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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Sobre escolhas, pitangueiras e permanências

Enfim, ontem choveu. E não foi qualquer chuvinha. Começou pelas 14 horas e, perto das 21, ainda caia uns pingos retardatários. Os dias estavam tão quentes que andávamos em estufas. O céu, completamente cinza, arrumava-se para chover, mas o vento dissipava as nuvens e o calor somente aumentava. Felizmente ontem, em pleno domingo de carnaval, o céu resolveu participar da folia e desabou em grande alegria pelas ruas da cidade. E pelos comentários nas redes sociais, choveu em toda parte. Até os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro decorreu debaixo de toró. Ficamos duplamente felizes, pois foi o teste do nosso novo (e dispendioso) telhado. O anterior, a que eu chamava de "pré-colombiano" por ser completamente solto, somente encaixado, aguentou heroica e bravamente por sete anos, mas enfrentávamos problemas com a caixa d'água que ficava meio às descobertas, de modo que o jeito foi colocar tudo a baixo e fazer novamente, dessa vez do modo correto. Então, esperávamos as primeiras chuvas para ver se realmente estava tudo certo, e, com as mudanças climáticas, as chuvas de dezembro não vieram, as de janeiro, falharam e somente ontem, desabou um aguaceiro de personalidade, e nem um único pinguinho veio para dentro de casa pela nova cobertura. Ainda bem. Isso nos dá ânimo para concluir os pagamentos, pois vocês sabem, professores brasileiros compram de tudo, mas sempre em suaves prestações.

Pronto. Então, um pouco a cada mês vamos cumprindo os compromissos, e enquanto isso, vou investindo numa atividade que abandonei quando nos mudamos para o hemisfério norte: não sei sei lembram, mas lá no início do Diga as novas, eu já falava na tentativa de ter um jardim. Me contentei em cultivar algumas plantas. Quando Luiza frequentava a educação infantil no Diocesano, havia (e ainda há) uns pés de pitanga numa praceta, no que antes era o jardim do Monsenhor Adelmar. Todos os pequenos adoram aqueles arbustos que florescem no verão e explodem em frutinhas cheirosas e saborosas. Para os pequenos estudantes, as pitangueiras são verdadeiras árvores. Quando me atrasava para ir buscá-la, sempre encontrava-a com os coleguinhas a sacudir os galhos para que as frutinhas caíssem. Das últimas vezes que estive lá, vi a menina de Milliany e seus amigos fazendo o mesmo. É uma tradição que passa de Infantil para Infantil. Pois bem, certo dia, Luiza chegou em casa com a mãozinha fechada, segurando algo. Quando perguntei o que era, ela disse: "São futinhas". Na verdade, eram apenas os caroços das pitangas já degustadas. Fiz uma festa e convidei-a para que plantássemos "lá atrás".  E pedi que trouxesse mais, e, sempre que ela lembrava, trazia a mãozinha cheia de sementes. Pois bem, desse plantio, resultaram dois pés de pitanga. Quando fomos para Portugal, eles eram pequenos arbustos com pouco mais de meio metro. Tínhamos outras plantas também, mas todas morreram, não aguentaram esperar nosso retorno. Permaneceram vivas as pitangueiras. 

