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domingo, 2 de julho de 2017

Fofoquices

Então, na última semana acabei sendo mais uma vítima da gripe pós junina. Desde 2013 que não contraia um vírus, já estava me achando uma X-Man. Qual o que? Foi só uma bobeirinha, uma chuvinha e uma fumaça de fogueira que enfraqueci e o safadão acabou me pegando. Ainda fiquei comemorando por ter caído somente na quinta passada, pois essa semana estou cheia de compromissos e não é de bom tom chegar numa qualificação de mestrado falando "abiguinhos". No ranger das tempestades, estou quase boa. Além do ambiente junino, contribuíram também o inverno, que este ano está bem temperado e a reforma na escola. O primeiro, é uma característica de Garanhuns. Aqui, quando baixam as temperaturas, o mofo toma conta porque a umidade é imensa. Uma festa para os bolores e uma luta inglória para os alérgicos. Na escola, estamos vivenciando uma reforma da coberta, pois havia tantas goteiras no teto que ficávamos a pensar se chovia mais fora do que dentro. Assim, a nossa nova presidente da Autarquia arranjou os procedimentos e, finalmente, estamos em reforma. Mas tudo o que tem que arrumar é preciso desarrumar primeiro, e o corredor das coordenações foi parcialmente transferido para outras paragens, permanecendo as últimas salas, das quais uma eu tenho ocupado. Então, somando-se tudo isso ao final do semestre quando já estamos cansados bem cansados e merecedores de férias, o sistema imunológico também cansa e nós ficamos vulneráveis a estes bichos. Maltrata, mas não mata.

Como parte da minha vizinhança mudou-se, reduz-se drasticamente também as conversas. Portanto, para muita coisa que muitos vêm me perguntar, só respondo: "não estou sabendo". E me preparo para ouvir uma ladainha de conversas, algumas meio sem jeito, outras fofocas genuínas. No ambiente de trabalho é profícuo para as fofocas, e a gestão de pessoas explica cientificamente. Como não tenho know how para fundamentações, além de que, hoje é domingo, só desafio a aquele que comprove que trabalha num ambiente imune a fofoca. É a tal rádio corredor que propaga o discurso extraoficial da organização, mas que reflete muito bem a sua cultura. E olhem que eu sou bem flexível na conceituação do que é fofoca e o que é comentário. Fofoca é aquele que sempre aumenta um ponto (ou vários), vem sempre com um tom jocoso de maldade e geralmente começa a sentença dizendo: "Se perguntarem o que eu disse, eu digo que é mentira". Quando ouvir essa frase, já pode ligar o seu detector de conversa mole, pois, lá em história. A esses, devemos ter a educação de ouvir, e jamais retrucar ou concordar. Se muita disposição tiver, o receptor da ideia pode jogar uma pergunta que pressione, nomeadamente nos detalhes, que o falador vai se perder e talvez saia com um "não sei, só sei que foi assim", citando Chicó, do Auto da Compadecida. Aqueles comentários especulativos, tipos, "tu soubesses que fulaninho saiu do departamento tal?" é somente o fio de Ariadne ao contrário para lhe inserir no labirinto da fofoca, sem cão nem gato. Por isso que eu ando evitando muita conversa, pois, a intenção primordial da conversinha é azedar o que já está bastante amargo, e, talvez seja esse um dos fatores desencadeadores das doenças organizacionais que vivenciamos. 

Mas, como para tudo tem remédio, numa sessão de "como foi seu dia?" estava contando aos meus que as coisas andam taciturnas lá na escola. Daí, Tony Neto saiu-me com uma de suas memórias: Quando ele era adolescente, a avó dele estava comentando muito enfaticamente acerca de alguma coisa ou de alguém, daí, ele saiu do banho (os banheiros nas casas antigas costumavam ficar na cozinha), dançando e cantando um clássico de Jararaca e Ranchinho: "Aiiii, pessoal! Escute nosso conselho, não fale da vida alheia, que é um costume feioooo!"  Pois, a avó, já nos azeites, deu-lhe uma lapada nas costas, que ficou os cinco dedos da velha desenhas nas costas do imprudente cantorzinho. Ainda levou um "cabra safado, me respeite!" e ele ainda hoje jura de pés juntos que não estava ouvindo a conversa e nem tinha a intenção de jogar uma indireta para a avó. Foi uma infeliz coincidência e D. Maria do Carmo, quando pegava ar, não perdoava. Não a conheci, mas definitivamente, ela nunca foi uma avó moleirona, que só sabem encher os meninos de dengos. 

