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sábado, 2 de janeiro de 2016

Victor Frankstein, robôs e enxadecos

Então, dezembro chegou e com ele as suas correrias características. Outro dia, a colega Virgínia dizia que odeia dezembro porque parece que o mundo vai se acabar. É todo mundo correndo para fechar as turmas, fechar as contas e fazer mais contas. De uns tempos para cá, também ando a olhar para dezembro com olhos de estafa. 

Outro domingo fomos ver a versão nova de Victor Frankstein. Luiza foi meio a contragosto, mas, acabou se interessando pela fita, pois além de ter um bom apelo, o corcunda é vivido por aquele menino que fez o Harry Potter. E até que o tempo passou e o menininho tornou-se um homem bonito. Toda criatura sabe da história de Frankstein: a autora romanceou o sonho do homem de ser Deus, aventurando-se a criar um ser humano. Essas ambições emergem da crença ilimitada na ciência como solução para todos os problemas. Mas, será que tudo estar ao alcance das mãos e a ciência humana é capaz de tudo?

Num indefinido final de semana (acho que foi em meados de Outubro), fomos a Recife para pegar um pouco de sol. Impressionante, que justo naquele final de semana, eu estava morta de gripe, mas, a reserva já estava feita, e Luiza estava doida por um passeio. Fui assim mesmo. Ou morria ou sarava de vez. Fomos bater o ponto na Saraiva do Shopping Recife, e num momento de distração, acabei fazendo uma assinatura de revistas de papel. Nada mais em decadência do que a mídia impressa brasileira, principalmente no setor de magazines mensais. Já faz meses que penso em cancelar, mas, acabo dando mais uma chance ao próximo número. E num desses, a revista Superinteressante (uma seleta simplificada de literatura científica) trouxe uma matéria enorme sobre os avanços da robótica e da automação. Lembrei-me logo de uma conversa que tivemos na Coordenação de Administração Hospitalar: na época estava enfrentando o dilema de dispensar a nossa empregada doméstica para fugir dos encargos trabalhistas da nova legislação brasileira, coisa que fiz em julho. Então, tomava uns conselhos com os colegas quanto ao desenvolvimento de estratégias para enfrentar a batalha do serviço doméstico: sugeriram-me uma diarista (que não arranjei), uma pessoa para passar roupas uma vez por semana (que não encontrei) e automação da casa (que ainda não tive dinheiro para fazer), mas que foi a ideia que melhor me pareceu. O companheiro Ornilo contribuiu socializando que o seu sobrinho adquiriu um robô que varre a casa. Você programa e o bicho fica lá varrendo, enquanto você cuida de sua vida. Achei ótimo. pois creio firmemente que o sujeito que inventou a máquina de lavar roupas deveria ganhar o prêmio nobel da paz. Mas, antes de ter bala na agulha para adquirir a tal máquina de varrição, temos outras prioridades, de forma que continuo com a minha velha e boa vassoura analógica.

Pois bem, a matéria da revista propagava os avanços da robótica. Segundo a reportagem da Super, a tecnologia já avançou tanto no campo da I.A. (Inteligência Artificial, me lembra aquele filme horrendo de Spilberg) que os computadores já começam a desenvolver a consciência. Ou seja, conforme a revista, as máquinas já conseguem se autorreferenciar no mundo e perceber o seu lugar, através de um teste simples. Esse resultado tem assombrado o pessoal que desenvolve sistemas, que alertam sobre o perigo das máquinas se libertarem do domínio humano, e voltar-se contra o criador, ou seja, nós. Outro dia, aliás outra madrugada estava assistindo um pedaço de um filme da década de 1970 em que o computador endoidava e colocava um depósito monstruoso na conta do sujeito. Confesso que já até sonhei com este tipo de falha operacional, da mesma forma que as crianças sonham acordadas em passarem a noite presas em supermercados.

De qualquer forma, independente de qualquer bug no sistema, acredito que a tecnologia avance mais a cada dia, contudo, reservando algumas lacunas de permanência.  É como o caso do enxadeco. No meu projeto de redução da dependência da mão-de-obra contratada, seja ela contínua ou eventual, fui na loja do Cid e comprei um enxadeco. A ideia é que assim que o matinho começasse a crescer no quintal, seria decepado pela Super Anna. Tony concordou em revesar o serviço de super-herói comigo, dando provas de sua infinita solidariedade. Na loja só vendia a lâmina do enxadeco e o vendedor nos recomendou comprar o cabo no beco do fumo. Chegando lá, encontramos o cabo, mas  não ninguém sabia acunha-lo no enxadeco. Depois de uma via crucis entre o beco da antiga Telpe, a CEAGA, e a novamente na loja de Cid, acabamos nos esquecendo, pois encunhar enxadecos é um serviço altamente especializado, cujo profissional não existe. Enquanto isso, o mato cresceu no quintal e acabei contratando um faxineirinho para resolver o problema.

