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domingo, 14 de maio de 2017

Aprendizagens maternas, lições para toda a vida

Então, já chegou maio. Lá no outro hemisfério tudo já está repleto de flores, pássaros e pequenos bichos. Cá, olhamos para o céu perscrutando as nuvens para adivinhar se vai cair alguns pingos de chuva. E assim, sempre cheios de esperança, enfrentamos mais um ano de seca. Parafraseando Euclides da Cunha,  nordestino é, antes de tudo, um forte. Sempre encontramos alternativas para ir conduzindo a vida, mesmo nos momentos mais difíceis. 

Como hoje, no Brasil, é o dia das mães, é inevitável não partir do exemplo destas para entender melhor a resistência nas provações, a fortaleza nas adversidades, a esperança em dias melhores. Neste ano, o meu dia das mães tem a imagem da Pietá, obra icônica de Michelangelo como imagem, pois a maternidade não é fácil, mas há momentos em que é insuportável. Somente as mães aguentam. Creio que esta semana atravessamos um dos momentos mais difíceis na nossa Instituição. A professora Izabel perdeu o filhinho, com apenas sete anos de idade. Se a morte é desafiadora, o funeral de uma criança é devastador. Para mim, Izabel não é somente uma colega de trabalho. Como fiz parte da Avaliação Institucional até o ano passado, da qual ela é Presidente, fiz parte da equipe desde que voltei de Portugal. Então, o convívio foi quase diário. Partilhamos de sua angústia todas as vezes que o pequeno tinha uma crise, e passava dias no hospital. Neste período, testemunhei o cuidado e a dedicação desta mãe, deste pai e desta família para minimizar o sofrimento da criança, portadora de uma grave doença congênita. Confesso que, na última semana alternei momentos de fé e de dúvida. Quando uma criança passa por um sofrimento tão intenso, lá no íntimo, até os anjos questionam. Na quarta-feira, pelas 22 horas, Deus decidiu que a luta de Thiago chegara ao fim, e convocou-o para a eternidade. Como nos disse a própria Izabel, "ele não saiu perdedor. Cumpriu sua missão com grandeza e fica a luz da sua breve passagem no mundo." Somente uma força divina inspira uma mãe a pensar com tamanho desprendimento. Se há um fator positivo em tamanho sofrimento, precisamos entender que aprender a melhorar como pessoas é possível quando nos compadecemos e sofremos juntos, exercitando a legítima sororidade. 

Então, a vida segue para todos nós, que compartilhamos com sinceridade esse momento, de uma forma diferente. A tristeza faz parte da vida, nos fortalece e nos humaniza. Quantas mães, como Jucileide e Fátima, que perderam seus filhos de forma trágica, prosseguem na luta de cada dia? Quantas, como Rosa, Virgínia e Ilma, enfrentam os desafios de criar da melhor maneira seus filhos com limitações físicas. dificuldades cognitivas e/ou comportamentais? Quantas, como Izabel e Sônia Marguete, pelejam para formar pessoas corretas e honestas, sem a ajuda do pai? São exemplos de força que me impressionam a cada dia.  

Neste dia especial, quero agradecer especialmente às que me ensinam pelo exemplo. Quero agradecer as mamães que, generosamente, partilham as fotos de seus filhos, fazendo da rede social um ambiente mais humano e amoroso. Como não sorrir com as peripécias e Cauã e Valentina, crianças da linda Fabiana Vilar? Como não se encantar com as belezas de Mariana e Margarida, da Mónica Aresta? Adoro ver a Julinha, de Mayda,  maior a cada dia, aprendendo ao que há de melhor nesse mundo. Me divirto com a graça espontânea da Deborah, de Jenyfer, da Julia, de Elaine Ferreira, do Bernardo, da Thais, Heleninha, neta da querida Helena Mota (avó é mãe duas vezes!), do Thiaguinho, sobrinho de Thayze. Me dá uma satisfação imensa saber que o menino da Maria Manuel e o Rafa, filho mais novo de Vilma, já são rapazes. Obrigada as mamães. vovós e titias orgulhosas que, com um pequeno gesto, fazem mais felizes os meus dias.  Sorriso de criança faz bem para a alma e, são tantos os espinhos no caminho, que os pequenos iluminam parte dessa imensa seara que é a vida.

Fiquem com Deus.   

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O tempo não pára

Naturalmente, o tempo transcorre em seu ritmo acelerado. Lembro de que, quando era criança, o ano demorava uma eternidade para passar, e talvez por isso, o natal era sempre um evento muito esperado. Nem era pelos presentes, pois naquela época, não tínhamos acesso à tantas coisas que os pequenos têm hoje. Tínhamos sempre uma roupa nova, um par de sapatos que tinha que durar um ano, e um galeto assado na mesa, todo enfeitado com alface e azeitonas pretas, o que lhe dava um ar de traje à rigor. Na escola, quando estudávamos à tarde, até as cigarras começarem a cantar empoleiradas nos pés de jenipapo da sorveteria vizinha, já tínhamos feito todas as tarefas, corrido todo o recreio, recebido todas as reclamações da professora por causa da conversa. Crianças têm muito assunto. Hoje em dia, o tempo passa numa carreira desenfreada. Talvez porque inventemos muitas coisas para fazer e um dia nunca é suficiente para concluir a tarefa inteira, sempre fica algo para amanhã. Ou talvez porque eu já esteja mesmo na segunda metade da minha vida, e do meio para o fim, as coisas sempre se apressam.

Mas é assim mesmo: Passei uns tempos longe desse dashboard, e por isso, acredito que vocês merecem alguma satisfação. Não foi nada grave, só um tempo de adaptações. Voltei para o design antigo do blog, pois sinto-me mais confortável com ele. Luiza andou tentando me convencer a fazer um vlog (aqueles que a pessoa se filma falando sobre algo), mas, cheguei a conclusão que sou muito tímida para isso. Vejo vantagem na palavra escrita, pois sempre é possível fazer uma releitura e melhorar um bocadinho, embora eu seja a pior pessoa do mundo para correções. A perfeição não existe e me dá nos nervos. Por isso mesmo, continuo escrevendo já no editor de texto. Se errar, me perdoem e me avisem, faço questão de corrigir para o texto ficar melhorzinho. 

