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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Leituras e Reflexões: Diário do Clima & Planeta Terra

Neste sábado, me atrasei. Acordei ao som dos carros que percorriam a via. Na esquina, há um bueiro cuja tampa vibra à passagem dos automóveis apressados. Um olhar de lado e visualizei a hora no escuro. 11:11. Despertei num pulo, para no segundo seguinte me lembrar que hoje é sábado, e por isso, não há pressa para a escola. Como diria Mariana, dormi até o fim, e só levantei-me quando Luiza me disse "mãe, tô com fome!" com uma voz estremunhada de sono à guisa de bom dia. Abri a janela para o céu nublado de fevereiro. Acostumo-me muito facilmente aos dias de sol, e o retorno a todos os tons de cinza do céu aveirense, influencia-me profundamente o humor. Estamos prontas para mais um dia neste mundo em que até o Papa 'pede para sair' da tropa de elite da esfacelada Igreja Católica e meteoritos riscam o céu em carreiras de fogo. Alguns até disfarçam, mas lê-se nas entrelinhas as saudades que sentem da Inquisição.
 
No setembro último, regressei à Portugal para os segundo tempo desta seara de formação. Na bagagem trouxe alguns livros. Entre eles, vieram comigo a Sônia Bridi e a Delanie Velasquez. Duas experiências de leitura diferentes acerca do mesmo tema: as condições que criamos para viver (ou sobreviver) neste mundo-cão. Outro dia, li em algum lugar que o problema do planeta são os inquilinos. E as autoras dessas duas obras lançam-nos a reflexão sobre nosso way of life de modos diferentes, mas, complementares.
 
Comprei o livro da Sônia Bridi quase que compulsoriamente. Como fui convidada para discutir a obra na Bienal do Livro de Garanhuns, vi-me na obrigação de, ao menos, conhecer a obra, já que a autora e a série já conhecia das reportagens da Globo e das matérias veiculadas no Fantástico. Depois de alguma confusão, Tony (o ambientalista cético!) me trouxe o livro no dia da discussão. Ainda houve tempo de ler dois ou três capítulos para ter embasamento suficiente para dizer duas palavras sobre a obra. O livro, editado pela Editora Globo é uma obra de presença. Capa dura, fotografias lindísismas de algumas das locações onde foram feitas as reportagens da série "Terra, que tempo é esse?", um DVD com as reportagens. O texto da Bridi, conforme conhecemos da televisão é ágil e muito bem fundamentado. O livro nos supreende por nos mostrar um outro lado da vida da dupla de jornalistas: a moça tem o luxo de ter o marido, Paulo Zero, como cinegrafista. Por sinal, um excelente cinegrafista. A harmonia do casal é perceptível até mesmo nas reportagens de televisão, onde o texto encaixa perfeitamente com a imagem. O Tony Lucas, fã da jornalista, já havia me dito que o texto dela é afiadíssimo. Comprovei-o em "Diário do clima", um livro de histórias de viagem. A Bridi conta-nos de forma bem humorada, os desafios de fazer uma série de reportagens sobre as mudanças climaticas em todo o mundo. E nos mostra as dificuldades do cotidiano de quem tem que viajar com 20 quilos de equipamentos, a espera nos aeroportos, as incoveniências dos hotéis, as adaptações à comida de cada sítio, os riscos físicos e políticos que oferecem conjunturas sociais conflituosas. Um dos capítulos mais engraçados - e interessantes -, decorre em Veneza, onde a dupla vai conhecer as obras do Projeto Moses. Este projeto visa proteger a cidade mais romântica do mundo do avanço das águas do Mar Adriático. Como a cidade já vive dentro da água e esse é o seu glamour, o aumento do nível do mar é uma morte anunciada. Nas épocas de Acqua Alta, as águas invadem os casarões às margens dos canais e a Piazza de San Marco lembra uma palafita. Foi neste capítulo que aprendi que com dinheiro e vontade política, a engenharia resolve qualquer problema. Para além das questões ambientais, o livro é uma reflexão sobre a vida que escolhemos ter. A escalada ao Kilimanjaro exigiu da dupla de jornalistas muitos sacrifícios para alcançar o preparo físico indispensável para essa empreitada. Contando os passos até atingir o cume, Bridi nos presenteia com a reflexão:
 
" Penso em investigar mentalmente o que e fez impor, a mim mesma este sacrifício físico, mas logo desisto. Análise, não! Penso nos dias difícies que virão agora, e que não são nada se comparados à jornada que uma grande amiga está enfrentando, sem escolha. Diagnosticada com um câncer muito agressivo, passa por um tratamento doloroso. Queria estar perto dela, mas não posso parar um projeto que insisti tanto para se realizar. Penso que se eu fosse religiosa, poderia rezar por ela. Ela é muito religiosa, ia gostar. Lembro da minha mãe dizendo que a oração é ouvida por Deus, mesmo que quem esteja orando se sinta falando sozinho (...) e tomo uma decisão: se eu rezar, vai fazer a diferença para quem recebe a oração." (p. 167)
 
E na época que lia isso, me identifiquei por conta da insignificância desse desafio que impus a mim mesma, diante da batalha não opcional do Primo Clodoaldo, que luta pela vida a cada dia. Cada um com o seu Kilimanjaro. A natureza ensina, a vida nos ensina, as pessoas nos ensinam. Basta estarmos atentos às suas lições.
 
