para o transeunte distraido enfeitar o pé. Eu, que ando de "cara pra cima" já pisei diversas vezes. Luiza, volta e meia, chega em casa com um "perfume" de cáca canina, nada agradável. Tanto é que, enquanto caminhamos e conversamos (ela fala pelos cotovelos!) as minhas frases são sempre entrecortadas com um sonoro: "Ó, o cocô!"
Outro dia, numa ruela ao lado do tribunal, um cachorrão enorme parou estratégicamente na esquina e arriou todo o estoque. Eu e Luiza, paramos no outro lado da rua para olhar a cena. O dono, um rapazinho descabelado, vinha logo atrás com a guia e a coleira na mão. Escapou da minha boca em alto e bom som: "Quero ver se vai deixar esse troço aí para o povo pisar!" O cara, todo desconfiado, arrancou uma folha do caderno, catou e jogou na lata do lixo, enquanto Luiza me puxava pela manga, às gargalhadas. 
Não custa nada andar com uma sacolinha para recolher a obra do mascote. Ter cachorro é muito bom, pois é um bicho fiel, amigo. Mas, ninguém gosta de ter a rua demarcada com os cocôs de cachorro. 
É uma questão de civilidade!

Saudade de hoje: dos cachorros que tive da minha vida.

Fiquem com Deus!

terça-feira, 1 de março de 2011

Flores no caminho

Ainda é inverno, e, nem adianta guardar os casacões e sombrinhas, pois aqui tem um ditado que diz assim: "abril, águas mil." Ou seja, muita água ainda vai rolar. Mas, andamos por estas ruas pensando como será quando as árvores estiverem "vestidas". Aveiro é uma cidade ricamente arborizada e muito florida, o que tornam os caminhos lindos! Fizemos umas fotos pelo caminho nosso de cada dia, de casa para escola.


Quando cheguei aqui há três meses, as manhãs eram assim: cara fechada e as árvores nuas espetando o céu cinzento, no melhor estilo europeu. 


Hoje o tempo está mais amistoso. Essa é a Árvore Branca do Parque Infante D. Pedro, que fica ao lado da Escola da Glória, onde Luiza estuda. 

Essas árvores rosa são lindas, e as flores tem um perfume bem discreto. No dia em que choveu granizo, a rua ficou atapetada de pétalas e pequenas bolinhas de gelo. Lindo e com um cheiro muito bom, misturando o perfume da flores com o cheiro de melancia do granizo.  




Ao lado, o arbusto das florinhas azuis. Fica lindo no final da tarde. Dá para ver as pequenas flores?
Pena que internet (ainda) não tem cheiro, pois elas são bem perfumadas. 










Aquela mesma árvore rosa, sendo numa rua do outro lado, como quem vai para cinco bicas. Esse lugar é a cara do Recife, naqueles emaranhados da rua de Santa Rita. Quase não resisto a tentação de segurar a bolsa!




 Essas flores azuis são lindas... É o jardim da casa do"amigo cachorro", que Luiza pôs o nome de Pepe, um cachorro já idoso, super gente boa. São orquídeas?




Nunca havia visto margaridas com o miolo azul escuro. Essas pequeninas são muito lindas, ficam lá próximo aos casarões abandonados do Estado. Tem uma pichação assim: "Tanta gente sem casa e tanta casa desabitada!" Os casarões antigos são problemas, pois o imposto é altíssimo, e a lei do aluguel local é meio doida. Depois, falaremos nisso. 



As camélias são um show a parte! desde que as vi pela primeira vez, fiquei encantada. São arbustos altos, lembra um pé de pitanga, coalhados de flores maravilhosas. Vermelhas, brancas,rosa, mescladas, quase laranja. São maravilhosas! 










Vê que coisa linda!  São as minhas preferidas. Não é à toa que é o símbolo da Maison Chanel.




 



Os jardins das casas (enormes!) são muito bem cuidados. Essa plantinha (acima) está cada dia mais linda!





Já este jardim abaixo, foi fotografado por Tony em uma manhã de neblina, é passagem obrigatória para irmos à escola. Está cada dia mais bonito!


 








Essas árvores ficam em frente ao Hospital. Do outro lado da pista duplicada é a Universidade. O interessante é que nessa época do ano, esta árvore (que eu não sei o nome), não tem folhas, mas sim umas bolinhas amarelas.  

A mais linda flor do meu jardim!!!!!


Saudade de hoje: do jardim da nossa casa, lutei muito com o chão batido de barro, e com muita insistência,  conseguimos fazer brotar flores. Hoje, de longe, contamos com o auxílio de Ilma, Izabel e Pablo, e, o cuidado de Tony, para fazê-las esperar por nós!

