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domingo, 11 de setembro de 2016

O futebol: Brasil x Uruguai

Arena Pernambuco, eliminatórias da Copa do Mundo, 25 de Março de 2016

Já fazia tempo que Tony tentava uma oportunidade de irmos juntos ao futebol. Eu sempre assisti aos jogos com a minha mãe, pela televisão. Foi ela que me ensinou as regras básicas de impedimento, escanteio e lateral. Com minha velha, aprendi que goleiro que fica batendo bola é catimbeiro, que jogador muito famoso é mascarado e que o Sport sempre perde quando jogo pelo empate. Coisas do futebol pernambucano, que como rubro-negra de duas linhagens, tento heroica e bravamente ensinar a minha filha, mas os tempos são outros. A geração sete-a-um tem um desinteresse latente pelo futebol. De qualquer forma, juntamos três peças de roupas e uma camisa do Sport para cada um e nos fomos à Arena Pernambuco ver a desgastada seleção brasileira jogar contra o Uruguai pelas eliminatórias de Copa de 2018. Já se comenta por uma boca só que se o Brasil for eliminado agora é um favor que faz: assim, não custará nossa cota de esperanças, e olhem que nesses tempos bicudos, esperança que não nos falte.

Pronto. Então, tudo começa muito antes do apito inicial. Para comprar os ingressos, ficamos ligados nos programas esportivos da rádio jornal. Logo após o carnaval, anunciaram o início da  bilhetagem eletrônica. Tudo se resolve através do site da FIFA, o torcedor adquire os ingressos e paga através do cartão de crédito. Confirmado o débito, a organizadora encaminha-nos um e-mail com o voucher, que deverá ser impresso e trocado nos pontos autorizados nos dias que antecedem a partida. Parece simples, mas, é uma via crucis, pelo menos a parte de comprar os ingressos no site. A página da FIFA é pouco amigável e quando conseguimos aceder ao sítio onde se marcavam os assentos, só tinha os ingressos mais caros e os mais distantes. Obviamente, optamos pelos ingressos do 3º piso, que são mais baratos. Era apenas a primeira e óbvia lição de que o futebol atual exclui as massas: é preciso ter alguma condição financeira para ter acesso ao campo. Lamentável, pois o povo faz falta no espetáculo.

Ingressos comprados, fomos em busca de hospedagem. Como o jogo estava marcado para as 17 horas, pensamos que seria possível participar e voltar. Mas, um conluio entre a CBF e a Rede Globo impede que os jogos das eliminatórias se realizem em um horário humanamente possível. Os direitos de transmissão da vênus platinada estabelecem que o jogo deve começar as 21h45. Agora, me digam: já foram a Arena Pernambuco para saber mais ou menos a que horas um torcedor comum que saiu do estádio à 0h00 chegará à sua humilde residência? A sorte é que marcaram o jogo para a sexta-feira santa, de modo que no sábado, aleluia, dava para dormir mais um bocadinho. Então, com o arrocho financeiro comum a todo início de ano,  hospedagem tinha que ser mais acessível. Encontramos na Pousada Casuarinas, com uma excelente localização, limpa, segura e com um excelente atendimento. Além de ter uma decoração efusiva, tem um jardim interno lindíssimo e muitos gatos andando por toda parte.

Asinhas criminosas do Yoki Galetos
Tudo certo, na quinta-feira, já dia santo, fomos embora para o Recife. Invariavelmente, Luiza vai dormindo o caminho inteiro. Desta vez, só paramos na Ilha do Retiro para trocar os ingressos e depois almoçamos no Yoki Galetos, que serve uma asinha de frango empanada impossível. Seja com uma coca-cola geladíssima ou uma cerveja, as asinhas são o que há de melhor no mercado. Tony já tinha ido lá, e desde então, só vivia falando nas tais asinhas. Não perdemos a oportunidade: o ambiente é simples, amplo, bem frequentado e tem vista para o trânsito maluco da Abdias de Carvalho. 