De qualquer forma, tem um ditado que Genésia Neri sempre me dizia: "Quem fica calado, não se perde". E, como em boca calada não entra mosca, e além de tudo conserva pé do ouvido intacto, em certas ocasiões ouvir e calar é o maior exercício de sabedoria. Em caso de emergência, corra. Se não puder, ligue a cara no modo de paisagem e segua em frente, sem olhar pelo retrovisor!

Fiquem com Deus. 


quinta-feira, 12 de abril de 2012

A vida alheia (Ou: A função social da fofoqueira)


Finalmente, as férias de páscoa acabaram. Assim, ando ocupadíssima, tentando colocar as minhas atividades em dia. O que é mais dificil de acertar é o ritmo: a preguiça pós feriado é uma síndrome que já deveria ser reconhecida no CID (Código Internacional de Doenças). Passamos duas longas semanas a jogar, assistir filmes, visitar exposições, parque de diversão, cinema... E a brincar de bonecas. Confesso que nos últimos dias, fraquejei. A minha vontade era de atirar todas pela janela, principalmente quando me lembrava dos compromissos e prazos apertados para ler e escrever tanta coisa com que me comprometi. Até porque não tenho a vida toda, apesar de viver no luxo da dedicação exclusiva aos estudos, tenho também a exclusividade das obrigações de mãe e gestora da casa, com o diferencial de acumular os níveis estratégico, o tático e o operacional (todo administrador entende!). Ou seja, como só sou eu, vamos lá. Há quem diga que eu estou aqui sem fazer nada... Vai pensando!

Há muita coisa para fazer. A cada olhada no cronograma, que já vai da décima quinta versão, fico mais agoniada pois, o tempo custa a passar para algumas coisas, mas voa para outras. Em terras portuguesas o tempo não passa, voa. Para se ter uma ideia, clareia o dia às 7 da manhã. Leva-se a criança à escola às 9hs e num instante é meio dia. Rapidinho dá 16hs. Portanto, preciso colocar em prática o que aprendi no tempo em que vivi entre os administradores: a utilização racional do tempo, a a otimização dos minutos. Como diria meu querido Teko Guimarães: "Foco! é preciso ter foco!" E eu sou uma criatura dispersa e confusa. Quando não tenho com que me distrair, eu invento. Reconheço que olhar a vida dos outros tem tomado meu tempo. Reconheço que olho e escrevo aqui minhas "fofocas".

Todo mundo olha a vida dos outros. Nem me venha com esse ar puritano afirmar: "Eu, não!" Olhamos sim a vida alheia, pois aprendemos muito com as experiências dos outros. E não confundam com Voyeurismo, isto já é outro departamento! A olhadinha é aquela prática milenar, comum aos seres humanos desde que estes tiveram a feliz ideia de viver em sociedade. A aprendizagem informal ocorre através da observação, e assim aprendemos a nos comportar à medida da conveniência, a cuidar de uma lavoura ou a educar nossos filhos. A olhadinha vira fofoca quando ela é verbalizada. Ou seja, entra em campo a oralidade e a transmissão de impressões a respeito do que se observou. E convenhamos, via de regra, não se conta o que se viu, leu ou ouviu. Respeitando o ditado popular: "Quem conta um conto, aumenta um ponto", o grande prazer da fofoca é recriar e acrescentar alguma coisa para tornar o caso, digamos, mais emocionante.