Fiquem com Deus! 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Aprendendo outras coisas

Além da chuva, do frio e das intempéries em geral de Aveiro, que vocês já estão cansados de saber, temos oportunidades ótimas para aprender. Aqui, aprende-se de tudo, encontramos cultura do mundo inteiro. Aveiro é uma pequena Babel, cidade que se desenvolveu voltada para o mar, de vez em quando até dar para sentir  o cheirinho de maresia. Atravessando Santiago, bairro situado entre a zona que moramos e a Universidade, é curioso ouvir retalhos soltos de  conversas em línguas ligeiramente conhecidas ou totalmente desconhecidas. Além disso, a Universidade atrai estudantes e pesquisadores dos quatro cantos do mundo. Assim, para aprender só é preciso atravessar a rua e prestar atenção nas pessoas. No último domingo, eu e Luiza acompanhamos uma briga de casal... em chinês! A mulher gritava com o sujeito, que lutava com ela para que se decidisse onde iriam almoçar.Por mais que eu recomendasse discrição, Luiza fixou o olhar aturdido e ficou encarando a mulher, enquanto levantávamos hipóteses para os motivos do conflito. 
Algumas oportunidades são ótimas - e de graça! -, basta ficar ligado nos inúmeros cartazes que estampam a cidade anunciando todo tipo de evento. Nestes dias, fomos a dois.
Semana passada, vi um cartaz e perguntei a Luiza se ela gostaria de ir a um concerto no Museu de Aveiro, que fica ao lado da escola dela. Começaria às 17hs, um pouco após a saída da escola. Ela topou na hora. Mais tarde quando fui buscá-la, nem me lembrava do tal concerto. Ela me cobrou: "Ei, e o concerto?" Fomos. Eu tinha apenas as chaves e 5 euros no bolso. Nem o telemóvel estava para fazer fotos. O Concerto era de Sítar e Tablas, dois instrumentos fundamentais da música indiana. Ao entrarmos na sala, um auditório pequeno, que não acomodava mais que 80 pessoas, ela perguntou: "Tem piano?" Tive que explicar que era uma música diferente. Os artistas  eram dois camaradas canadenses. A apresentação em inglês foi traduzida por um rapaz que conduziu o exercício de relaxamento para ouvirmos a música. Com o auditório completemente apinhado de jovens músicos da UA, senhoras do cabelo lilás e senhores com chapéus e bengalas, Luiza arranjou um lugarzinho para sentar bem na frente do palco. Assistiu todo o concerto sentada no chão ao pé de um senhor distinto que acompanhava a música com a cabeça. Depois, falando com o pai por skype, fez o exercício de relaxamento com ele. Dificil era relaxar com aquela voz gasguita, a vontade maior era de dar risada!
Ontem fomos a uma exposição de arte da Turquia, lá em Educação, na UA. Encontramos entre os presentes Dayse e sua estagiária, a Helena, e Sannya, do LCD. Chegamos no final da exposição do palestrante a um grupo de jovens descabelados e de calças rasgadas sentados em colchonetes no chão. Depois, teve a apresentação de um artista turco chamado Ibrahim. A pintura que ele faz  é Ebru. Trata-se de uma pintura típica da Turquia, feita na água! Essa água fica e uma vasilha retangular de metal, onde misturam estratos de ervas e clara de ovo. Nessa mistura, o artista espalhava a tinta e desenhava com um pincel de talo de roseira e crina cavalo. Depois de feito o desenho, ele colocava uma folha sobre a água e puxava pelas pontas e... daquela poça surgiam imagens lindas de flores e arabescos de cores maravilhosas impressas no papel. Parecia mágica!
Acho que dá para ver  lá no final uma pintura azul... as estampas são lindas! O curioso é que  o artista não levantava nem os olhos para comunicar-se com a plateia. Uma mocinha explicava o processo da pintura. Só incomodava um pouco o mau cheiro de clara de ovo, parecia xixi de cavalo!
Serviam aos visitantes umdoce típico da Turquia, que parece fruta cristalizada, e um chá em copos descartáveis, mas, feito em umas jarrinhas bojudas de louça, lindíssimas! Apesar da minha expectativa ter sido maior do que o resultado, a exposição foi boa e aprendemos coisas novas. 
Andamos assim: sempre à cata de eventos bons - preferencialmente de graça - e em um horário possível para chegarmos em casa e nem sacrificar a criança, aproveitando a temporada européia para conhecer mais sobre o mundo.

Lembrança de hoje: Uma exposição que fizemos na UPE em mil novecentos e bolinha, com os santos de Marlos. Foi tudo de bom!

Te manhã!