Voltei hoje, sexta-feira da paixão, não por acaso. Finalmente o tempo deu uma esfriadinha. Vivemos um calor infernal desde outubro do ano passado, e somente esta semana veio chover em Garanhuns. Já são seis anos de seca, e esse verão foi especialmente cruel. Segundo Pablo, parece até que fomos cobaias do projeto Haarp, aquela proposta militar dos Estados Unidos, que visava defender o país do ataque de mísseis soviéticos com um escudo atmosférico. Um negócio bem Marvel. Pois, nos últimos tempos chovia em todo lugar e em Garanhuns, apenas três pingos. O céu ficava cinzento, baixinho sobre nossas cabeças e nada da água cair do céu. Apenas o vento, que carregava as nuvens cheias para outras paragens. Pois bem, desde quarta que chove. E como o tempo não pára, no feriado, estou aqui com a casa num silêncio absoluto. Tony saiu, os cães estão dormindo e os pássaros estão noutro lugar que não no nosso muro. Luiza viajou com a família de uma amiga para passar o feriado na praia. É a primeira vez que ela viaja sem nós. As nossas outras experiências de saídas dela são com a turma da escola ou do inglês. Desta vez, foi-se embora com a família de Andreza. Depois de muito negociar, deixamos. Tony conhece a família da amiguinha há mais de 40 anos, o que nos dá uma margem de tranquilidade. E também, como privar a menina das oportunidades da vida? A semana passada, ela foi a uma imersão de inglês, com a turma do Speak! foi no sábado e voltou no domingo. Aos poucos, minha "nega" vai trilhando o caminho solo. Eu, sinceramente, fico aqui tentando domar a preocupação, e pondo em prática a confiança em Deus. Deixar os filhos seguirem é inevitável. E é também um excelente exercício de autoconhecimento, pois sobra tempo para cuidar na vida, consciente de que cada um tem a sua própria existência. 

Se Deus quiser, ela volta no domingo, cheia de histórias para contar. Enquanto isso, vamos conversando duas vezes por dia pelo whats app. A tecnologia é uma maravilha nessas horas!

Estou muito feliz por voltar, espero ter a companhia de vocês por mais muitos textos.

Fiquem com Deus, 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Peito

Excepcionalmente, estou à mesa numa manhã de terça-feira. Felizmente, a voz da razão falou mais alto e a escola concedeu-nos uma semanita de recesso. Concordo com a companheira Virgínia, quando explica que para tudo é preciso uma pausa. Uma árvore não frutifica seguidamente. As estações do ano se revesam e até o dia precisa de um descanso à noite. Cada coisa tem seu tempo, e esses cinco dias são fundamentais para que o professor consiga perceber que irá reiniciar uma nova etapa, o que nos presenteia a oportunidade de melhorar continuamente. Quem trabalha com gente e com conhecimento não pode simplesmente ligar no automático. Então, nesses preciosos cinco dias, estamos exercitando o "diletantismo", como diz a profa. Rosa Antunes. Por diletantismo (amor à arte, à poesia e beleza) estou à mesa, enquanto lá fora, os cachorros perseguem os passarinhos.

Para muita coisa na vida, é preciso ter peito. Enfrentar as adversidades nos faz erguer os peitorais, e nos preparar para o combate. Não é à toa que o Império Romano estendeu-se na força dos pretorianos e suas lindas armaduras. Obviamente, tenho escolhido bem as minhas batalhas. Há situações nas quais o melhor é recolher o exército, e permitir que outros vençam. Há também guerras alheias que não valem um tostão o envolvimento. É por isso que estou dispensando perseguições inglórias. É também preciso ter peito para baixar a cabeça e aceitar, e depois, no momento certo, erguer os olhos e seguir em frente. 

O peito é um dos sustentáculos da humanidade. A criação divina providenciou que as crias fossem alimentadas pelo corpo da mãe, assim, enfrentariam as adversidades, vencendo as resistências do meio. De experiência própria, posso afirmar que amamentar uma cria é um dos serviços mais pesados que já enfrentei. E olhe que eu não sou de molezas. As imagens poéticas não retratam o trabalho árduo. Tudo começa do começo. Já na gravidez, os peitos não são mais seus, pois, enquanto se estrutura a fábrica do leite, alguns cuidados são necessários, seja para evitar a contração fora de hora ou as terríveis estrias, que acabam com a pele que será posta à prova em situações que invejariam os testes de resistência do INMETRO. Depois, chega a hora da verdade: a primeira mamada é um suplício. O bebê, morto de fome depende da mãe, atropelada por uma jamanta. E a mãe sabe que ela não é a primeira, nem a última criatura do mundo a ter que lutar contra o cansaço, as dores e as dificuldades da função de provedora. Na minha primeira vez, o peito não queria funcionar, enquanto a menina berrava em plenos pulmões. Izabel, a melhor enfermeira do mundo, olhou-me cheia de pena e disse que poderia resolver. Pegou-me a mama com as duas mãos, e deu o apertão inicial. Na pele branca, ficou por dias a marca roxa dos dedos da minha irmã. E funcionou. A partir de então, a mãe é refém do bebê a cada duas horas. Nesse começo, o serviço do pai é ir buscar o bebê e devolve-lo ao berço quando ele enche o buchinho. Talvez, ainda espere a cria arrotar, assistindo um telejornal na madrugada. E pelas imagens idílicas, ninguém imagina o sacrifício que é fortalecer a pele do mamilo para que o bebê sugue o conteúdo. Fere, sangra, dói. Eu, pensei em desistir, mas Joana insistiu. Dizia que se sangrasse um pouquinho, não fazia mal. E Luiza mamou muito leite com quick, sabor Bepantol. Até que um dia, Tony comentou com Jacinto, e ele sugeriu o peito de silicone, uma capinha que coloca sobre o mamilo para evita o contato da boquinha do bebê com a  pele. Assim, sobrevivi ao serviço árduo da amamentação por três meses. Depois disso, tive que ir trabalhar e as coisas se complicaram. Mas, de qualquer forma, estou aqui para contar a história, consciente de que, da melhor maneira, fiz a minha parte e cumpri essa, dentre as minhas obrigações como mãe. E reafirmo: amamentar é hard work, para macho. Só as forte sobrevivem.