No último ano, andei atarefada, tentando encontrar o ritmo antigo de minha vida, aquele que eu tinha imposto a mim mesma até 2010. Só que o tempo passou, e os meus valores mudaram. Aprendi muita coisa, desaprendi outras. E no final de 2014, comecei a não apreciar muito as escolhas que vinha fazendo, nomeadamente em relação ao que estava fazendo com o tempo. Comecei a perceber que estava dando sempre a mesma desculpa: "eu não tive tempo" ou "não deu tempo" eram frases que saíam da minha boca cada vez com maior frequência. E negligenciei minha saúde, reduzi as leituras, passei menos tempo com minha família, me diverti menos. E me cansei mais, e trabalhei mais, e paguei mais imposto, e contraditoriamente, ganhei menos dinheiro. Até que no final do ano, quando me perguntaram algo, eu fui responder que não tinha tempo e ouvi a voz da minha mãe a me dizer: "O tempo não é seu. O tempo é de Deus." Neste dia, fui olhar as pitangueiras. Elas estavam horríveis. Meio amareladas, de um lado. Secas de meses. Sofridas com as sobras de telhado que escapavam da obra. Pensei que era necessário cortá-las para que eliminassem aquelas galhas que estavam tão ruins, cheias de uma fuligem enegrecida. As frutas mirradas, secaram. Quando já ia providenciar o corte, lembrei-me de David. Não o da Bíblia, mas o irmão de Tony. Nos padrões da sociedade atual, David não é a mais certa das pessoas, mas, foi uma história que ele me contou que me mostrou o caminho da recuperação. O cunhado mora num sítio com a esposa. E lá, dentre muitas árvores frutíferas, eles possuem lindos pés de Umbu, uma fruta típica do nordeste brasileiro. A uma certa altura, David começou a perceber que as frutas estavam cada vez menos suculentas e mirradas. Até que uma das árvores deixou de produzir. Resolveu fazer um experimento tipo Loui Pasteur: passou meses aguando todos os dias uma das árvores, e a outra, somente às vezes. Percebeu, empiricamente, que não somente a água, mas a atenção recuperou a árvore, que voltou a produzir. Depois de contar história, muito satisfeito, nos mandou um saco de deliciosos umbus. 

David é um cunhado com o qual tenho pouca aproximação, mas do pouco que convivemos, hoje entendo que o que ele deseja da vida é cuidar de suas plantas e seus bichos. Nada com títulos, salários ou patentes. É uma pessoa bem humorada, que adora contar piadas absurdas, que de tão idiotas, você acaba rindo também. É um sujeito sem vaidades, que nunca o vi abrir a boca para tecer qualquer comentário pejorativo sobre quem quer que seja. Vive com um sorriso nos olhos. Pois, com essa experiência, levantei-me da acomodação e comecei a cuidar das pitangueiras. E hoje, elas já estão assim: 


  Não é grande coisa, mas o punhado de frutas que colhemos outro dia, já me anima a outras iniciativas. Há dois outros pezinhos que irei trocar de lugar, tenho comparecido diariamente com meu aguadorzinho de 5 litros, mesmo fazendo 4 viagens. Não me cansa. No percurso, vou conversando com elas, refletindo, tomando decisões.  Já havia visto D. Nazinha fazendo isso às 6 da manhã, quando passava à frente de sua residência para ir à aula de educação física no Adventista. Naquela época, achava que a velha era doida. Hoje, estou ficando igualzinha. Talvez, seja a idade.

Bom carnaval, fiquem bem. 
Até amanhã, fiquem com Deus.

Ah, já ia me esquecendo: parafraseando Charlyton, amigo de Tony: Quem não se dispuser a investir, nem se pronuncie. Quem não quiser ter trabalho não tenha plantas, bichos ou crianças. Nem more em casa. Aprendi também que  nestes âmbitos, para obter sucesso, é preciso viver nos preceitos de S. Francisco de Assis: É dando que se recebe.  

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Ocupação

Me atrasei, perdoem-me. Andei ocupada estes dias, numa semaninha animal. A quilometragem de casa para a escola deve ter dado para ir a São Paulo. Dobrei turnos, numa HBC (horas bunda/cadeira) absoluta. Tanto em casa, quanto na escola, ralei mais que estivador depois de greve. É da vida. Felizmente, mesmo o trabalho ruim não é dos piores. Só não aprecio quando percebo que estou rodando numa gaiola como um hamster. Já diria Dante: "O inferno é a repetição". Pois, concordo. Isso, eu odeio. Que fique para a mulher de "Cotidiano" de Chico Buarque as rotinas repetitivas. Fico meio Charlie Chaplin nessa cena de "Tempos Modernos". Uma cena divertidíssima, mas que nos provoca refletir acerca da automatização da nossa vida. Se estava procurando rotina, achei. Mas, a repetição é um fardo. Preciso inovar, nem que seja no caminho que percorro ou no meio de transporte que apanho. 