  

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nem luxo, nem lixo

Se tem uma coisa que fazemos aqui é andar. Diferente de Garanhuns, Aveiro quase não tem ladeiras. Todos os dias, saimos cedo para chegar à escola de Luiza às 9hs, atravessamos duas ruas intensamente arborizadas, embora a esta altura estejam todas nuas pelo inverno, como naquela imagem das quatro estações que tínhamos nos nossos livros de ciências. Alguns pontos verdes se sobressaem. Favorecidos pela genética das aciculifólias, os pinheiros reinam elegantes em seu verde profundo. Como diria Luiz Gonzaga, tem coisa que para ver "o cristão tem que andar a pé". Não possuímos carro e o transporte urbano aveirense é ruim (esperar autocarro aqui dá saudade do "Manda"!) e caro - uma passagem custa 1.75, definitivamente não dá para pagar 3,50 a cada vez que temos que ir a escola. Aliás, penso ser oportuno fazer um parêntesis sobre carros: há oferta de carros ano 2002 por 2.500 euros. Carros são baratos, mas, o problema está no combustível que é caríssimo! Não é à toa que quem mora perto da fronteira acha vantagem em ir abastecer na Espanha.
Andando a pé percebemos que Aveiro é uma cidade muito limpa, não se encontra lixo nos passeios nem ao pé dos prédios, abundam lixeiras de todo o tipo por toda parte, tudo pode ser destinado já separadinho para reciclagem. Tem depósitos adequados em cada pátio ou área livre. Se não todos, mas sempre tem um lugar pertinho onde podemos descartar as sobras do nosso consumo sem maiores consequências.

Esse laranja é depósito para óleo. Não pode colocar óleo de carro, por exemplo, deve ser utilizado somente para depósito de óleo de cozinha. Assim, não despejando nas pias de lavar prato, além de reduzir o impacto ambiental, também reduz  os problemas com a encanação dos prédios, pois a gordura fria entope o encanamento e isso é um aborrecimento terrível.
 Esse é para lixo eletrônico. Eu nem tinha visto, mas, quando começamos a fotografar os depósitos, Luiza me chamou atenção para este tipo. Serve para colocar aparelhos sem uso com ou sem possibilidades de conserto. Dei uma espiada, mas, é fundo e escuro não deu para visualizar o que poderia ter dentro. 
 Esses são para resíduos verdes (podas de árvores, restos de jardins, aparas de grama), certamente irão ser bem aproveitados para adubo orgânico. No depósito marrom devem ser destinados os móveis sem uso (colchões, cadeiras, estendais, coisas assim). Já vi gente revolvendo esse depósito, acho que procuravam alguma coisa que pudesse aproveitar. 
 Esse é para lixo orgânico: restos de cozinha e cocô de cachorro é o que mais tem aí dentro. É bem fedido quando abrimos.
 Esse é para roupas, brinquedos e calçados. Até agora só vi esse aí, que fica do lado das Glicínias. Como não é comum ter alguém necessitado muito próximo, esses depósitos são administrados por instituições de caridade, que periodicamente passam para recolher as doações e destinar a quem precisa. 

Esses são para depósito de recicláveis: o primeiro é plástico e metal. O segundo é vidro e o terceiro é para papel. Na foto anterior, tem minha modelo destinando o lixo, levamos sempre cada uma suas sacolinhas, assim ela aprende na prática como as coisas devem ser.
Agora, com toda essa estrutura, ainda tem gente que coloca recicláveis na lata de lixo orgânico. Pense numa preguiça! Toda terça-feira encontramos o caminhão caçamba recolhendo o lixo dos depósitos. Esse carro tem um braço como um guindaste que acopla em alças que tem sobre os depósitos, levanta-os e encaixam no local reservado para o tipo de lixo. O motorista, que trabalha sozinho,  (aqui é uma economia de gente que é impressionante!)  vai para a parte de trás da cabina onde tem uma série de alavancas de cores diferentes, deve ser ali onde "solta" o lixo nos reservatórios dentro do caminhão e devolvem o depósito para rua. Acompanhando essa operação chegamos atrasadas na escola! Outra coisa interessante é o caminhão-escova.

Quem viu esse caminhão foi Tony,  eu só achava estranho um barulho infernal passando cá embaixo na rua. A foto não ficou um ouro 18 porque foi feita da janela do nosso quarto. Aquele camião (aqui se escreve assim) tem um sistema de sugar o lixo e umas escovas enormes que são
acionadas pelo motorista. 
Tem como não ser limpo? a pessoa fica até com  vergonha de jogar lixo no lugar errado, embora já vimos gente sacudindo um papelzinho de doce na ria.A vontade que dá é dizer: "ei, minha senhora, jogou o papel na ria? Mergulhe e vá pegar!" Só queria ser polícia nessa hora.
Isso tudo não é luxo, é investimento do dinheiro público no lugar certo, pois não adianta ensinar como fazer na escola e no cotidiano, ser completamente diferente.

De uma coisa eu não sinto nem um pouquinho de saudade: daqueles animais soltos na rua revirando o nosso lixo. Tem coisa mais constrangedora do que ter que catar lixo de banheiro espalhado pela via? Ninguém merece!

Té manhã!