Não precisa insistir na importância da amamentação, dos benefícios para a criança. Outro dia, falávamos sobre temas de monografias, e Izabel explicava-nos que a discutir a amamentação é o mesmo que abordar a Maria da Penha no Direito. Temas elementares, que mesmo tão batidos, discutidos e defendidos, não perdem a sua importância. O desafio é inovar na discussão. Contudo, na contramão da disseminação do conhecimento, e em plena sociedade da informação, algumas pessoas condenam as mães por amamentarem seus filhos em público. Fiquei estarrecida com o caso de uma jovem mãe em Santa Catarina, estado da região sul do Brasil (supostamente a mais desenvolvida, europeia e educada deste país), ter sido convidada a sair de uma praça de alimentação de um shopping porque estava amamentando a criança. Lembro-me que as pessoas mais antigas aconselhavam que cobrisse o peito ao alimentar a criança, que era para não "pegar olhado". Sempre tinha uma fulana que o peito endureceu como pedra porque amamentou em público. Na verdade, não passa de (mais uma) pobreza de espírito de quem julga. A maldade vem da alma putrefada de alguns, que não conseguem compreender os contextos. Não há registros históricos, mas, provavelmente a mãe de Nosso Senhor não alugou uma casa para dar o peito ao menino. E a função primordial do peito é essa, enfeitar ou dar prazer é acessório e secundário. 

É impressionante que em plena sociedade da informação, tenhamos que nos posicionar em defesa do direito da criança de ser amamentada, e da mãe, de alimentar o seu filho, independente de tempo ou lugar.

Fique com Deus.



domingo, 31 de agosto de 2014

celulares e telemóveis

Mal necessário é uma música linda gravada por Ney Matogrosso na década de 1970. De autoria do médico Mauro Kwitko, a canção não tem muito a ver com o tema do que abordamos neste post. Mas, o título é da canção é a síntese de como me sinto em relação à telefonia móvel: uma mal necessário. O que encurta distâncias, evita desencontros, também causa dependências e invade privacidades. E mais uma vez, percebemos que o mal não é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela. Quando Santos Dumont criou o avião (e até sobre isso há controvérsias!), nunca imaginaria que o fantástico meio de transporte poderia ser uma máquina de morte em massa, seja na guerra ou na paz. Portanto, nada de hipervalorizar ou demonizar a tecnologia. Os deuses e demônios somos mesmo nós, ou como costumamos concluir lá na IES: o problema não é do sistema, é uma falha de PDO (P#*ra do operador). 

Pois bem, já abordei inúmeras vezes essa temática neste espaço, mas volto a esta porque temos uma jovem pré-adolescente sob nossa responsabilidade. E hoje em dia parece que esses ultra-jovens já vem de fábrica com os chips para facilitar a vivência com os eletrônicos. Mas, nessa vida, tudo tem limite. Como diria minha velha mãe "tudo de mais é exagero" e é preciso estabelecer regras para que seja possível a convivência normal entre seres humanos, bichos, bonecos e máquinas. Há mais ou menos um ano, Tony trocou o telefone dele. Justificável, pois na área de trabalho dele, não ter um carro decente e um telefone adequado perde-se contratos. Pesa muito a leitura social aos operadores do Direito. Afinal, quem contrataria um advogado de chinelinhas? Já para mim, as obrigatoriedades não estilísticas são mais flexíveis: como professora do ensino superior, da área de ciências humanas, já conquistei o direito de manter meu telefone sem nenhum blutoofizinho. Digamos que é excêntrico.  Enquanto ele fizer ligações e receber as chamadas, vai bem. Contudo, o nosso maior problema ao sul do Equador são as operadoras. Mas, isso é outra conversa. Pronto, então, Tony trocou o telefone dele, e passou antigo dele para mim. E eu passei o meu velhusco para Luiza. Quando começou o segundo semestre letivo de 2013, a menina começou a me consumir porque o telefone era muito limitado. Encheu tanto a minha paciência que eu comprei outro, um daqueles que tinha câmera, internet, teclado. Era até melhor que o antecessor que compráramos à 19 Euros no Pingo Doce, que chamamos de Titico. O  miserável do telefone durou até ela mudar de escola. Então, defasou. Tanto na escola nova quanto no inglês, os moleques estavam com androids e touch-não-sei-das-quantas. E o telefone começou a ficar esquecido na bolsa, na gaveta, até debaixo da cama. Até que um dia, foi esquecido numa mesa de algum restaurante popular. E ela voltou a usar o Titico do Pingo Doce. 

Ao mesmo tempo, ela começou a frequentar, e muito, o telefone do pai. Toda hora era: "me empresta teu celular?" E acabava com a bateria do outro, jogando, baixando jogos, músicas, e outros bichos. O telefone de Tony era cheio de Barbies e aplicativos de maquiagens. Então, um dia, Tony estava numa audiência, e esqueceu de desligar o telefone. Lá para as tantas, o Pou começou a pedir comida. Constrangido, desligou o telefone, sob o ar de riso do juiz, que conhecia muito bem o aplicativo, pois também tem criança pequena e já foi vítima de tal monstrinho faminto. Foi a gota d'água. Como estamos no mês dos pais e do aniversário de Tony, combinei com Luiza para que num sábado, ao final de um dia de aula na pós graduação, ela tomasse o ônibus e nos encontrássemos no centro da cidade para arranjarmos, de presente, um novo celular para o papai. Assim, todos lucravam. Tony, ganhou um telemóvel todo cheio das lérias. Luiza, herdou o telemóvel do pai, e todos os aplicativos que já havia baixado. Além dos jogos, o telefone é uma caixa de músicas sui generis: toca de Thiaguinho à Amália Rodrigues. Ainda comprou uma capinha toda 'tranchans' nos camelôs nigerianos lá do centro da cidade.  E eu fiquei com o Titico do Pingo Doce, pré-pago, e com minha paz de espírito.  