Mesmo com tanta tecnologia dando sopa, há determinados serviços que são mesmo feitos à moda antiga, comprovando que aqui vivemos em vários tempos históricos sobrepostos e imbricados, conectados na hi-wi ao mesmo tempo que lutamos com enxadecos desacunhados.

Até amanhã, fiquem com Deus.

PS: O texto começou a ser escrito na primeira quinzena de dezembro, mas, o computador pifou. Então, nestes dias estive num árido deserto sem máquina, somente olhando as novas na tela de um celular, cujas letrinhas quase terminam de me cegar. Até que no último dia de 2015, o veterano do exército vermelho retornou à ativa. Fiquei muito feliz quando o meu computador voltou. Já estava com olhos compridos para uma velha máquina de escrever! 

domingo, 31 de agosto de 2014

celulares e telemóveis

Mal necessário é uma música linda gravada por Ney Matogrosso na década de 1970. De autoria do médico Mauro Kwitko, a canção não tem muito a ver com o tema do que abordamos neste post. Mas, o título é da canção é a síntese de como me sinto em relação à telefonia móvel: uma mal necessário. O que encurta distâncias, evita desencontros, também causa dependências e invade privacidades. E mais uma vez, percebemos que o mal não é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela. Quando Santos Dumont criou o avião (e até sobre isso há controvérsias!), nunca imaginaria que o fantástico meio de transporte poderia ser uma máquina de morte em massa, seja na guerra ou na paz. Portanto, nada de hipervalorizar ou demonizar a tecnologia. Os deuses e demônios somos mesmo nós, ou como costumamos concluir lá na IES: o problema não é do sistema, é uma falha de PDO (P#*ra do operador). 

Pois bem, já abordei inúmeras vezes essa temática neste espaço, mas volto a esta porque temos uma jovem pré-adolescente sob nossa responsabilidade. E hoje em dia parece que esses ultra-jovens já vem de fábrica com os chips para facilitar a vivência com os eletrônicos. Mas, nessa vida, tudo tem limite. Como diria minha velha mãe "tudo de mais é exagero" e é preciso estabelecer regras para que seja possível a convivência normal entre seres humanos, bichos, bonecos e máquinas. Há mais ou menos um ano, Tony trocou o telefone dele. Justificável, pois na área de trabalho dele, não ter um carro decente e um telefone adequado perde-se contratos. Pesa muito a leitura social aos operadores do Direito. Afinal, quem contrataria um advogado de chinelinhas? Já para mim, as obrigatoriedades não estilísticas são mais flexíveis: como professora do ensino superior, da área de ciências humanas, já conquistei o direito de manter meu telefone sem nenhum blutoofizinho. Digamos que é excêntrico.  Enquanto ele fizer ligações e receber as chamadas, vai bem. Contudo, o nosso maior problema ao sul do Equador são as operadoras. Mas, isso é outra conversa. Pronto, então, Tony trocou o telefone dele, e passou antigo dele para mim. E eu passei o meu velhusco para Luiza. Quando começou o segundo semestre letivo de 2013, a menina começou a me consumir porque o telefone era muito limitado. Encheu tanto a minha paciência que eu comprei outro, um daqueles que tinha câmera, internet, teclado. Era até melhor que o antecessor que compráramos à 19 Euros no Pingo Doce, que chamamos de Titico. O  miserável do telefone durou até ela mudar de escola. Então, defasou. Tanto na escola nova quanto no inglês, os moleques estavam com androids e touch-não-sei-das-quantas. E o telefone começou a ficar esquecido na bolsa, na gaveta, até debaixo da cama. Até que um dia, foi esquecido numa mesa de algum restaurante popular. E ela voltou a usar o Titico do Pingo Doce. 