Então, a semana começou hard. Iniciamos um acerto no muro de casa, pois já haviam bichos malocados nas frestas. Uma noite destas estava na escola e recebi uma mensagem de Luiza: "mãe, eu vi um escorpião. Na hora fiquei com medo, as pernas tremeram e eu fiquei tonta. É um bicho muito perigoso." Liguei rapidamente para ela para saber do bicho. "Onde ele estava?", perguntei-lhe. "Ele ia pro meu quarto! E a Marcela matou!" Quando chegamos em casa, inquiri sobre inseto, que na minha imaginação e no alarido de Luiza era mesmo o escorpião rei, aquele do filme de aventuras. Felizmente, o bicho era pequeno, e Marcela, que é bem entendida desses animais, disse que ele não era do venenoso. De qualquer forma, não aprecio este tipo de companhia, de forma que diagnosticamos que o problema era o bendito do muro inacabado. Daí, contratamos "seu" João, e a casa estar em obras. Juju tem sofrido horrores pois tem que ficar presa numa varandinha tamanho de nada. Faz parte, é assim mesmo. O ruim é quando nos distraímos e  ela percebe o portão aberto e ganha a rua. Outro dia, ficamos eu, Luiza e Mari perseguindo a cadela pelas ladeiras sem pavimentação, levando todo tipo de drible. A bichinha é rápida! Hilário mesmo foi hoje pela manhã, Tony todo paramentado de advogado e perseguindo um cão basset salsicha. Felizmente, ela decidiu voltar para casa sozinha, no primeiro chamado. 
Obra em casa é um transtorno. Mesmo que o benefício seja maior, vivi deixando para depois, empurrando com a barriga. Mas, agora tornou-se inevitável. E precisei conciliar os pedreiros ouvindo o "arrocha" durante todo o dia, com os compromissos assumidos e prazos exíguos. A declaração de liberação da minha tese chegou, de forma que tive que correr para fazer uns ajustes (não os últimos, infelizmente), imprimir e enviar pelos correios. De sexta para cá, tenho trabalhado nisso. Somente hoje à tarde pude enviar o pacote completo pelo Correio, rezando para que não entre em exigência e que os "homis" dos Serviços Acadêmicos da Universidade de Aveiro recebam aquilo lá e deem destino a mais esta etapa da minha vida. Se não for pedir demais, tenho aborrecido um pouco ao Nosso Senhor para que interceda e que as provas públicas sejam marcadas em janeiro/2014. Daqui até lá as coisas estarão mais assentadas em seus cantos, e do calor, estarei pronta para o frio que não mais me assusta. 

Até amanhã, fiquem com Deus.

sábado, 13 de abril de 2013

Revolução das empreguetes


 
Desde que o mundo é mundo é assim: mais dia, menos dia, você, minha senhora, vai ter que se agarrar com o cabo da vassoura. Exceto no caso das grandes fortunas, evita-se as tarefas domésticas. Afinal de contas, é muito prazeroso uma boa refeição caseira, com uma família barulhenta e divertida, mas os pratos não se lavam sós. É preciso o ânimo humano fazer as coisas acontecerem. Na sociedade brasileira, nomeadamente nordestina e interiorana, as tarefas domésticas ainda estão no âmbito dos encargos femininos. Logicamente, há alguns companheiros (seja filho, marido, irmão ou amigo) que dispõem-se a colaborar com as lavagem dos pratos ou a arrumação das camas. Contudo, dificilmente vamos encontrá-los a lavar uma casa de banho ou a passar roupas. Isso já está no campo das excessões. Para evitar maiores conflitos e aliviar a nossa carga de trabalho, inventamos o caminho do meio e  nos acostumamos a ter a ajuda da empregada doméstica. Essa atividade é majoritariamente executada por mulheres - o empregados domésticos masculinos geralmente são jardineiros, motoristas ou seguranças -, que deixam suas casas e as suas atribuições domésticas para assumir essas tarefas na casa alheia como trabalho profissional. Com a ajuda da "menina que trabalha lá em casa", assumimos outras atribuições e mediamos a vida pública e privada. Assim caminha a humanidade.
 