Então, depois de mais de quatro anos sem ir ao Banco do Brasil, na última quarta feira tive que ir enfrentar a fila para pagar impostos. E já havia percebido que há uma leitura social quanto ao tipo de telefone que o sujeito possui. Izabel comentava que numa reunião de trabalho quando o telefone tocou, pensou duas vezes antes de abrir a bolsa, atabalhoadamente para alcançar o aparelho pouco modernoso. E olhe que o dela não é dos piores. O meu é bem pior. Como ia dizendo, na porta giratória do banco (e os companheiros leitores europeus não saberão que as portas de bancos têm chatíssimos dispositivos detectores de metais que impedem a entrada de míseras moedas, chaves e telemóveis nas agências bancárias), percebi que a jovem que estava a minha frente hesitava em tirar algo da bolsa. Não tive dúvida: pedi-lhe licença, adiantei-me, e saquei o Titico do Pingo Doce da bolsa junto com as chaves com o chaveiro de metal da Mafalda que a Virgínia me trouxe da Argentina e joguei no depósito de acrílico. A jovem olhou para mim, com ar de riso, e tirou um telefone um pouco melhor que o meu, mas igualmente discriminado. Saímos rindo, cada uma para nossos compromissos. Eu, pensando que, somente quando eu puder, arranjarei um como aquele de Thayze, que vive indeciso se é um telefone ou um tablet! 

Até amanhã, fiquem com Deus.

Obs: Esse LG é o Titico do Pingo Doce. E o outro é o que tenho utilizado atualmente, que herdei de Tony Neto. Ambos, nem o ladrão aceita, mas funcionam para ligar (se tiver crédito!) e receber chamadas!



sábado, 6 de abril de 2013

Matematicando

Estamos a viver um abril furioso. Foi assim que aquele rapaz até bonitinho que apresenta o Jornal da tarde deu-nos boa tarde ontem às 13hs. E quando fomos ao lanchinho sagrado do final de tarde de todas as sextas, entendi muito bem porquê do "furioso". Os antigos dizem que isso cá sempre foi assim, o problema é que o tempo estava muito mau, e que toda gente adaptou-se a tudo que é ruim. Comprova a experiência o dito popular português: "Abril, águas mil", com aquele "l" engraçado que os lusos pronunciam no final das palavras. E eu fui pelo caminho pensando naquele filme do Walter Salles, "Abril Despedaçado". Um filme lindo, de fotografia perfeita e atuação impecável do bonitinho e talentoso Rodrigo Santoro. Ultimamente, ao final de duas sessões de mesa-cadeira-computador, ando assim: uma coisa lembra outra que não tem nada a ver e os meus pensamentos andam mesmo furiosamente despedaçados. Deve ser sintoma de algum mal que não quero saber. Quem sabe com mais umas confusões, eu não me aproxime mais um pouquinho de José Luis Peixoto?  Melhor deixar isso para Matheus Rocha, e seu infindável talento de construir metáforas. Eu já passei da idade de escrever por enigmas.
 
Nunca fui muito talentosa com as matemáticas. Números sempre me deixaram embaraçada. Ao fazer o mais simples dos cálculos, sinto uma tentação irresistível de contar nos dedos. Confesso que às vezes meto as mãos nos bolsos e conto secretamente. Habilidade matemática não tem nada a ver com escolarização, haja vista os meninos de Terezinha Carraher e seus relatos no clássico educacional brasileiro "Na vida dez, na escola zero". Minha mãe fez até o segundo ano primário numa escola rural e fazia "contas de cabeça", e quando eu tinha problemas com a matemática da escola, ela dizia: "essa menina não dá nem para contar bananas na feira" ou: "Não sei pra quê estudr tanto, e não saber fazer nem uma conta de cabeça". E quando ela me mandava estudar, argumentando que "filha de pobre tem que estudar para arranjar um bom emprego, porque marido rico não se arranja", eu contra argumentava lembrando-lhe da história do "pra quê estudar tanto...". Ela refutafa o meu contra-argumento com um faltal: "estudando, já está assim, imagine se não estudar. Passe!" Não há argumentos contra a lógica materna. A verdade é que eu me perdia naquelas contas com as palmas de bananas nas mãos: "3 e 3, 6. 3, 9. 3, 12." A matemática me aterrorizou até o 8º ano, quando estudei com Josevalda Cavalcanti, a professora de matemática mais paciente do mundo. Contudo, o sentimento daquele ano era apenas uma paixão passageira, e a lua de mel com Fórmula de Báscara acabou-se no segundo ano do secundário, quando eu quase me estrepo e o querido professor de Física sentenciou: "Você nunca vai passar num concurso público. Seu lugar é num balcão de comércio." Felizmente, ele estava errado, pois as "contas de padaria" se faz mesmo é no balcão de comércio. Além disso, a vida apresenta alternativas e cada um encontra o seu melhor caminho.
 
Contei essa história a Luiza, depois que ela se deseperou porque não acertava fazer as divisões por dois algarismos. Como a vida corre em ciclos, não me livrei da matemática completamente. Na última etapa de estudante em Portugal, a pequena anda às voltas com as matemática. A herança genética é implacável. E eu fico numa situação dificil, pois não consigo ajudar muito. Ela faz as contas, tira a prova e depois faz o cálculo na calculadora. Quando fez as quatro contas que a professora apontou como TPC (tarefa para casa. Apesar dos guris ficarem na escola os dois horários, ainda há TPC), atirou o telemóvel sobre a cama e chorou, dizendo que a calculadora só dava outro resultado. No momento seguinte, reconheceu que não acertava por alguma artimanha dos destino. Esperei ela acalmar-se e contei a minha história. Não é um bom exemplo para uma mãe, mas, eu não ia mentir diante do desespero infantil que me cortava o coração, e arrematei: "estude isso aí para passar na prova. Na vida, você usa a calculadora, o computador, o escambau." E fui ajudá-la com mais três contas. A primeira, ela fez, eu fiz e a "calculadora deu outro resultado". Eu fui ensinar, e no final das contas, ela que me ensinava, porque eu me enrolava com os "vai um". Minha dislexia numérica aflorou e eu dizia "321", enquanto o número era "231". Ela ria-se dos meus enganos e da minha confusão. Apesar de tudo, conseguimos acertar 2 das 3 operações e ela foi dormir mais tranquila.
 