O outro livro também fala sobre esse nosso mundo. Delanie Velasquez é uma escritora iniciante. Diferente da Bridi, a Velasquez publicou em produção independente. Não tem o apoio empresarial de uma grande editora. A divulgação de seu primeiro livro é feita por ela mesma, acompanhada da família, de feira em feira, divulgando a sua obra. Faz palestras, promove workshops sobre qualidade de vida. Mestre em fisiologia, demonstra na obra um conhecimento técnico apurado, e um senso de imaginação para descrever uma catástrofe natural e uma epidemia de uma doença misteriosa que assola o nosso planeta no ano de 2016. Este é o pano de fundo para propor uma reflexão sobre o uso excessivo das tecnologias e os males que causamos a nossa saúde devido ao estilo de vida que adotamos. Nestes nossos dias, onde tudo é efemero, ou nas palavras de Marx "tudo que é sólido, desfaz-se no ar", o que temos hoje rapidamente torna-se passado. Além disso, Delanie provoca o leitor a refletir acerca das teorias explicativas sobre o surgimento do homem e da tecnologia. Mais que uma discussão acadêmica, tem um leve toque teológico, em que conseguimos perceber sutilmente os valores da autora.
 
São dois livros sobre o mesmo tema, li-os seguidamente. São obras complementares, embora um seja reflexões da realidade que nos povoa neste mundo, e o outro, seja uma ficção do vir a ser'. Ambos tem sua riqueza literária, que nos conduzem a repensar se "somos o que pensamos" ou "somos o que fazemos." E isso reflete no mundo que constantemente  [re] construímos.
 
Até amanhã, fiquem com Deus. 


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Pronto, falei!


I Bienal Internacional do Agreste. Foto de Virginia Spinassé.
Estamos nos nossos últimos dias de Brasil. Os arranjos para o segundo tempo em Portugal estão ocupando nossos dias. Por mais que tentemos ser previdentes e organizar as coisas com antecedência para não ficar atabalhoado no final, acaba não dando certo. Ontem, levei Luiza para fazer exame de visão, e descobrimos que a pequena já tem alguns graus de miopia, além do astigmatismo que já havia sido diagnosticado. Sai rebocando a menina pelo meio da rua com as pupilas dilatadas, cega ao sol do meio dia, para resolver pequenas pendencias bancárias e farmacêuticas. Coitada de Lulu, ontem passou o dia de molho, sem ler, sem internet, com a visão embaraçada pela atropina. Listadas, tem uma sucessão de compromissos, visitas, tarefas. A mala quase vazia jaz sobre a cama do quarto da frente, esperando que eu comece a jogar objetos e peças esparsas e aleatórias para quando for em cima da hora, lutar com zíperes e fechos. Ainda falta muito.  

Uma das minhas preocupações quando estava em Portugal era: “O que eu vou fazer quando voltar?” isso relacionado ao meu trabalho. A única garantia que eu tinha (e tenho!) é o retorno para a sala de aula, pois, professora é a minha profissão, e com prazer não vou deixar de ser. As coisas estão correndo muito bem, graças à Deus. Quando tocava no assunto com Francislê, ele me dizia: “nem se preocupe. Quando voltares, vai desabar o Carmo e a Trindade sobre si”, conforme dizem os portugueses quando aparece muita coisa para fazer e tudo ao mesmo tempo. E como sempre, o meu guru-orientador tinha toda razão. Estou assoberbadíssima de tarefas, para além das coisas que pensava que tinha para fazer.  

Logo que cheguei, Ademilto me fez um convite para uma conversa com os estudantes de EAD, sobre o “Conhecimento em tempos de web 2.0”.  Apesar do número reduzido, os participantes eram muito cooperativos, dispostos a partilhar saberes. Sai com a impressão que aprendi muito mais que ensinei. Já no início de agosto, me esperava uma turma da especialização em Gestão de Negócios &Pessoas, articulada por Virgínia, coordenadora de Pós Graduação da AESGA. Ela fez um ajuste no programa do curso para que eu pudesse participar, orientando a disciplina Metodologia do Ensino Superior. Boa parte dos estudantes eram ex-alunos da FAGA, que eu tive o prazer de reencontrar. Prazer maior foi ter a oportunidade de trabalhar com a queridíssima Norma Lins, nossa colega da Coordenação de Administração Hospitalar e a Virgínia, que cursava a disciplina para concluir o curso começado em períodos anteriores. Essas colegas professora deram um ritmo todo especial a disciplina, contribuindo com a reflexão de suas experiências na docência. Confesso que depois de quase dois anos longe das salas de aula, estava apreensiva. Os jovens me puseram à vontade: a jovem experiência de Rodrigo e a criticidade de Marcela, as tiradas de Antônio, as reflexões de Agnys, a perspicácia de Nerivalda, a concentração serena de Cezar. Uma turma excelente, coesa, participativa. Enxerguei alguns potenciais professores neste laboratório, pois é preciso gente nova. Terminei a experiência com a certeza de que a sala de aula é o meu lugar. Gosto muito de tudo isso.