Na sexta-feira, era o dia do jogo. Planejamos uma breve caminhada na praia de Boa Viagem (que só serve mesmo para caminhar e ver pessoas, por causa dos tubarões), um almocinho, um descanso. Depois, poderíamos ver a exposição O Corpo Humano, no Shopping Riomar, onde também pegaríamos o transporte para a Arena. Deu quase tudo certo. Luiza levantou-se cedo, e tomou café conosco. Ultimamente nas viagens, o café da manhã em família tem sido um problema. Coisas da adolescência, para as quais é preciso ter uma paciência de Jó. Fizemos a caminhada na praia, que por sinal, estava tudo muito bonito, bem cuidado e limpo. Pena que o esmero que se tem com Boa Viagem não é replicado por toda a cidade.


Mais tarde, o tempo atropelou-se e quando chegamos ao shopping Riomar já passavam das 17 horas. Não foi possível ver a exposição, pois precisamos entrar na fila do transfer. O Shopping ofertava o transporte de ida e volta para Arena, que fica no município vizinho, São Lourenço da Mata. Tony, conhecedor dos problemas de saída dos estádios considerou que seria melhor aderirmos a este programa, pagando 30 reais por pessoa. Como era ida e volta, e não ia ter que ficar naquela agonia de estacionar e nem de se perder da região metropolitana do recife após a uma da manhã, valia a pena. O problema é que as empresas brasileiras sentem muita dificuldade em se organizar para ofertar o serviço que vendem. E entre a teoria e a prática, lá se vai um imenso abismo. Quando chegamos ao shopping, somente um guichê vendia as entradas do transfer. Orientados pela primeira atendente, pagamos o estacionamento, e fomos em busca das tais passagens. Na fila, Tony foi informado que o pagamento do estacionamento só valia até a 1h30 da manhã. Saquei o papelinho da carteira, e conferi: o horário dizia que era até as 18h30 do dia 26. Seguiu-se uma discussão porque a segunda atendente tornou-se irredutível: se não tirasse o veículo até as 1h30, entraria no rotativo do estacionamento. Tony sacudiu o recibo na cara dela e tudo foi resolvido quando ele disse a jovem, calmamente, que se não fosse cumprido o que estava impresso no recibo, era uma excelente questão judicial. Nada como ter um advogado na família. Depois, a confusão foi na compra dos tais transfers. Os ônibus já estavam saindo para a Arena, e a fila só crescia. Um dado momento, disseram que não tinha mais passagem. Depois, disseram que dispunham, mas só de ida. A volta, que se virassem. Então, começou o burburinho e os consumidores aborrecidos brigavam pelos seus direitos. A esta altura, já haviam chegado Tony Lucas, Marcos Cardoso e os dois filhos. Estávamos esperando Vando, pois Tony é que estava com os ingressos dele. Pelas 18h30, o companheiro chegou com a filha. Passou pela fila das passagens, alegando ser deficiente físico (que realmente é), e comprou os bilhetes do ônibus, sem qualquer dificuldade.

Embarcados e contentes, já era noite fechada quando saímos do Recife.          

A Arena (dos Problemas) Pernambuco vista de longe, à noite é um encanto. O problema é que o nosso motorista parece que era novato, e não conhecia o caminho. Passamos bem na portinha do estádio e o veículo não parou. Não entendemos muito bem, mas queríamos saber onde o transporte iria ficar estacionado, portanto, não pedimos para descer. O problema é que o doido do motorista enganou-se e foi lá para o final do mundo, procurando um retorno. Depois de muitas voltas e muita “zoação” dos passageiros, principalmente quando passamos de volta novamente na frente da Arena. Marcos Cardoso profetizava que seria a única coisa que veríamos da Arena: o gramadinho que tem na frente. Finalmente, paramos lá em Deus-me-livre e descemos em busca do portão de acesso à nossa área.

Vejam bem: quem tem medo de altura ou problemas cardíacos, nem se aventure. Nossos ingressos eram numa seção que ficava no cocuruto da Arena. A primeira batalha foi arranjar alguma coisa para comer: o ambiente chega a ser monumental, com papel no banheiro e tudo mais. Contudo, as lanchonetes são uma humilhação com alto custo. Atendidos por balconistas suados e mal-humorados, comemos o pior pãozinho com presunto do mundo e um copo descartável de sukita meio quente (pensem na temperatura ambiente do Recife). Eu, Luiza e Tony, pagamos 45,00 por esse lanchinho desgraçado.  Compensa encontrar tanta gente conhecida comendo a mesma porcaria, vários amigos (e colegas) de Tony vieram nos cumprimentar no nosso batizado futebolístico.