No outro dia, recomendei que informasse a situação à professora. A Puri não vacilou: "Fizeste três contas e acertastes duas? Vais ao quadro e aponta-as. Ensinas aos teus colegas."  Quando fui buscá-la para o almoço, ela disse-me exultante, que havia acertado 2 das 3 contas. Fiquei feliz. Ela vai acabar dando a volta a isso tudo. Afinal, o mundo tem múltiplos caminhos e coisa e tal. Se não fosse assim, quem sofre de fobia numérica, tem dificuldade até para memorizar número de telemóvel, ou de fazer uma estimativa para antecipar se o dinheirinho vai dar para pagar as compras no supermercado (quem foi o santo que inventou os pagamentos por cartão de débito?) não superaria as resistências do meio. E eu sou prova viva de que o nosso potencial biótico (e criativo) é sempre maior. Dá-se um jeito, mesmo quando teve que estudar Estatística. Mas, Deus é bom e inventaram o SPSS.
 
Vou hoje mesmo acender uma vela para esses anômimos que com suas criações maravilhosas me ajudam a conviver com minhas fraquezas. É por isso que eu amo a tecnologia!
 
Até amanhã, fiquem com Deus. 
 
       

sábado, 9 de março de 2013

Dentes

As oportunidades de aprendizagem a que vida nos trás... Se eu fosse contabilizar o quanto aprendi nestes últimos dois anos e três meses, certamente, acabaria por perceber que as muitas renúncias necessárias para estar neste outro lado do oceano são justas, embora, dolorosas. Na minha balança de aprendizagem, verifico um superavit significativo. Afinal, sem família e com poucos (mas muito bons) amigos, na maioria dos casos, tenho que arranjar um jeito de ir-me virando da melhor maneiro possível. Apesar da superação em "dá-se um jeito", há algumas coisinhas que emperram e que eu não consigo fazer. Por força das circunstâncias, não me perco em Portugal, resolvo as broncas com a companhia de gás, desenrolo os documentos para viver legalmente em terra estrangeira. Conserto interruptor de luz, ajeito a máquina de lavar roupas. Até desenvolvi uma técnica para abrir os potes de geleia, sem ter que recorrer aos agentes da PSP, meus vizinhos. Troco lâmpadas, compro água. Até que não tem sido tão difícil resolver as paradas domésticas que geralmente são encargos masculinos. Também, nem podia. Me criei numa família de 8 mulheres, onde até o cachorro era cadela, o gato era castrado e o vilão era o peru. Só vim aqui para me diplomar em "se vira sozinho".
 
Agora, há uma coisa que eu não faço: arrancar dentes moles. Tenho verdadeiro horror quando os dentes de Luiza começam a balançar, e mais ainda, quando vejo que o dente permanente já vem descendo, forçando a passagem entre os dentinhos de leite. Quando éramos miúdas, arrancávamos os dentes, amarrando-os com linhas. Já o cunhado Paulo Tenório extraiu um dente de um dos meninos (não sei se de Paulo ou Thais) amarrando-o a linha e a outra ponta à porta. O dente voou pela sala e aterrou no jardim, e nunca mais foi visto. Devo reconhecer que é uma técnica arrojada e que fiquei tentada em testá-la. Contudo, desde que essa fase começou aos 5-6 anos, eu sempre levei Luiza à Jaqueline Almeida ou Juliana Sales resolvessem o problema. Essas maravilhosas profissionais da odontologia em Garanhuns, sempre com o maior jeitinho e seus ferrinhos, derrubavam o dentinho dançarino. Mas, vim para cá com a guria debaixo do braço e é necessário adaptar-se a cultura local.
 
Há 20 anos atrás houve um sério problema diplomático entre Brasil e Portugal quanto ao exercício da profissão em Portugal dos odontólogos formados no Brasil. Os problemas começam com o estabelecido no artigo 42 do Acordo bilateral de cooperação entre os dois países irmãos (mas separados por uma língua, conforme diria o Prof. Fernando Ramos!), onde se normatiza que os diplomas obtidos em ambos países devem ser convalidados, e que para isso ocorra, o curso deve ter igual duração. Em Portugal, o sujeito cursa medicina e se especializa em medicina dentária em cinco anos. Ou seja, odontólogo em Portugal é médico. No Brasil, o fulano cursa Odontologia em quatro anos. Já vi num programa de humor na TV umas graças com os dentistas brasileiros, sobre o fato deles não terem permissão de aplicar uma injeção, nem diagnosticar uma dor de barriga. Problemas do direito educacional à parte, a verdade é que a formação do profissional é muito diferente, do atendimento ao serviço prestado.
 
Quando fomos ao Brasil em junho de 2012, levei Luiza a todos os médicos, e também ao dentista. O que tinha que ser feito, fizemos para evitar um confronto cultural com os médicos dentários. Mas, há uns meses atrás, ela começou a queixar-se que tinha "dentes a abanar". Num dos casos, o permanente já vinha por ali, prejudicando a mastigação. Por isso, marquei uma hora numa das clínicas da rede Smile Up, que tem consultórios nos centros de compra. Fomos muito bem atendidas por uma jovem, que nos informou que o orçamento era "de borla" (grátis). Bom, pelo menos ficaria sabendo o quanto custaria, antes de assumir um compromisso. Além dos serviços serem caríssimos na zona euro, eu já estava meio desconfiada, pois quando interrompi meu tratamento ortodôntico para mudar-me, ouvi comentários desfavoráveis acerca dos profissionais de cá.  Marcamos para a quarta-feira de cinzas às 20hs. As clínicas funcionam das 10h às 23hs.
 