Certo?
 
Foi assim até a semana passada. A bem da verdade, o trabalho da empregada doméstica sempre foi fundamentado na exploração da atividade profissional subalterna, com alguns matizes herdados da escravidão. Além desse legado histórico, nós, brasileiros, temos a tendência de construir relações baseadas na familiaridade. Um exemplo claro é tratar a professora como tia, a empregada como "quase da família", desprezando-se aspectos essenciais à construção de uma relação de trabalho. Afinal, quem é da família tudo suporta em nome da paz e da harmonia familiar. Então, nestes dias, acompanhamos pela internet e pela TV a votação da PEC das Domésticas. Este projeto de emenda à constituição brasileira visa garantir os direitos trabalhistas das empregadas domésticas, garantindo-lhes entre outros direitos, o pagamento de salário mínimo, FGTS, férias e 13º salário, bem como o estabelecimento da carga horária de trabalho. Ou seja, todos os direitos que qualquer trabalhador brasileiro tem há muitos anos. A discussão acalourada ainda vai render muito.
 
Direito é direito e não se discute. O maior problema é querer ter o que não se pode ter. Eu me enquadro na parcela da população que já manteve uma empregada, mas que hoje percebe que é economicamente impossível arcar com os sagrados direitos trabalhistas dessas colaboradoras. Afinal, uma empregada doméstica custa muito caro. Fizemos uma conta superficial e orça em torno de 13 mil reais por ano, pois os encargos trabalhistas pesam e muito no bolso do empregador. Como não somos uma empresa com fins lucrativos, somos apenas uma família dando pernada no mundo para construir sua história, após a PEC, "a menina que me ajuda" lá em casa está dispensada. Entenda-se: não sou contra os direitos das empregadas domésticas, mas não disponho de lastro financeiro para mantê-la. Quando sai do Brasil em finais de 2010, encerramos o contrato e a Ana Cláudia ficou como diarista. Ainda vai lá em casa duas vezes por semana fazer uma limpeza, lavar e passar a roupa de Tony. Pelo lado de cá, nestes últimos dois anos, aprendi a me virar sozinha. Basta olhar para a vida alheia para entender que na Europa, trabalhador doméstico é exclusividade de grandes fortunas. Quem não faz parte desse reduzido jet set, tem que pegar na vassoura, ou melhor, no aspirador de pó. Em Portugal, os "remediados" e até mesmo os "bem de vida" não tem empregada. As famílias inscrevem os bebés e as crianças em infantários (públicos ou privados), a jornada escolar é em tempo integral, de 9h às 17h45. Almoçam na escola, à um custo de 1,49 por refeição. Enquanto espero Luiza à saída da escola, vejo que a família se ajuda na atividade de levar-e-buscar crianças: muitos avós, tias e irmãos maiores esperam pelos pequenos. A baixa violência também ajuda e os meninos após os 10 anos vão sós à escola, como antigamente em Garanhuns. Há também as empresas especializadas que fazem o transporte das crianças e levam-nas para atividades extra escolares que não são oferecidas pela escola. No serviço da casa, a maioria das residências são automatizadas. Até no meu micro T0 há uma máquina de lavar roupas, eletrodoméstico essencial ao funcionamento sustentável de uma casa. Uma ou duas vezes por semana, aspiram a casa, vassouras são para lavar casa de banho e calçada. Eventualmente, contratam numa empresa especializada em limpeza a faxina necessária para tornar a casa habitável. Comida pronta, refeições fora de casa ajudam a não ter tanto trabalho na cozinha. Para a louça, máquina de lavar. Economiza-se um enorme tempo de vida com essas tecnologias. Tudo funciona sem a colaboração da empregada doméstica ou da babá. Quando os miúdos entram em férias (de verão, de natal ou de páscoa) há sempre empresas que oferecem atividades para ocupar o dia inteiro. Nas férias de páscoa desse ano, viajamos uma semana e na outra, Luiza passou de segunda a sexta das 10h às 18hs com os Profs. Ivo e Mimi, da Pantopéia, um casal de talentosos arte-educadores que oferecem sempre atividades para os pequenos. Por 50 euros, Luiza passou uma semana (muito chuvosa, por sinal) na companhia de outras crianças, brincando, criando, se divertindo, enquanto eu trabalhava duro na tese. À longo prazo, esta conjuntura cotidiana portuguesa tem apresentado efeitos na formação da população. Os casais reduziram drásticamente o número de filhos, tanto que o ministro estava na TV à semana passada anunciando um programa de incentivo à natalidade: os casais que quiserem ter filhos terão a redução da carga horária para part time, sem prejuízos no salário. Afinal, os efeitos colaterais na arrecadação da previdência já são perceptíveis. Com tão pouca gente para trabalhar no futuro, onde arranjar recursos para pagar as reformas de ex-trabalhadores longevos?
 