A subida da rampa (lembrem-se que nossas cadeiras ficavam na parte mais alta do estádio) foi compensada pela linda visão do campo: sabem aquela carinha que a menininha que vai carregada pelo pai faz ao ver o campo, na propaganda do Sport TV? É verdade. Contudo, eu tinha um universo de degraus pela frente para chegar ao meu canto, e quando o alcancei, pensei que ia morrer, suando por todos os poros, morta de cansada. Ninguém precisa dizer que estou gorda, eu sei muito bem, sem precisar de espelho, basta galgar degrau por degrau na Arena. Além de tudo, tem a altura, eu fiquei pregada no assento, sem coragem de me mexer. Só me levantei para o hino, e, me sacudi um pouco nos gols. Mas, foi só. A impressão é que vamos capotar para frente a qualquer momento.


O jogo? Foi empate. Parecia até que seria fácil no início, mas aquele Soares (o que morde) é muito bom. Uma partida de futebol no campo é uma experiência intensa. Apesar de ser quase uma torcida só – havia poucos uruguaios e um punhado de argentinos – o som e o movimento é uma maré de gente. O uníssono da torcida é uma experiência não só auditiva, mas sim, visual. Já estou inscrita para uma porção assistir uma porção de jogos, basta que chegue a oportunidade e o departamento financeiro libere os recursos.

sábado, 12 de julho de 2014

Lições de gestão da Copa


Não vou comentar o caso de Neymar, nem a tinta que levamos da Alemanha, não se aperreiem. Muita gente já falou, e eu, também. Fui mal entendida, bem apoiada. O meu post foi bem discutido. Quem   não gosta muito de bola dividida, me cumprimentou pessoalmente, dando risada com a resposta ou retrucando, argumentando que eu tenho a mania de minimizar as coisas. Talvez seja. Outro dia, me classifiquei como otimista inveterada. Às vezes acerto. Outras vezes, levo na cabeça. Coisas da vida. Já disse também que a perfeição só existe em Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. E mesmo com uma concordância majoritária, os meus colegas e leitores agnósticos ou ateus torcem o nariz e pensam: "ignorante!" Aceito e sigo em frente. O que seria da vida se não fossem as pequenas discordâncias?

Ando a refletir sobre um aspecto específico da copa. Sempre acreditei que o futebol é perfeito de metáforas para a gestão. E como me envolvi profissionalmente, desde a minha volta para o Brasil (e isso já faz um ano! O tempo voa!) no processo de gestão de uma instituição de ensino superior, salta aos meus olhos algumas situações que bem poderiam ser trabalhadas nos cursos de gestão como estudo de caso. Não me refiro aos acertos e erros do evento em si, mas penso nos lances futebolísticos que compõem a história do mundial. Num jogo de futebol cabe exemplos de boa e má gestão de pessoas e recursos na busca pela vitória e na obtenção do caneco. Futuramente, prometo melhorar a reflexão. Este é apenas um fragmento do que pode vir a ser "Aproximações do futebol à gestão: lições da paixão nacional para a gestão de pessoas e negócios."

Na primeira fase, chamou-me atenção o caso da Seleção Portuguesa (lá diriam "equipa"), e a saga fracassada de Cristiano Ronaldo. Este é um clássico para a gestão: o melhor jogador do mundo em um time medíocre não resulta. Na organização - seja ela hospital, escola ou casa comercial - não adianta ter um único médico maravilhoso, um professor nota 10 ou um vendedor supercompetente. Se a equipe não funcionar, não haverá resultado positivo possível. Minha velha mãe já diria "uma andorinha só não faz verão". Um Cristiano Ronaldo só não salvou Portugal de uma campanha desastrosa. O sujeito, por mais genial que seja, não trabalha sozinho, pois o futebol  (até que se prove o contrário) é um esporte coletivo, assim como a atividade fim de qualquer organização também se desenvolve coletivamente. Ter um setor que não corresponda às demandas do cliente interno é equivalente a um passe errado. Se o time não se entende, não marca gol. E já diz a máxima do futebol: "quem não faz, leva." Este caso corresponde aquela frase muito repetida por Giane: "é melhor um professor comprometido, que faça o seu 'feijão com arroz', do que um grupo de celebridades." Estas, geralmente são bem individualistas e só pensam na manutenção do seu fulgor. E já li em algum lugar que ao olhar distante, as estrelas ainda brilham depois de mortas. Morreu e não sabe.