Quando chegamos, nos colocaram em uma sala de espera, onde aguardamos até que uma jovem nos atendeu para fazer uma ficha. Luiza respondeu todos os dados solicitados, só se enrolou quando a moça lhe perguntou qual a profissão. Em seguida, fomos ao Raio x (Raul xis, conforme os clientes de minha irmã Izabel). Foi feito uma imagem panorâmica da dentição da menina, e transmitida para o computador do gabinete dentário. Um jovem médico nos explicou que a dentição dela está normal. A imagem é engraçada, muitos dentes encravados na gengiva, parece um tubarão. Perguntou-lhe se havia dor nalgum dente. Eu fui honesta e disse-lhe que o que motivava a consulta eram os dentes a abanar. No exame clínico, o médico tocou o dentinho com uma de suas ferramentas e sentenciou: cairá naturalmente daqui a uns dois dias. Não há necessidade de remover, os dentes devem cair naturalmente, não há porque forçar a saída. Fiquei com cara de boba e concordei. Identificou uma pequena cárie e propôs fazermos selantes de fissura nos dentes permanentes e uma destartarização (a popular limpeza). Concordei. O tratamento todo custa 180 euros. Razoável. Voltamos com quinze dias, e começamos o tratamento com a Dra. Sandra, que nos informou que não iria fazer a remoção da cárie, porque além dela ser muito pequenina, é num dente de leite que já começa a "abanar". Não vale a pena pagar 40 euros para isso. Palavras dela. Fiquei pasma.
 
No dia seguinte, Luiza almoçou na escola, e comeu uma maçã. Enquanto escreviam um relatório, o dente fez um "creeec" e ela pediu a professora para ir à casa de banho. Voltou com o dente na mão e contou-me entusiasmada no caminho de volta para casa. A semana passada, fomos a um passeio no Porto. Eu já estava a ver que enquanto ela falava o pequeno canino superior direito balançava. Durante o almoço, ela foi à casa de banho e demorou-se enquanto eu comia minhas sardinhas. Com gestos, chamou-me à porta. Já tinha o dente à mão enrolado num papel. Voltei para as minhas sardinhas à moda do Porto com um dente no bolso das calças, enquanto ela mordiscava umas batatas fritas e me perguntava se podíamos passar na FNAC para ver uns livros. Depois, eu mandaria um e-mail para a fada do dente, e lhe pouparia uma viagem para deixar uma moeda sob sua almofada (travesseiro).
 
Coisas da humanidade.
 
Até amanhã, fiquem com Deus.
 
          
 


quarta-feira, 21 de março de 2012

Nossa linda juventude

Não entendo nada de arte, já disse. Gosto do que os meus olhos gostam. E gosto dos desenhos de Escher. Das coisas que aprendi com Ilma, este artista é uma das minhas heranças prediletas de aprendizagem por aproximação. Ela cursou não sei quantos períodos de Artes Plásticas na UFPE, e naquele meio tempo, aprendi muito sobre arte, pois esta minha irmã é das pessoas mais generosas que eu conheço: sempre compartilha um pouquinho do que sabe, principalmente do que sabe fazer. Lembro de um livro que ela tinha (acho que ainda tem) deste autor holandês que produziu desenhos maravilhosos. Como a minha habilidade no desenho estacionou junto com o meu raciocínio lógico nos 8, 10 anos de idade, apreciar esta arte é o que me cabe. Todos temos nossas limitações, e das minhas mãos infantis só saem traços igualmente infantis.

O tempo passou e hoje olho para aquela que fui. Somos a geração que tomou consciência de sua existência nos anos de 1980. Outro dia, olhando os livros de História de Mariana, me deparei com a definição: "A década de 1980 no Brasil é conhecida como a década perdida", referindo-se a profunda crise econômica que vivemos nesta época, corroídos pela hiperinflação. Deixa relembrar para quem viveu e explicar para quem não conhece: a hiperinflação era assim: você recebia o salário hoje e tinha que correr para o supermercado para comprar comida. Enquanto colocava os itens da lista básica no carrinho, o menino do supermercado ia remarcando os produtos. Muitas vezes, um quilo de feijão custava o dobro do preço quando chegávamos ao caixa: havia sido remarcado enquanto compeltavamos a lista de compra. Crescemos no país de uma inflação de 184% ao mês, em 1989 foi 1764% ao ano. Fomos a geração do nunca teve, temos na nossa formação as cicatrizes do sucateamento da escola pública assolada por greves intermináveis, pela desacreditação da profissão de professor. Ouvimos muitas vezes de alguns de nossos professores calejados pelo duro cotidiano das salas de aula com 60 alunos a lúgubre profecia: "vocês nunca irão passar em um concurso público" ou "estudem para ver se arranjam um emprego no comércio". Mas, o que não nos mata, nos fortalece, e  isto é sabedoria da Bíblia. O tempo arranjou um jeito de, ao seu modo, ir consertando as coisas. E a geração da década perdida hoje está na faixa dos 40, cuidado de suas vidas, uns concursados, outros nomeados. Alguns são patrões, outros funcionários. Aos trancos e barrancos, sobrevivemos. E produzimos.

Hoje, acompanho a mesma geração em espaços sociais distintos: a geração à rasca e a geração carcomida por tempos melhores. Engraçado como estas gerações tem um aspecto em comum. 

A geração à rasca é a linda juventude portuguesa. São meninos na faixa dos 20-30 anos que se viram ameaçados pela pobreza, pelo desemprego, pela perda de direitos sociais. Estes jovens cresceram num mundo de faz de conta da União Européia, e sempre tiveram de tudo. Mas, como nós brasileiros e nordestinos bem sabemos, ser pobre não é fácil. E mais dificil é ser (ou acreditar que é) rico e ficar pobre. Sem esperança de conseguir espaço no mercado de trabalho, estes meninos com uma formação intelectual impecável se veem pressionados a fazer o mesmo caminho que os seus antecessores fizeram: emigrar. Só que a época das grandes navegações já passou há tempos, e agora, não há mais ninguém economicamente inocente. Estão atravessados por uma tristeza, um desalento que nem criatividade, nem esperança sobrevivem. É um sentimento de derrota que somente os muito calejados deveriam ter. Estão fazendo da vida um fado à flor da idade.