No retorno para o Brasil, pretendemos aplicar essa experiência ao nosso cotidiano. Continuaremos com a ajuda da diarista, mas, é preciso automatizar a casa, pois os serviços elementares devem ser feitos por máquinas.  E penso até que a PEC das domésticas terá um efeito inesperado: a oportunidade de negócios para empreendedores que percebam a crise promovida pela mudança de um padrão cultural como um nicho de mercado a ser explorado. Também vai render para os advogados, movimentando o escritório de Tony e Mirella, na rua das Pedrinhas, n. 171! A lei das empreguetes poderá influenciar um novo ordenamento social no Brasil, e isso não deixa de ser engraçado, pois, afinal, a esperada transformação vem pela mão de quem varre, lava e passa.

Então, vou-me, pois, são horas de arranjar essa casota. No sábado, isso aqui amanhece parecendo a casa de um ex-combatente da Guerra do Golfo em filmes de CSI! 
 
Até amanhã, fiquem com Deus.
  
 
PS: Quando me refiro às trabalhadoras domésticas como empreguetes não é preconceito. Penso que é um termo divertido e moderno, infinitamente melhor do que o "Secretárias do lar", que somente disfarça o preconceito sob o manto do politicamente correto. Eu nem posso ter preconceito, pois minha mãe foi empregada doméstica, na década de 1950, em Ribeirão, zona da mata pernambucana.  E ela contava histórias divertidíssimas do tempo que trabalhou na casa de "seu" Abílio.   
      

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Arrumação


Pronto. Então, já completam duas semanas que estamos cá, e eu com a impressão que o tempo voltou a acelerar, os dias cinzentos de inverno são muito curtos. Mas nada me tira o prazer de reencontrar pessoas tão queridas. A seara de visitas começou oficialmente no primeiro sábado, após o primeiro impacto do burburinho da manhãs  sabatinas de Garanhuns. Fiquei atordoada com a muvuca colorida e ruidosa, tipicamente nordestina: gente de todo jeito, cachorros e pardais, carrinhos de milho cozido, frutas e churrasquinhos, ambulantes e moto-taxistas desleixados, trios de forró animando os fregueses nas sapatarias, locutores apregoando promoções. Um universo caótico, assombroso pelo descostume.   