Nestes dias, além de assistir futebol, participei de algumas avaliações de trabalho de conclusão de curso de Gestão. E talvez a leitura das produções tenham me influenciado a olhar as disputas como quem analisa as atividades produtivas do mundo do trabalho. Naqueles trabalhos, muito se falou sobre as atribuições dos gestores. Além do planejar-organizar-dirigir-controlar, é essencial ao gestor a competência de assumir responsabilidades. É muito fácil gerenciar uma equipe de sucesso, onde todos sabem suas responsabilidades, assumem suas tarefas e desenvolvem muito bem o seu trabalho. Quando a coisa não funciona bem é que o gestor é testado nas suas responsabilidades. No futebol brasileiro é comum a demissão do técnico quando o time começa a descer a ladeira em uma sucessão de maus resultados. Penso que é parcialmente justo, pois, a estratégia,do grego strategi (só me lembro da turma de pós graduação de Renato e Alcione, que viviam parafraseando o Capitão Nascimento naquela cena de Tropa de Elite! turma divertida!) é desenhada pelo gestor. Além das benesses do cargo, o gestor deve assumir, prioritariamente, as responsabilidades pelos resultados. Mas, este não pode ser o mártir do fracasso, pois, sabemos que a organização é uma coletividade. A porca torce o rabo quando o gestor é um quiabo: escorrega na hora de assumir o problema, e joga a bomba chiando na mão dos colaboradores. Estes, geralmente são hábeis em arranjar desculpas para tudo, expondo toda a sua criatividade na elaboração de estatísticas sem nenhum fundamento. Depois do fato histórico da semifinal brasileira no mundial (não, aquilo não foi um jogo com o cabalístico placar de 7 x 1), passamos os dias tentando entender o que havia acontecido. É como crer que temos um excelente produto rejeitado pelo mercado, e quando copiado pela concorrência, converte-se num estrondoso sucesso. Nem deu para eleger culpados, pois o resultado não permitiu que ninguém se transformasse em bode expiatório. Falhou a estratégia ou nunca estivemos realmente bem? Excesso de confiança, orgulho e falta de compromisso resultam, invariavelmente, em fracassos estrondosos, seja no futebol ou na gestão.

Até amanhã, fiquem com Deus.


domingo, 23 de março de 2014

A Copa do Mundo e as tags para a vida

Pois, já começo com desculpas. Semana passada, fiquei doente na sexta-feira. Não sei o que danado comi, mas, tive uma reação alérgica, fiquei me coçando. Então, tomei uma dose de nada de anti-histamínico. Isso me pôs de molho o sábado inteiro, prostrada com um cansaço terrível. Com isso, o domingo foi uma tentativa de colocar as coisas da casa no lugar e os compromissos das quatro turmas que leciono. Resultado: não deu tempo para nada.

Pronto. Então, nesses dias tenho pensado acerca do futebol. É que Tony gosta muito de futebol, tanto que em pleno domingo, antes das nove horas, saiu para encontrar os amigos para discutir os jogos de ontem. Nem para a missa se é tão pontual. E a conversa correrá solta até às 11 horas, quando ele lembrará que tem que providenciar (leia-se "comprar pronto e trazer para casa") alguma coisa para o almoço. Outro dia, Luiza me perguntava porquê é que os homens vivem na rua. Respondi-lhe simplesmente, que quando saem de casa, os homens passeiam e as mulheres fazem coisas. Na minha visão e a partir da minha prática, só saio de casa se houver algo para fazer. Nunca para jogar conversa fora. Sim, mas, o futebol. Esse ano é copa do mundo no Brasil, e muito já tem se falado a respeito. Principalmente, mal do Brasil. Isso já era esperado, pois em termos de organização, somos o povo mais estabanado do mundo. Talvez seja um aspecto negativo do multiculturalismo. Onde há jeitinho, tudo de última hora e outros traços culturais marcantes, organização, responsabilidade e foco é coisa de outros mundo. Mas, como sempre digo, cultura não é karma, e podemos aprender a ser melhores, corrigindo uma coisinha a cada dia. Mudas tudo do dia pra noite é mesmo impossível. 