A geração carcomida pelos tempos melhores é a nossa linda juventude brasileira. Em linhas gerais, abrange uma faixa etária um pouco menor, vai dos 16 (que já votam, mas não conduzem nem casam!) aos 25.  Estes meninos são filhos dos aperreados da década de 1970-80, que fizeram das tripas coração para que os filhos não passassem pelo mesmo que os pais tiveram que vivenciar. É a geração de mais direito que deveres. Hábeis negociadores, os meninos conseguem o que querem de pais que não tem nenhuma autoridade sobre os filhos, nem mesmo o poder de barganha. Profético, Roger Moreira, da banda Ultraje à Rigor cantava a evidência em 1984: "Não vai dar, assim não vai dar não vai dar, assim não vai dar pra eu amadurecer sem ter com quem me revoltar."  Os pais que dão tudo acabam (de)formando uma geração carcomida pelos tempos melhores, não precisam ir em busca de nada pois tudo está em suas mãos. Não precisam dedicar-se e estudar com afinco, pois sempre haverá uma recuperação da recuperação, pois quem paga colégio caro tem o direito de consumidor de ter o filho aprovado, ainda que ele não tenha aprendido quase nada.  Sempre haverá mais um vestibular, sempre haverá mais um engov para curar a ressaca. Para quê esforçar-se se tudo vem na hora que o reizinho ou a princesinha quer? Só que papá e mamã não são eternos. Então, que tipo de filho àqueles que tanto se esforçaram para dar infinitamente mais do que tiveram estarão deixando ao mundo? Terão preparo emocional para enfrentar as adversidades e os tempos bicudos?

De um lado e de outro, vejo uma só linda juventude (mal) criada com as melhores das intenções.  O tempo irá pô-los à prova. Talvez seja melhor repensar hoje que o NÃO é amargo, mas tem o valor do SIM para minimizar os sofrimentos de amanhã.

Até amanhã,
Fiquem com Deus. 

PS: "Linda juventude" é título de uma música linda do 14 Bis, de autoria de Flávio Venturinni e Márcio Borges (Com a correção do Ed Cavalcante. obrigada Ed!).
   

sábado, 7 de maio de 2011

Mãe 2

Como amanhã será o DIA DAS MÃES no Brasil, acabei falando na minha mãe desde de manhã cedinho. Aliás, lá nos Ferreira, mãe está na moda. As duas noivas que no casamento Luiza foi dama de honra estão grávidas, e lá vem mais dois Ferreira (ou mais!) no mundo. Danielle e Manuela, que eu vi meninas, estão gestando seus rebentos. Prova inconteste, triangulada pela foto de Juliana, emocionada na festa das mães da escola do seu pequeno João de que o tempo não pára. 
Mesmo firme na minha decisão de só contribuir com uma criança na demografia mundial, não tenho uma só palavra de queixa quanto a maternidade, que é um negócio complexo. Nos nossos encontros, Petronildo sempre dizia: "o mundo só sobrevive por causa da mãe. Se a mãe não existisse, era o fim da humanidade!" Com aquele exagero hilário que lhe é peculiar, demos risadas com as suas histórias de pai desastrado, justificando a inestimável contribuição das enormes bolsas de mãe para a sobrevivência da raça humana. É nesse objeto de primeira necessidade que a mãe coleciona toda sorte de obetos essenciais para prover as necessidades de seu rebento: garrafinhas com água ou suco, bolachas, balas, remédios, fraldas, lenços, brinquedos e de vez em quando cabe até uma muda de roupa. As mães são prevenidas, videntes das possíveis necessidades de seus pequenos. Depois que eles crescem, tem sempre uma brecha no cartão de crédito ou no orçamento, mesmo os mais apertados. Mas, dequalquer forma, a bolsa da mãe é uma construção social, como diria o meu querido cunhado.
Mas, não existe mãe sem seus filhos. Muitas se queixam das preocupações, das noites sem dormir, da trabalheira quando estão doentes. E esses discursos acaba metendo medo naquelas que ainda estão na antessala da procriação. Em mesma fui, de certa forma, vítima desses discursos quase terroristas. Aquela fala de "filho é preocupação até o fim da vida" ou "nunca mais você vai dormir uma noite de sono", me assombraram durante algum tempo. Da minha experiência pesada e medida, planejada até a época de parir nas férias para não atropelar a profissão, asseguro-lhes: ter filho é um barato. Muda a nossa vida para melhor. É claro que tem algumas coisas que não dá para fazer enquanto eles são pequenos, como ir para a night portuguesa. Mas, tem coisas que só dá para fazer enquanto eles são pequenos, e, como já disse anteriormente, o tempo não espera por nós. Nessa odisséia, não sei como seria se minha filha não estivesse presente. É minha companheira de luta, de estudo, de risadas e de sorvetes. É a certeza de que cada minuto vale a pena.
Ser mãe é, como diriam os portugueses, muito fixe! E neste dia, não só lembro, mas tenho a minha mãe do meu lado, que dialoga comigo  enquanto os outros pensam que eu estou falando sozinha. Às vezes lamento por não ter sido mais presente, ou mais amorosa, ou mais paciente na sua velhice.   Mas, o tempo segue seu curso, e o que há de bom em mim, foi por ela dado.
Té manhã, fiquem com Deus!   
  

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Rodopios e desafios

Lidar com ultrajovens não é nada fácil, até porque eles se revoltam porque nós, mãe velhas, temos o poder da clarividência e adivinhamos porquê eles estão com raiva. Enquanto Luiza está entufada lá na cozinha, cutucando no telemóvel no último volume só para me chatear, eu fico por aqui tentanto não corresponder, pois aí, a briga é certa e hoje, não estou com vontade de brigar. Até porque, preciso reconhecer, estou doente. Desde que cheguei em novembro passado, essa é a primeira vez que fico doente mesmo. A faringite me pegou, e essa é aúnica doença que me leva à nocaute. Enquanto eu vou curtindo a minha rouquidão e os embrulhos de estômago, evito o conflito com a pequena o que é capaz de consumir as minhas últimas reservas de energia. Prefiro não desperdiçar.