 
Nos primeiros dias cuidei em dar um jeitinho no “quarto da frente”, onde armazenávamos papéis de um ano e sete meses. Honestamente, os papéis se acumulavam há bem mais tempo do que a decorrência da minha ausência física da nossa casa. Anos a fio guardei cópias de textos, transparências ultrapassadas, projetos de cursos já concluídos,  num apego insano a objetos que guardava com a promessa nunca cumprida de um dia precisar deste ou daquele traste. Juntei uma caixa grande de lixo tecnológico – inúmeros carregadores de telemóveis inexistentes, um videocassete, um meu primeiro portátil sem conserto, uma sombrinha vermelha com patinhos de Luiza quando era pequenina, um guarda-chuvas velho, retorcido pelos ventos - finalmente decidi por arrancá-los de dentro da minha casa, pois, se já vivi quase dois anos sem ao menos me lembrar que eles existiam, por que continuar a cultivar essa lavoura improdutiva? Juntei as sobras de 6 anos de eventos promovidos por Tony, e fiz a festa dos agentes do meio ambiente, que felizes disputavam participação no inesperado espólio exposto no passeio, antecipando-se ao camião do lixo.

 
No meio da arrumação encontrei fotos antigas, fotos de que não me lembrava e fotos que não conhecia. Livros há muito tempo lidos, manuais muito manuseados. Juntei a esses três ou quatro volumes importados nas duas malas em que apertamos nossas coisas. Para não me apartar de Portugal, carreguei dois ‘Saramagos’, um romance sobre Pedro e Inês de Castro. E Mia Couto, o meu novo amor luso-moçambicano. Novidades para arejar antiguidades. Encontrei também inúmeros Cds. Uns identificados, outros de conteúdo não sabido. Muitos foram para o lixo, alguns não interessava o conteúdo, um dia já foram importantes, não lembro quando deixaram de ser. Outros não rodavam mais, danificados pelo tempo. Encontrei receitas de bolo que nunca fiz, cadernos de versos que um dia escrevi. E cartas, muitas cartas de amor para um único homem. Elas foram minhas quando as escrevi, passaram a ser dele. E agora, são nossas. Com algumas, demos risadas, divertidos após duas décadas. De outras, me perguntei o que era que eu estava a viver quando as escrevi. Outras ainda desacreditei que as escrevi. São anos de palavras tecidas em finos papéis amarelados pelo tempo. Me esforço para lembrar como eram meus dias antes dele, mas nem sei se eles realmente existiram.  

 
A arrumação desencavou brinquedos quebrados, livros sem capa, mãos rabiscadas sobre a teoria em diplomas legais e Vade Mecuns. Achei os livros criados no maternal. Numa das páginas, havia uma pegada da minha pequena estampada em verde vibrante. Lembrei-me de uma titulação in memmoriam que tivemos na FAGA, quando a mãe chamada à tribuna, desenrolou um lenço amarelado pelo tempo com a marca do pezinho do filho perdido. Nem que eu viva cem anos, jamais esquecerei aquele tributo do maior amor do mundo. É possível descartar muitos objetos, porém, alguns se tornam o única prova material do que já é indelével na memória. Guardei rabiscos, desenhos, bilhetes e composições. Estes são do acervo da minha biblioteca afetiva.

 
Para partilhar objetos sem uso, dispomos no passeio uma estante, que rapidamente foi recolhida por um vizinho, no melhor modelo de vivência comunitária: o que não nos é mais necessário, pode servir a outros, sem que necessariamente se obtenha um lucro financeiro. Não temos o costume de vender coisas, o que não é mais util é repassado para outra pessoa, de coração aberto, para que os objetos sejam bem aproveitados e atenda as necessidades de quem recebe. De quebra, ganhamos espaço, seja para ocupar com o novo objeto novo, ou simplesmente deixar o ar circular melhor, faxinando a casa e a alma.

