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domingo, 1 de abril de 2012

Férias de páscoa

Estamos em meio às férias de páscoa. Conforme já comentei o ano passado, as férias de páscoa são duas semanas que inclui a semana santa em que as escolas da educação básica dão uma pausa no trabalho com as crianças e voltam-se para avaliação das ações educativas com vistas a concluir o ano letivo, que vai até junho. Há também uma semana de descanso para os professores, o que resulta em um rendimento melhor, pois, ninguém venha me dizer que torear 25 a 30 crianças em uma sala de aula em horário integral é bobagem, porque não é. É preciso muita criatividade, paciência e conhecimento pedagógico para que as coisas funcionem da melhor maneira possível.

Em 2011, nosso primeiro ano inteiro em terras portuguesas, foi um aprendizado em tempo integral, pois, não sabíamos como as coisas funcionavam. As férias de páscoa do ano passado me pegaram de calças curtas, e levei Luiza até para a aula no doutoramento. Ela portou-se até bem, mas no final do primeiro horário, compartilhou comigo a sua reflexão sobre a minha aula: "mãe, esta tua aula é muito chata. Só fica estes homens falando e vocês não fazem nada. Nem pintam, nem desenham, nem fazem contas. A minha escola é melhor do que a tua." Tive que avisar ao professor que não retornaria à tarde, pois Luiza não aguentaria ficar o dia inteiro. Além disto, tive que arranjar atividades para ocupá-la durante duas semanas, o que não foi nada fácil, principalmente por ter que conciliar as atividades dela com as minhas. Além disso, o custo do lazer na Europa é alto, principalmente para os bolsos cuja fonte pagadora é em Real. O câmbio é sempre cruel, e em 2011 era pior do que 2012, pois 1 euro equivalia a 2,66 reais. Hoje estamos um pouco melhor, com câmbio a 2,35 ou 2,40. Talvez este seja o lado bom (para nós, estrangeiros) da crise. 

Portanto, a experiência é tudo. Este ano, inscrevia-a no programa de férias de páscoa Todos com a Ciência. O panfleto chegou-nos via escola, pois a professora do programa é também a professora de ciências experimentais que Luiza frequenta na escola às quartas-feiras. Com o apoio do Departamento de Física da Universidade de Aveiro, as atividades de ciência lúdica, fundamentadas na química e física do cotidiano ocupariam a primeira semana das férias de páscoa. Assim, tivemos os meninos em segurança na Escola João Afonso de Aveiro, na excelente monitoria dos professores Izabel e Manuel, dois jovens muito animados e muito competentes, que desenvolveram estas atividades:


Foram atividades de investigação, experiências e muita prática. Fizeram pega-monstro, desenho invisível, bolo e gelado (sorvete), criaram brinquedos e investigaram um mistério fictício de um roubo.  Havia também tempo livre para brincadeiras ao ar livre e um pátio enorme e seguro. Tudo  muito bem planejado para divertir e aprender, por 55 euros, incluindo almoço e lanches da manhã e da tarde.
Havia o risco de que Luiza não gostasse das atividades, não se adaptasse ao grupo. Mas, felizmente, as habilidades sociais da pequena estão bem trabalhadas. Além da professora já conhecida, reencontrou alguns colegas da  Escola da Glória, um colega de turma e fez novas amiguinhas. Quando chegava para buscá-la às 17h30 ela sempre estava brincando com as duas Margaridas e as duas Marias, meninas lindas com os nomes iguais. Reencontramos o Shan, um chinesinho muito levado, que frequentou o Artes e Palco no verão, no último mês de julho. Assim, a semana passou rápida e divertida, e, das 9 e pouquinho às 17 horas eu podia cuidar das minhas coisas. Consegui analisar e escrever um relatório de dados quase todo, faltou pouco para concluir. Confesso que no primeiro dia, fiquei apreensiva. Quando disse a ela que fiquei preocupada, ela declarou: "Pois, mãe, eu nem me lembrei de tu!" Coisa de mãe, isto de se preocupar se o filho está bem, enquanto eles não estão nas tintas (nem aí, na linguagem popular portuguesa) para nós.

Estas atividades ocupam bem o espaço daquele tempo em que gastávamos o nosso tempo livre bincando na rua. Hoje em dia não é mais possível nem naquele interior onde cresci. A criminalidade assutadora, a violência urbana não permite que deixemos os nossos filhos nem no passeio (calçada) longe de nossos olhos, quanto mais virar longas horas brincando com a molecada da rua. Cá, em Portugal, não se vê crianças sozinhas ou em pequenos grupos zanzando na rua. Empregados doméstico na Europa, só se o sujeito for muito rico, pois eles são caríssimos e não há o velho jeitinho brasileiro como fazemos com as meninas que trabalham conosco. As nossas secretárias do lar são um luxo impensável e impossível no universo europeu. Assim, o jeito é ocupar os meninos nestes programas de férias, o que é bem interessante, pois eles aprendem muito enquanto se divertem.