Me apressei em Portugal e voltei antes do prazo que eu teria direito no afastamento ao trabalho por vários motivos pessoais, mas, um deles era que eu queria ver de perto essa tal Copa do Mundo que acompanho pela TV desde os nove anos. A minha primeira Copa do Mundo foi a Espanha' 82. Impressiona-me ainda hoje a magia que tem esse esporte coletivo para mobilizar as pessoas. Lembro-me bem que um dia, Ilda chegou do serviço com uma camisetinha com o mascote da copa. Trocávamos cupons fiscais de supermercado por álbuns e figurinhas, e fazíamos um grude nalguma cozinha de uma mãe compreensiva (geralmente, era a minha), para ser utilizado coletivamente na colagem das figuras. Assim, eu vivia às voltas com uma figura do Valdir Peres para trocar, pois o que mais se repetia era o cromo do goleiro da seleção brasileira de futebol. Quem conseguia montar o meio-campo e o ataque da seleção de Telê Santana era o rei. Figurinhas muito difíceis de encontrar. Mas, era muito animado. Um tempo de vasculhar as revistas Placar dos meninos para conhecer mais sobre os times. Felizmente, na minha casa o acesso ao futebol era mais democrático, que nas casas das vizinhas. Mamãe sempre gostou de acompanhar um joguinho de bola, e não encrencava com a gente, por sermos meninas futiboleiras. Conhecer e apreciar, vá lá. Mas, jogar bola na rua, nem pensar. Menos mau. Eu sempre dava um jeitinho e ia jogar lá na outra rua, às margens dos Galegos. Pior era uma família, que a mãe inventava tudo que era coisa para a única menina da família fazer na hora do jogo, só para não deixá-la assistir. Hoje em dia há menos preconceito, e Luiza já jogava futebol na Escola da Glória e voltou com essa cultura para o XV de Novembro. Como a escola é de cultura norteamericana, e futebol nos Estados Unidos é coisa de menina, quem sabe daqui há uns dias teremos uma equipe? 

O que a Copa do Mundo de Futebol faz é colocar uns marcadores na vida da gente. Mesmo que você não saiba a escalação da Seleção de 1982, com certeza, vai se lembrar daquele time fantástico que nunca ganhou nada.  Sem dúvida, o evento mobiliza a sociedade, independente de onde ele ocorra. As famílias se reúnem em casa à frente da TV para acompanhar os jogos. Alegram-se na vitória, apoiam-se nas derrotas. Todo brasileiro é um técnico, e tem sempre uma opinião ou uma solução mágica para resolver a falta de dedicação, de vontade, de talento. Toda copa tem um mascarado ou um herói. E a história da nossa vida é costurada à futebol. Em 1994, a final da copa dos Estados Unidos caiu no dia 16 de Julho, aniversário de Mariana. Ela estava completando dois ou três aninhos. A mãe da criança inventou de fazer o aniversário da menina no dia do jogo! Pensou-se assim: o jogo termina e cantamos os parabéns. O pré-jogo foi para arrumar a decoração, a mesa, os doces. E vamos assistir o jogo. No intervalo, Izabel arrumou a menina. E jogo foi para a prorrogação. E a pirralha toda arrumada, para lá e para cá. E ninguém lhe dava atenção. Depois, vieram os penaltis, a situação extrema do futebol. Enquanto decidiam a escalação para as penalidades máximas, alguém disse: "se o Brasil perder, não há mais festa." E foi uma briga, uma confusão, a mãe da menina, com a menina no colo a reclamar do futebol. Quando recomeçou, esquecemos a questão, os olhos grudados na TV, e a mãe da menina, lacrimosa, parou de reclamar a ingratidão familiar para ver  Roberto Baggio chutar a bola sobre a trave. Brasil Tetra campeão. E a festa da menina foi um sucesso.

Anos se passaram e num dia de trabalho, Ilma atuava como meirinho num julgamento na Comarca do Paulista. O crime havia sido cometido no dia 16 de julho de 1994. O suspeito alegava que estava "batendo uma laje" com  os amigos. Minha irmã, fez as contas e alertou ao Promotor: "Esse álibi é meio estranho. Neste dia, era a final da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Ninguém perderia a final para bater uma laje". O nobre tribuno arregalou os olhões de pasmo, e perguntou-lhe: "Como a senhora sabe?" Ela contou-lhe o caso aniversário de Mariana, enquanto os colegas vasculhavam na internet para conferir a informação. Na tréplica, o promotor desfez o discurso do acusado, que foi condenado. 