 

 
Até amanhã, fiquem com Deus.

sábado, 14 de maio de 2011

Casa

Estamos arrumando as coisas porque Tony chega na próxima segunda, vai ficar 40 dias conosco em terras portuguesas. Já pedimos  tantas coisas que eu acho que ele vai acabar pagando excesso de bagagem! E se o inspetor da alfâdega pedir para ele abrir a mala novamente, vai ter umas surpresas, e o meu amado companheiro vai ter muita criatividade para explicar o que é uma cuscuzeira, por quê está carregando roupas e sapatos de mulher e de menina. Tem que ter habilidade e bom humor para se explicar nestas situações, como da outra vez que ele vinha com Luiza e tinha dois abridores de lata na mala, e, que na hora que oinspetor mandou abrir os danados pularam no piso de granito. Explicações dadas e bagagem liberada, e os abridores estão ali quietinhos na nossa cozinha. Esses inspetores de alfândega devem ver cada coisa! imaginem as histórias de final de expediente.

Se pudesse, ele viria voando na casa como em"Up, altas aventuras". Mas, como não dá é preciso ficar com saudades da nossa casa brasileira, que ainda nem foi terminada. Viemos para cá e o acabamento da casa ficou para o retorno. Por dentro, ela está minimamente habitável, por fora, ainda em "preto" como diria mamãe.

As casas portuguesas são lindas! Eu observo três tendências: os casarões antigos e tradicionais, as casa mais atuais, mas ainda com telhados de telha vermelha, e as modernosas. Minha paixão, obviamente, é o primeiro grupo.

Essa casinha (!) fica em Ílhavo, cidade vizinha a Aveiro. Lembrou-me o Castelinho. A riqueza de detalhes da fachada é simplesmente a perfeição!



Me chama muito atenção os azulejos. São tantas estampas, cores e texturas, que nos enche os olhos! Há também um esforço deliberado em combinar bem as cores. Assim, as casas, além de bem cuidadas e mais resistentes ao frio e a umidade, ficam limpas e frecas!   Combina muito bem com o desenho amplo dos janelões.  









Esse casarão é a Casa de chá do parque Infante D. Pedro, nosso vizinho. Quando o proprietário decidiu fazer a doação do terreno para a construção do jardim público, a esposa dele exigiu que construísse um local para que as senhoras pudessem se divertir e conversar nos finais de tarde. Foi feita a vontade da patroa, mas, infelizmente, hoje a casa de chá está desativada. No painel de zulejo há uma imagem de Santo Antonio com o Menino Jesus.




Gosto muito das casas pequeninas, são todas muito bem cuidadase a rua parece um cenário de bonecas. Essa fica no Largo Comendador Queiroz. Há outras áreas com o mesmo tipo de casario miudinho e asseado.  



As ruas estreitas e curvas proporcionam um sombreado
sossegado. Percebam que algumas construções estão modernizadas, com janelas em vidro temperado. Mas, no geral, não destoam muito do conjunto. Gosto dessa rua, é bem pertinho da nossa casa, me lembra muito Olinda, sendo que nem de perto alcança a altura das ladeiras da Velha Marim.

Eu e Luiza nos prometemos que vamos fazer uma série de fotografias das casas e ruas que mais gostamos. Talvez nas férias de verão. Minha preferência são essas ruas pavimentadas em pedra, cheias de história. Me põem a imaginar a vida aqui há 300, 400 anos atrás.  

Té manhã, fiquem com Deus!



quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mudancinhas...