Para esta semana, vamos ficar as duas procurando boas oportunidades de diversão, enquanto me equilibro na corda bamba das atividades de mãe-estudante de pós graduação.

Boa semana,
Até amanhã, fiquem com Deus.     

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A vida na escola e a escola da vida

Esse é o título de um livrinho muito bonitinho que li há alguns (muuuuuuitos) anos quando fazia Graduação em Geografia na UPE. Na realidade, comprei o livro de Cláudio Ceccon, Miguel e Rosiska Oliveira por conter umas ilustrações ótimas, para companhar um texto muito simplificado sobre o cotidiano dos nossos alunos da escola pública. Guardo o livrinho com carinho até hoje, um dos primeiros que comprei a Carlos, o livreiro da UPE. O livro ainda está lá nos guardados brasileiros.
Semana passada Luiza completou oito anos. E como os amigos dela resumem-se aos companheiros de sala, pois cá no prédio tem apenas um bebê, e nossos companheiros da UA ou não tem filhos ou são pais de bebezinhos, a festinha foi na escola mesmo. Desde o Diocesano que as festas tem acontecido na escola, pois é mais simples: os meninos lá já estão, não compromete o exíguo tempo dos pais em leva-los de lá para cá, e não há nenhum problema se não levar presente. Aliás, na Escola da Glória há algumas regras que necessitamos atender para poder oferecer o lanche na escola. É para levar somente o bolo e os sumos. Nada de salgadinhos e docinhos. Refrigerante não pode. Ainda assim, os miúdos se divertem muito. Como na quinta-feira foi o dia da greve, a comemoração ficou para a sexta. Faltando um quarto para as três (é assim que se diz as horas aqui, façam a conta! Só me lembro de Rocir Santiago na Sete Colinas!), cheguei à sala com o carrinho rosa pink e um bolo de chocolate, que comprei no supermercado, lógico. Os meninos ainda terminavam as atividades de matemática, com uma colega no quadro lutando com uma subtração. Várias mãos levantadas chamavam atenção da professora, oferecendo-se ao socorro da coleca confusa. Entrei discretamente quanto o possível numa sala composta por 25 crianças na faixa de 8-9 anos.

Terminada a atividade, a professora pediu que os meninos arrumassem o material que deveria ser guardado nas gavetas do armário, próximo onde eu estava. Para conferir se o material está recolhido, os miúdos devem segurar a pilha de livros e cadernos sobre a cabeça, sinal de que estão prontos.

Guardados os materiais ordeiramente, colocamos o bolo na bancada à frente, enquanto eu abria as embalagens dos pratos, copos e garfos, a professora perguntava aos meninos quais os ingredientes de um bolo e revisavam os tipos de texto. Para dividir o bolo, ela explicou frações simples: um meio, um quarto, quatro quartos. O Parabéns à você foi ótimo. Eles cantam aquela parte "Com quem será, com quem será que a Luiza vai casar?" E como sempre, meninas nessa idade já tem suas paixões, e a paixonite de Luiza por Bruno é conhecida no grupo. Mulheres passam a vida apaixonadas e nessa idade, quase sempre não são correspondidas.