Eu e Delanie no lançamento do seu 1º Livro: Planeta Terra!
Agora, no começo de setembro, fui apresentar uma comunicação no X Congresso Internacional de Tecnologia Educacional, promovido pelo SENAC/FECOMERCIO, no Centro de Convenções de Olinda. Expus à discussão a análise do primeiro mês de interação da nossa Comunidade de Práticas dos professores da AESGA, que utiliza como plataforma o Facebook. Por isso que eu vivo conectada ao Face, pois é a minha plataforma de pesquisa! Muita gente acredita que eu sou folgada, mas, dei um jeito de aproveitar esta interface para formação continuada de professores. A ideia foi bem recebida, até pelos fundamentalistas das Universidades Federais.  Para os professores, soou como música, uma vez que propõe a formação em meio virtual em uma plataforma livre, apostando nas microaprendizagens, em detrimento das longas jornadas de capacitação presencial. Para quem não tem tempo nem para morrer, é uma alternativa interessante. Estamos no meio do processo, cruzando os dedos para que funcione a contento Neste evento, tive o enorme prazer de encontrar uma amiga de escola lançando o seu primeiro livro. Delanie Velasquez (que na época da nossa 4ª série no Adventista era Delanie Viana) era a menina mais sabida da sala e dona da caixa de lápis de cor mais fantástica que eu já havia visto.

Quando voltamos havia uma mensagem de Eliane na minha box no Facebook. Fui lá na quarta pela manhã. Ainda na sala de espera, Sônia Marguette veio falar-me acerca de um projeto cultural para instituição, convidando-me a dar vistas à proposta. Aceitei. Depois, Eliane me convoca para um novo projeto em relação ao ENADE. Aceitei. Em seguida, Hely me convida para uma participação na I Bienal Internacional do Livro do Agreste. Uma mesa redonda e uma palestra. Aceitei, mesmo sem saber do dia, hora, local. As informações eram mínimas, mas, me disseram que era sobre gestão ambiental. Fiquei aguardando notícias.

No mesmo dia, Hely me encaminhou um e-mail da organização para que eu mandasse um breve currículo e o tema da palestra. Mandei e fiquei esperando retorno. No dia 08.09, confirmaram a nossa participação – eu , Prof. Carlos Guedes (UPE) e Prof. Marcos Renato (UAG/UFRPE) –  na discussão do livro da Sônia Bridi, repórter da Rede Globo, para o dia 09.09 às 19hs. Como participar da discussão de um livro sem ter lido nenhum capítulo? Consumi a paciência de Tony, que enquanto eu fazia o almoço para a família, foi à abertura do evento para comprar o “Diário do Clima”. Depois de duas viagens, voltou com um belíssimo exemplar de capa dura e um DVD com as reportagens, reclamando do péssimo atendimento na feira de livros.  Li alguns capítulos, fiz o reconhecimento da obra, e às 19hs estávamos lá. Depois de uma série de mal entendidos com a organização, nos convidaram para a discussão. Fui lá, e pronto: falei! Sobre o livro, sobre o evento, sobre as contribuições da obra para a sensibilização para a discussão da questão ambiental. Essa foto da Virgínia, uma vez postada no Facebook me deu os meus 15 minutos de fama. Melhor foi a oportunidade de reencontrar o meu querido professor e amigo Carlos Guedes e interagir com os dois profissionais que vemos tanto na TV – a Sônia Bridi veio com o Francisco José – ambos educadíssimos e sem qualquer sombra de afetação da fama. Gostei muito deles. Ambos os livros (o da Bridi e o da Velasquez) estão na fila para a sessão "Leituras e Reflexões".  A minha parvoíce do dia foi ter acreditado que Larissa era Kitty Lopes. Fiquei olhando embasbacada para a cara da menina, crente que era a mãe e pensando com os meus botões: “Que bruxaria é essa que Kitty fez que estar tão nova?” Apesar da famosa colunista social do Agreste estar cada dia mais bonita, tratava-se da filha dela. São parecidas que faz medo!

Conto tudo isso porque esta evidência local tem despertado comentários dos mais descabidos, dos quais temos dado boas risadas. Agora, tenho mesmo que ir juntar nossas coisas, pois o tempo é o mais democrático dos senhores: passa para todos, e o meu está apertadíssimo!

Voltamos após a travessia.

Fiquem com Deus.