Ao mesmo tempo, ela começou a frequentar, e muito, o telefone do pai. Toda hora era: "me empresta teu celular?" E acabava com a bateria do outro, jogando, baixando jogos, músicas, e outros bichos. O telefone de Tony era cheio de Barbies e aplicativos de maquiagens. Então, um dia, Tony estava numa audiência, e esqueceu de desligar o telefone. Lá para as tantas, o Pou começou a pedir comida. Constrangido, desligou o telefone, sob o ar de riso do juiz, que conhecia muito bem o aplicativo, pois também tem criança pequena e já foi vítima de tal monstrinho faminto. Foi a gota d'água. Como estamos no mês dos pais e do aniversário de Tony, combinei com Luiza para que num sábado, ao final de um dia de aula na pós graduação, ela tomasse o ônibus e nos encontrássemos no centro da cidade para arranjarmos, de presente, um novo celular para o papai. Assim, todos lucravam. Tony, ganhou um telemóvel todo cheio das lérias. Luiza, herdou o telemóvel do pai, e todos os aplicativos que já havia baixado. Além dos jogos, o telefone é uma caixa de músicas sui generis: toca de Thiaguinho à Amália Rodrigues. Ainda comprou uma capinha toda 'tranchans' nos camelôs nigerianos lá do centro da cidade.  E eu fiquei com o Titico do Pingo Doce, pré-pago, e com minha paz de espírito.  

Então, depois de mais de quatro anos sem ir ao Banco do Brasil, na última quarta feira tive que ir enfrentar a fila para pagar impostos. E já havia percebido que há uma leitura social quanto ao tipo de telefone que o sujeito possui. Izabel comentava que numa reunião de trabalho quando o telefone tocou, pensou duas vezes antes de abrir a bolsa, atabalhoadamente para alcançar o aparelho pouco modernoso. E olhe que o dela não é dos piores. O meu é bem pior. Como ia dizendo, na porta giratória do banco (e os companheiros leitores europeus não saberão que as portas de bancos têm chatíssimos dispositivos detectores de metais que impedem a entrada de míseras moedas, chaves e telemóveis nas agências bancárias), percebi que a jovem que estava a minha frente hesitava em tirar algo da bolsa. Não tive dúvida: pedi-lhe licença, adiantei-me, e saquei o Titico do Pingo Doce da bolsa junto com as chaves com o chaveiro de metal da Mafalda que a Virgínia me trouxe da Argentina e joguei no depósito de acrílico. A jovem olhou para mim, com ar de riso, e tirou um telefone um pouco melhor que o meu, mas igualmente discriminado. Saímos rindo, cada uma para nossos compromissos. Eu, pensando que, somente quando eu puder, arranjarei um como aquele de Thayze, que vive indeciso se é um telefone ou um tablet! 

Até amanhã, fiquem com Deus.

Obs: Esse LG é o Titico do Pingo Doce. E o outro é o que tenho utilizado atualmente, que herdei de Tony Neto. Ambos, nem o ladrão aceita, mas funcionam para ligar (se tiver crédito!) e receber chamadas!



domingo, 8 de junho de 2014

Álbum

Hoje, acordei quase tarde. Nada como antigamente, quando dormia até uma hora da tarde e só levantava com mamãe trovejando apocalipticamente sobre a preguiça. Coisas da juventude. A manhã nos apanhou na cama e o nosso amigo passarinho já encerrava seu expediente, empuleirado na falsa cerca elétrica do vizinho de trás. Domingo é sinônimo de pegar leve e desacelerar. Um café, um noticiário com menos notícias ruins, um cão arranhando a porta. Uma criança assistindo desenhos. Nem por muito dinheiro tenho aceitado rifar meus domingos. Bastam-me os compromissos assumidos que comprometem os sábados. Certos extras é ração para o leão do imposto de renda. Chega uma hora na nossa vida profissional que precisamos começar a selecionar as atividades. A esta altura da vida, já sei que não vou enriquecer às custas do meu trabalho. Então, quando alguém me propõe um extra, raciocino matematicamente e emocionalmente para aceitar ou não a proposta. No primeiro caso, faço a conta para analisar se não vou trabalhar de graça, pois, frequentemente o IR tem me comido o serviço por fora, daí o que se ganha vai para o fisco. Uma pela outra, tento me consolar e me convencer que trabalhei por caridade. Talvez fique anotado lá na página 33 do livro do céu. Em segunda instância, penso emocionalmente para perceber se vale a pena deixar as pessoas e as coisas que gosto para ganhar mais algum dinheiro. Quinta-feira, uma amiga de Tony convidou-me para uma palestra, relativamente bem remunerada, numa cidade próxima a Garanhuns. Declinei do convite pois era o mesmo horário do VI Fórum Infantil do Meio Ambiente, do Colégio XV de Novembro, e Luiza ia cantar uma versão brasileira de "Heal the world". Como mãe, o compromisso com minha pequena era mais importante, de modo que fica para a próxima oportunidade. Não se perde o que não se tem, e, se perde a oportunidade de participar ativamente da história dos nossos filhos, mais importante que algum extra.