Luiza, Cátia e Carmo distribuiram o bolo e eu fiquei servindo Ice tea de Pêssego e de Manga à criançada. No final, cometi a minha transgressão à ordem, tipicamente brasileira, sob o olhar divertido da professora: levei um saco de 1 kg de balas para dividir com aquele povo lindo. Uma festa de rebuçados (balas), caramelos e chupa-chupas (pirulitos). Felicidade em todos os rostos. Simples assim.
Além do carinho dos colegas pela minha pequena, fiquei muito bem impressionada com a apropriação da situação pela professora. Contextualizou o bolo em português e matemática, revisando conteúdos trabalhados, com desenvoltura e muita graça. Puri é uma professora com muitos anos de experiência, que apoia-se na multiculturalidade comum nas salas de aulas portuguesas para ampliar os horizontes do pequenos. Outro dia, ela pediu que os meninos escrevessem a ementa do jantar da noite anterior. Por coincidência, era a nossa noite do cuscuz. Luiza escreveu em uma folha de A4 dobrada ao meio imitando um cardápio de restaurante, enfeitada com desenhos que ela arranjou na web: cuscuz, leite, café, pão, queijo flamengo, fiambre (o presunto brasileiro) e frutas. Na hora de apresentar para a malta (turma), surgiu a dúvida: O que é cuscuz? Uma colega arriscou: "é uma fruta!", a outra disse: "e um tipo de salada!", o outro emendou: "Nada disso, é um purê!" A Professora explicou que era uma espécie de bolo de trigo. Luiza corrigiu: "É um bolo de milho que se come com leite." E todos aprenderam sobre a culinária nordestina.   
É uma professora fantástica. Pena que provavelmente irá à reforma (aposentar-se) no próximo ano, pois, do jeito que as coisas vão, os professores que já completaram o tempo de serviço temem perder os direitos conquistados por anos a fio de trabalho. Seria muito bom que a tivessemos no proximo período letivo, fechando o ciclo no 4º ano. É esperar para ver.

Este texto me trouxe uma lembrança carinhosa da minha mãe que me dizia, com o ar de riso: "Tu é  professora nada, Anninha. Professora são estas que ensinam os meninos a ler. À gente grande não se ensina, pois eles só aprendem o que querem." Sabia das coisas, minha velha. Aprendeu na escola da vida.  

Té amanhã, fiquem com Deus. 

  

sábado, 7 de maio de 2011

Mãe 2

Como amanhã será o DIA DAS MÃES no Brasil, acabei falando na minha mãe desde de manhã cedinho. Aliás, lá nos Ferreira, mãe está na moda. As duas noivas que no casamento Luiza foi dama de honra estão grávidas, e lá vem mais dois Ferreira (ou mais!) no mundo. Danielle e Manuela, que eu vi meninas, estão gestando seus rebentos. Prova inconteste, triangulada pela foto de Juliana, emocionada na festa das mães da escola do seu pequeno João de que o tempo não pára. 
Mesmo firme na minha decisão de só contribuir com uma criança na demografia mundial, não tenho uma só palavra de queixa quanto a maternidade, que é um negócio complexo. Nos nossos encontros, Petronildo sempre dizia: "o mundo só sobrevive por causa da mãe. Se a mãe não existisse, era o fim da humanidade!" Com aquele exagero hilário que lhe é peculiar, demos risadas com as suas histórias de pai desastrado, justificando a inestimável contribuição das enormes bolsas de mãe para a sobrevivência da raça humana. É nesse objeto de primeira necessidade que a mãe coleciona toda sorte de obetos essenciais para prover as necessidades de seu rebento: garrafinhas com água ou suco, bolachas, balas, remédios, fraldas, lenços, brinquedos e de vez em quando cabe até uma muda de roupa. As mães são prevenidas, videntes das possíveis necessidades de seus pequenos. Depois que eles crescem, tem sempre uma brecha no cartão de crédito ou no orçamento, mesmo os mais apertados. Mas, dequalquer forma, a bolsa da mãe é uma construção social, como diria o meu querido cunhado.
Mas, não existe mãe sem seus filhos. Muitas se queixam das preocupações, das noites sem dormir, da trabalheira quando estão doentes. E esses discursos acaba metendo medo naquelas que ainda estão na antessala da procriação. Em mesma fui, de certa forma, vítima desses discursos quase terroristas. Aquela fala de "filho é preocupação até o fim da vida" ou "nunca mais você vai dormir uma noite de sono", me assombraram durante algum tempo. Da minha experiência pesada e medida, planejada até a época de parir nas férias para não atropelar a profissão, asseguro-lhes: ter filho é um barato. Muda a nossa vida para melhor. É claro que tem algumas coisas que não dá para fazer enquanto eles são pequenos, como ir para a night portuguesa. Mas, tem coisas que só dá para fazer enquanto eles são pequenos, e, como já disse anteriormente, o tempo não espera por nós. Nessa odisséia, não sei como seria se minha filha não estivesse presente. É minha companheira de luta, de estudo, de risadas e de sorvetes. É a certeza de que cada minuto vale a pena.
Ser mãe é, como diriam os portugueses, muito fixe! E neste dia, não só lembro, mas tenho a minha mãe do meu lado, que dialoga comigo  enquanto os outros pensam que eu estou falando sozinha. Às vezes lamento por não ter sido mais presente, ou mais amorosa, ou mais paciente na sua velhice.   Mas, o tempo segue seu curso, e o que há de bom em mim, foi por ela dado.
Té manhã, fiquem com Deus!