Mesmo que o jogo seja no Japão, colocamos os relógios para despertarem no horário, nem que seja às três da manhã e que passemos o jogo dormitando e o resto do dia ressacados com o plantão futebolístico. Em 2002, cujo horário não fazia o menor sentido, comentávamos o jogo pelo telefone. Nas primeiras rodadas, eu estava sozinha, pois Tony havia viajado para ajudar o Wellington, que era candidato a Deputado Estadual no Amapá. Um certo jogo, Mahria me ligou para comentar e Tony, que havia chegado no dia anterior, atende. Ela desligou o telefone ligeiro e comentou com Cândido: "Tem um homem na casa de Anninha!" O cunhado ligou novamente e Tony atendeu. Conversaram, deram risadas e comentaram o jogo. Por não saber que Tony havia retornado, minha irmã julgou que o homem que atendeu era "o urso". 

Esse ano, situações cotidianas decorrerão e serão evidenciadas pelo ano da Copa. Apesar da importância do evento, não sinto mais o mesmo ânimo de 1982 ou 1994. Talvez porque estamos vendo de perto como os processos vêm sendo mal conduzidos. Se o evento foi uma boa oportunidade para modernizar e melhorar as condições das cidades sede, não vemos o mesmo ocorrer aqui. Para se ter uma ideia, o Governador de Pernambuco decretou feriado nos dias de jogos no Recife, para não ter problema com o trânsito. Assim, as vias serão liberadas, e mascara-se o problema do caos cotidiano de quem tem que atravessar a cidade. E que não chova, porque se chover, alaga tudo e o caos se multiplica. Só vai de barco. Pelo jeitinho, estamos perdendo uma excelente oportunidade de termos um espaço melhor para viver. Vamos ver no que tudo isso irá resultar.

Até amanhã,
fiquem com Deus. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O futebol

Tudo que eu queria dizer sobre o futebol, Chico Buarque já disse na canção "O futebol". Mas, eu sou insistente e reclamo o direito de falar desta que é a paixão mundial. Para comprovar esse fato, basta uma bolinha qualquer e um tempinho livre e garotos comuns ou senhores de idade se transformam em astros da bola. Basta conferir o público nos jogos dos mundiais nos estádios ou a audiência dos jogos transmitidos em horários nada convencionais pelas artes dos fusos horários. Além disso, como diz o ditado: "De técnico,  médico e louco, todos têm um pouco". Todos sabem de futebol, ainda que nunca tenham jogado nem um minuto de uma partida.

Aprendi a gostar de futebol assistindo na tv com a minha mãe. Nós trombávamos na linguagem, pois ela era do tempo do "marechal de campo" e do "ponta de lança". Mas, me ensinou direitinho a reconhecer o impedimento, diferença ente penalti e falta. Graças a minha velha, entre muitas outras coisas, não só fico olhando a (suposta) beleza dos jogadores de futebol. Gosto da história do jogo, dos lances polêmicos e das comemorações atrevidas. Gosto de camisa de time. Gosto de ouvir a conversa dos caras sobre o futebol. Adoro xingar o juiz de ladrão, só não falo da mãe dele. Vá que eu tenha um filho juiz de futebol? 

Quando trabalhava em Caruaru com garotos de 5ª e 6ª série (atuais 6º e 7º ano do Ensino Fundamental, no Brasil. Em Portugal é do 2º ciclo da Educação Básica) penei para chamar atenção dos meninos nas aulas de Geografia. Como duelar com a expectativa do jogo que seria na quarta à noite e contra os comentários sobre o jogo no dia seguinte, meus dias de aula? O jeito foi utilizar o Futebol para me aproximar dos meninos e poder trabalhar o conteúdo da disciplina. A partir das cidades-sede dos times (equipas, para os lusos) estudávamos as regiões do Brasil, suas vocações econômicas e quadro natural. Os mascotes dos times ajudaram bastante no estudo da fauna. Disto daí para a flora, clima e relevo, era um pulinho. Nada melhor que ensinar fuso-horário em ano de Mundial de Futebol. Eu até me apropriava do discurso do marido: repetia para os meninos o que ouvia Tony falar com os amigos, e os pequenos ficavam crentes que eu era a professora "mais entendida" de futebol. Era uma "futegrafia" interessante e produtiva. Entrando na deles, evitava de apartar briga entre corinthianos e sãopaulinos. Trabalhávamos animados, embalados pelo futebol.