Elas estão retratadas em todas as artes, dão bons enredos no cinema, na TV e na literatura. São mote para repentes e temas para literatura de cordel. Todos temos na nossa história pessoal uma fofoqueira (ou mais) dando pitaco na vida privada, mesmo quando se é a própria fofoqueira, pois ninguém está imune ao seu próprio veneno. Sempre há na rua aquela vizinha que entreabre de mansinho a cortina da janela para ver quem chega após as 3 da madrugada. E com quem e como, que é tão importante quanto. Lá na periferia onde me criei tinha uma senhora que era requesitadíssima, sabia de tudo e dava notícia da vida de todo mundo. Chamávamos secretamente de D. Sacolão. Nem me lembro mais do nome da senhora, acho que na verdade,  nunca soube. Para fofoca, D. Sacolão tinha habilidades de vidente! Sabia quem estava grávida antes mesmo de apressar o casamento, quem apanhava do marido, quem traia a esposa, com quem e há quanto tempo. O pior é que as conversas de D. Sacolão sempre resultavam, dificilmente ela errava. Quando chegava visita à porta, antes mesmo de se anunciar, a D. Sacolão surgia à porta da sua casa e gritava para o visitante: "Tá procurando D. Cecília? Ela não está não. Foi à Igreja. Hoje é sábado e ela é crente. Volte depois do meio-dia, pois se ela não for à tarde para a Igreja de novo (enfatizava no "de novo"), encontrará ela." Pois, nem precisava de cachorro, batesse na porta, D. Sacolão avisava logo. Engraçado, que a clarividência de D. Sacolão só não funcionou quando o assunto foi a filha dela. Neste dia, a velha quase morre.  É, ninguém é imune ao próprio veneno.   

Apesar da minha aversão à fofoca, percebo a função social da fofoqueira. A fofoqueira tem um lugar na estrutura social, fundamental para a humanização das relações humanas. Em 2006 foi sancionada no Brasil a Lei Maria da Penha (Lei 11.340), aplicável a casos de violência contra a mulher. E, Fevereiro de 2012, houve uma mudança essencial para a eficácia da lei. Antes era somente a vítima que poderia fazer a denúncia e podia retirar a acusação, em caso de arrependimento. Agora, um vizinho pode fazer a denúncia contra o agressor. E quem é esse vizinho? A fofoqueira! Em caso de doença, de emergência, de receber uma encomenda quando não está em casa, a vizinha rotulada como fofoqueira pode ajudar, pois ela é a criatura mais prestativa do mundo. E ainda pode servir de testemunha se houver extravio de sua encomenda, se cortarem sua luz indevidamente. É claro que levarás umas tesouradas, mas, o benefício é maior que o custo. É cada vez mais raro uma vizinha fofoqueira como a D. Genu de "Éramos Seis". Se as fofoqueiras que nos incomodam tanto desempenhassem sua função com maior competência, tantos idosos não morreriam na mais completa solidão, como ocorre tão frequentemente em Portugal e em toda Europa. São frequentes as notícias de pessoas que morrem e passam dois, três anos sem que ninguém dê pela falta. Outro dia, morreram duas idosas em Lisboa: a irmã mais nova, de 70 e lá vai, cuidava da mais velha, de quase 90, acamada. A mais nova morreu primeiro de um mal súbito. A mais velha morreu na cama, porque não foi auxiliada nas necessidades básicas. E ninguém viu ou lembrou-se das velhas. Faltou uma fofoqueira que cuidasse de olhar a vida delas para auxiliá-las na hora da morte.  É a cegueira urbana que nos impede de ver o outro, de saber se está bem, se precisa de alguma ajuda. É uma obsessão pela individualidade que se transforma em fobia ao contato social com quem mora ao lado.  

Antes de cometer uma imensa injustiça pelo uso do termo no gênero feminino, há também homens fofoqueiros. E são tão implacáveis quanto a Candinha do Roberto Carlos. A diferença é que eles atuam predominantemente no âmbito público, enquanto a fofoqueira típica tem seu espaço no espaço privado. Contudo, neste caso a dicotomia inspirada em Roberto Da Matta é falível, pois a fofoca teve o seu locus amplificado pelas Redes Sociais. Nestas, a olhadinha é o objetivo principal e cada um deve ter seus critérios para expor a sua vida ao público. E pode observar: nas redes sociais quem mais reclama privacidade é quem mais interfere na vida dos outros. O mesmo meio utilizado para postar "pague minhas contas para ter o direito de falar da minha vida" é onde se expõe situações que não diz respeito a ninguém. É só munição para maledicência alheia.

O ideal é não se incomodar. Como disse o célebre Ulisses Guimarães: "Falem de mim... mal, mas falem."

E aqui, fiquem a vontade para falar... sempre!

Té amanhã, fiquem com Deus.