Então, hoje pela manhã, tivemos um compromisso com nossas coisas. Ontem, encerramos mais uma turma de Especialização. Desta vez, trabalhei Metodologia do Ensino Superior, disciplina que adoro, com duas turmas: Gestão Pública e Gestão da Comunicação e Eventos. Tive oportunidade de reencontrar grandes companheiros de jornada, como Vando Pontes, bem como trabalhar com pessoas que sempre via na IES, mas que, durante a graduação, não tive oportunidade de conviver, como Sônia, Fernanda e Fábio. Recebemos também estudantes egressos da FAVIP (Caruaru), jornalistas e publicitários, cheios de muitas boas ideias. Foi muito divertido e construtivo, e sempre fico com a impressão de que trapaciei, aprendendo mais que ensinando. Pois, quando terminou a sessão, no final da tarde, desci caminhando para esperar o ônibus da Cohab II. Aproveitei em entrei nas Lojas Americanas, para comprar um álbum de fotografias, que há muito tempo se fazia necessário. Outro dia, fui arrumar uma prateleira que temos no móvel da sala e os pequenos álbuns de fotografias estavam se transformando em pó. Ao longo de 10 anos juntamos muitas fotografias, e, como tudo na vida, é preciso cuidar para conservar.

Sou favorável a tecnologia, disso penso que ninguém duvida. Mas, da mesma forma que na educação, o velho e bom Paulo Freire ensinava que não se deve  "repelir o velho por ser velho, nem aceitar o novo por ser novo; mas aceitá-los na medida em que velho e novo são válidos." Meu gosto amador por fotografias vem do tempo do filme de 36 poses. Numa viagem, o fotógrafo previdente possuía, pelo menos, dois filmes de 36 poses. Com a tecnologia, o mundo digital aposentou os rolos de filme, e qualquer um - qualquer um mesmo - possui uma máquina fotográfica, um tablet  ou um telemóvel que assuma a função de registrar em imagens fragmentos das nossas vidas. Temos até o luxo de excluir (ou deletar!) as fotografias que não foram muito generosas com a nossa melhor forma. Até porque, somente Patrícia Almeida, Valber van der Linden e Fernando Henrique - dentre os de sua qualificação - fazem fotos tão boas, que acredito que pouquíssimas vão para as "perdas". Mas, isso é coisa de profissional, e nossas fotos são mesmo documentos de família.

Em razão da deteorização dos álbuns de fotografias que comprei nas lojas de 1,00, chegou a oportunidade de trocá-los. Organizamos o primeiro, desde a gravidez até Luiza já bebê, com uns cinco meses. Compõe nosso documento afetivo fotos impressas no papel (há jovens que não sabe o que é isso), com, pelo menos, 10 anos de idade. É divertido reencontrar Mariana, Larissa, Matheus e Victor ainda crianças. Antonio bem novinho. Minhas irmãs e cunhadas com vários tipos de cabelo. Numa foto, Lu perguntou-me quem a segurava no colo. Não reconheceu Rita com um cabelo imenso e liso, quase uma rapunzel. Fotos de Luiza em inúmeras ocasiões no colo do papai (eu tirava as fotos!) aprendendo a andar, brincando, bagunçando, no banho, no sono. Fotos de Lulu com mamãe, que não se lembra da vovó materna, e me pede para contar histórias, olhando as fotos com carinho. E as lembranças de viagens, de aniversários, de festas na escola e dos nossos bichos? Não tem preço constatar que há 10 anos éramos magros, e se hoje estamos gordos, ficamos felizes por estarmos vivos. O tempo passa, tudo muda, mas sempre tempos os álbuns para folhear, dar risadas com as poses caricatas e situações inusitadas, matar as saudades dos que já encerraram seu expediente neste plano.

Tenho um milhão de fotos digitais para imprimir. Da nossa vida europeia, nos nossos retornos temporários e da volta definitiva. Temos fotos de praia, de cidade, de inúmeros shoppings com ornamentação de natal. Após imprimir, vou separar por tema e fazer grandes livros de estampas. E quem sabe, daqui a 100 anos, todo esse acervo faça parte de um museu, como aquela coleção de iconográfica pernambucana do século XIX que visitei na FUNDAJ. Na oportunidade, olhava a cara e as poses dos retratados e ia inventando histórias, remendando as fotografias e costurando vidas fictícias para gente desconhecida que deixou pistas do nosso passado. 

Mesmo num mundo digital, a foto analógica, de papel trás um prazer insuperável, similar ao cheiro de livro novo, ou a sensação táctil de abrir uma encomenda recém chegada pelos Correios de livros usados, adquiridos por uma pechincha em um site virtual. O novo e o velho se encontrando em sensações indescritíveis.

Até amanhã, fiquem com Deus.

PS: segue a foto da minha cantorinha com sua professora de linda voz.