Lá em casa, somos torcedoras do Sport Club do Recife, herança genética de nosso pai. Para a imensa ironia do destino, minha mãe morou seus últimos tempos sendo vizinha de Bacalhau. Cheguei a pensar que daria confusão entre a nação feminina rubro-negra e o representante-mor do Santa Cruz vizinhos de quintal. Deram um exemplo de civilidade. Quando se encontravam em meio a rotina doméstica, cumprimentavam-se polidamente. Ela o tratava por "seu" Bacalhau. Pena que a civilidade não chegue nos estádios, sobretudo às temíveis torcidas organizadas. Por mais que Iasmin defenda a Torcida Jovem do Sport, é fato que esta não é diferente das outras: há bandidos uniformizados e gente doida que aproveita da vibração do jogo e da paixão pelo time para cometer crimes contra a integridade física.

Não é por medo que nunca fui a campo. Mentira. Fui uma vez, um joguinho entre o Sport e a AGA, no estádio do Sete de Setembro, em Garanhuns. O Sport perdeu e eu ganhei a fama de pé frio. A outra oportunidade foi um jogo do Sport e Palmeiras, também em Garanhuns, no mesmo estádio, que o Marcos, então Goleiro (guarda redes) do Palmeiras disse que era um pasto. Para esse jogo, que foi no dia 23 de novembro de 2003, eu quase fui. Insisti, fiz birra e confusão para ir, mas na hora de calçar o sapato, não havia sapato que entrasse nos meus pés inchados de grávida de 9 meses. Tony foi sozinho e agradecido ao sapato por eu não tê-lo acompanhado. Luiza nasceu no dia seguinte.   

Nesta temporada lusitana, tenho tentado acompanhar o futebol europeu, mas é dificil. Primeiro é que são muitos campeonados simultaneos: é tanta copa, tanta liga que não dá para saber que time está ganhando o quê. Além disso, os narradores de futebol daqui são terríveis, dá até saudades da chatisse do Galvão Bueno. Eles conversam o tempo inteiro, parece que não sabem os nomes dos sujeitos que estão no campo e não imprimem emoção ao jogo. Pela narração não há diferença entre "a bola foi-se pela linha do lado" e o "golo". Eu, que só assisto sem ver (o jogo rolando na tv e eu fazendo outra coisa), quando levanto a cabeça o placar já mudou e eu nem senti. Mas, não posso deixar de reconhecer que me surpreendi quando me deparei com este time ai:

  
Diga aí se não é o genérico do nosso Leão da Ilha?
Só erraram na cor! É... talvez algum dia, eles amadureçam. Nem precisa conferir. O Sport Recife é de 1905 e o Sporting é de 1906. Entre Pernambuco e Portugal sobram semelhanças, e esta pode não ser mera coincidência. Digamos que foi um ctrl c + ctrl v do início do século passado.

Mas, o melhor do futebol são as provocações saudáveis aos torcedores (adeptos) dos times adversários, coisa que não costumo ver cá em Portugal. Como naquela noite quando vínhamos de Palmeira dos Índios, ouvindo o jogo pelo rádio. Sport e Santa Cruz nos últimos minutos quando chegavamos à rotunda da Boa Vista, entrada de Garanhuns. Bem na hora do Carlinhos Bala cobrar o penalti para o Santinha, uma interferência tira o sinal do rádio. Um silêncio de suspese se segue... Desesperado, César Bota Boi, o condutor do veículo, dá murros no rádio para trazê-lo de volta à vida... O rádio ressucita bem a tempo do falecido  Adilson Couto gritar: "Peeeeeeeeeeerdeu o penalti, o Carlinhos Bala"!  A vã em festa, balançava pela cidade, quase meia-noite e  após um cansativo dia de trabalho, renovamos nossas forças para abusar César Brasil, o único sofredor-torcedor (adepto de pouca sorte) do Santa Cruz presente no carro. Magias do futebol!

Saudades de hoje: do pio do gavião das transmissões de futebol da Rádio Jornal e do trabalho do  Adilson Couto, o narrador de futebol que fazia o jogo parecer infinitamente melhor do que podia ser.

Até amanhã, fiquem com Deus.