À pouco cheguei e já mudei de casa. Até que gostava da água furtada lá na rua Direita, mas de uns dias para cá, começaram a surgir alguns (d)efeitos especiais que me empurraram a uma decisão aparentemente intempestiva. Quem me conhece um pouco sabe que eu sou dada a esses rompantes, e dou logo o resolve em problemas que eu posso resolver, embora, quase sempre acabe arrastando mais alguém nas minhas maluquicees. E assim foi a mudança.
Obviamente já haviam alguns incômodos sucessivos. Luiza, de uma hora para outra começou a ter dor nas pernas, na cabeça, nas costas... Ou é doença grave ou é preguiça braba. No caso, felizmente, foi a segunda opção. Levando em conta que a menina tem apenas 7 anos e não teve férias, pois concluiu o ano letivo no Brasil em Dezembro e engatou no ano letivo português em curso em janeiro, e , conhecendo o "meu gado" como conheço, entendi que todas aquelas dores era cansaço da caminhada de 30 minutos para chegar a escola. Ainda pensei em aguentar até julho e mudá-la de escola, mas, ficava mais fácil mudar de casa. Segunda-feira, dia 28, na saída da escola levamos uma chuva daquelas de ensopar até a alma. Ainda paguei 3,70 de táxi para chegar em casa. Me revoltei. À noite em nossas orações, pedimos uma iluminação para arranjar outro lugar. No outro dia de manhã, falei: "Lulu, acho que vamos mudar de casa." Subitamente interessada, ela me pergunta: "Quando, mãe?" Respondi que lá para setembro, se tudo desse certo. E esquecemos o assunto. Após o almoço, deixei-a na escola e já pegava meu caminho habitual para Universidade. Algo me chamou atenção a uma ruazinha estreitinha que fica atrás  da polícia civil. Pensei: "ainda são 13h20m, eu nunca entrei naquela rua... Vou por ali, não custa nada". Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com um prédio pequeno e simpático e um cartaz mas simpático ainda dizendo: "ARRENDA-SE T0" e o telefone para contato. T0 é um apartemento tipo quitinete do Brasil, com o quarto integrado na sala, cozinha pequena e banheiro.  Liguei na hora! O proprietário se dispôs a mostrar o apartamento em 15 minutos. Pontual, como todos os portugueses, o sujeito chegou ainda cheirando a almoço. Olhei rapidamente a casa e no outro dia marcamos para assinar o contrato e pagar os dois alguéis adiantados, como de  costume.   
Após a saga de ligar a energia, gás e a água, contratamos uma  "carrinha à hora" de um sujeito que localizei  pelo Google, depois de passar um pitu em Francislê, que queria fazer a mudança, mesmo tendo uma casa de 3 pavimentos para arrumar com Dayse. No sábado à tarde embarcamos com nossos poucos teréns no pequeno caminhão e cá estamos. 
Parece fácil, mas tem seus entraves. Aqui, quando o inquilino sai da casa, a energia, o gás e a água são cortados. O novo inquilino vai na agência para fazer um novo contrato, anda-se um bocadinho. Se houver débitos, a carta vai para o endereço, mas no nome do proprietário, e ele que se vire para pagar. Quando a EDP (companhia de energia) veio ligar a luz, eles disseram que eu não estava e eu lá plantada, esperando. Como era na sexta-feira, somente uma equipa viria na segunda. Resultado: ficamos sem energia durante o sábado e o domingo. Não adiantou apelar no callcenter, dizendo que era uma pobrezinha com uma filhinha no escuro. Aqui, não tem jeitinho. Além do final de semana à luz de velas, perdi um saco de brócolis e um de ervilha e cenoura. Prejuízo pouco é lucro! A  inspeção de gás foi feita hoje, mas esse felizmente, estava em funcionamento.Como o serviço é terceirizado paga-se na hora em cheque ou numerário. 45 euros por 7 minutos de vistoria. 
Assim, estamos quase instaladas pois ainda falta a internet. Agora estou na Biblioteca da UA "morcegando" a rede. Já percebemos grandes melhorias: Ganhamos mais uma hora de sono pela manhã, chegamos na escola em 3 minutos. Luiza vai sozinha, atravesso-a no semáforo e o resto do caminho (uns 100 metros) ela vai só, se achando a criatura mais independente do mundo! No primeiro dia,  ela voltou se gabando que os coleguinhas ficaram impressionados porque ela "veio só à escola". Essa foto, fiz da nossa janela da cozinha às 20h 10min. Uma coisa que adoro nesse "apertamento": as janelas! Já postei no Facebook, mas vai aqui novamente. Ela me mostra onde o sol se põe, agora sei de que lado está o meu povo!



Té manhã, fiquem com Deus!