Como sabem, os anos letivos de Brasil e Portugal são diferentes. Enquanto nos trópicos labutamos de fevereiro à dezembro, em Portugal funcionamos de setembro à junho. Em comum, as férias de verão dos respectivos hemisférios. E é justo. O com um inverno tão longo, as pessoas acostumam-se a levar vida normal enquanto chove. Até porque em Aveiro, o inverno é uma estação que se divide em duas partes: com chuva e com muita chuva. Tivemos uma semana de sol e isso me deixa muito mal acostumada. Não há céu mais lindo do que em Portugal nestes dias. Ainda sobre o ano letivo, já vos disse das férias de natal e de páscoa. No Natal, há um recesso de duas semanas, e retoma-se vida normal já nos primeiros dias do ano. Na páscoa, os meninos passam quinze dias de folga. Esse período é aproveitado pelas escolas para avaliar o trabalho antes de iniciar o terceiro e último período. Assim, há tempo para rever o planejamento e interferir para melhorar o rendimento dos meninos. Cá não há a máxima de que "em time que está ganhando, não se mexe". Mesmo que os miúdos estejam bem, é necessário melhorar o desempenho. No primeiro ciclo português é apenas um professor para as turminhas, começa com o grupo no primeiro ano e acompanha-os até o quarto ano. Neste intervalo de páscoa, passam a primeira semana trabalhando em conjunto, partilhando problemas e buscando soluções em conjunto. Penso que é mais eficiente que o samba do criolo doido que é o primeiro ciclo nas escolas particulares brasileiras. Colocam "professores especialistas" (bem entre aspas mesmo, pois um professor com formação em Geografia trabalhando educação artística é longe de ser especialista) pois acredita-se que o professor multitarefas não dar conta do conteúdo. E sacrificam a dimensão sócio-afetiva e dispensa a experiência dos professores que acompanhavam os miúdos por um maior tempo. Essa experiência na educação portuguesa tem sido muito positiva. Estou a falar com conhecimento de causa, acompanhando os progressos da minha pequena.
Portanto, hoje iniciam-se as férias de páscoa e a criança só retornará a sua rotina escolar no dia 1º de Abril (e não é mentira!). Estou entrando num período de mãe em tempo integral, e ainda assim, vou ter que me virar para andar com a tese. Entre brincadeiras e passeios é preciso um tempinho para ler e escrever. Esta semana estive de conversa com o "Senhor Doutor Meu Orientador", e com aquele jeitinho dele, me fez a pergunta fatal: "Ó Anna, agora, qual o seu sentimento quanto a conclusão desta primeira versão da tese? O que é que você pretende e o que é que você percebe que na realidade vai ser possível fazer?" Muitas perguntas difíceis de responder. Vou me arrastando. Levei a semana passada inteira a codificar dados, calcular percentuais e construir gráficos, tabelas e quadros. A porção mais quantitativa está feita e, durante esta semana cuidei em montar o corpo do texto. Agora é encher aquele 'esqueleto' de conteúdo. A maior felicidade destes dias de hamster (é, eu pareço um hamster na gaiola, das 9h às 17h, e frequentemente no terceiro turno) é a companhia dos companheiros de trabalho, seja através da comunidade ancorada no Facebook, ou através do Skype. Ornilo, Marcone, Clodoaldo, Thayze e Wanessa têm me feito companhia nas tardes (manhãs, para eles) das sextas-feiras, que como os dias de sol, já começam a me fazer falta. O levantamento dos dados a partir da interação dos professores na Comunidade de Práticas da Online da AESGA (CoP Online AESGA) demonstram o quanto tenho a parceria dos meus colegas professores e funcionarios das Coordenações. É por isso que chamo o que produzo de "a tese". Não posso dizer "minha tese". É um produto coletivo. É nisso que tenho trabalhado.
Quando viemos morar do lado de cá, descobri uma paixão: os puzzles. Conhecidos popularmente como quebra-cabeças no nordeste do Brasil, esses joguinhos são adoráveis. Nos períodos de frio ou de quebradeira econômica, um puzzle vai muito bem. Para mim não é um passatempo, pois, o tempo tem uma dinâmica ambigua. Se por um lado é exíguo para tanta coisa, por outro, demora a chegar julho para voltarmos para o nosso lugar, para o meu amor. O puzzle é um modo construtivo de ocupar aquele tempo em que o motor de produção bateu e precisa fazer uma outra coisa para não ficar doida. Luiza teve a ideia de comprar a primeira caixa com esses pequenos desafios. Ao puzzle da Monster High, de 200 peças. A este seguiram Minie e Kim Possible. Neste meio, eu adquiri um puzzle da Afrodite, de Sandro Boticelli. Montamos todos, eu e ela, na parceria que caracteriza a nossa convivência. Colamos a representação da obra italiana num papel grosso e levamos para Mahria, cuja segunda pátria é a Itália. Deve ter virado um quadro.
Animadas com nossos progressos, criamos coragem e compramos um puzzle de 500 peças, retratando o Mosteiro dos Jerônimos. Esta cosntrução é um dos sítios mais lindos que visitamos em Portugal. É simplesmente perfeito. Contudo, o puzzle é mesmo para quebrar a cabeça. Compramos o danado em maio ou junho de 2012. Sei que foi antes de irmos ao Brasil. E começamos animadas, pelas peças mais fáceis. O problema é que enquanto a gravura evolui, se torma cada vez mais complicado encontrar a peça certa. Sabendo que todas as peças tem o seu lugar exato, insisti muito para encaixar pedaços dessa torre principal que eu tinha ABSOLUTA CERTEZA
Esse jardinzinho é complicado pois a fotografia é meio desfocada no primeiro plano. E o céu? Dificil, pois as peças são todas azuis, com pequenas variações nos matizes. Sendo bem generosa comigo mesmo, a imagem incompleta do Mosteiro dos Jerônimos é a resposta que gostaria de ter dado ao Francislê. Na verdade, desconversei e murmurei um hesitante "finais de maio". Seja no puzzle ou na tese, estou mais ou menos no mesmo nível: em ambos buscando as peças que se encaixem melhor para fazer justiça - no puzzle, à beleza da obra. Na tese, à construção da ideia, fundamentada na aprendizagem nossa de cada dia. Ou como diria 'seu' Paulo Freire, na permanente incompletude do ser humano.
Até amanhã,
Fiquem com Deus.