As férias de páscoa estão chegando ao final, graças aos Céus. Este feriadão é o sonho de consumo de todo aluno brasileiro: no meio do ano letivo, uma folga de duas semanas mais um feriado na segunda feira para arrematar. Como vivemos uma mudança de temperatura, típica dessa época do ano, segundo Dayse, onde a tempatura despencou de 25°C para 15°C, os efeitos são terríveis, e ainda tenho que arranjar atividades para a ultrajovem não acabar com a casa.

Na terça, almoçamos com Petronildo, Dayse e Francis. O cunhado voltará ao Brasil no próximo dia 28, término do seu período em terras portuguesas. Regressa muito feliz com a experiência. Nós tinhamos pensado em ir visitar a família em julho, mas, o custo das passagens e a burocracia para atravessar a ultrajovem me fizeram desistir. É mais fácil e mais barato que Tony atravesse e passe conosco um tempinho. Assim, de quebra, ele me ajuda a lidar com a ferinha indomável nos momentos críticos de finalizar o projeto. Aliás, isso é uma coisa que está me tirando a tranquilidade. Se os meus queridos alunos da Faculdade de Direito de Garanhuns me vissem falando nisso (pronto, está dito!) eles não acreditariam. A verdade é que estou com medo de escrever. Fico lendo teses e teses, artigos e mais artigos, para não enfrentar o cursor solitário na página da tela em branco. Francislê ficou dando risada quando, ao final da apresentação da calendarização das atividades do curso pelo novo coordenador do doutoramento (curiosamente, o único professor português que nos trata por "vocês", sem que o  "c" fique com som de "x"!), corri ao seu pé, para implorar um feedback. Na maior calma (e com o infalível ar de riso) ele diz: "tenha calma, vai dar tempo, você vai conseguir fazer." Na outra semana, ele me diz: "Ó, vou ler o teu projeto!" e eu penso: "Leia não, pelamordedeus!" Crise existencial pura e simples. Acho que vou escrever aqui e ir colando lá, pois esse espaço é mais amistoso! Chega uma hora que é necessário enfrentar os medos e escrever a primeira linha. Faz parte.

E como faz parte enfrentar os medos. No tal almoço de depedida de petronildo, acabei passando à tarde e parte da noite, ouvindo-os discutir um artigo. As discussões dos amigos-doutores parece uma briga de foice! Á mesa, envoltos na discussão sobre o polêmico paladar de Francislê, que dizia que a galinha cozida feita por Petronildo tinha gosto de peixe, Dayse nos fala da "feira de março". Eu já havia visto uns cartazes na cidade, mas, não dei muita atenção, pois anunciam uns shows, num horário impróprio para que anda arrastando uma criança pequena. Mas, no meio do caminho tinha um parque de diversões, e,  Luiza, com os olhões brilhando, escuta a descrição da feira, e no final apela: "tu vais me levar, né, mãe?" Como negar, quando essa criatura tem me acompanhado à museus e Igrejas? E lá vou eu a um parque de diversões.

Não me divirto em parque de diversões porque tenho horror a coisas que rodam. Tenho labirintite, um tímpano perfurado e rodar não me trás absolutamente nenhum prazer. No primeiro brinquedo que ela foi sozinha, tentei manter a compostura, mas só não infartei porque não tinha infarto pronto. A cadeirinha do brinquedo era como uma xícara (chávena), não tinha cinto de segurança e a criança ficava solta, tinha que ter um adulto corajoso para segurar. No meio da estrutura, tinha uma barra de ferro com uma base parecendo um prato. Mexendo naquilo, a chávena rodava em torno do seu próprio eixo. Além disso, é uma estrutura em espiral ascendente. Felizmente, a coisa foi rápida. Ela saiu aos pulos de excitação, e eu, com as pernas tremendo do terror de imagina-la a despencar da xícara cor-de-rosa. Fomos ao carrinho de bater. Foi até bom, só não gostei das batidas frontais. Deste, fomos ao Dragão. Pensei que não haveria problema, pois era um brinquedo parecido com uma lagarta que tem nas festas lá em Garanhuns. Embarquei no carrinho da mini montanha russa, e, deu-se o desastre. A coisa voa, literalmente! Sai do brinquedo andando de lado como um caranguejo. O último estágio da tortura foi um carrossel, mas, ela foi só e eu tive o cuidado de ver como a coisa rodava antes de colocá-la montada num cavalo rosa e lilás.

esperando a vez no carrossel


Na horrível chávena

Na moto
Sai do parquinho tonta e contabilizando o investimento: cada brinquedinho desse custa 2 euros. Engraçado é que aceita cartão de crédito e débito. Tive o cuidado de negociar com ela, antes de sairmos, que só gastaríamos o que planejamos. Na saída, passamos na feirinha, que vende de panelas à bijouterias e camisetas de rock para comprar um cachorrinho de pelúcia que late, abana o rabinho e acende os olhos verdes. A gasguita Lady Caramelo é a nova moradora da toca. Compramos numa barraquinha repleta de traquitanas de um indiano, depois de muito negociar o preço, paguei (a contragosto!) 4 euros pelo mimo. Mas, levamos a mais simples, pois tinha umas cachorras fashion com chapéu e lacinhos que não deu jeito de baixar o preço: 5 euros e fim. Na saída, Luiza comprou um churro  com recheio de chocolate, gigante em relação ao nosso. Apesar de ficar tentada, não comi a "fartura", indicada por Dayse, pois o meu estômago ainda dava voltas do miserável do Dragão.  Fartura é uma espécie de churro, sendo que a massa é mais fina e aerada e sem recheio. Só vende uma dúzia ou meia dúzia em uma sacolinha branca com estampa vermelha. Bonitinho, mas, caro: 3 euros. Não comprei. Saimos caminhando estratégicamente, para acalmar o meu estômago que ainda se contraia, apesar dos pingos de chuva e o ventinho gelado. Daí porque a faringite.

A vida é assim: é necessário arriscar-se e ceder.  Uma vez enfrentado, o medo é bem menor do que esperar acontecer. Acho até que não foi tão ruim assim. Agora que ela já está mais calma, já posso ir arranjar o jantar.

Saudade de hoje: De Tony! O serviço de levar a criança no parque é dele. Fui somente pela emergência.

Té manhã, fiquem com Deus.